Percy

Esse era pra ser o dia mais feliz da minha vida. Faculdade terminada, monstros aparecendo cada vez menos, minha mãe e o marido vivendo felizes com a minha irmã e eu acabei de me casar!

Nossa, sobreviver até os vinte e quatro anos não é fácil pra nenhum semideus, tampouco um filho de Poseidon, mas cá estou eu no carro com a mulher mais bonita do mundo — Annabeth Chase -, com sua maquiagem de noiva, seus olhos cinzentos pensativos, seus cabelos loiros ondulados, antes presos num coque durante o ensaio fotográfico e no cartório, mas soltos desde chegamos no carro, seu vestido branco sem mangas e seus sapatos de salto-alto brancos. Linda, como sempre.

Claro que eu também estava bem para a ocasião: tinha penteado os cabelos, vestia um terno preto com uma gravata azul clara e sapatos sociais pretos. Mas não havia usado um terno desde o casamento da minha mãe com o meu padrasto, então eu não estava acostumado com toda essa elegância.

Nós havíamos combinado de sair depois do casamento. Ela sugeriu algum ponto turístico e eu sugeri McDonald's. No fim, concordamos em ir naquele olho-sei-lá-das-quantas na Inglaterra. Mas eu teria direito de fazer uns truques com a água por lá. Sim, eu amo me exibir e causar eventos inexplicáveis. E com minhas contribuições pro Olimpo, eu tenho uns créditos pra gastar.

Porém, quando eu achei que passaria o resto do dia em paz com a minha esposa, o chofer freia bruscamente após uma sombra enorme passar perto do carro.

— O que aconteceu? — Annabeth se prontificou a perguntar.

— Que seja a Sra. O' Leary, por favor! — rezei baixo.

Ouvi um barulho como o de uma águia e me atrevi a olhar pela janela do carro. Empalideci.

Parecia uma águia do tamanho de um cavalo (e tinha as patas traseiras um cavalo), com grandes olhos amarelos tristes. A ave voava pela praça perto de nós derrubando tudo que conseguia. Estava voando muito mal, por sinal.

Immobilus! — Ouvi uma voz pronunciar.

E assim que as palavras foram ditas, um jato branco-azulado atingiu a criatura, desacelerando o seu vôo.

— Caramba, Volati! — a voz que gritou aquela palavra estranha exclamou. — Eu já disse várias vezes pra você não voar com uma asa deslocada, seu hipogrifo teimoso!

Então eu o vi e perdi as esperanças de curtir o resto do dia como uma pessoa normal. Ele tinha cabelos vermelhos, que aos poucos foram pro azul quando ele parou de reclamar com o tal hipogrifo. Também trajava roupas simples: uma camisa xadrez de flanela vinho, jeans claros e botas escuras. Parecia ser mais novo que eu e seus olhos... Pareciam também mudar de cor.

— Desculpem o alarme, trouxas. — ele disse se virando para nós.

— Do que você nos chamou?! — eu disse um pouco irritado. A menos que eu estivesse lidando com um deus, eu não tolerava desaforos.

— Termo usado para não-bruxos. — ele me disse, o que não fez sentido algum pra mim. Hécate, espero que isso não tenha nada a ver com você. — Agora fiquem parados para que eu possa apagar suas mentes. — ele mirou um graveto na nossa direção.

— Não, senhor! — agitei a mão e a fonte da praça formou uma onda, dando um caixote no homem. Já tenho minha cota de amnésias pra a vida toda. — Agora explica tudo!

— Nossa! — ele exclamou, o cabelo indo para um tom arroxeado. — Como conseguiu fazer tudo isso sem uma varinha?

— Me responde você primeiro! — esbravejei. — Varinha? Bruxos? Hipogrifos? Em que mundo você vive?!

Ele suspirou e pigarreou, como se estivesse se preparando para uma longa história. Seu cabelo voltou novamente ao azul, provavelmente sua cor padrão.

— Então... Meu nome é Edward Lupin e eu sou um bruxo. Eu posso voar em vassouras mágicas, fazer poções e transformar pessoas em animais. Eu lanço feitiços com a minha varinha e ganhei um hipogrifo de estimação teimoso há uns meses. — ele disse apontando com a varinha para o animal. — Finite! — ele pronunciou. O efeito de câmera lenta desapareceu, mas como o hipogrifo tinha parado de voar, ele começou a cair. — Aresto Momentum! — Edward disse e o animal teve a queda desacelerada. — Onde eu estava? Ah, lembrei. Trouxas não têm permissão para conhecerem o mundo mágico, então eu terei que apagar suas mentes a fim de impedir que espalhem o nosso segredo. Mas antes me contem: como você conjurou uma onda sem uma varinha?

— Pode nos dar um tempo para processar a informação? — Annabeth solicitou. — É muita coisa pra saber!

— Claro, fiquem a vontade. — ele disse, guardando a varinha. — Eu vou tentar achar uma doninha pro Volati. — Edward começou a se entrar numa bolsa pendurada no pescoço do hipogrifo e ele estava conseguindo, o que faria meu rosto perder a cor, se eu já não tivesse me acostumado com esquisitices.

Consegui ouvir um preciso limpar isso, enquanto apenas uma de suas pernas estava pra fora da bolsa. Annabeth me chamou e disse:

— Acredito.

— É, ele teria que ser muito maluco pra inventar uma história dessas.

— E esse hipogrifo é a prova viva. — ela mirou os olhos cinzentos nas asas do animal. — Mas será que devemos contar a ele?

— Ele contou pra nós... — falei sem entusiasmo.

— Já conheço esse tom e essa expressão, Cabeça-de-Alga. — ela disse fazendo contato visual comigo. — E eu concordo com você. É muito injusto a gente interromper a nossa lua-de-mel para se meter em mais algum negócio maluco.

Mais uma vez eu não me surpreendi, Annabeth já conseguia me ler com facilidade desde que eu cheguei ao Acampamento Meio-Sangue.

— Aposto que é obra de Hera. — bufei revoltado.

— Com certeza. — ela fez uma expressão aborrecida. — Bom, hora de se envolver em outras maluquices. Edward! — ela chamou.

Depois de alguns segundos, ele saiu com uma doninha morta. O cheiro me deu náusea. E ver o Volati comer o cadáver não ajudou. Ao meu lado, Annabeth estava verde de enjôo. Eu não devia estar diferente.

Depois dela fazer um gesto, como se estivesse mandando a comida de volta pro estômago, ela disse:

— Meu nome é Annabeth Chase. Esse é o meu marido, Percy Jackson e nós somos semideuses. Minha mãe é Atena e o pai dele é Poseidon. Por isso que ele controlou o chafariz perto de você.

— Nossa, eu nem sabia que esses deuses ainda existiam! — Edward disse alguns segundos depois, com o cabelo roxo num tom mais claro.

— Com exceção das minhas amizades e de Annabeth, eu preferia não saber. — eu disse, já menos enjoado. — Não queira ser um semideus, cara. O tanto de monstros que a gente tem que enfrentar...

— Pera! — ele me interrompeu. — Monstros?

— Semideuses atraem monstros. — Annabeth explicou. — Filhos dos Três primeiros Olimpianos homens, como o meu marido tem um cheiro ainda mais forte e atraem ainda mais confusão com isso.

— Três primeiros... Zeus, Poseidon e Hades?

— Sim. — eu disse desconfortável. — Evitamos falar seus nomes. Aprendemos do jeito mais difícil que palavras têm poder.

— Uau! Isso é um mundo novo para mim! — Lupin disse sorrindo.

— O seu mundo mágico também foi bem surpreendente. — Annabeth disse sorrindo de boca fechada, mas seu olhar entregava sua curiosidade. Ela ama conhecer coisas novas.

— Bom, eu acho que é isso. — disse eu, por fim. — Foi bom te conhecer, Ed...

— Ted. — ele me corrigiu. — Podem me chamar de Ted.

— Ted. — eu disse abrindo um sorriso de despedida. — Foi legal conhecer esse mundo novo. Mas tenho a impressão que ainda nos veremos de novo, num cenário menos agradável.

— Percy! — Annabeth me repreendeu.

— O quê? Você sabe que tudo tem um significado maior pra nós, ainda mais com a profecia...

— Espera! — Ted disse, já montado em seu animal. Seu cabelo estava roxo uma vez mais — Profecia?

— Ontem o nosso amigo, Nico di Angelo, desapareceu. — Annabeth explicou. — Mas antes que o namorado dele fosse procurá-lo, nossa amiga, Rachel, guardiã do Oráculo, proferiu...

O ritual do renascimento surge mais uma vez, — Edward nos interrompeu, o cabelo indo para um tom branco. — levando o anjo, sua irmã e mais três...

O homem da profecia outro desafio há de provar, — eu continuei.

Junto dos seus companheiros para o anjo salvar. — Annabeth terminou.

— Mal sinal mesmo. — Ted concluiu, com os cabelos indo para um amarelo escuro. — Essa profecia surgiu ano passado no ministério da magia. O meu padrinho, Harry Potter, foi alvo de uma terrível profecia. Os pais dele foram mortos, tentando defendê-lo. Eu pensei em visitá-los, mas o Volati aqui deslocou a asa esquerda ontem.

— Eu já estive em três profecias. — eu disse, aquelas palavras deixando um gosto ruim na minha boca. — E uma delas demorou uns 70 anos para acontecer.

— O anjo seria o amigo de vocês, certo? — Lupin deduziu. — Di Angelo, o anjo...

— Imaginamos que sim. — Annabeth respondeu. — E como Percy estava comigo se preparando para o casamento civil, Quíron achou melhor mandar outro homem que apareceu em uma profecia. Então o nosso amigo, Jason Grace partiu com Leo, seu melhor amigo e Will, namorado do Nico, para resgatá-lo em Londres. Devem estar voando agora mesmo. Nos avisaram durante a festa.

— Nossa... — Edward disse, surpreso. — O que mais me preocupa é esse ritual. Também o chamam de Ritual do apocalipse e o motivo...

— Prefiro não saber. — disse eu. — Mas infelizmente, acho que a gente se encontrar aqui é sinal de que também vamos participar dessa profecia.

— Se for, teremos que ir logo. Apenas uma vez tentaram realizar esse ritual e falharam. Não se sabe o que aconteceu, mas cinco trouxas foram raptados no processo, o que parece que vai acontecer de novo.

— E eu querendo aproveitar a lua-de-mel... — Resmunguei.

— Vamos pra casa trocar de roupa, Cabeça-de-Alga. — Annabeth me chamou. — Teddy, acha que consegue curar o Volati até amanhã? Precisamos de carona para Londres.