Harmonia
1 Capítulo único
Notas iniciais
Crianças que não saibam sobre o que é a coletânea, vão lá dar uma conferida no tumblr que no futuro vão ter novos eventos. :)
Boa leitura.
Harmonia
As paredes da sala tinham cor de pêssego, uma escolha inesperada, mas que surpreendentemente caíra bem com o branco dos móveis e estantes. Victor olhou para o relógio – também branco – e perguntou-se quanto mais teria que esperar até irem buscá-lo para o ensaio.
Estava ficando impaciente.
Paciência nunca foi uma de suas virtudes. Ele gostava de resultados imediatos e que os planos seguissem exatamente o cronograma planejado. Se marcava de encontrar alguém às sete, estaria lá nem antes, nem depois. Pontualidade era seu nome do meio, e não havia ninguém na indústria que não estivesse ciente disso.
Por isso, não entendia porque não tinham ido o buscar ainda. Já haviam se passado quinze minutos e os ponteiros do relógio continuavam a caminhar em direção ao futuro, nem um pouco preocupados com o homem que os assistia tão incomodado.
E o que Victor menos entendia era o porquê de isso ter que acontecer justamente hoje. Logo hoje, que ele iria enfim conhecer seu ídolo!
Quando Victor recebeu a notícia de que teria finalmente a honra de trabalhar junto de Yuuri Katsuki, ele ficou extremamente feliz. Era um grande fã do dublador que, apesar de estar a menos tempo que ele no ramo, mostrava ter muito talento. Não que ele próprio não fosse talentoso; muito pelo contrário.
Yuuri, porém, era diferente.
Victor era famoso, tinha uma carreira próspera e longa e seu nome era reconhecido dentro e fora da indústria. Yuuri, por outro lado, era misterioso e, apesar de todo o seu talento, sua reputação só começou a crescer recentemente, graças a sua participação em “Eros”, quando finalmente perceberam o quão maravilhoso era o timbre de sua voz – coisa que Victor já havia percebido há eras.
Seu primeiro contato com o dublador foi anos atrás, enquanto conferia podcasts amadores – um hobby que Victor mantinha até hoje – e ele imediatamente soube que o garoto teria futuro, e se apaixonou por aquela voz encantadora.
Victor admirava a forma como Yuuri conseguia trazer uma gama tão grande de sentimentos à tona e transmití-los aos seus ouvintes, fazendo-os se esquecer da realidade enquanto eram tomados pelas emoções que o dublador desejava que eles experimentassem. Esse não era um feito fácil de se realizar, porém, parecia ser algo natural para Yuuri.
Lamentavelmente, tudo que Victor conhecia a respeito dele era sua voz. Não haviam fotos suas em lugar nenhum da internet e o dublador nunca participou de sessões fotográficas, eventos, nem nada do tipo. Nem mesmo os paparazzi tiveram sorte quando tentaram desvendar os segredos de sua vida privada.
Todo esse mistério só servia para atiçar a curiosidade dentro do Victor, que se perguntava constantemente como seria o dono daquela voz tão incrível. E, agora que a chance finalmente apareceu, que finalmente trabalharia em parceria com Yuuri – um sonho tornado realidade –, o tempo corria e sua angústia crescia a cada segundo que ele se via obrigado a adiar o primeiro encontro dos dois.
Não aguentava mais! Se atrasos já normalmente o estressavam, hoje estava sendo mil vezes pior.
Ciente de que sua impaciência havia começado a se tornar aparente, tanto em suas expressões quanto em seu pé que insistia em bater repetidamente contra o chão, ele decidiu ocupar-se e reler mais uma vez o seu script.
Ele havia acabado de terminar a segunda página, enchendo suas margens com breves anotações, quando um garoto de rosto rechonchudo entrou na sala, vestindo um moletom cinza e óculos. Victor o observou por meio segundo, mas seu script pareceu ser uma companhia mais interessante então tornou a revisar suas falas.
Poucos minutos depois, estranhando o completo e ininterrupto silêncio, Victor olhou por cima das folhas que tinha em mãos, perguntando-se se a sala havia se tornado mais uma vez exclusivamente sua. Porém, para a sua surpresa, encontrou o mesmo garoto sentado na poltrona diante da sua, mexendo no celular e, de tempos em tempos, tomando um gole de água da garrafa PET que mantinha junto aos pés.
Ele estava prestes a ignorá-lo mais uma vez quando o garoto sorrateiramente direcionou seus pequenos olhos em sua direção, surpreendendo-se logo a seguir ao perceber que Victor olhava diretamente para ele. Eles ficaram em uma desconfortável e silenciosa troca de olhares até que o jovem se sentiu embaraçado o suficiente para virar o rosto. Porém, nem trinta segundos depois ele tornou a virar seu olhar em direção ao Victor, apenas para desviá-los novamente logo a seguir, ainda fugindo dos seus.
Victor ergueu uma sobrancelha, confuso e um tanto incomodado.
Se o garoto queria um autógrafo, uma foto ou qualquer coisa do tipo, Victor preferia que ele fosse direto e dissesse de uma vez. Adorava seus fãs, mas não gostava de ser observado daquela forma; já bastavam os paparazzi.
O garoto, entretanto, continuava em silêncio e não mostrava sinais de que deixaria de estar. Isso foi suficiente para a impaciência de Victor alcançar seus limites.
— Uma foto? – Victor perguntou, deixando o script de lado e sorrindo o mais naturalmente que pôde, da maneira que normalmente o faria durante uma entrevista. Ou seja, um sorriso de negócios.
Perante a pergunta inesperada, o jovem sobressaltou-se e olhou para os lados de maneira agitada. Antes que Victor pudesse compreender o que estava acontecendo, ele já havia se levantado e saído apressado da sala.
Confuso, Victor se perguntou se teria sido direto demais.
— Bem, tanto faz. – Ele murmurou enquanto apanhava seu script e retomava sua leitura.
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Quando finalmente vieram buscá-lo, pouco mais de trinta minutos depois do horário combinado, o seu humor não estava dos melhores. Porém, Victor obrigou-se a sorrir para o pobre funcionário da rádio que certamente não tinha culpa de nada.
Entretanto, enquanto caminhava pelos estreitos corredores da emissora, a realização de que estaria em breve trabalhando com Yuuri, conhecendo-o e falando com ele, foram suficientes para que ele se animasse.
A cada passo que dava em direção ao estúdio onde seria realizada a gravação, mais ansioso ele ficava com a expectativa. O sorriso em seus lábios tornou-se mais natural, mais sincero. Victor sentia seu corpo leve, como se andasse sobre nuvens macias feitas de algodão-doce.
Mal podia acreditar que depois de tantos anos finalmente conheceria Yuuri.
Porém, quando ele abriu a porta do estúdio e viu o garoto de antes junto ao microfone, Victor não entendeu mais nada.
Seu sorriso desapareceu e Victor sentiu a decepção crescer em seu peito. Antes que ele pudesse realmente absorver a situação, o responsável pelo projeto caminhou até ele a fim de o cumprimentar.
— Victor! – Yakov apertou sua mão entre as dele, com força. – Desculpe pelo atraso. O trânsito estava horrível.
Victor demorou um segundo para sorrir para o senhor, ainda em estado de choque devido à realidade que ele ainda não totalmente compreendia.
— Sem problemas. – Ele sorriu, enfim.
Porém, por mais que Victor desejasse ser cordial, como normalmente o seria, seus olhos insistiam em buscar a figura postada junto ao microfone. Talvez fosse um engano, ele cogitava.
Aquele não podia ser Yuuri Katsuki. Yuuri era especial, incrível, e o garoto diante dele não se mostrava nem um pouco de nada disso. Ele era banal e totalmente desinteressante, o completo oposto do que ele esperava.
Percebendo o quão confuso Victor estava, e a razão disso, Yakov caminhou até o garoto poucos metros adiante, obrigando Victor a seguí-lo mesmo que ele não soubesse se já estava pronto para isso.
— Victor, este é Yuuri Katsuki. Você disse que já o conhecia quando o mencionei em nosso último telefonema, no outro dia, então não acho que sejam necessárias muitas apresentações.
Yuuri timidamente virou na direção deles, com as suas bochechas rechonchudas e cabelo negro desalinhado, e fez uma breve reverência. Em nenhum momento ele abriu a boca e seu nervosismo era aparente.
Victor tentou sorrir, mas não conseguiu.
Ele estava um tanto… decepcionado. Entretanto, Victor sabia que era errado se sentir assim por causa de preconceitos que ele mesmo havia criado, então se forçou a aceitar a situação e vê-la por outra luz: Era Yuuri Katsuki! Yuuri, um de seus dubladores preferidos, e ele estava bem na sua frente! Quanto tempo ele não esperou por esse dia, por essa oportunidade? Poderia enfim falar com ele; ou melhor, trabalhar com ele!
Era o primeiro encontro deles, e... ele o havia confundido com um fã...
Victor não se sentia tão envergonhado desde foi obrigado a participar de uma propaganda de presunto, assunto que era para ele, até hoje, proibido.
Ele deu alguns passos adiante, em direção ao garoto, ao Yuuri. Ele forçou-se a sorrir, mas sabia que seu constrangimento e seu desconforto não estavam deixando seu sorriso muito natural. Yuuri o encarava atentamente, seus pequenos olhos fixados nos dele, talvez julgando-o internamente.
Victor engoliu em seco, nervoso. Ele pensou em dizer alguma coisa, tinha que dizer alguma coisa. Desculpar-se por mais cedo, por exemplo, seria um bom começo.
— Mal posso esperar para trabalharmos juntos – Victor disse, cordialmente, jogando para escanteio as palavras que realmente deviam ser ditas.
Yuuri simplesmente anuiu e Victor não sabia dizer se o garoto estava bravo consigo ou não. Isso o atormentava. Porém, ele não teve tempo para se preocupar com isso naquele momento, pois eles logo se posicionaram junto aos microfones para começar o ensaio e fazer a primeira gravação-teste do programa que apresentariam juntos, uma história de ódio e amizade que surpreenderia a todos com um romance no final.
Durante todo o tempo, Victor viu seus olhos buscarem ansiosamente por Yuuri, que folheava o script com expressões ainda incompreensíveis.
Ele ainda não entendia porque sua animação havia desaparecido, afinal ele esperou por essa oportunidade por muito tempo. Além disso, ainda se sentia mal consigo mesmo por tê-lo confundido com um fã. Mesmo que não tivesse como ele saber, já que ninguém sabia como Yuuri era fisicamente, não foi uma atitude legal. Não devia ter feito assunções.
Esperava não tê-lo chateado, e tinha que se desculpar apropriadamente depois. Agora, precisava focar no trabalho que tinha para fazer.
Ele olhou para frente quando Yakov, do outro lado da janela de vidro, fez um gesto com as mãos, indicando que era para eles começarem, e colocou os fones de ouvido. Então, ele olhou de esguelha na direção de Yuuri, que entraria primeiro, e surpreendeu-se.
Yuuri tinha o script fechado diante de si, e havia tirado os óculos e puxado os fios negros de seu cabelo para trás. Seu rosto mostrava-se mais confiante, e seu olhar focado e sério. Ele fechou os olhos e começou a falar junto ao microfone, sua voz ecoando nas paredes da pequena sala que compartilhavam.
O coração de Victor acelerou.
Era aquela voz. A voz. A voz que ele ouviu tantas vezes, em tantos programas diferentes ao decorrer dos anos. A voz que por tanto tempo ele nada pode fazer além de admirar de longe.
O ensaio foi um desastre.
Hipnotizado e emocionado, Victor esqueceu de falar quando chegou sua vez. Suas falas? Esquecera todas. Estava abobado, perdido, encantado… Tudo simultaneamente.
Mas tudo bem. Os sermões valeram a pena.
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Quando o dia enfim se encerrou, depois de meia hora frustrada de ensaio e mais quinze minutos de sermão de um produtor que muito desejava uma explicação para o fiasco que ele se recusava a chamar de dublagem, Victor arrumava suas coisas para partir quando Yuuri o abordou. Sua aparência estava como anteriormente, banal e sem graça, mas Victor havia aprendido que não devia o subestimar.
Na verdade, agora que estava mais calmo, ele percebia o quão vergonhoso fora o seu comportamento. Ele era o mais experiente, mas havia se deixado desconcentrar em plena gravação. Ainda que fosse apenas um ensaio, ainda que se tratasse de Yuuri, a situação era inescusável.
Por isso, assim que o garoto postou-se diante de si, ele sabia o que tinha de dizer.
— Desculpe. – Victor disse, obviamente referindo-se à sua fraca atuação naquele dia. – Prometo que isso não acontecerá de novo.
— Ah, tudo bem. – Yuuri parecia honestamente nem um pouco preocupado, o que Victor achou curioso. – É normal. Às vezes, demora um tempo para se acertar com o personagem.
A voz de Yuuri agora era mais baixa, contida por uma timidez que sumia completamente quando ele estava dublando.
— Não que você não saiba disso – ele acrescentou e desviou os olhos para o chão. – Mas, hm, eu queria saber se você gostaria de sair para jantar, ou tomar um café algum dia desses.
Victor ficou surpreso com o pedido inesperado e suas expressões com certeza demonstraram isso. Percebendo rapidamente a conotação que suas palavras carregavam, Yuuri foi rápido em oferecer uma explicação.
— Eu não estive em muitos trabalhos, mas acho que é mais fácil quando se conhece melhor aqueles que trabalham com você. Phichit meio que criou esse hábito em mim, de treinar por fora, compartilhar ideias, oferecer sugestões… Mas tudo bem se você não quiser. Eu entendo que você é uma pessoa ocupada. Na verdade, apenas esqueça o que eu disse.
— Phichit? Você quer dizer Phichit Chulanont, do podcast "The King and the Skater"?
Yuuri imediatamente levantou a cabeça, surpreso que Victor conhecesse justo aquele podcast, que não era muito conhecido. O show era um fantasma de seu passado, quando seu eu-mais-novo cedeu às insistências de seu amigo de infância e aceitou colaborar com um projeto que, na opinião dele, fez mais sucesso do que merecia.
— Você conhece? – Havia uma inevitável estranheza em sua voz.
— O quê?! Claro que eu conheço! É um programa incrível, daqueles que te deixam na ponta da cadeira, sempre desejando por mais. A trama era inédita e imprevisível, com uma profundidade inesperada. Além disso, foi onde você começou sua carreira.
Yuuri desviou o olhar, ofuscado pela energia e alegria que Victor transmitia em seu sorriso sem sequer perceber.
— Não sei se foi tão memorável assim. Digo, tive papéis melhores, mais interessantes e em séries mais populares. Inclusive, normalmente as pessoas me associam ao meu último trabalho, "Eros".
— Ouvi todos os programas que você participou e posso garantir que aquela foi uma das suas melhores atuações. – Victor sorriu ainda mais largamente, o que não devia ser sequer possível, mas então percebeu que estava se animando demais e tentou recuperar a compostura.
Em resposta, Yuuri corou e sorriu timidamente.
— Pelo jeito alguém fez a sua pesquisa.
Pego de surpresa, Victor foi incapaz de conter o largo sorriso que brotou em seu rosto. Mas então ele balançou a cabeça e, com seus olhos fixos nos de Yuuri, ele perguntou:
— Então, aquele café ainda está de pé?
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Como combinado, eles se encontraram alguns dias depois num singelo café no subúrbio da cidade. O lugar era afastado de tudo, num bairro pequeno e basicamente residencial, e Victor se perguntava se isso fora proposital, a fim de despistar fãs e paparazzi de uma tarde que eles esperavam ser exclusivamente deles. Uma ideia inteligente, caso fosse o caso.
Assim que chegou, Victor se juntou ao Yuuri na mesa e eles pegaram seus respectivos scripts, cada um coberto com anotações próprias e marcações que não faziam sentido a ninguém além do dono das páginas encadernadas. O plano era treinar juntos, revisar as falas, trocar ideias e discutir o que funcionava melhor em cada ato.
— Certeza de que não tem problema ficarmos falando em voz alta?
— Não se preocupe. Eu sempre venho aqui treinar.
— Mas e se incomodarmos os outros clientes?
— Não é como se houvessem muitos clientes a essa hora da tarde – disse uma mulher alta, de longos cabelos castanhos, enquanto ela pousava uma xícara quente de café para cada um deles. – Podem ficar a vontade.
A mulher se endireitou e sorriu gentilmente em direção a eles. Ela era bela e esbelta, e seus olhos contrastavam com a delicadeza de sua aparência. Havia uma força em seu olhar, uma determinação que ardia com uma lareira acolhedora numa noite fria do inverno. Eram intensos.
— Victor, esta é Minako, a dona do estabelecimento.
— Muito prazer. – Victor imediatamente estendeu a mão. Minako, porém, limitou-se a encará-lo por alguns segundos antes de enfim responder ao cumprimento.
— O prazer é todo meu. – Ela sorriu e Victor sentiu calafrios correrem por sua coluna. Não sabia o que tinha feito, mas a mulher parecia odiá-lo.
Assim que ficaram sozinhos, eles retomaram o treino, ensaiando e discutindo o roteiro. Toda vez que Yuuri entrava em seu papel e proclamava alguma fala, Victor se via sorrindo bobamente. Realmente amava aquela voz. A maneira como Yuuri entornava cada palavra, trazendo o melhor de cada uma delas, mesmo do mais insignificante dos monossílabos, parecia um ato de mágica.
— O que faz aqui? Por que você sempre está onde quer que eu vá?— Yuuri perguntou, exasperado.
— Eu que gostaria de saber. Se não o conhecesse, diria que está me seguindo.— Victor respondeu, calmamente.
— Eu?!— A voz de Yuuri desafinou e Victor viu-se incapaz de conter uma breve gargalhada, que fugiu por entre seus lábios desatentos. O garoto corou e desculpou-se, mas Victor disse que não tinha problema.
— Desculpe por ter rido.
— Tudo bem, foi engraçado. Eu também teria rido.
— Melhor eu me cuidar então – Victor piscou e Yuuri riu brevemente.
Eles continuaram o treino e a tarde passou rapidamente. Rápida demais, na opinião do Victor.
Eles foram embora justamente quando os frequentadores do café começaram a chegar, pouco antes das oito horas. Enquanto caminhavam em direção à saída, Victor olhou em direção ao balcão, para onde Yuuri havia acabado de direcionar um cordial adeus. Minako o encarava atentamente, com os mesmos olhos intensos de antes. Em seus lábios, um sorriso fino e educado. Engolindo o desconforto que a mulher o causava, Victor anuiu sua despedida e seguiu atrás de Yuuri, abandonando o conforto do café e adentrando as ruas geladas e vazias daquela noite nublada.
Eles caminharam lado a lado por mais alguns quarteirões, em direção à rua principal do bairro. Entre eles, um silêncio confortável.
Enquanto andava, o jovem dublador encarava o céu. O que ele olhava tão atentamente, Victor não sabia. As estrelas estavam todas escondidas por detrás de densas nuvens que prometiam uma noite chuvosa e gelada, porém, aquela imensidão acinzentada e sombria parecia ser bela aos seus olhos, pois ele sorria delicadamente enquanto as observava.
Quando chegaram ao ponto onde seus caminhos se separavam, Yuuri finalmente desceu seus olhos de volta ao caminho, e então direcionou-os ao Victor.
— Obrigado por aceitar meu convite. Nunca pensei que fosse ter a oportunidade de praticar com alguém como você. – Yuuri sorria levemente e olhava para o chão.
— O prazer foi todo meu.
— Não, eu que te agradeço. – Yuuri olhou nos olhos de Victor. – Foi ótimo. Aprendi muitas coisas hoje.
— Eu também. Fazia tempo que eu não treinava tanto.
— Espero que isso não seja algo ruim…
— Claro que não é. – Victor sorriu perante a cautela do garoto. – Eu não me divertia tanto com um projeto há bastante tempo. É ótimo trabalhar com você. Perfeito, na verdade.
Eles se encararam por alguns segundos, ambos bastante relaxados e confortáveis com o silêncio que havia de repente tomado conta do ambiente. Perante aquela quietude, Victor se viu atento às feições de Yuuri, ao modo como seu corpo se postava e à maneira que ele mexia impacientemente os dedos das mãos. Estaria ele com frio? A noite não era das mais frias, mas Victor não via outra explicação para os seus dedos, que não paravam de se esfregar uns nos outros, e para seu rosto, que estava tomado por um leve escarlate.
Depois de mais alguns segundos, ele subiu seus olhos para os de Yuuri, que brilhavam atrás de lentes envoltas por grossas armações. Victor encontrou o olhar de Yuuri voltado a ele e sentiu-se embaraçar subitamente. Ambos se embaraçaram, na verdade.
Eles desviaram os olhares um do outro e o silêncio não era mais tão confortável. Victor pensou em dizer algo, mas as palavras nunca foram uma incógnita tão grande em sua vida.
Yuuri comprimiu seus lábios, seu nervosismo evidente. Ele parecia guardar para si muitas palavras não ditas.
— Bem, até terça. – Yuuri disse, rapidamente. Então, ele virou as costas para Victor e caminhou rua abaixo, seus passos apressados. Victor simplesmente observou-o se afastar, a inquietude dentro dele crescendo conforme a distância que os separava.
Seguindo os desejos que ardiam em seu peito, ele chamou pelo nome de Yuuri uma última vez. O garoto imediatamente parou e olhou para trás, em sua direção. Yuuri aparentava estar um tanto confuso, outro ansioso. E surpreso estava Victor, que não esperava sequer ser ouvido.
— Até terça – Victor disse, abrindo um sincero e singelo sorriso.
Mesmo com a distância que os separava, ele pôde perceber o fogo que tomou conta do olhar do jovem dublador. Olhos firmes e determinados, que brilhavam intensamente como durante a gravação-teste que realizaram há alguns dias.
Victor passou a noite pensando naquele olhar.
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No próximo ensaio, as coisas correram muito bem.
Assim que terminaram de gravar o primeiro episódio, Yakov bateu palmas e foi rapidamente até eles, entrando no cubículo que até então os isolava num mundo só deles. Os olhos do produtor sorriam tanto quantos seus lábios, e ele agitava as mãos no ar de maneira empolgada.
— Garotos, se continuarem assim o show será um sucesso certo!
— Com um roteiro incrível desses, como poderia não ser? – Victor perguntou.
— Sem bajulação, meu jovem. – O senhor reprimiu. Em seus lábios, porém, o sorriso permanecia. – Não sei o que aconteceu, mas a atuação de ambos foi incrível hoje. É difícil de acreditar que é a primeira vez que vocês trabalham juntos!
A reação dos dois dubladores foi olhar um para o outro enquanto sorriam satisfeitos. Não há profissional que não goste de ter seu trabalho reconhecido, ainda mais quando se sabe que o elogio foi merecido. Por isso, ambos estavam felizes um pelo outro.
Pouco depois Yakov se retirou, falando antes de sair que mal podia esperar pelo que o aguardava no próximo ensaio. Logo, eles estavam mais uma vez num mundo somente deles.
— Você foi incrível hoje. Mal acreditei quando você começou a chorar de verdade naquela cena na ponte. Eu não sabia se ficava preocupado ou impressionado.
— Acha que exagerei?
— O quê? Não! – Victor foi rápido em negar. – Mas agora sempre que eu ouvir sua voz chorando vou lembrar das lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
— Não sei se isso me faz feliz… – Yuuri desviou os olhos para a mochila, onde guardava seu script.
— Devia. A sua atuação é marcante e emocionante. Se eu não me cuidar, vou sumir atrás de você.
— Claro que não! Ainda estou alguns milhares de anos-luz de distância de alguém como você.
— Você só não percebe o talento que tem.
Decidido a esclarecer que o dublador estava criando expectativas altas demais quanto às suas habilidades, Yuuri olhou na direção de Victor, mas caiu em silêncio logo depois ao que viu o sorriso que Victor tinha nos lábios e o olhar honesto que ele direcionava a ele.
— Eu posso até estar na indústria há mais tempo, mas experiência não é tudo. – Victor complementou.
Suas mãos, movendo-se sozinhas, perderam-se entre os fios negros do cabelo de Yuuri, que abaixou a cabeça em surpresa. Yuuri não se mexia e Victor sequer parecia perceber o que estava fazendo. A única coisa que ele sabia era que o cabelo de Yuuri era macio e agradável ao toque, os fios tão finos que ele temia quebrá-los.
Com os dedos, Victor puxou a franja de Yuuri para trás, e bem nesse momento Yuuri murmurou para si mesmo:
— Você é muito mais do que um dublador experiente. Você é o melhor.
Victor, entretanto, não o ouviu muito bem, pois estava ocupado demais com as sensações proporcionadas pelo cabelo do garoto.
— Desculpe, o que disse?
Victor afastou sua mão do garoto, que estremeceu ao perceber que falara seus pensamentos em voz alta. Yuuri corou e permaneceu com a cabeça abaixada, seu nervosismo aparente.
— Nada. – Ele disse, por fim, sorrindo cordialmente enquanto levantava a cabeça.
Yuuri apanhou sua mochila e a jogou por cima do ombro. Victor seguiu atrás dele até a porta, curioso e confuso, simultaneamente.
— Eu tenho que ir.
Eles ficaram numa silenciosa troca de olhares por alguns instantes. Yuuri parecia ansioso e seu olhar flutuava, nunca parando num só lugar. Seus lábios pareciam inquietos e a maneira como ele olhava para Victor o fez pensar que ele talvez soubesse o que o garoto tinha a dizer.
— Quer sair para tomar café comigo de novo, algum dia? Podíamos treinar juntos novamente.
Victor não sabia se era realmente isso que Yuuri queria perguntar a ele, e nem tinha como saber, mas a forma como o garoto relaxou e sorriu, seus olhos brilhando intensamente enquanto olhava para ele, fez-o pensar que provavelmente estava certo.
Depois de passarem o número do celular um para o outro, a promessa estava basicamente feita. Victor sentia que o próximo encontro dos dois não seria o último, mas apenas mais um de muitos.
Treinar com Yuuri era ótimo e produtivo, e não se incomodaria de praticarem juntos todos os cinco episódios da série. Aproveitaria o máximo da oportunidade de estar junto de seu ídolo.
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Na próxima vez que Victor se encaminhou ao café, acabou tendo de esperar por Yuuri que, devido a imprevistos, não foi capaz de chegar na hora marcada. Porém, Victor não se via incomodado com a situação, o que era estranho considerando que valorizava pontualidade mais que tudo. Talvez por se tratar de Yuuri, ele se via incapaz de ressenti-lo, ainda mais quando o garoto o enviara uma mensagem tão exasperada e cheia de culpa.
Chegara a sentir dó quando viu a notificação, e certificou-se de responder o mais rápido que pôde a fim de tranquilizá-lo.
Conhecer Yuuri estava sendo um sonho tornado realidade. Ele não era mais simplesmente o grande dublador que ele tanto admirava, mas também uma pessoa interessante e cuja companhia ele muito apreciava. Yuuri não era mais o reflexo das presunções que Victor enxergava antigamente, mas alguém com atitudes compreensíveis e humanas que o encantavam pelos mais variados motivos.
Se costumava o achar misterioso, agora o via como alguém tímido e inseguro.
Victor desejava poder pegar em sua mão e levá-lo diante de um espelho, a fim de apresentá-lo às qualidades que ele parecia não valorizar.
Um sorriso brotou nos lábios de Victor. Ele descansava a cabeça em uma mão e aguardava a chegada do dublador pacientemente. Com a mão desocupada, ele distraía-se no celular, lendo os últimos tweets e marcando alguns podcasts para ouvir mais tarde. Sua atenção só retornou ao mundo ao redor quando uma xícara foi deixada a sua frente. Ao que olhou para cima, encontrou Minako postada ao seu lado.
— Obrigado – agradeceu Victor.
A resposta da mulher foi sorrir e ajeitar o cabelo. Seus olhos continuavam com aquela profundidade ameaçadora que tanto intimidara Victor em sua visita anterior.
— Sabe, quase não acreditei quando você seguiu Yuuri para dentro do café – ela comentou. – Não via o garoto tão feliz desde que "The King and the Skater" foi indicado para melhor podcast amador do ano. Não que alguém se lembre, ou se importe. – Ela quase parecia falar consigo mesma, tão baixo era o tom de sua voz.
— Eu me importo! E devia ter ganhado! – Victor afirmou firmemente, suas sobrancelhas franzindo-se por si mesmas. – Era um trabalho muito mais interessante que “Mickey and Sara”. Os irmãos só ganharam por causa da publicidade que receberam da youtuber Mila Babicheva.
Victor provavelmente soou muito mais azedo do que pretendia. Porém, não foi capaz de se conter. Se há algo que ele nunca superou é que um de seus podcasts favoritos não tenha ganhado um prêmio que merecia mais que qualquer outro competidor. Se soubesse, teria feito sua própria publicidade na época; podia não ser tão famoso quanto hoje, mas já tinha fãs o suficiente para derrotar alguém como Mila numa disputa de popularidade.
Enquanto o observava, Minako sorriu. Seu sorriso, porém, parecia mais gentil e sincero que de costume. Havia um brilho em seus olhos que proporcionava uma sensação de acolhimento e proteção, algo quase maternal. Mas antes que pudesse observá-los por tempo suficiente, Minako fechou os olhos e Victor ficou sem saber se o que viu não passava de um engano ou se havia algo que ele não havia compreendido ainda.
Começava, porém, a se questionar qual era a relação entre eles, entre Minako e Yuuri. Eles não pareciam ser mãe e filho, nem mesmo parentes. Ele se perguntava qual era a ligação entre eles, mas não sabia se estava em posição de fazer perguntas. Ainda assim, estava muito curioso.
— Yuuri comentou que você ouviu o podcast. Admito que não esperava. – Minako inesperadamente puxou uma cadeira e sentou frente a frente com Victor.
— É um hobby. Programas amadores têm seu charme.
— Um hobby inesperado.
Victor sorriu. Realmente o era, não podia negar. Entretanto, não era algo que sentia que tinha que esconder, e tampouco se envergonhar caso alguém descobrisse a respeito. Todo dublador começa em algum lugar, e alguns não têm sorte de encontrar uma oportunidade brilhante logo para seu primeiro trabalho.
Alguns vêm de lugares bem inesperados.
Victor bebeu um gole do café que já havia esfriado consideravelmente. Em silêncio, os pensamentos de Victor voltaram a se agitar. Tinha perguntas. Claramente a mulher diante dele conhecia Yuuri há bastante tempo e sabia de facetas do dublador que ele sequer podia imaginar, mas que daria de tudo para conhecer.
Sua curiosidade só crescia, e cresceu incansavelmente até que alcançou os limites de sua paciência.
— Qual a relação entre vocês? – Ele perguntou, enfim. Victor nunca teve problema em ser direto e falar o que pensava, mas ficou nervoso assim que o olhar de Minako voltou a se tornar intenso.
Ele quase podia sentir cortes imaginários abrindo-se em sua pele, rasgada por mil lâminas afiadas.
Minako sorriu.
— Digamos apenas que o conheço desde que ele era bem pequeno, e que me preocupo muito com ele, como se fosse um filho meu. Nunca perdoaria quem o fizesse mal. – Ao final, seu sorriso já havia sumido e seus olhos estreitaram-se de forma que agora encaravam Victor de uma maneira ameaçadora.
Victor não teve dificuldades em interpretar os sinais.
— Acha que vou machucá-lo?
— Se alguém pode fazer isso, é você – ela disse, friamente.
— Não entendo porque diz isso.
— Claro que não entende. Não esperava que entendesse.
— Então me explique – Victor disse, tentando manter-se casual apesar de sentir sua impaciência transbordar.
Mas antes que uma explicação pudesse sê-lo oferecida, Yuuri entrou pela porta, suas feições nervosas. Ele não parava de olhar para o relógio de seu celular, que não guardou até que estivesse junto à mesa ocupada por Victor e Minako. Notando o clima estranho na mesa, ele perguntou sobre o que conversavam, expressões preocupadas no rosto.
— Nada demais. – Ela sorriu enquanto se levantava e desocupava a cadeira. – Vou deixá-los a sós, agora. Vocês certamente têm muito o que discutir.
Dito isso, ela partiu sem olhar sequer uma vez para trás. Victor observou as costas da mulher se afastarem, e sentiu-se frustrado pela falta de uma resposta à questão anterior. Aparentemente, ele teria que lidar com aquele problema sozinho. Porém, uma coisa havia ficado clara: sua suspeita comprovara-se. Minako, por alguma razão a ele ainda desconhecida, o odiava. Ainda assim, Victor não conseguiu ressentí-la. Se o tratava com tanta precaução, era por amor ao Yuuri. Faria o mesmo em sua posição.
Yuuri ocupou a cadeira que agora jazia vaga e virou-se na direção de Victor. Estranhando as expressões pensativas que o dublador tinha no rosto, ele perguntou se algo o incomodava.
— Nada.
Yuuri não se convenceu.
— É porque eu me atrasei? Desculpe te deixar esperando.
Vendo as feições que o jovem carregava no rosto, Victor se viu obrigado a deixar suas próprias preocupações de lado a fim de sossegar as de Yuuri, que parecia genuinamente mal por seu atraso inevitável.
— Não. Não foi nada.
— Mas você odeia atrasos!
— Minako me fez companhia, por isso, o tempo passou super rápido.
Yuuri torceu o lábio inferior e desviou o olhar. Claramente Victor não o havia convencido. Ciente de que não podia deixá-lo assim, ele alcançou a mão do rapaz, que descansava sobre a mesa, chamando a atenção dele novamente para ele.
— Yuuri, falo com toda sinceridade quando digo que você não precisa se preocupar. Não foi nada assim tão grave e você me avisou que não conseguiria chegar na hora.
Yuuri piscou algumas vezes e, apesar de não totalmente tranquilizado, anuiu. Victor sorriu e apertou a mão que ele ainda segurava firmemente.
— Pronto para ensaiar?
Yuuri anuiu e, aos tropeços, eles começaram a ensaiar para o próximo episódio da série: o segundo.
— Vamos passar de novo esse ato. Acho que ainda não chegamos lá. – Victor apontou para um trecho no script de Yuuri, que acenou em concordância. – Você acaba de descobrir a gravidez da sua irmã mais nova. Chegando lá, você me encontra na sala de espera. Você vem pra cima de mim, mas te seguram.
— Me solta!— Yuuri exclamou. – Esse desgraçado... A minha irmã!
— Você realmente adora atacar os outros precipitadamente, não é? — Victor disse, sua voz cansada.
— Desculpa, quanto tempo eu deveria esperar? Nove meses?
— Se não deixasse seu ódio por mim te dominar, perceberia que não sou o pai da criança.
— Como posso acreditar em você?
Victor alcançou o rosto de Yuuri, que franzia as sobrancelhas e o encarava desconfiado. Ele acariciou a bochecha do garoto, que se sobressaltou em resposta.
— Você realmente não percebe?
Por longos instantes, eles ficaram naquela posição. Victor encarava Yuuri, cujos olhos tremulavam nervosos, seu rosto tomado por um leve escarlate. Sua pele era quente e macia, mas Victor forçou-se a se afastar, permitindo que Yuuri se recomposse.
— Isso foi intenso. – Victor anunciou enquanto levava uma mão à nuca brevemente. Quando percebeu que ainda trocava olhares com o outro dublador, desviou os olhos para as mãos, que ele descansou sobre a mesa.
Fazia tempo que Victor não ficava tão abalado após atuar, e isso só comprovava o quão talentoso Yuuri era. Chegava a ser assustador. Antes que percebesse, as emoções de seu personagem já o haviam possuído e tudo que ele conseguia pensar era em seu desejo de beijar Yuuri.
Realmente assustador.
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...
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Victor esqueceu totalmente do aviso de Minako e só foi se lembrar dele na terça-feira, quando encontrou Yuuri na sala de espera da emissora. O garoto bebia de sua garrafa PET, sossegado, mas foi só ele cruzar olhares com Victor que sua postura mudou. Ele se ajeitou melhor na cadeira, endireitando sua coluna, e a tensão que tomou seu corpo era evidente.
— Nervoso? – Victor perguntou, sentando-se ao lado dele.
— Um pouco, sim. – Yuuri o observava apreensivo por detrás das grossas armações de seus óculos.
— Eu também, – Victor sorriu – mas não conte para ninguém. – Ele colocou um dedo sobre os próprios lábios, em um pedido por silêncio.
Yuuri sorriu levemente e Victor ficou feliz ao ver um pouco da tensão abandonar os ombros do garoto.
Em todos esses anos que ele vinha acompanhando a carreira de Yuuri, em momento algum Victor suspeitara que ele pudesse ser tão tímido e inseguro. Sempre o imaginara como alguém confiante que andava com a cabeça erguida. A realidade, porém, era bem diferente. Seu maior desejo no momento era que Yuuri conseguisse sossegar pelo menos um pouco em sua presença, mas ele sabia que a infamiliaridade era a culpada se Yuuri não conseguia se sentir confortável junto dele.
Desejava quebrar as paredes que os separavam, as barreiras que Yuuri havia levantado em torno de si, mas Victor sabia que isso não seria fácil. Não podia simplesmente chegar com um trator e por tudo abaixo. Não. Tinha que ir lentamente e permitir que Yuuri se adaptasse e abrisse as portas por si só. Por isso, mediria suas palavras e restringiria seus gestos. Ficaria atento às respostas, tanto verbais quanto gestuais, que recebia em suas interações.
O segredo para não machucá-lo era ir devagar e respeitar seus limites. Se desse tempo ao tempo, certamente tudo daria certo.
— Já terminou de revisar suas falas? – Victor perguntou enquanto apanhava seu script na mala.
— Eu tenho uma regra de não olhar para o script nos dias de gravação. Só dou uma revisada por cima na última hora.
— Agora que você falou, é verdade. Da primeira vez que te vi você também não estava com o script em mãos. – Victor foi então acertado por uma realização. Ele olhou de maneira culpada para Yuuri, que de repente ficou bem confuso. – A propósito, desculpe por aquele dia.
Yuuri encarou Victor em silêncio, com olhar de interrogação.
— A foto... – Victor murmurou, sem jeito.
— Oh! Sim, ahn... Não foi nada... – Yuuri disse, desviando o olhar, claramente desconfortável.
— Foi um engano terrível. Eu fiquei tão envergonhado. – Victor escondeu o rosto atrás das mãos. – Péssimo!
— É, foi bem embaraçoso para mim também...
— Podemos fingir que aquele dia nunca aconteceu?
— Só se você esquecer de como eu desafinei àquele dia.
— Fechado.
— Yakov está chamando pelos senhores – uma moça apareceu à porta, com uma prancheta em mãos. Seguindo-a, eles foram até o estúdio, onde o produtor os aguardava com as expectativas batendo no teto.
Os dois dubladores, sem delongas, se isolaram no pequeno cubículo e apresentaram a história daqueles dois homens cujo relacionamento sempre foi muito arisco, mas que aos poucos ia amaciando em uma amizade cheia de controvérsias.
— Mas não me fale de amor! Ou almas-gêmeas!
Yuuri fechara os olhos. Sua concentração era tamanha que Victor se perguntava se o garoto ainda se lembrava de onde estava e de quem era. Às vezes, Victor tinha a impressão de que não. Que ele deixava de ser quem era para que outras pessoas pudessem se expressar através de sua voz.
— Quero cortar com uma espada aquelas gargantas que estão cantando sobre amor. Quero prender no gelo as mãos que estão escrevendo aqueles versos sobre uma paixão fervente.
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Enquanto caminhavam juntos em direção à saída do prédio da emissora, Victor se via inquieto, com seus pensamentos desordenados. Como ele previra, a gravação fora intensa e Victor sentia que seria assombrado pela atuação de Yuuri daquele episódio até em seus sonhos – não que isso nunca tenha acontecido antes. Desta vez, porém, pensaria também em seu rosto e em seu corpo, que expressavam os sentimentos de seu personagem tão bem quanto sua voz.
Victor não entendia como o garoto podia não fazer mais sucesso. Como que as pessoas podiam ser tão cegas?
Claro que se dependesse dele Yuuri seria o dublador mais famoso da atualidade. Daria tudo para que outros percebessem suas habilidades. Um pouco de reconhecimento, inclusive, faria super bem para melhorar a sua autoestima, que andava tudo menos alta recentemente pelo que Victor havia observado.
Com uma voz potente, mas também melodiosa, Yuuri tinha tudo para ir longe. Quantas vezes Victor não deitou sob as cobertas e se deixou envolver pela aquela voz, que o carregava para o mundo dos sonhos apenas para deixá-lo amargurado por ter dormido no meio de um episódio?
Victor desejava que mais pessoas experimentassem essas sensações que só Yuuri era capaz de passar. Ele considerava a experiência indispensável.
Ele olhou Yuuri de soslaio, seus olhos incapazes de se conterem. Ultimamente, ele se via a procura do dublador com uma frequência cada vez maior; mas isso não o surpreendia. Desde que começou a conhecê-lo melhor, Victor começou a enxergar Yuuri menos como dublador e mais como uma pessoa, tirando-o do pedestal inalcançável onde Victor o havia colocado por tantos anos. Ele sentia que, graças a isso, uma amizade lentamente se desenvolvia, um laço de confiança e companheirismo que Victor adoraria manter mesmo após terminarem a gravação da série.
Com a intenção de convidá-lo para um café, Victor abriu a boca apenas para fechá-la logo em seguida quando o garoto ao seu lado sobressaltou-se, seus olhos brilhando e seus lábios se separando devido a uma surpresa agradável.
— Phichit!
Yuuri apressou seus passos e Victor viu-se sem opção além de imitá-lo. Senão, seria deixado para trás. Eles atravessaram rapidamente o saguão da emissora e logo se juntaram ao garoto que os aguardava com uma máscara cobrindo metade de seu rosto, suas mãos enfiadas no bolso do sobretudo enquanto os seus olhos os seguiam atentamente.
Assim que chegou perto o suficiente, Victor trocou olhares com Phichit e o dublador não teve dificuldade em notar certa familiaridade naquele olhar. Semelhante ao de Minako, ele se sentia ameaçado pela frieza e seriedade que o possuía.
Tudo que ele conseguiu pensar era que Phichit era bem diferente da persona animada e amigável que ele imaginara.
Mantendo-se em silêncio, ele permitiu que os dois velhos amigos conversassem.
— O que está fazendo aqui?
— O quê? Eu não podia deixar de fazer uma aparição! – Ele abaixou a máscara para não abafar sua voz. Então, ele olhou na direção de Victor e sorriu. Seu sorriso era, novamente, muito semelhante ao de Minako.
Se eles estavam tentando o assustar, estavam conseguindo.
— Victor, certo? Já ouvi falar de você. – Ele estendeu a mão e Victor a apertou em um cumprimento que acabou sendo mais amigável do que ele esperava. Não teve seus dedos esmagados, o que era ótimo.
Yuuri revirou os olhos.
— Sério? – Ele perguntou ao amigo, o tom de sua voz monótono.
— Seríssimo. Acho que foi… Hmm, em algumas revistas, na televisão, programas de entrevista, propagandas, shows de rádio e… Umas três animações? – Ele anunciou enquanto contava nos dedos.
— Quatro, na verdade. – Victor sentia que o garoto estava fazendo graça, mas decidiu entrar na roda.
— Quase lá! – Phichit bateu uma mão na outra, em frustração.
Yuuri balançou a cabeça de um lado ao outro, descrente.
— Você não deveria tratar um veterano da indústria assim.
— Hey, ele é tão humano quanto eu!
— Ele tem razão – concordou Victor. – Nunca entendi para que tanta frescura. Até porque o que vale mais é o talento do artista, não o tempo que ele está na indústria.
— Sim! E ele nem é tão talentoso assim – Phichit disse, ironicamente.
Victor simplesmente riu, não mais sabendo como reagir ao rapaz. Ele era diferente de qualquer um que já conheceu. Não media suas palavras, abusava de ironia e exibia um sorriso confiante nos lábios. Ele o lembrava muito de si mesmo quando mais novo.
— Agora, falando sério, o que veio fazer aqui?
— Não posso vir ver meu bom amigo quando me dá vontade?
Yuuri ficou em silêncio por alguns instantes. Ele então piscou algumas vezes e disse, cauteloso:
— Pode, mas…
— Mas você tem certeza de que eu não vim aqui apenas para isso.
— É.
— Bem…
Phichit deu alguns passos para longe deles, em direção ao interior do saguão. Suas expressões eram misteriosas e era óbvio que ele escondia algo dos dois dubladores.
— Digamos apenas que é verdade que não vim aqui exclusivamente para ver a sua cara bonita. Então, até mais.
E dito isso ele se encaminhou para dentro do prédio, em direção aos elevadores, por onde ele sumiu pouco depois. Antes de desaparecer, porém, ele fez questão de sorrir inocentemente e acenar na direção dos dois que permaneciam estáticos junto à saída do prédio, encarando-o confusos.
Phichit era interessante, pensou Victor. Ele olhou na direção de Yuuri, mas o garoto parecia acostumado com as atitudes exageradas do outro garoto – o que era esperado, dado o tempo que se conheciam. Yuuri deu alguns passos adiante, em direção à rua, e Victor foi atrás dele.
Eles então se despediram, cada um seguindo seu próprio caminho, sem que Victor se lembrasse de continuar com seu convite interrompido.
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...
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Passaram-se os dias, o ensaio e a gravação do terceiro episódio se aproximava cada vez mais, porém, Victor ainda não havia sido capaz de se encontrar com Yuuri para ensaiarem. Apesar dos inúmeros convites, ele não conseguia aceitá-los devido à sua agenda, que de repente encontrou-se cheia. Nunca odiara tanto sua popularidade. Não queria ir à sessões fotográficas ou entrevistas, tudo que desejava era passar algum tempo ao lado de Yuuri; desejo que só foi concretizado às vésperas do dia da gravação, uma segunda à noite.
Ele se encontrou com Yuuri num parque no centro da cidade, local que achou conveniente para ensaiarem as cenas ao ar livre que teriam que reproduzir no dia seguinte; além disso, devido ao horário – sete da noite – eles não podiam se hospedar no café de Minako, temendo incomodá-la e aos seus clientes.
Quando ele chegou, Yuuri já o esperava, sentado em uma das mesas montadas na área de alimentação, onde ficavam estacionados os food-trucks. Ele comia um cachorro-quente e se distraía ao celular, e só notou a chegada de Victor ao que o homem parou ao seu lado e anunciou sua presença:
— Boa noite.
Yuuri virou a cabeça em sua direção e sorriu gentilmente.
— Boa noite.
— Pronto para ensaiar?
— Assim que acabar este cachorro-quente vou estar.
Enquanto aguardava, Victor aproveitou para também comer alguma coisa. Eles conversaram casualmente sobre assuntos triviais enquanto terminavam seus respectivos lanches e então seguiram pelo parque, caminhando lado a lado.
— Okay, o episódio começa comigo em negação – Yuuri explicou, calmamente, depois que Victor pediu para que ele contextualizasse o episódio – depois das insinuações a respeito do nosso relacionamento.
— Como você está?
— Bravo, porque eu te odeio.
— Ótimo, então tente olhar para mim e não sorrir. Esse sorriso tem tudo menos ódio dentro dele. – Victor empurrou a bochecha do mais novo levemente, numa provocação.
— Isso sequer existe? – Yuuri riu brevemente – Por acaso você já viu um sorriso odioso?
Os rostos de Minako e de Phichit imediatamente apareceram em sua mente. Victor desviou os olhos ao chão, em reflexo.
— Acho que posso dizer que sim... – Ele respondeu, em um murmuro cansado. Ainda tinha que resolver a questão da insegurança que passava aos dois, que provavelmente o ressentiam pelo mesmo motivo. Não sabia como esperavam que ele o chateasse, mas Victor estava fazendo o que podia para provar-se uma boa companhia para Yuuri.
— Não sabia que as pessoas eram capazes de te odiar.
— Fazendo as palavras de Phichit minhas: também sou humano. Você se surpreenderia com a quantidade de inimigos que tenho dentro e fora da indústria.
— Acho difícil de acreditar.
— Sucesso é um grande causador de ódio. As pessoas não podem te ver no alto que já querem te derrubar.
— Então são invejosos?
— Nem todos. Alguns simplesmente têm mau-caráter.
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Após a gravação do terceiro episódio, eles tornaram a se encontrar na quarta-feira seguinte à gravação-teste, novamente no café. Assim que pôs os pés no estabelecimento, Victor se viu pensar que talvez devesse ter se adiantado um pouco.
— Desculpe deixá-lo esperando. – Nunca havia se sentido mal por chegar na hora.
Yuuri sorriu, aliviando a pressão em seus ombros.
— Como se eu pudesse reclamar de alguém que chega exatamente na hora marcada – Ele resmungou, em tom de ironia, enquanto olhava para o relógio de seu celular.
Vendo que Victor não havia se sentado ainda, Yuuri acenou para a cadeira diante dele e Victor aceitou o convite. A conversa se iniciou aos tropeços, com um ar de infamiliaridade, mas o desconforto foi se dissipando quanto mais eles se engrossavam no trabalho diante deles.
— Esta história que não tem sentido algum vai desaparecer com as estrelas esta noite.— Yuuri havia fechado os olhos, suas expressões calmas como sua voz. Quando ele tornou a olhar Victor nos olhos, ele não se mostrou satisfeito. – Não sei porquê mas algo me incomoda nessa frase. Algo parece... errado.
— Vejamos, – Victor disse, enquanto puxava o script para mais perto de si – você diz isso logo após decidir por fim ao relacionamento amigável que surgiu de repente entre os nossos personagens. Apesar de ser algo recente, foi algo impactante.
— Logo, eu não devia estar calmo ou completamente certo de que esta é a coisa certa a se fazer, – Yuuri continuou o raciocínio – pois eu descobri que você não é o cretino que sempre achei que você era. Mas, ao mesmo tempo, eu percebo que meus sentimentos em relação a você se tornam mais fortes a cada dia, por isso, decido cortar o nosso vínculo antes que seja tarde. Porque eu não quero, de forma alguma, amar alguém que um dia odiei do fundo de minha alma, porque sou orgulhoso.
— Exato.
— Então… – Yuuri passou os olhos pelo script rapidamente, mais uma vez. – Esta história que não tem sentido algum vai desaparecer— Uma breve pausa. – com as estrelas, esta noite.— O tom melancólico que aos poucos tomou conta da sua voz causou um aperto no coração de Victor.
— Incrível – Victor deixou escapar, numa voz séria.
Yuuri corou levemente e esfregou a própria nuca timidamente.
— Para de me bajular, Victor.
— Não estou. Se eu estivesse, já estaria caído do chão, ou em pé em cima da mesa.
— Exagerado – Yuuri disse, por entre um sorriso. Em resposta, Victor jogou uma mão para cada lado enquanto fazia cara de inocente.
A cada fala que eles ensaiavam, a cada elogio que eles trocavam, a cada comentário sem nexo que eles expressavam, Victor se via perguntando porque o destino não os unira mais cedo.
Seus olhos instintivamente buscaram por Minako, que organizava a estante de bebidas atrás do balcão. Ele se perguntava das coisas que ela sabia, e quanto – e quando – ela estaria disposta a dividí-las com ele. Porém, visto que Minako continuava o alfinetando com o olhar, esse dia certamente não estava assim tão próximo.
Se possível, ele esperava conseguir ganhar sua confiança ainda nessa encarnação.
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A energia contagiante da gravação tomou conta de todos. O quarto episódio certamente fora o preferido de Victor, seguido do primeiro. Havia uma forte tensão na maioria das falas, e a atuação de Yuuri esse dia estava tão boa que Victor viu seu próprio desempenho melhorar em resposta.
— Se eu pudesse te ver, a eternidade nasceria da esperança.— Victor disse, encerrando o episódio.
Até ele próprio mal podia esperar para ler o roteiro do próximo e último episódio. Depois de acordar sozinho numa cama grande e gelada, abandonado pelo personagem de Yuuri depois de uma noite honesta, Victor estava louco por saber o que aconteceria a seguir.
Enquanto organizavam suas coisas, Yuuri e Victor trocavam hipóteses do que eles imaginavam que aconteceria entre seus personagens. Distraídos com a conversa, mal notaram Yakov se aproximar e, mais uma vez, enchê-los de elogios.
— Estou sem palavras – ele disse quando os dubladores viraram em sua direção. – Vocês me deixam cada vez mais impressionado. Yuuri principalmente. – Victor sorriu ao que ouviu isso, provavelmente tanto ou mais feliz pelo comentário que o próprio Yuuri.
O produtor então os deixou a sós, voltando para o lado dos demais funcionários envolvidos na produção da série.
Nesse dia, ninguém teve pressa de partir. A afobação constante de querer ir para casa parecia ter tirado férias, pois as pessoas aproveitavam o momento para socializar mesmo que o relógio já apontasse ser após o horário de trabalho.
No meio de risadas descontraídas e conversas animadas, uma sombra infiltrou-se no recinto. Yuuri olhou confuso para Phichit, assim como Victor, ambos obtusos sobre porque o garoto estaria ali. Yakov, porém, não o estranhou.
— Olá, olá, a todos! – Ele disse enquanto adentrava cada vez mais a sala, acenando com o braço bem esticado. – Eu trouxe os scripts!
Antes de ir até eles, Phichit parou e falou com Yakov por alguns instantes. Com feições mais sérias no rosto normalmente alegre, eles trocaram algumas palavras por não mais que dois minutos. Foi tempo suficiente, porém, para atiçar mais ainda a curiosidade dos dois dubladores que, apesar de trocarem algumas suposições, não conseguiam pensar em um bom motivo para a presença do escritor.
Mas a dúvida foi logo esclarecida.
Assim que se aproximou deles, Phichit estendeu os scripts na direção dos dois que até então simplesmente o encaravam sem saber o que esperar. Quando olharam para a folha oferecida, o nome anotado no topo foi suficiente explicação.
Co-roteirista do episódio 5 (final): Phichit Chulanont
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...
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Victor nunca se dedicara tanto a um projeto, e tampouco se sentiu tão satisfeito com o trabalho que ultimamente ocupava a maior parte do seu tempo livre. Quando não estava em uma sessão fotográfica ou fazendo alguma aparição na televisão, o dublador ocupava seu tempo memorizando falas e as praticando, quase sempre na companhia de Yuuri. E, quando não era possível se encontrarem pessoalmente, eles trocavam mensagens e áudios.
Victor nunca fora uma pessoa muito “digital”, mas a convivência com Yuuri estava trazendo as mais variadas mudanças à sua vida; algumas drásticas, outras nem tanto.
Como se fosse parte de uma rotina que já o seguia há anos, ele se via dirigindo para os subúrbios quietos e discretos com naturalidade. Mal dava para acreditar que fazia apenas pouco mais de um mês que se conheceram.
Ele sentia como se conhecesse Yuuri sua vida toda. Os dias em que o jovem não passava de uma sombra que ele cegamente admirava de longe pareciam agora parte de um sonho apagado pelo tempo.
Agora, eram próximos. Ou tão próximos quanto Yuuri permitia que eles fossem. Ainda assim, ele já sentia uma grande diferença quando comparava o agora com a forma que era a interação dos dois inicialmente.
Yuuri agora sorria mais frequentemente e de forma mais natural. E, nossa, que sorrisos. Sempre que pensava em seus sorrisos, um jardim inteiro florescia em seu peito. Gostava demais dos sorrisos espontâneos de Yuuri.
Victor dirigiu pelas ruas da cidade com um sorriso largo no rosto, como em noventa e nove por cento das vezes que fazia esse trajeto. Durante o caminho, ele escutava o último episódio lançado de seu podcast favorito, mas nem os estranhos relatos narrados pelo locutor daquela amigável cidade no meio do deserto eram capazes de sossegar a ansiedade que se multiplicava rapidamente dentro dele.
Mal podia esperar por chegar ao café.
Após estacionar o carro e se direcionar ao estabelecimento, Victor se viu estagnar na porta pouco antes que sua mão pudesse alcançar a maçaneta. Yuuri vinha em sua direção, sorridente; como ele, estava animado. Como não estar? Seria o último ensaio, um ensaio que ambos sabiam ser desnecessário, mas que ainda assim decidiram levar adiante mesmo que não fosse nada além de um pretexto para se verem mais uma vez.
Mais uma vez de muitas futuras, Victor esperava.
— Se tivéssemos combinado, não teria dado tão certo. – Victor comentou, os lábios mais curvados que antes. O garoto acelerou seus passos, seu rosto corando levemente pelo exercício.
— Verdade. – Yuuri respondeu assim que o alcançou.
Sem mais delongas, eles entraram e se sentaram em uma das mesas, sendo atendidos por Minako quase que imediatamente. Victor pediu por uma xícara de café e Yuuri por uma de chá. Enquanto aguardavam, eles revisaram os pontos que já haviam discutido mais do que dez vezes nas últimas duas semanas.
— Phichit não vem hoje? – Victor perguntou, depois de algum tempo. – Estava começando a me acostumar com a presença dele.
Victor gostava muito do escritor, e tinha grande apreço pelo seu trabalho. Porém, tinha que admitir que não gostava muito quando o garoto acompanhava Yuuri aos treinos. Na última semana, se ele tivesse que escolher uma coisa irritante dentre todas que aconteceram, certamente seria a insistência de Phichit de se meter. Claro, ele tinha sugestões boas para dar – até porque fora ele quem escreveu grande parte do episódio –, mas na maior parte do tempo ele mais os distraia que os ajudava.
Mas Victor não podia dizer ao Yuuri que não gostava quando o amigo o acompanhava, por isso, ele estava tentando se acostumar aos "defeitos" de Phichit.
— Graças a Deus, não. Ele ia no cinema com uns colegas.
— Pensei que gostasse dele por aqui. – Victor comentou, surpreso.
— Adoro o Phichit, mas… Bem, é o nosso treino. Gosto de quanto é só nós dois… Menos distração. Sinto que nossos treinos rendem mais quando ele não está aqui para palpitar a respeito do texto a cada trinta segundos.
— Vou ter que concordar – Victor disse enquanto anuia levemente a cabeça. – Mas ele deu umas sugestões boas da última vez que veio.
— Sobre a cena do reencontro?
— Sim. Eu estava um pouco enrolado com aquela cena, já que eu não entendia porque meu personagem começou a chorar. Quando ele disse que era devido ao alívio que eu senti ao te ver de novo, tudo começou a fazer sentido.
— Bem, sim. – Yuuri começou a dizer. – Você achou que tudo estava arruinado entre nós por ter apressado demais as coisas.
— Às vezes, é tão óbvio e ainda assim impossível de enxergar a verdade por trás da situação até que apontem para você onde exatamente você tem que olhar.
— Concordo.
Eles tentaram continuar o treino, mas acabavam sempre se distraindo e conversando mais sobre o enredo e seus detalhes que sobre as falas que teriam que recitar em alguns dias.
— O que achou do detalhe da flor? – Yuuri perguntou, de repente, repetindo uma pergunta que Phichit havia feito a ambos na última vez que acompanhou o treino dos dois. Na ocasião, nenhum deles soube explicar o significado da flor, a metáfora por trás dela, e o escritor pediu para que eles pensassem com carinho em uma explicação.
Dias haviam se passado e, após pensar muito a respeito, Victor havia criado sua própria teoria.
— Uma rosa... – Victor murmurou. – É uma flor delicada, mas cujos espinhos estão prontos para machucar quem se aproximar. Acho que é uma metáfora ao seu personagem, que é uma pessoa muito fechada e que, apesar da aparência de durão que ele tenta passar, no fundo é alguém doce e amável que se preocupa até com aquele que era seu pior inimigo.
— Nossa, você realmente encontrou uma explicação plausível. – Yuuri parecia genuinamente surpreso.
— Você não pensou em nada?
— Honestamente? Acho que Phichit só estava tirando uma com a nossa cara.
— Ele faria isso?
— Com certeza. Sim. – Yuuri anuiu a cabeça, com feições apologéticas. Provavelmente se sentia culpado por não ter avisado Victor de que ele não precisava ter levado a pergunta de Phichit tão a sério.
— Bem, foi divertido formular várias teorias. – Victor riu brevemente. – E acho que graças a isso entendo seu personagem um pouco melhor; e também o meu, que sempre pareceu dançar um tango complicado em torno do seu. Agora, eu vejo mais sentido nas ações precavidas que sempre tive que tomar perto de você.
Yuuri anuiu a cabeça.
— Mas, por curiosidade, que cor acha que seria a rosa?
Victor ficou pensativo por alguns instantes. Sabia que não tinha uma resposta certa, mas ainda assim queria dar uma resposta plausível.
— Rosa, um tom claro de cor-de-rosa.
— Por quê?
— Porque é uma cor delicada, e isso provavelmente te irritaria demais.
A reação de Yuuri foi rir brevemente.
— Sério? – Ele perguntou e arqueou uma de suas sobrancelhas.
— Claro. Pensa comigo... Podemos até ser amantes agora, mas o passado continua lá. Suas marcas são profundas. Ou você tem alguma dúvida de que nosso relacionamento será baseado em provocações?
Yuuri ficou pensativo por alguns segundos, mas a explicação oferecida por Victor pareceu convencê-lo pelo menos um pouco. Antes que ele pudesse continuar com as perguntas complicadas – como, por exemplo, em que tipo de vaso ele guardaria as flores – Victor sugeriu que eles voltassem a treinar.
— Que tal darmos uma repassada no trecho final?
— Claro. Pode ser.
Do outro lado do balcão, alguns metros distante, Minako sorriu levemente enquanto os observava. Esperava por deslizes, mas cada vez mais achava que talvez Yuuri estivesse realmente em boas mãos, e que sua preocupação fosse desnecessária.
Ela, claro, não tinha intenções de dizer isso ao Victor.
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…
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Quando chegou ao estúdio, Victor irradiava alegria. Cumprimentava todos que encontrava pelo caminho e os oferecia um de seus melhores sorrisos. Sentiria saudades do projeto, do elenco, de trabalhar com Yuuri… Mas a experiência fizera tão bem a ele que o dublador se sentia rejuvenecido.
— Bom dia!
— Bom dia, Victor – Yuuri respondeu quando viu Victor surgir na porta da sala onde as gravações logo iniciariam.
— Yuuri! Como vai? Pronto?
— Sim, e você? Vejo que está bem animado.
— Sim! Mal posso esperar!
— Tenho certeza que vamos fazer um ótimo trabalho – Yuuri assegurou, um sorriso confiante em seus lábios.
Victor anuiu e seguiu o outro dublador pela sala. Eles cumprimentaram o restante dos funcionários que encontraram no caminho até Yakov, que conversava com Phichit.
— E aí, prontos? – Phichit perguntou, com ambos os polegares virados para cima e um sorriso largo no rosto.
Yuuri e Victor olharam um para o outro e acenaram com a cabeça. Ambos estavam confiantes, além de ansiosos por começar de uma vez a gravação. Seguidos pelos desejos de boa sorte de Yakov e Phichit, eles foram até o cubículo onde os microfones os aguardavam.
Enquanto o jovem dublador fazia seu habitual ritual pré-gravação e tirava os óculos após ter puxado os fios negros de seu cabelo para trás, Victor fechou seu próprio script. Yuuri o observou surpreso, mas o sorriso determinado que Victor o direcionou o trouxe confiança.
Com ambos os scripts fechados diante deles, os dubladores cruzaram olhares uma última vez antes de mergulharem em seus papéis. Então, eles deixaram que suas vozes dissessem o resto.
Com palavras tomadas por emoção, as frases foram recitadas uma atrás da outra. Mesmo durante as breves pausas, os olhares de ambos continuaram desfocados, como se não fossem mais quem realmente eram.
— Chegamos tão longe— Victor disse, ao microfone. – Mais longe do que jamais achei possível. Sei que cometemos erros, os dois, mas estou decidido a deixar isso tudo para trás, se você também estiver.
— Mas e minha insegurança? Ignorá-la é tudo menos fácil...
— Não a ignore!
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ali, diante de todos, estavam duas pessoas apaixonadas, duas pessoas que trilharam um longo caminho para chegarem onde agora estavam. Duas pessoas que aprenderam a lidar com suas diferenças, e a aceitar as imperfeições um do outro. Duas pessoas que estavam dispostas a tentar fazer as coisas darem certo.
— Sua insegurança é seu instinto, sua proteção. Não peço que se livre dela. Apenas... Confie em mim. — Victor pediu, firmemente. – Confie quando digo que não vou te deixar. Tema, suspeite, mas me dê uma chance.
— E se você me deixar?
— Então arranque meu coração de meu peito e o enfie em uma estaca!
Conscientemente ou não, a mão de Victor buscou pela de Yuuri que, ao sentir o roçar de dedos, correspondeu ao sentimento. De mãos dadas, eles prosseguiram com o diálogo.
— Porque sem você não há vida!— Victor exclamou. – Sei que nunca fui digno de confiança, mas agora, neste momento, neste exato segundo, tudo que peço é que confie em mim quando digo que te amo mais que tudo.
A ansiedade dentro do Victor crescia cada vez mais. Seu coração batia rapidamente, mas ele não sentia que aquele coração era seu. A agitação em seu peito tampouco pertencia a ele. Victor lentamente se perdia, sendo possuído aos poucos pelo homem que agora expressava-se através de sua voz. Sua única âncora ao mundo real era a mão de Yuuri, cujo calor era reconfortante; o perfeito lembrete de quem era e de onde estava.
Ele apertou a mão de Yuuri com um pouco mais de força e Yuuri respondeu apertando a dele de volta. Eles trocaram olhares rapidamente e o sorriso de Yuuri fez o coração de Victor se apertar. Ele quase se distraiu e perdeu o foco de quem deveria ser naquele momento, mas se forçou a olhar pra frente e focar na narração.
Não tinha tempo para lidar com seus próprios sentimentos naquele momento.
— Por isso, te pergunto: o que vai ser? Uma vida ao meu lado, ou uma eternidade solitária?
Yuuri sorriu, e seu sorriso valeu por mais que mil palavras. Lamentavelmente, ele precisaria verbalizar aqueles sentimentos para serem gravados em áudio. Victor começou a achar um desperdício que o garoto não trabalhasse no teatro ou na televisão.
— Acho que então não tenho escolha. — Yuuri falou, calmamente.
Com o final tão extremamente próximo, Yakov, que observava tudo do outro lado do vidro, tinha um grande sorriso nos lábios; só não maior que o de Phichit que, de braços cruzados, observava a cena diante de si duplamente satisfeito. Feliz por ver os diálogos que ele havia escrito ganharem vida, e feliz também pelo seu melhor amigo, que parecia enfim ter alcançado aquele que ele tentou alcançar a vida inteira.
— Fique perto de mim, não vá embora. Estou com medo de perder você.
— Suas mãos, suas pernas… Minhas mãos, minhas pernas…— Yuuri fez uma pausa e olhou para Victor, que também o encarava – As batidas de nossos corações estão se fundindo uma na outra.
— Vamos partir juntos. Agora, eu estou pronto.
Notas finais
Pergunta da vez: Quantas referências você pegou durante a história? Eu mencionei Welcome to Night Vale e usei versos de "Stay Close to Me", caso alguém esteja se perguntando do que estou falando. Se ninguém percebeu tudo bem também, fica como piada interna minha comigo mesma. ¯_(ツ)_/¯
E, sério, vão olhar o tumblr. Vocês não vão se arrepender. Eu vou disponibilizar um link com várias fics que participaram da coletânea, então se você quiser conteúdo de qualidade para ler já sabe onde ir. (ノ´ヮ`)ノ*: ・゚(Mas isso talvez demore mais alguns dias porque estou no meio do período de provas *lágrimas eternas*)
Well, that's it. Se você gostou dessa história talvez possa olhar meus outros trabalhos? :))))
BJJS e até a próxima!
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