Haria
6 Capítulo 6
Finalmente o dia do desfile havia chegado, e como já era de se esperar, tudo estava uma correria. Halexander acordou antes que de costume, na verdade ele nem sequer havia dormido, passou a noite ajeitando detalhes aqui e ali. Tudo tinha que sair perfeito.
Pela manhã, depois que levantou, tinha tanta coisa pra fazer que nem sabia por onde começar, mas logo depois de tomar uma xícara de cappuccino com duas torradas com manteiga, chegou a uma conclusão. Pegou o celular e discou uns números.
— Alô — a voz do outro lado falou . — Oi Halexander.
— Oi Maria, como você tá? — falou, mas depois se corrigiu. — Na verdade não precisa responder, só liguei pra te dizer uma coisa, e preciso saber se você concorda ou não.
— O quê?
— Não quero que você desfile hoje, quero que vá como minha acompanhante, se aceitar vou mandar entregar aí um dos vestidos da coleção, um que fiz especialmente para você. — ele cruzou os dedos mentalmente, pois os dedos de verdade estavam ocupados correndo pelas teclas do computador.
Houve um silêncio do outro lado da linha, mas era possível ouvir a respiração de Maria.
— Não acho que seja uma boa idéia — ela falou, e sua voz saiu baixa e tímida como já de costume.
— Mas porque não?
— As outras meninas podem ficar comentando, elas se esforçaram tanto quando eu e algumas até mais, não seria justo eu fazer isso com elas.
Halexander respirou fundo e soltou o ar todo de uma vez. Estava irritado.
— Mas eu escolhi você, de todas as outras eu escolhi você. Elas não têm que achar nada.
— Podemos fazer de outro jeito, o que você acha?
— Que jeito?
— Eu desfilo o vestido que iria usar para acompanhar você, o que você disse ter feito para mim, que tal?
Halexander pensou um pouco, mesmo já sabendo da resposta.
— Pode ser, mas não será a mesma coisa — comentou, irritado.
— Mas faremos assim, beijos, vou me arrumar agora, tenho que ir para o local ensaiar — ela falou e esperou pela resposta de Halexander.
— Tchau, beijos — ele falou e desligou.
Chegando ao ateliê, Halexander se deparou com um local vazio, todos já haviam saído para o local do desfile, ele só foi lá para pegar umas coisas que havia esquecido. No local do desfile as coisas estavam uma correria, convidados chegando, modelos se vestindo, assistentes correndo e pegando coisas aqui e ali. Halexander teve que se multiplicar em vários, tinha que atender aos convidados, mas também tinha que dar os últimos retoques em tudo. Ele simplesmente amava tudo aquilo, lutou a vida toda pra fazer o que gostava e finalmente estava fazendo. Desde o momento que chegou não viu Maria, ela estava em algum lugar no meio de todas aquelas pessoas, e ele não se atreveria em procurá-la, tinha muita coisa pra fazer. Até que o momento mais esperado chegou.
No começo do palco tinha um piano preto que brilhava refletindo as diversas luzes do local. Uma menininha de uns treze anos entrou no local e se sentou atrás do piano. Uma leve melodia começou a soar ao ritmo em que os dedos da garota passeavam pelas teclas. A primeira modelo entrou, andou até o final da passarela e voltou, depois, uma por vez, as modelos foram aparecendo e sumindo da passarela. Maria ainda não havia parecido. Halexander queria ver ela.
Todas entraram e desfilaram, até que chegou a vez de Maria. Ela estava nervosa, nunca havia desfilado em um evento tão grande e de uma marca tão grande. O vestido que ela usava era preto e tomara que caia. Tinha um pequeno decote de metal nos seios e umas tiras vermelhas que caiam em seus braços. Ela entrou na passarela e fez seu trabalho, estava linda.
— A mais linda de todas — sussurrou Halexander para si mesmo. Assim que ela saiu da passarela, Halexander entrou, agradeceu a presença de todos e depois foi ao encontro das modelos.
— Gente, muito obrigado pelo trabalho de vocês hoje, estavam todas maravilhosas — falou e depois foi cercado de aplausos.
Assim que todos se dispensaram ele foi a procura de Maria.
— O que você achou? — ela perguntou, aparentemente tímida.
— Você estava linda — ele falou com um sorriso tão grande que por pouco sua boca não pulou para fora do rosto.
Ela já havia tirado o vestido e já estava com outra roupa.
— O que você fará hoje a noite? — Maria perguntou.
— Nada, o bom e velho alívio de serviço completo é o que vai me acompanhar hoje.
Os dois riram.
— Que tal sairíamos pra comer alguma coisa?
— Tenho uma ideia melhor — Halexander falou.
— O quê?
— Você me deve um jantar, lembra? Que tal cozinhar para mim hoje?
— Pode ser.
— Então está combinado.
Eles se abraçaram e foi cada um para um lado, apesar do desfile já ter acabado, Halexander ainda tinha algumas coisinhas para resolver. Nada poderia tirar a alegria dele naquele momento, nada além de Vinícius.
— E aí mano? — Vinícius falou chegando por trás e lhe dando um abraço tão forte que por pouco não quebrou suas costelas.
— Gostou do desfile?
— Gostei das modelos — ele falou e deu um sorriso safado que Halexander odiava. — Estou pegando três delas. — comentou.
— Que bom pra você — Halexander falou rápido e saiu de perto do irmão, lutando para não quebrar a cara dele ali mesmo.
As horas passaram voando e sem perceber já havia chegado a hora de ir para casa de Maria. Halexander estava nervoso, não sabia o que aconteceria naquela noite, mas de uma coisa ele tinha certeza: não podia fazer nada que estragasse aquele jantar. Talvez eles assistiriam a um filme depois, e talvez se beijariam novamente e talvez até fossem além disso. Eram muitos "talvez" e só uma certeza, ele amava aquela garota. Um clichê que enojava até a mim.
Assim que tocou a campainha do apartamento de Maria, Halexander percebeu o quanto estava nervoso. Suas pernas lutavam para manter seu corpo longe do chão, e sua cabeça lutava para manter seus lábios longe dos de Maria, o que estava sendo uma tarefa bem difícil.
Ela abriu a porta e o convidou para entrar. O apartamento era grande e muito lindo, tinha uma enorme janela de vidro que dava uma bela vista de Nova York, e naquela noite em particular estava tudo maravilhoso. Tinha algumas velas em determinados lugares dando ao ambiente um clima mais romântico e um cheiro de rosas perfumavam todo o lugar.
— Boa noite — Halexander falou antes de entrar, ainda parado na entrada do apartamento. Ele tinha nas mãos duas sacolas, uma contendo um presente e outra contendo um dos melhores vinhos que conseguiu encontrar. Sim, o vinho tinha álcool, e sim, ele estava disposto a beber pela primeira vez. Tudo pela garota que amava, na verdade ele não conseguia encontrar em sua mente uma coisa que não faria por Maria. O amor tem dessas coisas, colocam as pessoas em situações complicadas. Ao pensar nisso ele lembrou de uma citação que leu em um livro, ela dizia o seguinte: "Amar é como estar peso, mas é uma prisão da qual nunca se consegue sair".
Ele entregou o presente para Maria e logo depois deu o vinho, que ela rapidamente colocou sobre a mesa, que estava perfeitamente arrumada.
— Então vamos nos sentar? — ela perguntou, apontando para a mesa.
Os dois se sentaram e Halexander ajudou Maria a servir a comida. A conversa fluiu normalmente e eles falaram de praticamente tudo, desde a infância dos dois até aquela noite. Risos e gargalhadas soavam pelo apartamento constantemente. Eles formavam um belo casal, eu tenho que admitir. Confesso que assim que vi aquele bebezinho pardo e meio roxo nos braços de sua mãe, pensei que ele não seria mais que um humano normal. Que trabalharia em um supermercado e que provavelmente nunca casaria, mas olhando eles dois naquele momento tive a certeza que aquele menino que vi nascer e crescer finalmente tinha um futuro.
Eu sempre estive com ele, desde que nasceu, no primeiro dia de aula, na primeira queda de bicicleta, e no primeiro beijo. Fui culpado de algumas das maiores tristezas de sua vida e acho que ele nunca me perdoou. Principalmente quando o Sr. Carlos morreu. Eu sinceramente não tive culpa, mas ele não quis entender.
Assim que o jantar terminou, Halexander ainda não havia tocado na taça com o vinho, estava fazendo de tudo para não ter que beber. O clima estava tão bom que ele desejou parar o tempo naquela noite.
— Você tem cara de quem foi muito pegador quando era adolescente — Maria falou, depois deu um gole do vinho.
— Por mais incrível que pareça eu não fui — Halexander ironizou.
— Você já namorou com alguém que amasse de verdade?
Ele pensou por alguns segundos.
— Não, nunca encontrei a pessoa certa. Mas acho que ela já apareceu na minha vida.
— E você ama ela?
Houve troca de olhares.
— Mais do que um dia pensei que seria capaz — ele respondeu, e sem querer soltou um sorriso com o canto da boca.
— Eu também encontrei uma pessoa esses dias e acho que estou gostando dele.
O coração de Halexander bateu mais rápido, tão rápido que quase era possível ouvi-lo.
— Me desculpe perguntar, mas eu posso saber quem ele é? — Halexander perguntou, e mesmo sem quer admitir para si mesmo, ele estava com medo da resposta.
Maria hesitou por alguns segundos e encarou o pano da mesa, mas então levantou a cabeça e fitou os olhos de Halexander.
— Claro que pode, aliás você o conhece, na verdade até melhor do que eu — mais uma pequena pausa. — É o seu irmão, Vinícius.
Fale com o autor