Dezenove anos atrás

(2006)

— Olha quem está ali, se não é o viadinho? — Vinícius falou para seus amigos e todos caíram na gargalhada. Halexander ao ouvir aquelas palavras e as gargalhadas sentiu tanto ódio que seria capaz de matar todos ali se tivesse a oportunidade.

— Me deixe em paz seu idiota! — gritou ele e logo depois se odiou por ter feito aquilo, havia demostrado fraqueza e isso só aumentaria as provocações. Eles estavam na frente de sua casa, Halexander sentado na varanda com alguns papéis, lápis de colorir e algumas canetas esferográficas ao seu redor e Vinícius estava brincando com alguns amigos na rua.

— O que você está fazendo? É mais um daqueles seus vestidos? — Vinícius falou com deboche, rodeando Halexander. — Vocês sabiam que ele quer ser estilista quando crescer? — todos riram novamente e começaram a chamá-lo de "viadinho". — Procura ser macho moleque, para de fazer esses desenhos de mulherzinha e procura jogar bola e fazer coisas de homem! — Vinícius gritou e deu um tapa na parte de trás da cabeça de Halexander, que só ouvia tudo calado. Ele não podia fazer nada, o irmão adotivo era mais forte e maior que ele, e Vinícius e seus amigos estavam em maior número. Chegava até a ser covardia quatro contra um, mas pra Vinícius isso não importava, se fosse pra machucar Halexander qualquer coisa valia.

Halexander juntou os papéis do chão tão rápido que foi quase impossível acompanhar seus movimentos, assim que pegou tudo foi andando para entrar em casa, mas parou e virou-se para seu irmão.

— Você tem sorte que mamãe não está aqui — ele falou baixo para que apenas Vinícius ouvisse e depois entrou, trancando a porta atrás de si.

Mas tarde naquele mesmo dia, todos já estavam sentados em volta de mesa apenas esperando que Sandra colocasse o jantar. Halexander ajudava a mãe a colocar os pratos e os talheres, enquanto Vinícius e seu tio Robson conversavam sobre o campeonato de futebol que havia começado no dia anterior.

— Halexander você assistiu os jogos de ontem? — Robson perguntou enquanto Halexander se sentava na mesa. Ele olhou para o tio e depois olhou para Vinícius, que por sua vez estava com sua cara de mal, e no mesmo instante Halexander soube que foi ideia do irmão aquela pergunta, pois ele sabia que Halexander não gostava de futebol.

— Não tio — ele respondeu em voz baixa.

— Halexander não gosta de futebol tio Robson, ele prefere aqueles desenhos de menininha — Vinícius falou e depois deu um discreto sorriso malvado, apenas para que Halexander olhasse. O tio Robson fez cara feia e não falou mais nada, preferia não tocar naquele assunto.

Halexander olhou com ódio para Vinícius e se segurou para não pular nele e enfiar a faca que estava a sua frente no pescoço dele, mas teve seu pensamento interrompido pela presença de Sandra, que havia acabado de colocar a última panela sobre a mesa. O jantar seguiu normal, Vinícius e o tio continuaram seu papo de futebol, Sandra e dona Hilda, sua mãe, colocando as fofocas em dia, e Halexander calado, apenas comendo e olhando para a decoração natalina do pano da mesa. Ele sempre foi um menino calado, gostava de "ficar na sua" apenas com seus pensamentos. Em algumas situações passava até por tímido ou anti-social, mas era um modo de autoproteção, as pessoas pareciam que gostavam de magoa-lo, e Vinícius sabia exatamente como fazer isso.

Depois do jantar Halexander subiu para seu quarto e se trancou lá, esperava ter um pouco de paz, mas sabia que logo logo o irmão adotivo chegaria para inferniza-lo, por que, infelizmente, eles dormiam no mesmo quarto. As horas se passaram, Halexander estava sentado em sua cama com o notebook sobre as pernas, quando Vinícius entrou no quarto. Inicialmente estava tudo bem, até que ele percebeu a presença do irmão sobre a cama, caminhou até ele e se sentou do seu lado.

— O que você quer? — Halexander perguntou já irritado.

— O que você está olhando? — Vinícius perguntou. Halexander estranhou o modo como ele falo, como se fossem realmente irmãos normais, que se amam e tudo mais, o que obviamente não acontecia.

— Estou olhando as estrelas — Halexander falou normalmente, talvez aquele fosse o primeiro passo pra uma amizade ali. Resolveu deixar a grosseria de lado e simplesmente responder de forma calma, como um irmão fala pro outro. — É um aplicativo legal, ele mostra todas as estrelas e constelações, e tudo em tempo real, olhe essa estrela aqui que interessante...

— Que coisa mais chata — Vinícius falou com arrogância e fechou a tela do notebook bruscamente. — Procura ver alguma coisa legal cara, deixa de ver essas frescuras aí.

— Mas por que você fez isso? — Halexander perguntou colocando o notebook de lado e levantando da cama.

— Você deveria colocar uma bunda de uma mulher bem aí na tela, isso sim é que é coisa de menino, e não ficar olhando as estrelas.

Halexander fechou a cara e partiu pra cima de Vinícius o empurrando. Vinícius virou-se irado, fechou a mão e deu um soco no rosto do irmão, que caiu no chão tonto. Ele se segurou para não chorar, claro que não choraria, não na frente de Vinícius. Ele ficou lá no chão com o rosto latejando, sua respiração acelerada e as lágrimas prontas para sair a qualquer momento.

— Vai querer brigar agora? Pode vir! Vem seu medroso! — Vinícius gritou, mas não alto suficiente pra que a família ouvisse.

Halexander não se levantou, ficou com medo de que o irmão resolvesse lhe bater mais, e resolveu ficar no chão até que fosse seguro ele levantar e ir limpar o canto da boca, que estava sangrando. Vinícius caminhou até o irmão e se baixou perto dele.

— Eu te odeio — ele sussurrou no ouvido de Halexander e antes de levantar deu um beijo na bochecha dele. Então saiu do quarto como se nada tivesse acontecido.

Assim arque teve certeza que o irmão não voltaria tão cedo para o quarto, Halexander deitou-se lá mesmo, cobriu o rosto com as mãos e chorou, um choro baixo, porém profundo. E ficou lá, como o rosto pulsando e as lágrimas se juntando com o sangue que escorria do canto de sua boca.

Mas tarde naquela noite, por volta das duas da madrugada, todos, ou melhor, quase todos já estavam dormindo e somente o som dos grilos do lado de fora da casa era possível ouvir. Halexander olhava fixamente para o teto branco, levantou silenciosamente e ficou em pé. O quarto estava escuro, mas não totalmente por causa da luz da lua que entrava pelas janelas. Foi até sua escrivaninha, que ficava do lado de sua cama. De dentro do porta-lápis pegou uma tesoura, e essa ao contrário do recomendável, tinha ponta. Ele caminhou até a cama do irmão, que dormia feito um anjo, e se sentou na beira de sua cama. Olhou para o rosto branco do irmão, tão pacifico, tão calmo. Ele segurou forte a tesoura, a vontade de afunda-la no peito de Vinícius era tão grande que poderia se materializar em algum ser e simplesmente se tornar o melhor amigo dele.

— Sabe seu idiota, eu poderia te matar agora e faria isso com todo o prazer do mundo, e olha que eu tenho coragem, ah e como tenho — ele deixou escapar um sorriso no canto da boca. — Mas não vou fazer isso, e sabe porque? Porque eu tenho um futuro brilhante pela frente, e você um dia virá até mim, e me pedirá emprego, e eu gentilmente lhe darei. Assim vou viver o resto da minha vida feliz sabendo que você vive a sua vida nojenta sendo meu subestimado e que ainda vive porque um dia eu permiti isso. — ele falou e com as pontas dos dedos pegou a gola do pijama do irmão e fez um pequeno corte nela. Depois voltou para a cama, colocou a tesoura debaixo do travesseiro, cobriu-se com seu edredom e dormiu.