Ao ouvir aquelas palavras, Halexander sentiu uma pontada no peito e uma enorme vontade de vomitar. O mundo tremeu ao seu redor.

— Como assim você está gostando do Vinícius? — ele perguntou e sua voz saiu mais alta do que planejou.

— Nós estamos saindo desde o dia em que ele nos levou até o seu ateliê. Porque o espanto? — ela perguntou confusa.

— Ah, me desculpe, é que é meio difícil imaginar o Vinícius em um relacionamento com alguém.

— Foi só por isso mesmo?

— Na verdade não — ele pegou a taça com o vinho e levou em direção a boca, mas antes que o líquido vermelho tocasse seus lábios ele devolveu a taça para a mesa. — Eu achei que nós tínhamos alguma coisa, sabe tudo isso aqui, nossas conversas. Nossa me sinto um idiota agora.

— Me desculpa se fiz você pensar isso, na verdade eu também gostei de você no começo, mas depois passou, você entende? — Maria levou sua mão até a dele, mas ele recuou, se levantando da mesa.

— Desculpa, mas tenho que ir embora, o jantar estava ótimo.

Halexander pegou o casaco sobre a poltrona e caminhou em direção à porta.

— Não precisa ir agora, nós podemos assistir um filme — Maria falou, quase implorando para ele ficar. Ela não queria admitir, mas gostava da companhia dele, era como se eles realmente tivessem alguma coisa além de amizade.

Halexander virou para trás e deu um abraço apertado em Maria, e então deu um beijo em sua testa.

— Boa noite — falou em voz baixa e então saiu pela porta, deixando Maria parada no meio da sala sem entender o que tinha acabado de acontecer.

Halexander caminhou rápido, quase correndo, pelos corredores do prédio. As paredes giravam os seu redor, seu estômago embrulhava cada vez mais, e sua cabeça latejava. Assim que entrou no carro as lágrimas que ele segurou até sair do prédio rolaram em seu rosto.

— QUE MERDA! — gritou batendo com os punhos cerrados no volante. — Porque você está chorando seu idiota? Foi só um fora.

Ele apertou em um botão no painel do carro e o motor rugiu, e os faróis acenderam, cortando a escuridão. A noite estava mais escura que de costuma, não havia muita movimentação de carros e nem de pessoas. Halexander pisou fundo no acelerador e o carro começou a correr, ele virou uma esquina e já estava em uma avenida, e essa estava super movimentada.

— Fica calmo Halexander, não queremos nenhum acidente não é mesmo? — perguntou para si mesmo e ficou com medo por não ter certeza da resposta.

Assim que chegou em casa torceu para que não encontrasse com Flávia, não querida correr o risco de descontar nela a raiva que estava sentindo. Subiu correndo para seu quarto e chegando lá empurrou a porta com toda força. Entrou no quarto e trancou a porta, não queria ser incomodado. Seu peito ainda doía, e o pior era que não era uma dor que podia ser curada. Ele parou no meio do quarto e ficou lá sem saber o que fazer, o quarto parecia girar ao redor dele, sua respiração estava ofegante, como se tivesse acabado de sair de uma corrida. A sua frente ele viu seu reflexo no enorme espelho que tinha no quarto.

— Olhe sua cara seu idiota — bufou para o espelho. — Como você pôde fazer isso com a gente? — gritou e num pulo partiu pra cima do espelho. O vidro se partiu em milhares de pedaços e suas mãos começaram a sangrar e a latejar, assim como sua cabeça.

Halexander começou a desferir socos e mais socos contra o vidro, contra a parede que agora estava amostra por trás do espelho. A cada soco suas mãos doíam e sangrava mais.

— Seu idiota! Idiota! — berrou.

Assim que se cansou de socar a parede partiu pra próxima vítima. Pegou a cadeira de sua escrivaninha e jogou com toda força contra uma parede. Depois empurrou a escrivaninha até que ela despedaçasse ao bater em uma parede.

— Como ela pode amar aquele idiota? Meu Deus me explique isso! — as lágrimas corriam por suas bochechas como um chafariz.

Sua raiva estava descontrolada. Ele já havia quebrado ou amassado quase tudo do quarto, então se jogou na cama, esperando que caísse no sono e que assim a dor passasse. Mas não funcionou, então levantou da cama e procurou por um papel.

— Eu preciso escrever alguma coisa. Sim! Isso vai me acalmar, ou desenhar, sei lá, só preciso de um papel.

Ele pegou um dos que estavam espalhados pelo chão, pegou uma caneta e começou a escrever:

"Oi Maria, tudo bem com você? Espero que sim, na verdade eu sempre vou esperar que você esteja bem. Bom, é, não sei o que falar. Ah! Me lembrei de uma frase famosa que se encaixa perfeitamente nessa ocasião. Se você está lendo essa carta significa que estou morto..."

Ele continuou escrevendo entre soluços, lágrimas e sangue, que ainda saíam de suas mãos. Assim que terminou de escrever amassou o papel e jogou num canto do quarto, pegou as chaves do carro que estavam no chão e saiu.

Halexander dirigiu por alguns segundos até que encontrou o que estava procurando, um bar. Antes de entrar no bar, se olhou pelo espelho retrovisor e se arrumou, não queria ninguém perguntando o que havia acontecido com ele e nem se ele estava bem. Amarrou um pedaço de pano nas mãos para estancar o sangue, secou as lágrimas e saiu.

Assim que entrou no bar deu graças por estar cheio de pessoas, assim ele passaria despercebido. Se dirigiu ao balcão, onde encontrou uma bela moça ruiva limpando uns copos.

— Por favor, me dê um copo da sua melhor bebida — falou, tentando esconder a voz de choro e raiva.

— Pois não — ela falou, pegou uma garrafa e despejou o líquido em um copo de vidro. — Aqui está — colocou o copo a sua frente. Ela já ia guardando a garrafa no seu lugar quando foi interrompida por Halexander.

— Não, deixe a garrafa aqui.

Então ela atendeu ao pedido.

Não passou cinco minutos e Halexander já havia bebido a garrafa quase toda, então pediu outra, depois de um tempo pediu mais outra. Ele já não enxergava direito, as coisas não passavam de um borrão. As luzes do bar e o som alto entorpeciam ainda mais seus sentidos. Ele levantou da cadeira cambaleando, pegou no bolso sua carteira de couro e colocou sobre o balcão. Saiu andando para sair do bar e tropeçou ou trombou em alguém em todo lugar. Assim que saiu viu o vulto do seu carro preto, cambaleou até ele e se jogou para dentro.

— Que... merda, não consigo enxergar nada — gaguejou.

Balançou a cabeça rapidamente para ver se sua visão melhorava e não mudou muita coisa. Apertou um botão no painel e fez o motor roncar alto. Pisou no acelerador e saiu desenfreado pela rua. As luzes dos carros a sua frente se misturavam na sua visão, ele não conseguia discernir se era um carro, uma carreta ou uma moto. Ele desviava de um carro aqui e ali e corria pelo asfalto fazendo zigue-zague entre os carros. As coisas se movimentavam rápido demais e Halexander não percebeu quando um caminhão veio em sua direção. A última coisa que ele viu foi a luz forte dos faróis e ouviu o barulho alto da buzina, depois tudo não passava de escuridão. Eu presenciei tudo, queria poder ter impedido, mas sou proibido de intervir.

Ele caminhou até mim, estava com uma aparência acabada, as mãos ainda pingavam sangue e as lágrimas ainda rolavam.

— Você é a morte não é? — Halexander perguntou assim que chegou até mim.

— Sim, eu sou — respondi, sempre amei o primeiro contato com os humanos.

— Por favor, faz parar de doer — ele implorou, sua voz embargada.

— Desculpe querido, não sou médico — enxuguei uma das lágrimas que descia em seu rosto.

— Mas a dor que estou sentindo médico nenhum pode curar.

— Mas você ainda tem batimento cardíaco, pode sobreviver — falei, gosto sempre de dar uma segunda chance, e pessoalmente não queria que aquele fosse o fim dele.

— Não importa, não quero viver em um mundo em que eu não me ame, por favor faz parar — seu choro aumentou, mas sempre silencioso.

— Tudo bem, apenas relaxe.

Segurei sua cabeça entre minhas mãos e a puxei até que meus lábios se encontraram com os dele. Estavam quentes e molhados, sempre é assim no começo, mas aos poucos foram ficando frios e duros, como uma pedra de gelo. Halexander fechou os olhos e então eu vi sua última lágrima descer.

Os dias que se seguiram foram de total luto. Tudo que era jornal noticiava a morte do famoso estilista Halexander Magno.

Certa manhã, enquanto Flávia vasculhava o quarto dele, ela encontrou um papel amassado num canto, ao lado da cama. Abriu e depois de ler algumas linhas ligou para alguém.

— Alô? — a pessoa que atendeu tinha voz baixa e rouca. — Oi Flávia, como você está?

— Oi Maria, estou me recuperando. Olha, estava arrumando aqui o quarto dele e encontrei uma coisa que acho que te pertence, vou mandar o motorista deixar aí, tudo bem?

— Mas o que é essa coisa?

— Quando chegar aí você vai ver, tchau.

Passado duas horas de pura ansiedade, a campainha de Maria finalmente tocou. Ela correu até a porta e recebeu da mão do motorista de Halexander um pedaço de papel.

— Obrigada — respondeu.

Ela desembrulhou o papel e se sentou na poltrona pra ler. Ela leu cuidadosamente cada palavra e então lágrimas começaram as rolar, pingando sobre o papel. Assim que terminou de ler, ela pressionou o papel contra o peito e o abraçou forte. Cobriu a boca e o nariz com uma das mãos e entre soluços e lágrimas sussurrou:

— Me desculpe.

P.s.: capítulo não revisado, então já sabe, se encontrar algum erro desconsidere.