Haria
4 Capítulo 4
"Amor a primeira vista". Isso soava tão idiota quanto falar em "final feliz" ou "viveram felizes para sempre". Mas havia sido isso que ele sentiu. Amor. Um sentimento novo para Halexander.
Depois que leu o nome dela sua imagem não saía mais da cabeça dele. Maria Victorie Delfino, alta, magra, pálida, cabelos negros e curtos, linda, perfeita, minha futura noiva. Foi assim que ele a descreveu para os amigos.
— Acho que tem alguém aqui apaixonado — Jheniffer falou e todos caíram na gargalhada, com exceção de Halexander, que a olhou desejando costurar sua boca.
— Então quer dizer que alguém conseguiu derreter o coração da rainha do gelo? — Larissa comentou, se jogando no sofá ao lado de João Guilherme. Todos riram novamente. Halexander jogou um olhar furioso sobre todos, fazendo-os conter o riso no mesmo instante, mas estavam se segurando pra não caírem na gargalhada de novo.
— Se não calarem a boca vou jogar todos naquela lareira! — falou por entre os dentes. Raquel revirou os olhos e falou:
— Mas sério, vocês já se falaram?
— Lógico que não — Halexander falou acolhendo a caneca de chocolate quente entre as mãos. — Nós só nos vimos uma vez e tudo que sei dela são as informações que li no formulário.
— Então quer dizer que você ama uma garota que nem sequer conhece e só viu uma vez? — João questionou, pensando em rir, mas logo em seguida se conteve, pois sabia o peso da mão de Halexander, e ele não queria senti-la novamente.
A neve caía forte fora da mansão e todos eles estavam acolhidos na sala de estar. Todos de pijama, com chocolates quentes, marshmallows e edredons. Já havia se tornado uma tradição, a noite do pijama. Na verdade estava mais para uma competição, que acontecia da seguinte maneira: todos iam para casa do Halexander e passavam a noite lá, aquele que ficasse acordado por mais tempo vencia e preparava uma bebida, com o que quisesse, para os outros tomarem no café da manhã. E na maioria das vezes João Guilherme vencia, ele já estava acostumado a virar as noites em bares e boates, e geralmente acordava com uma garota nova do lado que nem sequer se lembrava o nome. O combinado era de fazerem uma maratona da série favorita deles, How I Met You Mother, mas o interesse era a nova paixão de Halexander, assunto que nunca passou pela cabeça deles que um dia debateriam.
A noite passou tranquila e um por um foi caindo no sono. A última a dormir foi Larissa, mas ela acabou capotando e João Guilherme venceu novamente, o que não facilitava muito as coisas pra ele, pois já estava difícil criar combinações novas para as bebidas. Não haviam regras, apenas uma: pode colocar qualquer coisa na bebida, mas nada que tenha álcool. Depois dele ter criado uma gororoba misturando várias coisas dentre elas salmão, iogurte de uva, suco de maçã, uma banana, azeitonas, etc, Halexander teve que se preparar para trabalhar, aliás, de todos ali, ele era o único que não tinha pais ricos pra manter seus luxos.
— Gente eu tenho que ir — ele gritou descendo as escadas, indo rumo à cozinha, onde encontrou todos reunidos em volta da mesa.
— Por que tanta pressa? — Raquel perguntou, olhando para ele desconfiada. — Você vai olhar aquela garota hoje de novo?
— Acho que sim, vou ter que entrevistar as modelos, mas não sei se vai dar tempo de entrevistar ela — ele falou terminado de abotoar a manga da camisa em seu pulso. Esticou os braços pra ajustar o tamanho das mangas e pegou a xícara de Larissa, que tinha café. Na verdade era cevada, um tipo de café sem cafeína, pois ele se preocupava muito com sua saúde e sabia o mal que a cafeína fazia para o corpo. Como consequência todos tinham que tomar cevada se quisessem, porque, além de ser o único tipo de café que tinha na casa, era proibido que bebessem qualquer coisa que fazia mal e que Halexander não bebesse.
Assim que deu um gole da xícara de Larissa recebeu um olhar furioso dela, e em seguida um "EI!". Halexander bebericou um pouco mais da cevada e comeu uma torrada com manteiga, depois saiu quase que correndo da cozinha, pois sabia que já estava atrasado.
— Vejo vocês depois! — gritou antes de desaparecer de vez.
Nesse dia ele precisou de Cláudio, os papéis se espalhavam pelo banco do carro e alguns até caíam no chão. O lado ruim da noite do pijama é que no dia seguinte Halexander tinha trabalho em dobro. Eram contratos pra ler, papéis pra assinar, croquis pra terminar, aliás ele estava produzindo sua nova coleção, que se chamava "Estilos". A tempos que ele queria fazer uma coleção diferente das outras e das que as pessoas estavam acostumadas a ver, e Estilos veio no momento certo. A coleção era uma mistura de vários looks de diferentes estilos, cores, formatos e etc.
Assim como estava no carro, o ateliê estava uma bagunça. Todos correndo pra lá e pra cá, pedaços de panos e tecidos jogados por todo lado, e Halexander simplesmente amava tudo aquilo. O frio na barriga e a tensão lhe deixava feliz, aquilo significava que o desfile estava próximo. Pra ser mais exato aconteceria em três dias. Halexander correu para sua sala, desviando de alguém ou alguma coisa aqui e ali, Daniela o seguia, lutando pra não deixar cair as pastas que tinha nas mãos.
— Dei-me aqui os formulários das garotas, preciso estudar um pouco antes que elas cheguem — Halexander falou rápido, assim que sentou em sua cadeira. Daniela estava parada a sua frente e estava tão nervosa quanto o patrão. Ela praticamente jogou uma das pastas nas mãos de Halexander.
— Elas já estão aí — falou, ajeitando os óculos no nariz. — Elas chegaram pouco antes de você.
Halexander folheou o formulário tentando decorar pelo menos os nomes das modelos.
— Ótimo, me dê três minutos e mande a primeira entrar — falou sem tirar os olhos dos papéis.
— Senhor mais uma coisa — Daniela falou baixo, com medo de levar uma bronca por atrapalhar a concentração dele.
— Fale.
— Uma amiga sua ligou agorinha...
— Daniela, só me atrapalhe se for pra coisa séria. Agora vá por favor — Halexander falou por fim.
Os três minutos se passaram em um piscar de olhos, Halexander tinha lido e decorado tudo que pôde, mas ainda assim algumas coisas escapavam de sua mente. Levou sua mão até um objeto preto e redondo ao seu lado e apertou um botão azul nele, depois falou as palavras que fizeram um calafrio subir sua espinha:
— Mande a primeira entrar.
Não era a sua primeira entrevista de emprego, mas toda vez que acontecia era como se fosse a primeira. Não demorou muito e uma garota entrou na sala. Ela andou até a cadeira indicada por Halexander e se sentou lá.
— Bom dia — ela falou e parecia animada com aquilo. Estava tão sorridente que o branco de seus dentes atrapalhavam a concentração de Halexander.
— Bom dia... — ele falou, lutando para lembrar do nome da garota. Lembrava do rosto dela, mas seu nome insistia em não aparecer em sua mente. — Andressa! — falou quase que em um grito, assim que o nome veio a sua mente. — Então, Andressa Bianca, tudo bem com você?
— Tudo sim — ela falou, sorrindo, e aquilo já estava irritando Halexander. Ele se conteve respirando fundo e começou sua entrevista, que durou cerca de dez minutos.
Logo depois a próxima garota entrou, ela parecia uma cópia da anterior: um sorriso totalmente forçado no rosto e uma animação que irritava cada vez mais Halexander. Depois dessa mais outras cinco entraram na sala e todas pareciam ter saído do mesmo lugar, como se fossem robôs programadas para fazerem tudo exatamente igual. Assim que a quinta garota saiu, Halexander debruçou sobre a mesa e suspirou por entre os braços. Levou a mão até o botão azul e o apertou.
— Pelo amor de Deus, me diga que já acabou — falou e o som saiu abafado por causa de seus braços. Daniela hesitou por alguns poucos segundos, mas finalmente falou.
— Ainda tem mais uma.
Halexander quase gritou.
— Não acredito.
— Ela é a última — Daniela falou, antes da próxima, e última, garota entrar.
Assim que ouviu o som da porta abrindo, Halexander rapidamente levantou a cabeça e se ajeitou no assento. Assim que viu quem tinha entrado quase caiu da cadeira, mas tomou equilíbrio e conteve o sorriso, deixando escapar um pouco dele no canto da boca.
— Oi — ela falou timidamente, parada na frente dele.
Halexander se levantou e apontou para a cadeira.
— Sente-se, por favor — falou, com toda sua educação.
A garota caminhou até a cadeira e se sentou. Sua timidez era clara.
— Então, Maria Victorie Delfino, certo? — Halexander começou a falar, fingindo estar lendo o nome dela no formulário.
— Sim.
— Maria, a quanto tempo você está no ramo da moda? — ele perguntou olhando em seus olhos escuros.
— Faz apenas dois anos, eu já desfilava desde pequena, mas não era nada profissional, apenas em concursos de beleza em que minha mãe me inscrevia.
— Tenho quase certeza que você ganhava todos — ele falou sorrindo, e ela sorriu também.
— Alguns — ela comentou. Sua timidez encantava Halexander.
A entrevista seguiu normalmente, Halexander seguiu o roteiro das entrevistas anteriores, e entre uma pergunta e outra eles trocavam sorrisos e olhares. Assim que percebeu que a última pergunta havia chegado, Halexander começou a pensar em como enrolaria mais um pouco, só pra mantê-la lá por mais um tempo.
— Hã... — pensou ele, antes que pronunciasse a última pergunta, viu, através da mesa de vidro, que Maria segurava nas pernas um livro. Ele forçou um pouco os olhos e com dificuldade conseguiu ler o título "Maçã". — Nossa! Você está lendo esse livro! — e falou, quase dando um pulo na cadeira.
— Estou, e estou amando — ela olhou para o livro, levantando-o no ar, tão empolgada quanto Halexander.
— Nossa, eu simplesmente amo esse livro, eu e meus amigos amamos.
— Qual parte você mais gosta? Mas cuidado com os spoilers, ainda não terminei de ler.
— Qual parte? — ele parou e pensou, colocando a mão no queixo. — Sabe, são tantas que nosso tempo não nos permite discutirmos sobre elas.
— Já acabou a entrevista? Puxa que chato — ela falou, e sua voz saiu baixa.
Halexander pensou rápido e viu ali uma oportunidade única.
— Bem — falou, pensando na maneira certa de falar aquilo. — E que tal se nós tornarmos um café um dia desses? Assim podemos conversar melhor sobre o livro.
Maria abriu um largo sorriso, parecido com os das outras modelos, mas que não era fingido e forçado.
— Seria um prazer — respondeu por fim.
— Que ótimo! — Halexander falou tentando conter a felicidade.
— Então... Acho que já vou indo — Maria falou levantando da cadeira. Halexander foi mais rápido e quase correu em direção à porta, antes que ela chegasse lá.
— Eu mando uma mensagem pra você tá? — ele perguntou.
— Vou esperar então — ela falou, eles trocaram sorrisos e um último olhar antes que ela saísse da sala.
Halexander saltitou de volta à sua cadeira e chegando lá percebeu que seu celular vibrava em cima de sua mesa. Pegou ele e viu que recebera uma mensagem, mas não tinha o nome de quem havia enviado. Ao abrir a mensagem se deparou com as palavras:
"Gostou da surpresa?"
Ele não entendeu e até sentiu um pouco de medo por não saber de quem era, mas então lembrou o que Daniela tinha falando antes de ser dispensada por ele: "Uma amiga sua ligou agorinha", logo depois lembrou que Maria não estava na lista de garotas que ele entrevistaria naquela manhã. Havia sido trabalho de algum de suas amigas, e ele sabia exatamente quem havia sido. Pegou seu celular e digitou uns números. Depois de alguns minutos ele falou:
— Oi Jheniffer, eu sei que foi você.
Jheniffer riu do outro lado da linha.
— Do que você está falando? — ela perguntou se fazendo de desentendida.
Halexander revidou os olhos.
— Obrigado — ele falou.
— De nada amigo, vá em frente, pegue a garota, só me prometa uma coisa.
— O quê?
— Me convide para ser madrinha — ela falou rindo.
Halexander riu também.
— Pode deixar — falou por fim e então desligou o celular.
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