Estava na cama, sozinho e no escuro.

Um belíssimo aniversário, viva!

Talvez, para que tudo fizesse sentido, devesse voltar ao início do dia, quando acordou sozinho na cama onde costumava acordar com os braços de Shōto a envolvê-lo. Mas não aquela manhã.

Acordou inteiramente sozinho, as cortinas fechadas impossibilitavam que ao menos se situasse em meio ao horário por conta do céu matinal e seu sol.

— Shōto? — sentou-se na cama esfregando os olhos com o dorso das mãos. — Porra, que horas são? — tateou na cama, em busca do celular, tentando, em vão, lembrar onde o havia deixado na noite anterior. Saiu para beber com Kirishima e Denki, e pouco conseguia recordar do que diabo havia feito quando em casa. Tinha flashes, lembrava-se de um beijo, uma prensada contra a parede, ah!, sim, era no chuveiro enquanto Shōto o ajudava a tomar banho. — Shōto, porra! Cadê você?

Bateu o indicador na beirada do móvel de cabeceira e xingou, não cabia segurar palavrões, não fazia seu feitio a política da boca limpa. Acendeu o abajur, praguejou ainda mais com o clarão que invadiu a retina e feriu-a pela sensibilidade. A cabeça parecia prestes a explodir, e ele estava começando a achar que não era figurativamente.

Manteve o abajur ligado, apenas virou-o para o outro lado, deixando o lado mais escuro da cúpula que o protegia, virado para seu lado, descansando a vista de imediato.

Via tudo em pequenos borrões de preto em meio ao quarto de tons frios de cinza. Manteve-se sentado, agora os pés descansavam para fora da cama, por vezes o solado arrastava no tapete felpudo, também cinza. Pegou o celular, marcava exatas dez e dezoito, certamente havia dormido mais que a cama, sorte que tinha o dia livre, era sua folga merecida, já que era seu aniversário.

Ah sim, lembrou-de que Kaminari e Kirishima o haviam convidado para sair e comemorar, visto que ele teria o dia de folga, não contava que teria uma ressaca como aquela. E, onde diabos Shōto havia se metido?

Levantou-se, obviamente, praguejando. A cabeça parecia pesar muito mais que todo o corpo, os pés arrastavam-se no tapete felpudo e lutou arduamente contra a vontade de simplesmente se deixar cair ali e deitar por mais um tempo. Tinha o dia de folga mesmo, que mal faria? Contrariando-se, seguiu para o banheiro da suíte, tinha pouquíssima roupa a tirar, só uma calça de moletom que nem lembra de ter vestido, o intento era ter conseguido sexo, mas sabia muito bem que Shōto não relaria um dedo sequer nele, enquanto ébrio daquele jeito.

Sentia um amargo na boca e uma preguiça desgraçada.

Acendeu apenas uma das luzes do banheiro, a pouca luz que costumeiramente o invadia já estava ali, mas precisava de um pouquinho mais de luz, como movimento vicioso de seu corpo, a memória muscular sempre fazendo o que era óbvio.

Lavou o rosto, secou-o na toalha pequena próxima à pia, viu seu reflexo no espelho arredondado que tinham ali. Estava um amassado só! Resmungou um pouco mais, ininteligível enquanto deslizava a calça pelas pernas, chutando-a para perto do cesto de roupa suja logo ali, destampou a privada e, enfim, aliviou-se um pouco. A bebida brigava para sair logo de seu corpo, já que o efeito reconfortante de leveza havia passado, restava só ressaca e bexiga cheia.

O banho foi gelado, uma ducha mais que merecida para espantar a preguiça e o restante do sono, lavou os cabelos, o cheiro do shampoo de Shōto era sempre o seu preferido, havia optado por usar o dele, muito embora ainda comprasse seu antigo shampoo quando faziam as compras do mês.

Enrolou-se na toalha, e foi apenas assim até a cozinha. A casa estava vazia, não tinha uma movimentação sequer, sabia que estava mesmo só. Esfregava os cabelos com as mãos, retirando o excesso de água, deixando rastros dos pés por todo corredor.

A cozinha, branca como uma nuvem, mas com detalhes em preto, estava bem iluminada, as amplas janelas deixavam a luz natural entrar, acender as luzes seria desnecessário, então seguiu até a ilha, um prato tapado o esperava, junto a um cartãozinho escrito a mão.

“Espero que esteja melhor, as aspirinas estão no armário ao lado. O café, vai precisar esquentar.

Shōto”



Destampou o prato encontrando seu café da manhã, sorriu imaginando Shōto acordando mais cedo para preparar tudo antes de sair, o que era gracioso, desnecessário, mas gracioso. A verdade era que Shōto era um péssimo cozinheiro, mas o amor além de cego parecia ter estômago reforçado!

O café estava na cafeteira, precisou apenas ligá-la para aquecer o líquido escuro que nela havia. Sentou-se numa das banquetas na ilha quando retirou o prato do microondas, garfada após garfada, alimentou-se meio a contragosto, o café estava bom. Mas também, quem conseguiria errar a mão no café?

Teve o dia livre. Bem, ao menos partes dele, como seu café da manhã em silêncio. No almoço encontrou-se com Mitsuki e o pai, obviamente sua mãe não o deixaria sossegado no dia do aniversário, alegando que ela deu à luz a ele, tinha direito de comemorar o aniversário com ele, claro!

Mitsuki escolheu o restaurante preferido de Bakugō, e claro, já havia feito a reserva sem sequer o consultar. Uma mudança de última hora, quando Bakugō notou que tinha uma cadeira a mais, a de Shōto.

— É sério, Shōto, atende essa merda! Eu não vou te deixar dormir na cama se você não aparecer nesse restaurante em 15 minutos, no máximo! — rispiu virando o rosto enquanto falava ao telefone, deixando uma mensagem na caixa postal de Shōto, sabendo o quanto ele odiava notificações acumuladas.

Ligou todo o almoço, enquanto Mitsuki o agarrava pelo pescoço para as malditas selfies em família, sentindo-se esmagado, acolhido demais e por outro lado: abandonado.

Claro, Shōto até mesmo havia preparado o café, mas fora isso, havia sumido sem deixar sinal.

A tarde, bem, um pouco mais tranquila que o almoço, mas ainda solitária. Olhou o apartamento, os cômodos vazios, a sala com o brilho do sol de 4 da tarde. Precisava de mais um banho, enfim responderia as mensagens dos amigos, Mina havia mandado — sem brincadeira — 15 mensagens, todas em caixa alta, pelo o que Katsuki pode notar conforme chegavam as notificações. Izuku havia mandado uma, assim como Iida, Momo e a Cara de Bolacha. Jirou mandou um áudio, Kirishima também, vários!

Quando enfim terminou de responder tudo, viu-se na cozinha pegando algo na geladeira, a ocasião pedia uma comemoração, 30 anos. Como o tempo havia passado rápido, lembrou-se do primeiro aniversário que comemorou com Shōto, estavam no estágio com Endeavor, naquele dia em especial choveu bastante, ficaram por horas de tocaia sob as marquises dos altos prédios, as chamas de Shōto aquecendo a noite que vinha fria pela chuva. Bakugō ainda lembrava do toque receoso dos lábios aos seus, e das mãos em sua cintura, prensando-o contra a parede fria, que tão logo não era mais percebida, não quando o corpo de Shōto prensava-se ao seu em meio ao beijo tímido que aos poucos tornava-se voraz.

Tocou os lábios com as pontas dos dedos, destampou a garrafa e serviu-se no gargalo, long neck servia para aquilo afinal, não é? Uma bebida rápida e gelada. Claro, tinha muito mais graça quando compartilhada com os amigos, ou até mesmo com Shōto e sua careta para o gosto de cevada que ele simplesmente não conseguia gostar.

Lembrou-se de todos os outros aniversários ao lado de Shōto, estes programados para passar com ele, e não por uma coincidência de trabalho.

O esforço de Todoroki ao chamá-lo para um piquenique, levando consigo uma cesta e toalha xadrez. Tantos outros também, o jantar onde Shōto propôs que dessem um novo passo naquilo, não que fosse mudar muito, apenas colocaram os pingos nos is. Saíram daquele jantar cientes de que estavam mesmo namorando.

Bakugō também lembrou do aniversário de 5 anos atrás, onde Shōto o levou para a costa, ajoelhou-se na areia macia enquanto o sol se punha e revelou as alianças na caixinha felpuda.

Maldito, pensou. Me acostumou a passar o aniversário ao seu lado, pra sumir sem deixar rastros, filho da puta!

Pediu comida, não estava no clima de ficar de pé na cozinha para preparar nada. Trocou a cerveja por vinho, a bebida que Shōto tinha e maior estima, escolheu uma garrafa das boas, se ele não estava presente, que o bom gosto estivesse, ao menos.

Sentou-se na sala, escolheu alguma porcaria qualquer na TV para passar o tempo enquanto o delivery não chegava. Odiou admitir, mas até mesmo Mitsuki falando alto seria melhor que o silêncio desconfortável no qual se via. A tv não servia para trazer o toque de lar para aquela casa, não sozinha.

Comeu, bebeu… tudo inteiramente sozinho.

Pegou o celular: nada.

Shōto sequer havia dado sinal de vida, e isso estava começando a ficar muito estranho. Ligou de novo, caixa postal. Deixou mais um recado.

Mudou o canal. Haviam notícias sobre prédios em estado de vigia, devido ao incidente recente causado por uma briga entre pró-heros e vilões. Nada que o cativasse no momento, se fosse sério, seu celular teria apitado, era certo. Desligou a TV e seguiu para o quarto, levando a taça e a garrafa, deitando-se na cama macia e de lençóis brancos. Não notou quando fechou os olhos, não notou quando Shōto chegou.

— Bakugō… — sentiu algo em suas pernas, uma mão o sacolejando. Resmungou. — Acorda, querido, feliz aniversário.

Filho da puta!

Não perdeu a oportunidade de agarrar o travesseiro mais próximo e jogá-lo no que pensou ser a direção onde estava o rosto de Shōto, logo sentando-se na cama, pronto para mandá-lo à merda e ir dormir na sala. Mas calou-se no instante que viu o pequeno bolinho na mão de Shōto, a vela apagada tão logo fora acesa pelo indicador em chamas de Shōto.

— Desculpa, fiquei fora o dia inteiro, meu telefone acabou a bateria e nem se eu achasse um carregador pra ele… — tirou o celular do bolso, um sorriso sem graça adornava os lábios enquanto estendia o aparelho quebrado e levemente deformado. — Talvez não aguentasse altas temperaturas.

— Onde você estava, porra?

— Passei na casa do meu pai, você sabe, e então fui à agência, enquanto estava lá pequenos incidentes aconteceram por toda a cidade, e me propûs a ajudar, nunca falta serviço, no último o prédio que sofreu avarias mais graves, é um orfanato, estava vazando gás e como meu telefone ficou assim… dá pra ver que a coisa não ficou bonita. Mas estou aqui. Assim que consegui corri pra casa, passei na sua confeitaria preferida antes, mas não tinha bolos prontos, só esse pequeno aqui que podia ser confeitado, então… Feliz aniversário.

Ele queria ladrar, exatamente isso, ladrar. Acontece que, cão que ladra não morde, e Bakugō mordeu. Mordeu a bochecha de shōto ao se jogar nos braços dele. O bolo quase caiu.

— Seu filho da puta, eu fiquei preocupado com você, e pior, almocei com meus pais sem você lá pra manter tudo calmo.

Shōto sorriu, conhecia bem o jeito de Bakugou , havia se casado com ele, afinal. E sabia que ouviria, não só naquela noite, mas por muitas semanas. Bakugō nunca esquecia. Mas valia a pena cada segundo ao lado daquela criatura explosiva e de sangue quente. Fosse enquanto via-o apagar a vela berrando para que ela morresse, fosse mordendo o bolo na pura raiva, ou fosse beijando-o logo após. Valia a pena cada segundo comemorar o aniversário de 30 anos de Bakugō, e seus 4 anos de casados.

— Prometi que sempre passaria os aniversário com você, os seus… e os nossos, então.

Era uma promessa que Bakugō sabia, Shōto jamais deixaria de cumprir.

Claro, o expulsou para a sala como havia prometido na ligação, mas não tardou a seguir para lá também, querendo um pouquinho de carinho e atenção, sem admitir, era certo. Mas muito mais completo com Shōto em casa para comemorar com ele, como tinha que ser.

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