Happy New Year
1 O monstro da árvore mais alta
Notas iniciais
Os Matteo eram uma família muito bem desenvolvida financeiramente, de pessoas belas e gentis. Entre todos os seus membros, quatro em especial serão notados aqui e agora. Seus nomes são Felicity, Meredith, Miles e Ariana. Eles eram alguns dos mais novos da família. Todos tinham entre dez, onze e treze anos quando tudo aconteceu. Foi tudo friamente calculado. Foi tão surpreendente a artimanha que estes pequenos fizeram na noite do dia 31 de dezembro.
Andrey e sua esposa Augustinny tinham combinado de ir viajar com as duas filhas no final do ano. As passagens já haviam sido reservadas e as pequenas Fê e Dith estavam ansiosas.
— Como estão queridas? – Augustinny era uma mulher jovem, de pele clara e cabelos castanhos lisos e cacheados nas pontas. Dona de um sorriso encantador, que deixava Andrey mais apaixonado a cada dia que passava.
— Muito bem, mamãe! – Respondeu Meredith que tinha grandes e volumosos cachos ruivos, diferente da irmã que tinha cabelo castanho claro. Meredith era mais animada, risonha, vivia sempre pulando e brincando. Enquanto Felicity já era um pouco mais tímida, intercalada, se relacionava mais com a mãe.
Com tantas diferenças, elas se davam muito bem sim.
— Precisamos ir querida, o nosso voo é daqui à uma hora. –Andrey surgiu na porta, ele tinha cabelos escuros, olhos castanhos e tinha recém feito a barba.
Depois de algumas horas, eles já estavam em solo inglês e foram recepcionados pelos avós e tios que já moravam lá.
A primeira noite na Inglaterra lembrava muitas coisas a Felicity. Ela se lembra de muitas coisas dos um aos três anos, tempo que passou na Inglaterra antes de ir para o EUA. A casa que pertencia aos Matteo era de madeira, era antiga, mas não mostrava muitos indícios disso. O quarto das crianças tinha uma janela enorme de ferro prata, que dava para a rua. Lá ficaria Felicity, sua irmã e mais dois primos.
Um dia após a chegada de Felicity e sua família, os primos dela – Miles e Ariana – chegaram com seus pais. Eles se abraçaram afinal já não se viam há anos. A família Matteo se distanciou, estão um pouco em cada parte do mundo, mas sempre se encontram quando podem, e seus primos moravam na Irlanda. Miles tinha treze anos, era o mais velho de todos. Ariana nasceu já na Irlanda e fala apenas seu idioma.
— Felicity! Meredith! Como é bom ver vocês! – exclamou Miles – Essa é minha irmã, Ariana.
As garotas se entreolharam.
—Ela disse que é um prazer conhece-las. Ela não fala inglês.
— Ah, sim, é um prazer conhece-la também. – disse Felicity.
— Como vamos falar com ela?
— Eu não sei. Ela já devia ter aprendido nossa língua. – Miles disse, desapontado – Ariana tem mostrado muita dificuldade com outra linguagem. Isso não é comum em nossa família. Temos tantos parentes brasileiros, americanos, irlandeses, etecetera...
— Ela só tem dez anos, ela aprenderá logo. – Augustinny apareceu no meio da conversa e abraçou Miles e Ariana.
Meredith achava um pouco injusto. Elas já tinham onze anos e apenas Miles sabia outra língua além dos adultos. O que haveria de errado com elas?
Na hora do café da tarde, eles se reuniram no quarto onde conversaram:
— Eu sei um lugar muito legal pra gente passar a noite de réveillon.
— Você está ficando louco, Miles? É óbvio que iremos passar com nossa família no salão!
— Não, eu tô dizendo um lugar só pra gente. Sem adultos mandando a gente dormir cedo ou coisa do tipo. A gente vai pra lá, aproveita os fogos e depois voltamos e vamos pro quarto como se nada tivesse acontecido. Eu já passei o plano pra Ariana e ela concordou.
— Mas... Aonde você quer ir, Miles? –Indagou Felicity. Ela havia gostado da ideia. Realmente queria ver os fogos.
— Lá na floresta, tem uma árvore enorme que tem uma vista bem melhor do que a da nossa janela. –Miles apontou para a janela de ferro.
— Isso é loucura! Somos crianças, não podemos ir sozinhas para uma floresta à noite! E se a gente se perder?-Meredith de algum modo queria evitar aquilo. Com toda a sua insanidade, ela sabia que isso não era bom.
— Levamos lanternas, além do mais, não ficaremos mais do que dez minutos. Quando os fogos pararem, nós descemos e voltamos.
— Não é porque você é o mais velho, que pode por a nossa vida em risco! Não é verdade, Felicity? –Ela tentava ao máximo convencer alguém.
— Sinto muito, sister. – Felicity começou – mas eu estou com Miles nessa. Eu quero ir.
— Estão todos loucos!
— Isso é medo, Meredith? Até Ariana que tem dez anos está animada para ir.
— Não me provoque Miles, isso é perigoso!
E assim, faltava apenas uma hora para o ano novo.
— Está tudo aí? –Miles dizia, seus olhos azuis ganhavam destaque à noite.
— Não sei, vou checar... – De certo modo, Felicity se sentia culpada por não apoiar a irmã. Mas ela achou esta ideia legal, apesar de ser bastante influenciada por Miles.
Foi até a sala de estar onde Meredith estava sentada com um vestido azul musgo, os cachos volumosos como sempre cobriam lhe cobriam o rosto e ao se aproximar da ruiva, ela pôde ver os olhos marejados.
— Tudo está pronto, Dith. Vamos?
— Não quero ir... – Ela disse baixinho.
— Por que não? –Felicity sentou-se ao lado dela.
—Quer saber? Eu tenho medo, sim! Tenho medo do que pode ter naquela floresta, nós somos muito pequenos Felicity!
— Não se preocupe. Provavelmente Miles vai tentar nos assustar, mas não há nada a temer lá.
—Eu ouvi boatos...
—Que boatos?-Miles entrava bravo na sala de estar. – Do que vocês estão falando?
—Boatos de que algo assombra aquela floresta! Algo muito ruim!
Miles e Felicity caíram na gargalhada.
—Do que você está falando, Meredith? Tem um monstro lá? Hahahaha!
— Por favor, Dith! Pare de inventar coisas e vamos logo. –Felicity ria alegremente, mas eles não sabiam o que os esperava na escuridão da floresta.
Eles brincaram um pouco para que os adultos tivessem a impressão de que eles estavam apenas se divertindo, e quando parecia tê-los despistado, um a um foram entrando na floresta.
Forest Sorentour
Já na floresta, nada era ouvido se não os passos dos jovens.
— Fica muito longe essa árvore, Miles? – perguntou Meredith, já irritada.
— Não muito. Agora me sigam.
Enquanto caminhavam, Felicity viu algo de estranho no chão, e iluminou com sua lanterna.
— Psiu! Olhem aqui! – O que a garota de onze anos iluminou era uma pegada. Muito grande. – De que animal será que é?
— Animais? Eu não sabia que tinham animais nesta floresta! – Meredith disse – você sabia, Miles? – a garota disse em um tom debochado.
— É claro que sabia! Mas eles geralmente ficam escondidos nessas horas porque sabem que estamos em épocas de fogos! Nada a se preocupar...
— Hum... Vamos andando então.
Um pouco mais depois, alguns barulhos nos arbustos são escutados e a pequena Ariana ilumina uma coisa estranhamente peluda e grande, parecia ser gosmenta que logo foge da luz. A garotinha então, grita:
— O que ela está dizendo?! – perguntou Meredith.
—Ariana. – Miles acalmou a pequena – Ela acha que viu um monstro.
— Quê?! – As garotas falaram em uníssono.
— Ela apenas está imaginando coisas, okay?! – Miles disse, irritado e todos ficaram quietos depois.
Finalmente chegaram a árvore, assistiram os fogos de artifício e estavam descendo, quando...
— Viram? como é bonito aqui?
— E não aconteceu nada, realmente... – Felicity disse aliviada.
Meredith sorriu torto.
Eles estavam descendo quando ouviram passos rápidos vindo em sua direção, e alguns grunhidos. Miles arregalou os olhos e fez um sinal de ‘silêncio’ para as primas e tapou a boca de Ariana, enquanto desligava as lanternas.
Estava muito escuro e denso na floresta, mas lá de cima elas viram uma coisa horrível. Era peludo, respirava com uma grande quantidade de ar, um fedor estranho emanava, tinha pés grandes e chifres. Era terrivelmente monstruoso. Depois que a coisa saiu de perto, eles desceram em silêncio.
— Corram! – disse Miles baixo, mas logo ouviram os passos da coisa novamente — É sério! Corram mesmo!
— Eu sabia que o boato era real! Sabia! — Meredith era ótima em corrida – Dá a mão, Fê! Vamos correr!
Todos correram, até que Ariana caiu no chão.
— Miles! –gritou.
— Ariana! — Miles parou de correr e voltou, as meninas não pararam e quando enxergaram, já estavam perto de casa quando Meredith parou.
— Fê, volta pra casa e chama por ajuda. Eu corro mais rápido, eu vou voltar.
— Eu a-admiro muito você querer ajudar nossos primos mas você pode se perder! E o monstro pode encontrar você! – dizia desesperada Felicity.
— Não se preocupe comigo. Eu corro rápido e tenho uma lanterna.
— Eu tenho medo, Dith.
— Seja forte. Eu vou lá. – Meredith abraçou a irmã, e entrou na floresta.
Já Felicity foi para casa, e gritou por ajuda. Logo o pai, o tio e um primo mais velho entrou na floresta. Enquanto ela era acalmada pela avó, a tia e a mãe.
— Calma, meu amor. – disse Augustinny – o que aconteceu direito...?
— Foi.... Foi assim... – ela começou a contar tudo, e no outro dia repetiu para a polícia.
Nada foi encontrado além da lanterna de Meredith e Miles e o sapato de Ariana. Eles foram dados como mortos pela polícia depois de alguns meses de busca. Eles até acharam que as crianças haviam se perdido, mas era muito estranho apenas a garota ter conseguido voltar, e ela nem tinha uma lanterna!
O pai de Felicity se entregou ao álcool, Augustinny desenvolveu vários problemas psicológicos pela perda da filha e eles nunca mais voltaram a falar com Gracie e Sam (pais de Miles e Ariana). A família nunca esqueceu daquele dia, e Felicity levou por muitos anos a culpa.
6 anos depois
As coisas estavam sendo difíceis. Ela ia ao psiquiatra várias e várias vezes por semana.
— Minhas mãos tremiam. Eu não conseguia comer, eu não conseguia dormir. Não depois daquele dia.
Faria seis anos que as crianças haviam desaparecido, e os avós de Felicity acharam que seria boa a família se reencontrar para tentar passar o ano novo juntos. Felicity tinha dezessete anos já, mas ainda sim, sentia-se culpada. Depois de se arrumar, ela passou pela cozinha quando ouviu o desabafo de Gracie.
— Meu Miles! – dizia a mulher, que chorava- ele devia ter vinte anos agora! E minha frágil Ariana... Dezesseis! É tudo culpa dela!
— Acalme-se, Gracie. Felicity não tem culpa de nada!
— Então me diga porque só ela está aqui? Porque meus filhos estão mortos? Porque?! Felicity devia estar morta! Morta! – gritou.
Felicity entrou em passos lentos na cozinha — Eu também acho, tia.
Gracie ficou pasma. Ela não sabia que estavam escutando a conversa.
— Espere, querida.... –disse sua vó.
Mas ela não ouviu. Felicity correu, atropelando parentes, ela sabia o que tinha que fazer. Onde tinha que estar. E lá foi ela...
— Mas espere, onde está Felicity? – disse Augustinny, perguntando ao cunhado, ela não sabia do ocorrido ainda.
— Eu não vi a sua filha agora, Tiny. Ela deve estar se arrumando.
Augustinny subiu as escadas para procura-la, mas ao entrar no corredor não resistiu... Entrou no velho quarto das crianças, onde havia uma pequena carta.
A culpa é minha.
Felicity.
Augustinny desceu desesperada, ela ficou sabendo da conversa de sua irmã e sua mãe logo depois, ela não queria perder mais uma filha.
Enquanto isso, no meio da floresta, Felicity estava com o coração apertado. Tantas lembranças! Até que, quando viu a grande árvore, ela pode ver que tinha mais seres se aproximando.
Miles. Ariana. Meredith. E o monstro que os levou embora. Eles estavam terrivelmente desconfigurados... Mas Felicity não se importou se fosse virar um deles, aliás, aqueles monstros nada mais eram do que seus únicos amigos.
Ela sorria naquela hora.
Nunca ninguém entendeu o que realmente aconteceu, pois agarota desapareceu e não foi mais vista. Augustinny e seu marido prometeram que nunca mais colocariam os pés na Inglaterra. Um jornal inglês até publicou uma notícia sobre desaparecimentos na floresta, avisando para as pessoas não andarem lá a noite, haveria um maníaco na floresta, que era o tal monstro?
A verdade é que Felicity estava em paz. Ela não tinha mais culpa. Aliás, sempre soube que o uma hora, ela soltaria o pequeno monstro que havia dentro de si.
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