Hanasu
1 Hanasu
Notas iniciais
Shikadai chegou em casa e tirou os sapatos como fazia habitualmente. Ele murmurou um Tadaima sem muita empolgação e foi direto para o quarto, sem passar pela sala, onde seus pais estavam sentados, tomando chá.
Temari olhou para Shikamaru, com uma expressão preocupada. Obviamente precisou ser mais específica para que o marido notasse sua inquietação quanto ao comportamento do filho adolescente.
Ela pigarreou, mas Shikamaru ainda estava com os olhos preguiçosos sobre um livro, como se ela acreditasse que o marido estava realmente lendo alguma coisa, já que seus olhos nem se moviam para tal.
— Você vai continuar fingindo que não me ouviu? — Ela perguntou, os olhos cintilando de raiva.
— Hmm... eu estou lendo. — Shikamaru respondeu, erguendo a cabeça e olhando a esposa. — O que houve?
— Seu filho está muito estranho. — Ela proferiu, cruzando os braços. — Não ouviu?
— Ouvi o que?
— Ora, Shikamaru, em que mundo você vive? — Temari esbravejou, erguendo a mão e apontando na direção da porta que dava para o corredor. — Shikadai está estranho e eu quero que você vá falar com ele.
— E porque eu? — Shikamaru passou a mão no pescoço, refletindo. — Você notou que ele está estranho, então poderia ser mais eficiente que conversasse com ele.
— Não interessa, somos um time, não somos? — Temari pegou a xícara de chá e bebeu. — Agora vá descobrir o que está incomodando nosso filho e venha me contar depois com todos os detalhes.
Shikamaru analisou a expressão de Temari, compreendendo o que estava acontecendo. Já fazia algum tempo que o filho estava mais distante, principalmente com a mãe. Mas era natural, sendo ele um rapaz de quinze anos, não se abrir para os pais e falar seus problemas ou contratempos que atravessam a sua juventude.
Crescer era uma fase difícil, principalmente quando, as vezes, você é tratado como criança, em outras vezes esperam que você seja responsável. E sendo um ninja, eles precisavam lidar com todo o tipo de sentimento que nessa fase era mais confuso.
Shikamaru passou por todas essas fases, e talvez foi pior, pois perdeu o sensei, o pai e amigos durante a Guerra.
Já devia ser complicado demais lidar com isso, imagina ter que responder perguntas constrangedoras dos pais? E Temari não queria ser aquela que incomodaria o filho em seu quarto, perguntando o que se passava com ele. E, levando em conta que Shikamaru e Shikadai tinham algo em comum, ela acreditava que se ele fosse a melhor alternativa para conversar com o filho e obteria mais sucesso.
— Yare, yare. — Shikamaru se levantou, deixando o livro que lia sobre a mesa. Temari o olhou, com um sorriso doce nos lábios. Era incrível como ela poderia ser assustadora num momento e no minuto seguinte esboçar carisma com o olhar.
Ele caminhou pelo corredor, até a porta do quarto do filho, solicitou a entrada, mas não obteve resposta. Pensou em voltar para a sala, mas era capaz de Temari o arremessa para fora da janela caso não retornasse com alguma informação relevante.
Sendo assim, Shikamaru empurrou a porta, dizendo que estava entrando. Ele encontrou o filho deitado no futon, com os cabelos castanho escuro espalhados pelo travesseiro. Um braço repousava sobre seu rosto, escondendo os olhos, enquanto o outro braço estava esticado sobre o futon segurando uma folha com um desenho.
— Eu ouvi a mamãe falando. — Shikadai falou, antes que o pai pudesse perguntar alguma coisa. — Não se preocupem comigo, eu estou bem.
— Que problemático. — Shikamaru tinha as mãos na cintura, analisando o filho deitado no futon, parecia pior do que imaginava. — Você sabe que se eu for para a sala agora, não vai saciar a curiosidade da sua mãe essa resposta.
— Pai, eu estou bem. — A voz dele era séria, mas ainda não havia tirado o braço que lhe tampava a região dos olhos. — Apenas fala para ela que eu quero ficar sozinho.
Shikamaru abaixou-se e sentou sobre as próprias pernas no chão do quarto. O ambiente era um lugar simples e bastante organizado. Possuía uma escrivaninha encostada na mesa e os objetos guardados nas gavetas, sobre a mesa apenas um abajur e uma resma de papel. As paredes, em sua maioria, eram de painéis cor de ocre e madeira, mas havia uma única parede que possuía cartazes de jogos de videogames que Shikadai gostava de jogar.
— A sua mãe está preocupada. — Ele começou a falar, observando a reação nula do filho. — E eu aprendi a dar valor ao sexto sentido dela, por isso estou aqui. É embaraçoso, mas você pode se sentir a vontade de falar comigo, sobre o que quiser falar.
Ele deu alguns minutos para Shikadai, então o rapaz sentou no futon, estendendo a mão e mostrando o desenho. Shikamaru pegou o papel com as duas mãos. Era um desenho do rosto do filho, muito bem feito, por sinal. E aquele traço era conhecido também, sem dúvida fora feito por Inojin, seu colega de equipe.
A princípio, Shikamaru não entendeu porque um desenho estava incomodando o filho. Contudo, olhando novamente o desenho, ele notou que havia um certo interesse em captar algum momento específico, já que o olhar de Shikadai era direcionado para cima, concluindo que ele estava olhando para o céu.
Shikamaru olhou para o adolescente a sua frente. Os olhos dele estavam levemente caídos para o futon e as maçãs do rosto enrubescidas. Os cabelos soltos iam até os ombros dele, Shikadai passou a mão jogando os fios para trás, segurando a mecha de cabelo, enquanto dobrava uma das pernas.
— É constrangedor demais falar disso com os pais. — Shikadai suspirou, soltando os cabelos, pousando as mãos sobre o futon. Ele possuía os olhos agora fixo no desenho, com uma expressão em conflito ao qual seu pai conhecia muito bem, pois passara por isso na juventude. Assim como viu seus amigos passarem pelo mesmo dilema.
Mas não poderia simplesmente diagnosticar o filho apenas com uma expressão.
— Você não gostou do desenho? — Shikamaru perguntou.
— Claro que gostei, ele desenha bem. — O garoto suspirou. Shikamaru devolveu o papel para o filho, que admirou o desenho novamente. — Ele fez esse desenho hoje mais cedo, estávamos perto da cachoeira, sozinhos. Daí o Boruto chegou com os outros...
— Você gosta de Inojin? — Shikamaru tinha as mãos sobre as pernas, enquanto Shikadai virava o rosto, resmungando alguma coisa, mas não negou a pergunta que ele fez. — Ele é um rapaz muito bom. Se você não gosta dele, por favor, devolva o desenho, os sentimentos das pessoas são preciosos e nós não podemos brincar com eles.
O longo suspiro de lamentação de Shikadai era o bastante para o mais velho entender que havia mais coisas acontecendo.
— Eu não estou enganando ninguém. Inojin me deu o desenho porque eu pedi, ele não sabe... — O adolescente calou-se, antes que se comprometesse mais naquela conversa. Mas sabia que o pai já havia compreendido do que ele falava. — Não conta para a mamãe, eu não estou a fim de responder as perguntas embaraçosas dela.
— Esse é o tipo de coisas que você não vai conseguir esconder da sua mãe por muito tempo, vai por mim. — Shikamaru passou a mão no pescoço. —Mas não se preocupe, eu não vou falar nada. — Shikamaru se levantou e antes de sair do quarto, olhou novamente para o filho. — Eu sei que é constrangedor falar sobre isso, mas eu estarei sempre aqui para te ajudar.
— Obrigado, pai. — Shikadai voltou a deitar na cama, com o desenho ao seu lado.
Shikamaru fechou a porta do quarto e foi até a cozinha, encontrou Temari cortando os legumes para a sopa que ela iria preparar para o jantar. Ele pegou uma faca e começou a ajuda-la a descascar as cenouras.
— E então, como foi a conversa? — Ela enfiou a faca na tábua de cortes e encarou o marido. — Foi muito rápido, por sinal.
— Ele está bem, não se preocupe.
— Shikamaru... — A voz dela possuía um tom de alerta, o olhar felino, aguardando uma resposta.
Ele suspirou.
— Problemas amorosos. — Disse, por fim. Mas ele não esperava que Temari comemorasse aquela resposta. — Como é?
— Eu estava preocupada se esse dia nunca iria chegar. Você também não acha que é um alívio finalmente nosso filho sair um pouco para namorar e se divertir, sem ser para ficar com a cara grudada naquele videogame? Algo que não tivemos oportunidade de fazer na nossa época.
Shikamaru ponderou o que a esposa dizia. Era um pouco verdade, visto que eles tiveram um início complicado com Suna e Konoha em batalha, fizeram a aliança shinobi, lutaram na guerra e finalmente puderam ter um primeiro encontro. Foi constrangedor e confuso, Shikamaru não tinha o pai ou Asuma para lhe dar conselhos sobre o assunto.
— Mas ficamos juntos, não é? — Ele perguntou, terminando de cortar as cenouras.
— Sim, mas demorou demais para você tomar a iniciativa. — Ela deu um sorriso, piscando o olho. — Agora você precisa dar bons conselhos para o Shikadai, na verdade, eu vou dizer o que você tem que falar para ele. Estava conversando com Ino esses dias, e ela me falou que o Inojin não gosta muito de conversar sobre assuntos relacionado a romance com a ela, o problema é que Sai deu um livro de presente para ele e, bem... longa história.
Shikamaru tinha a sobrancelha arqueada, sem saber até onde iria aquele assunto.
— Não é melhor esperar ele vir e falar comigo quando estiver se sentindo a vontade?
Ela o olhou seriamente, com as mãos na cintura.
— Como ele fez hoje? — Temari reuniu os legumes cortados para colocar na sopa.
— E o que exatamente você quer que eu diga para ele? — Shikamaru foi vencido, pois sabia que não havia como lutar contra a ventania que era a esposa.
— Que ele precisa ser gentil com a namorada, levar flores para ela no primeiro encontro, e elogiá-la sempre.
Shikamaru pensou se aqueles conselhos ajudariam o filho com Inojin de alguma forma. Flores não faltavam na casa dos Yamanaka, mas a parte de ser gentil e elogiar poderia ajudar. E com aquela conversa, Shikamaru admirou Temari, ela estava sempre ocupada, seja com alguma coisa importante no Clã, na casa ou com a família. Possuía ainda o trabalho como kunoichi, mesmo que suas missões tenham reduzido com o passar dos anos, mas ela era uma importante ligação entre Suna e Konoha, e possuía grande influência ainda no país de nascença.
Ele se aproximou da esposa e a beijou no rosto.
— Você está linda hoje. — Confidenciou, abraçando-a.
— Eu vou acabar me queimando. — Temari disse, afastando-se do fogão. Ela se virou e o beijou. — Parece que esse assunto de romance está sendo bem produtivo para os homens dessa família.
Shikamaru pensou que sim, mas esperava que o filho tivesse também a sorte de ser correspondido da mesma forma que ele era.
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