Hanahaki byou

1 capítulo único- entre jasmins


Notas iniciais
história singela em comemoração a um momento especial de minha vida. Sem mais delongas.

Era jovem, tão jovem que sequer tinha consciência de sua existência e só conhecia os entornos de sua casa e o amor de seus pais, até sua entrada em uma escola simples e próxima de sua residência de forma a ser mais conveniente. Não foi um período ruim, o mundo se expandia para ela enquanto ela crescia saudável, brincalhona e falante mesmo com grandes implicâncias era feliz, pouco importava a estética amava a vida que tinha e cada nuance de sua rotina.

Foi oradora de sua turma no ensino básico, gostava de ser boa na leitura, aplicada com prazer nas matérias bem como no ensino de sua segunda língua, a aula de ballet – que logo foi deixada- e ao judô. Rotina era longa e moldava o carácter da pequena. Agora porque relatar tudo isso? Para quê quebrar a barreira e me dirigir diretamente ao caro leitor de tão simples palavras? Caro amigo, verás a pia influência do meio e na formação dos seres dessa narrativa em especial na senhorita, visto que o foco narrativo se centra nessa, creio ser relevante para entendermos cada nuance dessa história.

Os anos passaram, aquilo que era um lar se tornava frio, a menina sorridente aprendeu as primeiras dores da perda, os estudos foram perdendo o sentido na mesma proporção em que os primeiros sinais de mocidade a arrebatavam, além do pueril corpo rechonchudo começar a ganhar contornos de moça e foi nessa fase, aos 13, quando ela já tinha quebrado o nariz do rapaz que ousou roubar seu tão sonhado primeiro beijo, que ela o viu pela primeira vez, os olhos mais puros e castanhos que ela já vira rindo enquanto contava alguma vantagem sobre futebol em uma roda de amigos que ela conhecia bem, seus passos bambearam e a saliva se deteve em sua glote eis meus caros, que se iniciava uma batalha interna dentro da outrora pequena.

Sabia que ele estava em sua turma, nunca o tinha olhado porque seu grupo de convívio social sentava a frente tentando assimilar algo das aulas enquanto o do rapaz ficava ao fundo e em uma classe de 50 jovens alvoroço não faltava que a impedisse de sair de sua zona de conforto, mas nunca a impediu de olhar com uma curiosidade primitiva que lhe subia do umbigo não havia a quem confessar tal desconforto tão forte e anormal, durante essa fase sua avó, conhecedora de tantas histórias sempre estava em sua casa nos fins de tarde próximo ao jasmineiro a sombra das árvores do quintal lhe ensinando as ervas úteis para cada mal estar e também perfumes com ervas de cheiro, rosas e jasmim, conhecimento bem aproveitado pela garota que adorava pensar em sua fértil mente que talvez ao passar o perfume atraísse o olhar daquele a qual ela julgava uma incógnita ambulante.

A ideia de platonismo já lhe era clara, o mundo das ideias e o mito da caverna já lhe tinha sido apresentado mas seu íntimo insistia para tentar chegar mais perto, foi quando em um dado intervalo enquanto todos os alunos desciam para lanchar e jogar algo na quadra, que o peito dela encheu-se de coragem e ficou na sala caminhou até a mochila do rapaz e atreveu-se a admirar mais de perto as coisas do rapaz-charada, os dias decorrentes da mesma forma foram ate que ao final da semana ela ganhou uma dose extra de coragem e cheirou uma blusa que se encontrava na mochila do garoto, qual foi a surpresa ao sentir o leve amadeirado ao fundo do que seu olfato julgou ser semelhante a jasmim?! Era um cheiro viciante que a deixava apreensiva para que os intervalos chegassem logo para ter aquele cheiro impregnando suas narinas, quando não havia blusa a mochila lhe servia, isso durou até trancarem a sala e ela ter de voltar ao zero.

Os trabalhos de escola são marcantes ela sempre ficava na expectativa de cair no mesmo grupo, o que dificilmente acontecia mesmo ao ouvir a voz ainda infantil do jovem ao longe lhe acalantava o coração, não era tola de imaginar que aquilo era outra coisa se não um interesse que passaria ao conhecer pessoas mais interessantes quando fosse a época oportuna.

Quando surgia a oportunidade de cheirar a mochila do garoto ela o fazia com o prazer de quem degusta uma ambrosia, com a ânsia de um antigo vício, contudo ela foi pega por uma das moças de seu grupo justamente aquela que seria a mais próxima e também a mais inoportuna com as palavras por pura ingenuidade, não demorou para que acontecesse de amigos ocasionalmente os deixassem a sós no qual a conversa não saia da superficialidade, foi quando em um desses momentos a tarde em um diálogo informal ele tinha sorrido, aquele sorriso com os olhos os quais a menina sentia derreter o estômago e sua cabeça explodir na completa incapacidade de formular uma frase coesa que ele tocou seu braço beijou seu rosto e se despediu que ela sentiu, era como se algo lhe subisse o estômago e quisesse sair, correu para o banheiro e ao fechar a porta a única coisa que saiu de sua glote foi algo branco semelhante a uma pétala, uma pétala de jasmim.

A cada instante de proximidade ela sentia aqueles mal estares e os ignorava, pensava ser algo bobo até ter uma conversa com suas amigas sobre gostar e nessa foi citado que era evidente sua paixão, suas bochechas tingiram-se de rubro vermelho e com toda veemência que sua pouca idade lhe permitia ela negou e disse ser apenas curiosidade, e amigos leitores ao ser tomada de assalto pela ideia de que o rapaz talvez se apaixonasse por outra moça a qual sentava próximo ela simplesmente correu ate o andar abaixo e caminhou determinada pela coragem que o ciúmes lhe dera se dirigiu em tom firme até onde o rapaz se encontrava e afirmou com o que conseguiu sair de sua boca que ficariam juntos, ignorou as faces surpresas dos amigos e o puxou num ato desesperado selou seus lábios em um cálido roçar de lábios e correu para o banheiro onde vomitou um ramo de jasmins embebido de bile, como ousou estragar a amizade a tanto custo galgada?! Ele jamais iria querer lhe olhar novamente.

E assim que os meses corriam, nenhuma palavra sobre o ocorrido, sempre que ele se aproximava ela corria ao banheiro e lá vinha uma enxurrada de jasmim em flor que começava a doer. Em uma leitura aleatória encontrou uma história chamada hanahaki byou, seu interesse e choque foram enormes ao entender mais a doença literária que a acometia. O que esperar? Morreria se continuasse com aquilo, definitivamente iria se afastar depois de tomar conhecimento a respeito. E o inesperado trabalho que outrora ela não perdia por esperar aconteceu, o professor que antes não a deixaria no mesmo grupo que ele os colocou em dupla qual a probabilidade de isso ocorrer? Estava por acaso presa em um romance tolo no qual era fadada a estar sempre presa esperando a morte por alguém que sequer lhe dirigia a palavra? Eram tantos questionamentos que quanto mais o trabalho se aproximava mais a ansiedade surgia e mais os ramalhetes se espalhavam pelos cantos, sempre bem escondidos, no dia fatídico chamou uma amiga e mais usa dupla para fazerem trabalho em conjunto, não conseguiria dar um jeito nisso só. Em um dado momento ao olha-lo se permitiu ficar trôpega e roubar-lhe um último beijo ao final da tarde. Nada foi dito e mesmo que ainda se pegasse olhando de longe as flores não paravam apenas diminuíram.

Os anos na pequena escola se foram, uma nova fase se iniciava para ambos e ela o forçava para o fundo da memória tentando apagar aquilo que tinha sido feito, sempre que havia uma conversa na qual ele era citado ainda ocorria de pétalas surgirem, contudo ao saber que seu garoto-charada agora possuía alguém que não ela lhe fez verter uma cascata de jasmins intensa até o sangue e quase sufocar, teve sorte pois algo do destino a fez perseverar.

Seus relacionamentos não perseveravam e a tola menina insistia mesmo que ainda vomitasse os malditos jasmins, seu ódio por eles era tanto que deixou o de sua casa definhar sem dar-se conta, depois da morte de suas avós aquilo não seria jamais a mesma coisa, os anos e a busca por uma faculdade que a sustentasse em seus anseios a desfocaram do romance, endureceram seu coração mas apenas bastava uma notícia do rapaz-charada que lá vinham pequenos ramalhetes soltos, tolos de dor.

Quando ocorreu um reencontro por cunho acadêmico ela sentiu-se florescer por completo haviam flores em todo banheiro e seu quarto já impregnava o maldito jasmim. Tudo nele a atraia era insuportável ela já não aguentava mais as trocas de olhares e os pequenos toques, estava definhando para uma morte lenta e dolorosa travada em sua glote.

Um inoportuno encontro ocorreu, e eis que em ambos havia um momento disponível. A agora mulher tomou coragem, se aprumou e foi, no momento mais incomum eis que ao olharem-se depois de boas risadas desengonçadas os olhos castanhos e a pele levemente amarronzada que contrastavam tão bem com seu tom alabastro estavam ali, diante de si em seu alcance. Em um momento de hesitação mútua sentiu que seu estômago já não comportava mais e sua respiração estava pesada, sentiu cada ramalhete vir e ajoelhou-se para dar passagem a essas e busca de ar, quando notou barulho semelhante e encarou o rapaz-charada que tinha em suas mãos o mesmo espanto mas que em suas mãos continham tufos de jasmim seus olhares encontraram-se e entenderam-se apenas tocaram seus lábios e sentiram o alívio englobar a ambos.

Quando o fôlego foi buscado ele perguntou, o motivo de serem jasmins ela buscou e logo encontrou as lembranças do perfume e dos momentos com sua avó, quando a resposta foi dada e a pergunta devolvida ela soube que não passou por isso sozinha ao ouvir que era o cheiro que ela tinha.

Em suma meus amigos, houve um final feliz? Não sabemos, pois ainda não houve final. É de conhecimento público que o jasmim pode demorar anos a crescer e floresce durante o inverno, no qual poucas flores florescem. Minha sincera gratidão aos que dedicaram minutos de sua existência para ler minhas poucas e tolas palavras, hanahaki apesar de ser uma doença meramente literária aplaca boa parte de como os sentimentos nos afetam, em suma os deixo hoje com o questionamento, qual é a flor que vocês externalizaram hoje?

Notas finais
Grata por seu tempo dedicado à simples história.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!