Hanahaki Imortal

1 Belos e Mortais Lírios


As primeiras vieram em uma tarde fria.

Eu não saberia dizer quando aquele sentimento começou, quando os cabelos azuis e olhos heterocromáticos passaram a significar tanto para mim, mas eu soube que aquilo não podia estar certo quando tomei consciência de que, não importava o que eu sentisse por aquela garota, ela jamais poderia me corresponder.

Suas flores preferidas eram lírios brancos, eu sabia já que costumávamos estar juntos nos momentos em que Mari se permitia pensamentos comuns que garotas de sua idade geralmente tinham. Mari gostava da delicadeza que as flores representavam, da paz que a textura das pétalas trazia a ela.

E por isso eu soube que deveria dar um jeito naquele sentimento assim que senti as pequenas pétalas saírem por entre meus lábios, em uma tarde fria em que ajudava Lire e Holy durante os treinos. Para a minha infelicidade, o momento não passou despercebido pela elfa, que passou as próximas semanas me olhando preocupada a cada vez que minha voz se tornava mais rouca e meus olhos lacrimejavam mais devido ao esforço tanto para expelir aqueles lírios do meu organismo quanto para mantê-los abertos.

Eu já não comia, não conseguia dormir, e tinha plena ciência de que meu estado preocupava os outros membros da caçada. Meus dias se resumiam a treinar, e quando sentia que eram tantas flores que eu poderia sufocar ali e desmaiar a qualquer momento, permanecia em meu quarto, passando as horas encarando o teto e tossindo mais e mais lírios. Todos brancos, e muitos com respingos de sangue.

Eu sabia que, enquanto aquele sentimento me perseguisse, eu jamais pararia de sentir aquelas flores em meu interior. E era aí que meu dilema começava. Eu, como highlander, não poderia ser morto por uma doença dessas, o que me garantia uma longa eternidade cuspindo e vomitando aquelas pétalas delicadas e que de belas não tinham nada. Mas ao mesmo tempo meu orgulho era grande demais para arriscar uma cirurgia e perder minhas emoções.

Eu amava o calor da batalha, sentia prazer no olhar desesperado de meus inimigos quando estava prestes a matá-los, meu corpo vibrava diante da possibilidade de sentir, fosse a adrenalina gostosa que corria por meus músculos durante um luta especialmente difícil, fosse a excitação que empunhar uma espada ou me encontrar com uma bela mulher me causava. Aquilo fazia parte de mim, e eu jamais poderia pensar em abrir mão daquilo.

A situação me deixava com somente uma opção. Esquecer. Uma opção geralmente não considerada por mortais por ser trabalhoso ou demorado demais, mas que era a única que eu realmente poderia cumprir, que eu sabia que conseguia cumprir.

Eu tinha muitos segredos, muitos sentimentos e culpas que me atormentavam o sono e me faziam rir e agir como um adolescente mimado e inconsequente diante de qualquer pessoa. E era justamente um desses segredos que me garantia poder esquecer aquilo. Eu já havia feito aquilo uma vez, séculos antes, diante da mesma situação.

Mas dessa vez eu não podia simplesmente sumir da vida daquelas pessoas. Não quando algo em meu instinto me dizia que Astaroth era não era o fim daquela aventura. Eu contei isso para Lire, a única que eu sabia poder confiar para conversar sobre aquelas flores, já que havia visto o primeiro momento. Infelizmente, mesmo ela parecia não ter chão para me ajudar ou consolar.

“O que acontece se ela descobrir?” Lire havia me questionado durante uma manhã excepcionalmente bonita onde eu a ajudava a cuidar do jardim do nosso quartel general, e torcia o nariz diante dos lírios tão bem cuidados e belos que tinham ali. Mari provavelmente se culparia pela situação, e eu jamais permitiria distraí-la de seus momentos de reflexão ou treinos com um sentimento que não deveria existir. Até porque eu sabia que, se aquelas flores existiam e me atormentavam a vida, era claro que ela não poderia me corresponder, mesmo se quisesse.

No fim, eu acabei contando com a sensatez de Lothos. Durante uma noite em que os outros membros da caçada decidiram acampar e relaxar por Vermécia, eu permaneci em casa, e contei para Lothos e para a Rainha de Serdim tudo o que me passava. Não citei a quem aquelas flores eram dedicadas, mas sabia que aquilo seria a última preocupação das duas mulheres.

Quando terminei, Lothos me entregou um aparelho que mais parecia um comunicador, que de acordo com ela permitiria que eu soubesse caso a caçada precisasse de mim, e a Rainha me ofereceu um sorriso solidário, o que achei melhor, e as duas me permitiram uma viagem até Xênia após eu contar que talvez tivesse uma chance de me livrar daquilo indo até lá.

Os deuses me deviam alguns favores, afinal.

E foi naquela mesmo noite em que juntei meus pertences que julguei serem úteis e deixei um bilhete explicando o que estava fazendo para Lire.

Afinal, eu ainda tinha uma longa viagem e muitas flores brancas pela frente, e não podia me dar ao luxo de deixar Mari desconfiar. Não quando existia uma certa deusa da Restauração que, mesmo não sendo a mais delicada (apesar do que as lendas costumam dizer sobre ela), talvez pudesse tirar aquilo do meu organismo e manter minhas emoções. De qualquer jeito, eu confiava mais nela do que nos mortais, de qualquer jeito.

Valia a pena tentar, não?

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