Hana no michi
1 O caminho das flores...
Notas iniciais
Ashina era condenada pelo frio rigoroso, no entanto, ainda era um espetáculo para a visão. Qualquer lugar era uma opção para admirar, desde as profundezas de suas cavernas até os mais altos dos picos.
O toque frio da neve ininterrupta se disfarçava no rosto manchado do shinobi que ponderava em silêncio. Seus olhos bem treinados observavam o ambiente, mas não se prendiam em lugar nenhum. Estava pensando, analisando.
Seu corpo doía, latejava em certas partes. Estava ferido em lugares que pessoas comuns jamais imaginariam existir. Entretanto, ele saboreava aquelas dores, por diversos motivos. O sabor da vitória, da disciplina, da perseverança e da honra. Cada músculos dolorido, cada cicatriz, significavam sua fortitude e seu fardo. Era algo para se orgulhar. Ainda assim, suas feridas não se curavam apenas com o seu orgulho. Precisava de cuidados necessários, de alguém que sabia a melhor forma de amenizar e curar qualquer dor.
Senhorita Emma. Precisava retornar a ela, mais uma vez, e pedir que tratasse de suas dores. Ela não negaria, faria de tudo para que ele melhorasse e retornasse a sua jornada. Afinal, era o que ela era: uma médica.
Ele não a conhecia tão bem, apesar das diversas conversas breves que tiveram. Porém, constantemente a figura da jovem médica pairava em seus pensamentos e ele não era capaz de desvendar ser a curiosidade costumeira de um shinobi ou a sua curiosidade pessoal.
Foi Emma quem tirou-o do poço quando ele foi derrotado. Depois ela contou que trabalhava para um mestre, apesar de omitir seu nome, mas que estava a disposição dele, o shinobi, para ajudá-lo em sua jornada e recuperar o Herdeiro Divino. E mesmo assim, contando todas as suas intenções, ele ainda sentia-se incapaz de ler aquela mulher.
Iria retornar a ela, escutar suas recomendações e algumas curiosidades, mas quase não iria responder à ela. Tudo o que fazia era levar suas dores para ela curar ou algumas sementes da cabaça curativa que ela mesma criou. Sequer falava com ela, mas e se falasse, o que diria?
Como um sinal dos deuses, seus olhos bem treinados captaram a figura de um único Narciso. A flor destacava-se entre várias outras que não correspondiam à sua espécie, quase como se não pertencesse ali e devesse ser retirada.
Seus dedos calejados tocaram nas pétalas alvas da flor. Estava fria, miúda e úmida. Presa ao chão, quase oprimida pelas outras flores. Com o cuidado que nunca imaginou ter, ele colheu e a encarou entre seus dedos.
Por um momento, quis devolvê-la ao solo, mas uma flor arrancada precisa de um propósito. O propósito do Narciso era ser oferecido, ele sabia, afinal por isto o arrancou. E, por esse mesmo motivo, o guardou.
A neve insistente continuava a manchar de branco o Templo Dilapidado. O silêncio só não era absoluto pelo barulho da estaca do Escultor, que continuava a esculpir Budas com feições assustadas.
Emma entrelaçou uma mão na outra, observando a neve cair. Não havia muito mais o que fazer. Algumas vezes até conversava com o Escultor, mas sua função era esperar. Esperar o shinobi retornar, tratar de suas feridas e auxiliá-lo em sua jornada. Era tudo o que precisava fazer.
O tempo parecia passar devagar, quase parar diante de seus olhos. Era quase exaustivo continuar ali, mas por um único detalhe, toda aquela espera valia a pena.
— Mestre Lobo, fico contente que tenha retornado. — sua voz suave recebeu o homem que subia a pequena escada do templo.
Ele apenas acenou com a cabeça, passando direto para encontrar o Escultor. Emma desfez a pose receptiva, um pouco frustrada. Não gostava daquele sentimento, pois não entendia o motivo de se sentir frustrada. O shinobi tinha assuntos mais sérios a tratar do que ficar conversando com uma médica.
No entanto, não demorou muito para que ele retornasse a seu encontro, ficando de frente para olhá-la nos olhos, como um soldado que nunca descansa.
— Trouxe algumas sementes. — ele disse, rígido como sempre.
— Ótimo. — ela pegou as sementes de suas mãos e encaixou-as corretamente na pequena cabaça, o item que produziu para curar as feridas do Divino Herdeiro, mas que agora curava as feridas do shinobi. — Agora você pode usá-la mais vezes para se curar.
Ele guardou o item, mas permaneceu diante dela. Sabendo do que se tratava, ela dedicou-se a tratar das feridas atuais dele. Como era esse o seu propósito, estava sempre preparada com os mais diversos remédios. Dessa vez, ele estava com algumas queimaduras. Ela as tratou com pó de arrefecimento, garantindo que logo estariam curadas. Por um momento, se questionou quantas cicatrizes ele escondia.
— Precisa de mais alguma coisa, Mestre Lobo? — ela questionou tornando a segurar uma mão na outra, observando-o se aprumar.
Ele tornou a olhá-la nos olhos. Fazia isso com frequência de forma intensa, como se pudesse ler a sua alma, ou pelo menos tentasse.
— Eu encontrei algo.
Com cuidado, ele retirou o Narciso da bolsa à tiracolo. Estava um pouco amassado, mas havia resistido bem.
Emma analisou a flor com cuidado, sem entender o motivo do shinobi estar recolhendo flores pela sua jornada. Apesar de saber a importância de cada uma, Emma não conseguia imaginar uma razão plausível para aquele ato.
— Suisen. — ela suspirou o nome da flor que ele segurava. — Significa "respeito", Mestre Lobo, sabia disso?
— Hm. — ele tomou a mão dela, colocando a flor entre seus dedos. — Apropriado.
Depois disso, antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa, ele tornou a ir embora.
Emma continuou a encarar o Narciso entre seus dedos, ainda sem entender a necessidade daquela flor ser oferecida pelo shinobi para ela.
Mais tarde, Lobo retornou ao Templo Dilapidado para se encontrar com o Escultor, pois precisava de melhoria para sua prótese do braço esquerdo. Não encontrou com Emma, mas não se importou, afinal já estava tarde e o frio era mais rigoroso pela noite.
O Escultor tossia ruidosamente. Um sintoma da Praga do Dragão. Sua culpa. A praga era o preço a se pagar por ter a capacidade de ressuscitar. Emma já havia contado-lhe os detalhes e ele estava decidido a ajudá-la encontrar uma cura, mesmo que provisória.
Depois de ter sua prótese ajustada, Lobo admirou o novo braço. Sentia-se uma máquina mortífera com aquela prótese. Talvez fosse isto o que o distanciava tanto de um ser humano normal. Não podia negar que sentia falta do braço arrancado, mas não era do feitio de um shinobi lamentar perdas, considerando que permanecia vivo e com honra.
— Qual flor deu a Emma? — o Escultor perguntou, pegando-o de surpresa.
— Um Narciso. — ele respondeu inquieto. — Como sabe que eu trouxe uma flor para ela?
Ele tossiu.
— Só precisei olhar para ela.
Então, o shinobi teve vontade de sorrir.
∾
As coisas ficaram cada vez mais complicadas em Ashina conforme o shinobi se aproximava mais de resgatar o Herdeiro Divino, o que fez com que suas visitas a senhorita Emma se tornassem cada vez mais raras.
Na verdade, ele quase não tinha tempo para retornar ao Templo Dilapidado se não fosse por motivos extremamente importantes, como anexar novas armas prostéticas ao braço falso. Por isso, sequer conseguia cumprimentar senhorita Emma. Mesmo assim, ele não esquecia da flor que havia oferecido a ela e o que o Escultor havia contado. Talvez pudesse oferecer outra flor a ela, mas qual? Com qual propósito?
Naquele dia, o sol brilhava mais forte, mas o frio ainda arranhava a pele. Ele estava cansado, observando a nova região que invadiu e o progresso que havia feito. Enfrentou um guardião montado em um cavalo, ofereceu uma oferenda aos mortos, conheceu um homem que lhe deu um nome.
Caminhando pelo campo aberto, com a katana suja de sangue, ele admirou a beleza de uma Camélia branca, quase camuflada na neve. Brilhava sob a luz do sol, como se fosse iluminada de propósito para que ele pudesse ver.
Ajoelhou diante da flor, admirando-a. Em tempos tão apressados, aquela flor parecia uma ironia. Guardando a katana na bainha, ele limpou o sangue de suas mãos para impedir que manchasse as pétalas da flor. A planta parecia ainda mais bela entre seus dedos prostéticos. Um contraste. O natural e a máquina.
Retornando ao Templo Dilapidado, ele não encontrou Emma no mesmo lugar de sempre. Ela estava dentro do templo, amparando o Escultor enquanto a tosse progredia. O shinobi se frustrou ao ver a cena, considerando ser sua culpa. A Praga do Dragão continuava a progredir conforme ele abusava mais do poder do Divino Herdeiro. E ele teve medo de que Emma fosse a próxima a ser atingida.
— Como ele está? — perguntou, deixando o Escultor sozinho ao acompanhar Emma para fora.
— Aguentando firme. — ela não parecia contente. — Porém, tenho fé que vamos conseguir curar a praga. Mesmo que não seja de forma permanente.
Ele não respondeu, apenas grunhiu um breve "hum", como de costume.
— Precisa de mais alguma coisa, Mestre Lobo? — ela perguntou, como sempre perguntava.
— Eu conheci um homem hoje. E ele me deu um nome.
Emma se aproximou, interessada pela história.
— Um nome?
— Sekiro. — ele revelou. — O lobo de um braço só.
Emma repetiu o nome de forma silenciosa, apenas testando o nome em seus lábios. Era um nome apropriado.
— E eu também encontrei algo.
Como da outra vez, ele retirou uma flor da bolsa. Dessa vez, uma Camélia, branca como a neve.
— Tsubaki. — Emma recebeu a flor em suas mãos. Seus olhos, presos nas diversas pétalas alvas, contemplaram aquele ato. — As camélias brancas significam "espera", Sekiro.
Assim que ela ergueu o olhar, Sekiro já havia partido, mas ela continuaria a esperar por ele.
∾
Agora, o shinobi era chamado de Sekiro. O lobo de um braço só. Adequado.
Sekiro sentia o peso daquele nome como sentia o peso de sua katana na bainha. Ele era um shinobi que respondia ao código de ferro. Era um assassino que matava qualquer que estivesse em seu caminho para alcançar seus objetivos. Era um servo que respondia a um garoto, com uma linhagem sanguínea que dava imortalidade àqueles que tomavam do seu sangue. E agora também era Sekiro, o lobo de um braço só.
Havia lutado contra Genichiro para garantir a segurança de seu Mestre. Havia derrotado um nobre, ainda que bastardo. Derramou sangue para alcançar seus objetivos e servir ao seu Lorde. E, no entanto, no fundo sentia que era algo além de tudo isso quando pensava em Emma. Talvez ele pudesse ser mais do que aqueles fardos agressivos por causa dela.
Em sua mão de carne e osso, repousava alguns Sinos Azuis. Pequenas flores de coloração azul. Poderiam ser facilmente esmagadas por seus dedos que já esmagaram outros humanos. Mesmo assim, Sekiro as segurava com a delicadeza de alguém que nunca precisou machucar outra pessoa. Precisava do capricho de mantê-las inteiras para entregar a alguém, pois uma flor arrancada precisava de um propósito.
Emma agora residia em outro lugar. Um cômodo mais seguro e confortável do que o Templo Dilapidado, no Castelo de Ashina. Com Sekiro recuperando a guarda de Lorde Kuro, o Divino Herdeiro, ela estava disposta a cuidar do garoto como se fosse seu próprio mestre. O que a obrigava a se distanciar um pouco de Sekiro, já que não poderia estar sempre à sua disposição e precisaria cuidar da segurança de Kuro.
Mesmo com a segurança do Herdeiro Divino garantida e a Praga do Dragão interrompida, Emma parecia inquieta. Os acontecimentos recentes perturbavam qualquer um, mas ela parecia ser a mais afetada. Genichiro forçando Kuro a entregar seu poder a ele por ambição, a luta de Genichiro contra Sekiro e a preocupação de Sekiro ao vê-la próxima de Genichiro. Parte sua quebrou-se ao vê-lo desconfiado dela, ao ter de dizer a ele que não desejava mal algum a ele ou a Kuro, mesmo que parecesse óbvio.
Enquanto ela se lamentava, Kuro não parecia prestar atenção na sua existência. Permanecendo próxima a janela, Emma observava a neve cair e o céu acinzentado. O silêncio continuava a perturbá-la.
Não estava só magoada pensando na insegurança de Sekiro, mas também no possível destino que poderia cair sobre ele. Apesar de ser o shinobi que garantia a segurança dela e a de Kuro, ele ainda não estava isento do destino de Shura. O destino daqueles que ficam tentados pelo poder da linhagem do dragão e que traem seus próprios princípios. Essa possibilidade assolava seu âmago, afinal Emma se recusava a acreditar que Sekiro pudesse flertar com esse destino cruel. Ele a deu flores, cativou sua afeição, mas bastava apenas ser tentado a trair o Herdeiro Divino para que Emma precisasse tomar as devidas providências. E ela não queria enfrentá-lo. Não queria enfrentar o homem que estava adorando tanto.
Talvez fosse a sua imersão em seus medos ou a furtividade de Sekiro, mas Emma sequer percebeu-o se aproximar. Ele já havia até conversado com Kuro, mas ela não ouviu voz alguma.
Ele segurou seu cotovelo. Não havia agressividade, era apenas o toque de alguém que queria atenção. Ele quase nunca a tocava, mas manteve seus dedos prostéticos segurando a carne por baixo de sua roupa, mesmo depois de conseguir sua atenção.
— Senhorita Emma.
— Por favor, me chame apenas de Emma. Não precisamos mais de tanta formalidade.
Ele assentiu com um barulho nasal. Sua mão continuava em volta do braço dela, embora parecesse mais amparar do que segurar.
— Você parece preocupada. O que te aflige?
— O mundo está desabando ao nosso redor, ainda não percebeu? — sua voz soou desolada, quase desesperada.
Sekiro franziu o cenho.
— Hm.
Ela se recompôs.
— Desculpe-me a fatalidade, não quis parecer rude. — ela desviou dele, mas sentiu a mão apertar de leve seu braço. Um arrepio cortou sua pele, talvez o frio da janela.
— Eu trouxe algo para você. — com a outra mão, ele estendeu as pequenas flores azuis. Sinos Azuis.
Ela tornou a se aproximar dele, observando as delicadas flores dentro de uma mão tão grande. Pegou-as entre seus dedos, encostando na mão dele brevemente.
— Buruberu. — ela sussurrou, voltando a olhar para ele. Percebeu que ele estava muito mais próximo do seu corpo do que qualquer outra vez. Ela conseguia sentir o cheiro de sangue que ele emanava e a respiração pesada em seus cabelos. — São símbolos de gratidão.
— Hm. São para você. — ele reafirmou, apesar de ser óbvio.
— Eu agradeço.
Ele, então, soltou seu braço. Emma percebeu que seu coração estava acelerado.
Eles se olharam por uma última vez, antes de ele cruzar a porta e desaparecer.
∾
Quando Sekiro foi encontrado na guerra, um mero filhote perdido e faminto, jamais imaginou todos aqueles rumos que sua vida levaria. Tornou-se um shinobi, obedeceu seu pai e ao código de ferro, tornou-se servo de Lorde Kuro, protegeu sua honra e o manteve seguro. Conheceu a morte, a dor e a ilusão. Viajou entre reinos reais e surreais. Enfrentou os mais diversos tipos de inimigos. Lutou contra o próprio pai para salvar Mestre Kuro. E, ainda assim, não conseguia lidar com o sentimento que Emma despertou nele.
Nunca havia saboreado algo do tipo. Sua vida era apenas sobreviver e matar, não havia tempo para caprichos como o desejo e o amor, mas ele não foi capaz de evitar. Nunca havia sentido o que sentia por Emma, mas agora que sentia, queria demonstrá-lo. Só não sabia como.
A Criança Divina andava pelo pátio do templo das ilusões. Era apenas uma das tentativas daqueles ambiciosos de conseguirem o poder da imortalidade, a única entre várias outras que não sobreviveram. Estava ali porque a garota o ofereceu um punhado de arroz, nada mais. Era algo comum oferecer tantas coisas que pareciam banais.
Estava prestes a ir embora, deixar a garota distraída sem que ela percebesse. No entanto, a menina pareceu notar sua inquietude.
— Uma flor exótica nasceu atrás do templo. — ela anunciou repentinamente, indo até ele e tomando sua mão. — Venha ver.
Ele não entendeu o motivo, mas seguiu-a até o local. Era uma clareira, o chão era inundado por água rasa e cristalina. Várias flores e plantas cresciam em harmonia, independente de suas espécies. No meio delas, a maior e mais bonita se destacava, apesar de não pertencer àquele local de forma alguma. Um flor de Cacto.
Sekiro soltou a mão da Criança Divina e foi até a flor, desacreditado. Parecia uma brincadeira dos deuses, tanto aquela flor brotar ali quanto a garota revelar sua existência. Um arrepio correu por sua pele. Ele tornou a olhar a garota.
— Você pode levá-la, se quiser. — ela deu um risinho meigo. — Mas, lembre-se, toda flor arrancada precisa de um propósito.
Ele hesitou por um momento, mas suas mãos acabaram tomando a flor para si e guardando-a com todo cuidado. Foi então que ele percebeu o coração acelerado.
Havia completado quase três semanas desde a última visita de Sekiro. Emma compreendia que ele estava ocupado com a missão de tentar romper a imortalidade e desaparecer com o poder que corrompia os homens a pedido de Lorde Kuro, mas era inegável a saudade que sentia do shinobi.
O que aliviava a sua ausência, eram as flores que ele havia presenteado Emma. Ela manteve todas guardadas com todo capricho e carinho. Como tudo que é natural, as flores ressecaram e morreram, mas Emma manteve-as guardadas como um amuleto e sempre retornava para admirar o que um dia elas significaram.
Dessa vez, Lorde Kuro estava com ela, analisando cuidadosamente cada flor. Ele era um menino astuto e foi impossível esconder aquele segredo. Teve receio de que ele não gostasse, mas ele pareceu apenas surpreso.
— Senhorita Emma, você sabe o significado de todas as flores? — ele perguntou ao guardar as plantas.
— Sim. Toda flor tem um propósito, normalmente seu significado condiz com isso. — ela respondeu paciente enquanto fechava a porta de seu aposento e retornava com Kuro para o salão principal.
Ele estava agitado, não parava de ir a biblioteca e ler os mesmos livros de sempre. Também estava sentindo a falta de Sekiro.
— Dessa vez ele está demorando a voltar, não acha? — perguntou a ela, diante do incensário. Um suave cheiro de ameixa dominou o local.
— Sim, às vezes é necessário que ele demore. — Emma suspirou, ficando diante da janela, sentindo o cheiro do incenso.
— Ele deve estar procurando por uma flor. — Kuro riu, procurando ver a feição de Emma. Ainda era um menino, portanto agia como tal. — Qual será que ele irá te trazer?
Emma permitiu-se a um risinho baixo e comportado.
— Mestre Lobo é uma incógnita.
— Sim, ele é, mas eu tenho certeza que ele irá te trazer flores. — garantiu Kuro.
Quando a noite chegou, Emma teve dificuldade em convencer o jovem Mestre a se retirar e descansar. Ele apenas queria ficar na biblioteca, mas ela não achava uma boa ideia forçar a visão na luz fraca das velas. Depois de muito argumentar, conseguiu fazer com que ele fosse se deitar. E ainda garantiu que se ele ousasse levantar escondido, ela saberia.
Quando garantiu com o próprios olhos que ele havia adormecido, Emma deixou o cômodo e seguiu pelo salão principal em direção ao seu próprio. O grande castelo estava envolto em escuridão, sem nenhum ponto de luz, mas ainda havia uma sombra se mexendo.
Sekiro chegou sem fazer barulho, apenas uma sombra contra a parede. Estava no fim do corredor, parado de pé. Emma comprimiu um sorriso, caminhando até ele.
— Fico contente que tenha retornado, Mestre Lobo. — ela o cumprimentou, ainda vendo apenas a silhueta dele. — Você demorou bastante.
— Por uma boa razão. — ele murmurou, se aproximando.
— Entendo. — ela foi em direção a ele. — Lorde Kuro está adormecido no momento.
Ele sorriu, porque sabia que o escuro não a permitiria perceber.
— Eu sei, eu fui até ele pela janela.
— Certo. Precisa de algo mais? — ela questionou solicita, sua voz pareceu mais fria do que o comum, entretanto ela não o enganava.
— Não. — mentiu propositalmente.
Ela o olhou através do escuro, vendo suas íris amareladas brilharem como pedras preciosas. Então, passou por ele com indiferença.
— Boa noite, então, Mestre Lobo.
Quando ela estava diante da porta do aposento, ele segurou o tecido do seu kimono.
— Na verdade, eu queria dar algo a você.
Ela parou para se virar a ele e logo que seu olhar encontrou a flor que ele trazia em mãos, seu coração palpitou mais forte, de forma que talvez até ele tenha escutado.
— Como conseguiu esta flor? — a voz soou entre séria e incrédula.
— Por isso eu demorei.
Ela passou o olhar da flor para ele. Estava um tanto quanto surpresa. Aquela flor não nascia em uma região como aquela, ainda mais avulsa. E o que ela simbolizava...
— Sabe o que esta flor significa? — ela perguntou a ele com firmeza. — Saboten no hana significa...
— Significa "luxúria". — interrompeu-a.
Ela estava atônita. De repente, tudo pareceu fazer sentido e ela se sentiu uma idiota.
— Você sabe. Você sempre soube todos os significados.
Ele sorriu grandioso.
— Sempre.
— Estava me dizendo seus sentimentos o tempo todo...
— Sim.
Ela soltou uma risada dividida entre aliviada e incrédula.
— Você tem uma incrível habilidade de dizer muito sem precisar falar uma palavra.
O sorriso dele se tornou satisfeito diante daquele comentário. E ele não sabia mais o que dizer. Então, apenas levou a mão até o rosto dela. Sua mão de carne e osso, pois queria sentir o calor e o toque da pele dela. Passou os dedos sobre uma mecha de cabelo e deslizou até sua bochecha.
Emma fechou os olhos. Era a primeira vez que ele a tocava daquela forma, mas quantas vezes ela não sonhou com aquele toque?
O polegar dele percorreu sua bochecha, seu queixo e seus lábios, desenhando o contorno perfeito. Emma tomou a mão dele na sua, mantendo-a diante de seus lábios para poder beijá-la. Beijou a palma, o dorso e os dedos, cada um deles. Estavam limpas como deveriam estar, prontas para tocar Emma.
Ele sentiu-se zonzo conforme Emma beijava seus dedos. Seu coração acelerado parecia bater dentro de sua cabeça. Seus lábios não conseguiam se manter fechados e estavam secos como se estivesse sedento.
Ela parou de beijar sua mão para poder puxá-lo para dentro do cômodo. Apesar de ser noite e Kuro estar dormindo, não parecia apropriado aquele tipo interação no meio do corredor.
Com a flor devidamente guardada, ela pode retornar a ele. Os lábios se encontraram depressa, nervosos e atrapalhados. Era o primeiro beijo, não só entre eles, mas dos dois. Nenhum dos dois nunca havia experimentado aquela sensação e não havia primeira oportunidade melhor do que aquela.
Sekiro conhecia o sabor do sangue, da derrota e da vitória, mas o sabor dos lábios de Emma era algo que ele nunca imaginou. Era como estar em paz. O mundo já não importava mais, a guerra já não importava mais. Apenas eles dois.
— Posso ver você sem roupa? — ela sussurrou entre o beijo, antes de separar os lábios.
Ele se sentiu inseguro, mas anuiu. Afastou-se dela por um instante e começou a desatar as emendas de seus trajes. Não parecia, considerando a leveza com que ele se mexia, mas ele usava muitas peças de roupa. Demorou um tempo para que ele retirasse tudo, mas, por fim, ele ficou completamente nu diante dela.
Não havia nenhuma vela acesa no cômodo pequeno de Emma. A única luz era o brilho da lua que invadia a janela. E ele estava belo nu sob a luz da lua. No entanto, ainda havia um detalhe.
— Falta uma peça. — ela murmurou, tocando no seu braço esquerdo. A prótese.
— Emma...
— Deixe-me ver você como você é.
Com hesitação, ele começou a desamarrar a prótese. Precisou da ajuda dela, que o fez com todo cuidado. Era uma prótese pesada, bruta e mortal. Não era algo necessário naquele momento. Por fim, com o braço amputado revelado, Emma beijou o alto do seu ombro esquerdo, transmitindo segurança a ele.
Ele tornou a beijá-la, dessa vez com mais intensidade. Seu único braço envolveu-se na cintura dela, mantendo os corpos unidos. Emma suspirou diante da sensação de ter o corpo nu dele no seu. Conseguia sentir o desejo dele contra sua barriga.
Aos poucos, as roupas de Emma também foram sendo descartadas pelo chão e, assim como ele, também vestia coisas demais. Por incrível que pudesse parecer uma primeira vez, ela estava confortável. Os beijos dele, os toques dele, a presença dele era reconfortante. E seu coração só estava acelerado por uma ansiedade boa.
Ela sentiu a boca dele descer ao seu pescoço e as cócegas que a barba curta dele provocava. E as mãos dele, desamarrando e desprendendo as roupas de seu corpo ao mesmo tempo que apalpava-o. Era uma sensação deliciosa.
Como seria possível a mão que performou tanta brutalidade ser capaz de tocar aquela pele de forma tão sutil, tão delicada, tão amorosa?
Finalmente, ambos estavam sem roupas a cobrir seus corpos ardentes.
Observando-a nua naquele momento, admirando todo o seu corpo pálido, ele entendeu o tamanho desejo que sentia. Não queria apenas possuí-la, queria provar a origem daquele desejo. Queria... sentir o gosto dela.
Emma não entendeu quando viu Sekiro se ajoelhar diante dela, manteve-se apenas observando. A mão dele percorreu por suas pernas, chegando até a coxa e adentrando entre as duas. Sem esforço nenhum, colocou a perna dela sobre seu ombro esquerdo. Então, beijou-a na virilha.
Ela derreteu-se nos lábios dele. Jamais imaginou que uma sensação como aquela pudesse existir. O chão pareceu romper sob seus pés e, em busca de apoio, ela segurou-se nos cabelos dele. Teve de se curvar para frente, pois seu corpo não parecia mais responder aos seus comandos.
Era incrível como ele parecia conhecer cada parte do seu corpo como se ela fosse um livro aberto, prestes a ser lido. A cada reação, ele parecia aprender mais e mais. A cada som que escapava da boca, ele parecia se motivar mais e mais. Era quase uma covardia.
Quando Sekiro retirou os lábios do meio de suas pernas, ela estava ofegante e o seu rosto estava vermelho. Os cabelos antes bem penteados, estavam escorrendo por sua face. Emma se ajoelhou junto dele e permitiu que ele soltasse suas madeixas. Uma cascata negra escorreu por suas costas alvas. O cheiro dos cabelos dela era tão bom quanto ela própria.
Com os lábios ainda úmidos, Sekiro beijou a boca dela, sentindo a respiração falhar. Seus dedos massageavam as costas dela e tropeçavam por algumas cicatrizes, o que não o surpreendia, afinal Emma também sabia lutar. Os braços dela procuravam por apoio, envolvendo-se no pescoço dele, mas uma das mãos insistia em descer pelo peitoral até o baixo ventre. Ele suspirou, entregando-se na mão dela.
Emma o empurrou com delicadeza, obrigando-o a se deitar completamente. Admirando-a enquanto ela sentava sobre seus quadris, Sekiro pareceu perder o ar.
Era a primeira vez que sentia aquele desejo ardente. Sempre lidou com mulheres com mera cordialidade. Ou precisavam ser protegidas ou eram apenas obstáculos. Jamais se atreveu a olhar com desejo a pele de alguma moça, pois isso era apenas um capricho. No entanto, Emma despertou sentimentos que Sekiro jurou jamais sentir. Desde a sua voz até seu gestual eram capazes de tirá-lo da zona de conforto.
Ele estava acostumado a manejar armas, a machucar corpos, a escutar grosserias. Era novo ter de manejar o corpo de Emma, tocá-la com carinho enquanto escutava-a verbalizar prazer. E ele estava adorando cada instante como nunca adorou nenhum outro.
Sabia que não ficaria preso naquele momento para sempre, sabia que o dia seguinte chegaria e ele ainda teria uma jornada a cumprir, mas nada disso parecia importar. Naquela noite, ele abandonou as armas em troca do amor de Emma.
Quando chegou ao ápice, ele a abraçou com força, talvez mais do que deveria, mas ela não reclamou. Estar entre seus ombros largos e dentro do seu abraço quente era como estar em casa.
No fim, ele adormeceu com o rosto afogado nos cabelos úmidos de Emma. E foi a melhor noite de sono que Sekiro teve.
Como sempre, em todo amanhecer, Emma abriu os olhos. A responsabilidade para com Kuro não permitia que ela dormisse muito. Um bocejo sonoro escapou de seus lábios enquanto ela percebia que estava sozinha no cômodo. Não estava surpresa, já esperava esse desfecho, pois Sekiro não pertencia somente a ela. Ainda não.
Assim que levantou, recolhendo sua roupa, seu olhar notou algo no peitoril da janela. Vermelha como sangue, reluzindo na luz matinal do sol, uma Camélia se destacava.
Com um sorriso, ela foi até a flor, tomando-a em suas mãos pequenas e levando-a até perto de seu rosto para sentir o seu cheiro.
Alguns telhados longe dali, uma sombra observava o exato instante em que a moça pegava a flor. Um sorriso iluminou seu rosto.
— Tsubaki. — a voz grossa de Sekiro soou como um sussurro. — Camélias vermelhas representam o amor. — ainda que para os samurais significasse "má sorte".
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