Halloween - Coleção de One Shot's
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Beijoks e boa leitura.
CROWSWOOD, 31 de outubro de 2011, Halloween
O ar frio da noite contrastava com o calor que sentia, Safira corria pelo meio da floresta desviando das árvores e suas grossas raízes. Uma risada alta se fez presente atrás da jovem, o som vinha da mesma direção onde havia encontrado Tony, seu namorado, caído com a garganta e o peito cortados em meio as folhas banhadas de sangue. Não deveriam ter ido até aquela casa sozinhos com todos os moradores da cidade festejando o Halloween distantes da casa maldita.
O suor escorria por todo o seu corpo, alguns galhos batiam em seu rosto arranhando o mesmo e em meio a corrida sentiu algo bater em uma de suas pernas para logo uma dor agoniante seguida de uma dormência atordoante. A risada tinha parado. Mas seu corpo continuava em movimento, tinha que chegar ao seu carro o mais rápido possível e sair daquele lugar para chamar a polícia, faltava pouco, já conseguia vislumbrar os traços do SUV branco com a porta do motorista virada em sua direção, só mais alguns passos e conseguiria a proteção do veículo. Tony tinha dado a vida para salvá-la, tinha que fazer por merecer.
A adrenalina começava a sair de sua corrente sanguínea e seu corpo tremia levemente. Safira puxou as chaves do bolso da calça e correu até a porta do motorista, suas mãos trêmulas mal conseguiam acertar a chave em seu devido lugar, levou 5 segundos para destravar a porta e se jogar dentro do carro. A respiração ofegante e a adrenalina baixa a fizeram perceber que a dormência não era uma simples dormência. Uma faca de plástico estava crava em sua panturrilha esquerda com sangue manchando sua calça azul.
— Uma faca de plástico? — sussurrou fechando uma das mãos em volta do objeto. – Mas essa faca é…
Mal teve tempo de terminar sua frase, a risada voltou a ecoar mas agora de um ponto próximo, próximo demais, olhou pelo espelho retrovisor para o banco de trás e se deparou com algo que fez seu sangue gelar, olhos vermelhos. A risada vinha de dentro do carro. Mas como? O carro esteve fechado todo o tempo em que esteve com Tony, no lado de fora, a menos que…
— Você é uma jovem esperta, Safira, pena que é tarde demais.— A voz era doce e infantil, era parecida com a de uma criança de 9 anos.
— O que você é? Por que matou o Tony? — gritou desesperada, tinha esquecido a faca alojada em sua panturrilha, tinha que sair do carro. Abriu a porta o mais rápido possível e saltou para fora do veículo, caindo sentada com as pernas esticadas fazendo a faca entrar mais em sua carne.
Safira levantou a cabeça e tudo o que conseguiu ver foi vultos pequenos em vários pontos diferentes na floresta na sua frente, as risadas ficaram mais altas e foi nesse momento que sua ficha caiu. Era uma armadilha e como uma patinha caiu facilmente em tudo. O som de passos leves ao seu lado chamou sua atenção, seu corpo tremia em pânico e antecipação. Uma mão fria puxou seu rosto na direção dos passos e os olhos vermelhos estavam ali, ao seu lado, e dessa vez com uma machadinha de açougue com a lâmina brilhando a luz da lua.
— Doce ou travessura, tia Safira? …
Um grito feminino preencheu a floresta seguindo de gemidos, som de ossos sendo quebrados e carne sendo rasgada de forma violenta sendo seguida de suspiros de prazer e júbilo. O ar tinha adquirido o cheiro de sangue e morte, o carro que uma vez branco agora estava banhado de vermelho com braços, pernas e dedos alinhados em posições estratégicas. O ser de olhos vermelhos limpou a machadinha no tecido que uma vez foi a blusa de Safira e seguiu rumo as árvores sorrindo e cantarolando enquanto balançava a arma e um saco de doces.
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12 horas mais tarde vários carros da polícia estavam por toda a floresta, o corpo de Tony Colins de 21 anos, foi encontrado com cortes profundos na garganta e no peito, o corpo estava branco como neve coberto por uma camada espessa de sangue seco e folhas. O corpo se encontrava a menos de 4 metros da casa Blood e logo após a pequena parte de floresta encontrava-se um SUV com membros de um corpo feminino em cima do capô manchando a lataria, os dedos, braços e pernas estavam alinhados formando o número 8. Logo na frente da porta do motorista o resto do corpo nu de Safira Bents de 19 anos se encontrava apoiando a porta, o corpo tinha sido mutilado sobrando apenas dos joelhos até o ombro sem qualquer tipo de dano muito grave, os braços arrancados faziam parte da numeração feita no capô, mas o que mais chamava a atenção dos policiais era a cabeça. No rosto um corte profundo na altura da bochecha revelava uma parte da arcaria dentária da jovem, mas quando a legista levantou as pálpebras da garota teve que reprimir o grito de horror.
— Arrancaram os olhos dela! — revelou quando se afastou do corpo horrorizada com a brutalidade.
— Os olhos também? Achei que tinham levado apenas o cabelo dela. — comentou um dos primeiros policiais a chegar na cena do crime.
— Eu também pensei nisso quando cheguei, mas agora… — resmungou. – Parece com o que aconteceu 5 anos atrás com aquelas meninas, a Nora Gaspar e a Bea Kail. Encontraram ela e mais um grupo de amigos perto do lago Blood e todas as 2 meninas estavam na mesma situação.
— Vamos cuidar das coisas aqui e o xerife vê o que vai acontecer depois. — um policial falou se aproximando com o que parecia ser o resto das roupas de Safira manchadas de sangue.
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CROWSWOOD, 29 de outubro de 2016, dois dias antes do Halloween.
— PARABÉNS PRA VOCÊ… PARABÉNS PRA VOCÊ… PARABÉNS PRA EMMA! — todos cantavam em harmonia enquanto a pequena Emma Happert assoprava suas 10 velinhas de cima do bolo de chocolate.
— Hora de abrir os presentes, Emma. — chamou um dos pais da garota enquanto apontava para uma pilha de caixas de presentes perto da janela.
A garota correu até o pai sorrindo, adorava receber presentes e agora poderia abrir os que ganhara durante a noite. Pegou uma caixa média de cor azul e desfez o laço, dentro havia um conjunto de calcinha e sutiã com desenhos de corações, enrugou a testa, não esperava por um presente desses.
Emma abria os presentes e era surpresa atrás de surpresa: maquiagens, roupas, brinquedos, livros, sapatos e até um diário novo com um cadeado. Mas a última caixa a deixou realmente surpresa, uma boneca quase real se encontrava dentro de uma caixa relativamente grande, os cabelos eram castanhos escuros distribuídos em cachos longos e grandes, os olhos pareciam grandes pedras azuis, a pele era de uma tonalidade bronzeada com leves sardas, o corpo estava adornado em um vestido azul safira igualmente aos olhos e sapatinhos. Entre as pequenas mãos da boneca se encontrava um cartão de presente: “VAMOS BRINCAR EM BREVE, EMMA?”
A garota sorriu com a pergunta, deveria ser o presente de alguma amiga que tinha ido embora antes da abertura do mesmo. Claro que brincaria com a boneca, ela parecia tão real! Os olhos tinham o brilho de um olho humano e isso deixava Emma mais encantada com o objeto. Os pais da menina após a abertura dos presentes se afastaram para servir o restante dos convidados e a deixaram junto de seus poucos amigos.
Naquela noite Emma dormiu abraçada a sua nova amiga, Safira, tinha escolhido esse nome por causa dos lindos olhos azuis da boneca. Nesta mesma noite Emma sonhou que sua boneca ganhou vida e as duas brincavam juntas em frente ao lago da casa Blood e sua pequena amiga dizia:
“— Venha brincar comigo Emma! Vamos ser amigas para sempre.— disse a boneca enquanto estendia uma das mãos para a garota.”
“– Mas como eu vou te achar? — a garota gritava enquanto tentava alcançar sua boneca.”
“– Não se preocupe, eu vou te buscar, apenas me espere no lago. — a confiança na voz da pequena Safira era acolhedora.”
“– Não demore muito, Safira. — Emma parou de tentar chegar até a mão estendida da boneca e sorriu.”
“– Não vou demorar, amiga.”
Na manhã de domingo, Emma acordou com sua boneca nos braços e um sorriso colado em seus lábios o sonho tinha sido tão real que quando olhava para ela podia perceber um brilho no fundo de seus olhos.
— Querida vamos arrumar a casa para amanhã. — chamou Afonso, um dos pais de Emma, olhando a menina do batente da porta.
— A Sofia pode ir com a gente? — falou colocando as pernas para fora da cama enquanto ajeitava a boneca no colo.
— Claro, mas ela vai ter que ajudar.
[…]
No final do domingo a casa estava toda arrumada com teias de aranha falsa, abóboras com rostos assustadores, luzes vermelhas, chapéus de bruxa nas cercas brancas. As 15 h Emma andava pela rua de casa com sua boneca nos braços enquanto pulava as rachaduras que tinha no caminho, olhava admirando o trabalho das outras famílias em suas casas, as decorações estavam maravilhosamente assustadoras. Adorava festejar o halloween, principalmente pelos doces que ganhava durante e depois.
Andando pela vizinhança a garota entrou no começo da floresta que levava a antiga casa dos Blood, não deveria está ali, mas a cada passo que dava parecia que uma força a puxava cada vez mais para dentro do lugar e assim caminhava por entre as árvores.
Em determinado ponto em meio as árvores percebeu de sua boneca não estava mais entre seus braços, assustada olhou para os lados e pensou ter ouvido passos em meio as folhas secas. Em um ponto entre um arbusto e duas árvores viu uma pequena mão estendida e correu até ela mas quando chegou perto a mão sumiu dando lugar a voz doce que Emma havia escutado em seu sonho.
— Que bom que veio, Emma. — a garota ao ouvir a voz doce de sua pequena Safira sorriu se aproximando mais.
— Safira? É você mesma?
— Claro Emma, sou eu, sua amiga. — falou saindo de seu esconderijo, a boneca andava e sorria como um anjo, piscava, os olhos brilhavam como os de uma pessoa de verdade.
Emma sorriu e correu envolvendo Safira em um abraço sendo retribuída pela mesma. Era real. Sua boneca tinha adquirido vida, mas, como isso era possível? Por que suas outras bonecas não estavam vivas como sua Safira?
— Safira como você está viva? — se afastou um pouco para olhar mais atenta para sua boneca viva.
— Sempre estive viva, eu que te escolhi para ser uma das minhas amigas, minha melhor amiga. — dizia com um sorriso acolhedor.
— Existem outras como você Safira?
— Venha comigo que eu vou te mostrar. — dizendo isto pegou a mão de Emma e começou a caminhar com a garota em direção ao lago Blood.
Emma mal tinha visto o tempo passar, mas já estava de noite, seus pais deveriam estar preocupados com sua demora mas queria ver as amigas de Safira! Eles entenderiam.
Nunca tinha chegado perto do lago Blood a noite, a água era escura e densa, parecia que se cai-se dentro dele não conseguiria sair sozinha. A boneca guiava Emma até uma clareira próxima, olhando para os lados não conseguia enxergar nada além do escuro entre as árvores e o lago.
— Onde estão suas amigas? — sussurrou se abaixando e agarrando a boneca. Safira não chegava a altura da sua cintura.
— Estão aqui, não se preocupe. — falou acariciando os cabelos ruivos da menina. – Venham conhecer a Emma pessoal, ela quer ser nossa amiga, para sempre.
Do meio das sombras da floresta inúmeras pares de olhos surgiam, e aos poucos Emma conseguia ver, eram mais ou menos 7 bonecas igualmente reais como Safira, mas cada uma com uma característica diferente. Elas se colocaram a frente de Emma e começaram a analisar a garota.
— Então você quer ser nossa amiga? — perguntou uma que tinha traços orientais com vestimentas da mesma forma.
— Sim! Eu quero ser amiga das amigas da Safira. — respondeu animada olhando as outras bonecas.
— Então vou nos apresentar para você, Emma Happert. — disse uma boneca ruiva com olhos verdes brilhantes. – Eu sou Bea Kail, essas são Nora Gaspar, Lissa Wihash, as gêmeas Hanna e Zoe Cannes, Talia Jones e Amee Solt. — falou apontando para loira de olhos negros profundos, seguida da boneca de traços orientais, depois para as bonecas gêmeas de cabelos na altura dos ombros na cor cobre e com um olho verde e outro azul, em seguida de uma morena chocolate linda e por último uma boneca com traços indígenas com um logo cabelo negro preso em uma trança.
Emma olhava todas com os olhos brilhando em tamanha emoção, tinha novas amigas! Seus pais iam se orgulhar tanto dela. Foi nessa hora que se deu conta que já era noite e seus pais deveriam está preocupados com o sumiço dela.
— Meninas eu preciso ir para casa, meus pais devem estar me procurando. — falou olhando para suas novas amigas. As bonecas sorriram de forma cúmplice uma para a outra e Safira e as outras bonecas a rodearam dando as mãos.
— Volte amanhã nesse mesmo lugar Emma. — Disse Amee enquanto todas rodavam em torno da menina.
— Mas eu não sei como chegar aqui. — retrucou olhando confusa para elas.
— Deixe seus pés te guiarem, Emma. — respondeu Amee sorrindo ainda mais. – Traga alguma amiga com você se quiser, vamos nos divertir muito amanhã Emma.
Afinal, vai ser halloween. Aos poucos os olhos da garota foram se fechando, o sono começou a tomar conta do corpo dela e aos poucos foi cedendo e acabou por adormecer no meio de suas novas amigas. O sonho dessa noite foi mais real, estava no meio do lago e as bonecas cantavam algo em uma língua desconhecida. Seu corpo formigava e a água deixava seus membros pesados e parecia que entrava através de sua pele, uma dor inumana tomou conta de suas pernas e seu corpo foi cedendo e emergindo na água do lago.
— Venha brincar com a gente, Emma. Venha se transformar em nossa irmã de sangue, para sempre.-dizia uma voz desconhecida em sua cabeça.
Sentiu algo a envolver enquanto afundava cada vez mais, seus olhos foram se fechando novamente e Emma teve a impressão de ter visto um grande corvo de olhos vermelhos a observando da superfície, seus olhos fecharam totalmente e percebeu que o ar em seus pulmões havia acabado.
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Na manhã seguinte Emma acordou em sua cama com Safira sentada em uma cadeira próxima, imóvel. Será que tudo tinha sido um sonho? Não tinha certeza de nada, apenas que seus sonhos tinham sido reais demais. Olhou para Safira novamente e viu que aos pés da cadeira onde a boneca estava, havia uma sacola úmida aparentemente com roupas suas. Levantou-se o mais rápido que conseguia e sentiu seu corpo pesado. Foi arrastando os pés até Safira e alisou os cabelos dela.
— Como vim parar aqui Safira? — sussurrou olhando para o rosto perfeito da boneca.
— É segredo, Emma, guarde nosso segredo. — sussurrou de volta e em seguida voltou a ficar imóvel.
Sorrindo, Emma saiu do quarto em direção a cozinha. Sentia muita fome e seus pais provavelmente já deveriam ter preparado o café da manhã de halloween. Desceu correndo as escadas passando pela sala, seu pai Varus estava sentado no sofá lendo seu jornal como sempre.
— Bom dia meu amor. — disse vendo pela sua visão periférica sua menina ir em direção a cozinha.
— Bom dia papai! — parou e foi em direção a ele para lhe dar um beijo de bom dia.
— Afonso está te esperando na cozinha para tomarem café juntos. — acariciou a cabeça da filha sorrindo amoroso.
Emma mais que depressa foi em direção a cozinha, e Varus tinha falado, Afonso estava esperando por ela enquanto virava algumas panquecas no prato e colocava calda de chocolate em cima.
Ambos comeram enquanto conversavam animadamente. Emma com seus 10 anos já havia se acostumado a ter dois pais e a ser adotada, ela era mais feliz com eles do que morando no convento da cidade vizinha.
Passou o dia ajudando os pais a misturarem os doces em vários potes grandes e a preparar as fantasias para a noite, tudo sob o olhar atento de Safira, que fingia na frente dos dois adultos ser apenas uma boneca comum.
[…]
Já a noite em seu quarto, Emma vestia sua fantasia de anjo sob o olhar de Safira. Ambas sorriam uma para a outra e sempre que se encontravam sozinhas a boneca sussurrava para a menina um “para sempre” e depois volta a manter sua atuação de boneca, Emma se sentia a dona de um segredo mundial, até parecia que tinha descoberto como o mundo tinha sido feito e não poderia contar a ninguém. Precisava contar a alguém. Por sorte seu primo Charle de 14 anos, faria companhia a ela durante a caçada aos doces poderia contar a ele e os dois seriam amigos para sempre.
Depois de pronta a garota desceu as escadas correndo com Safira nos braços. Era uma anjinha com uma boneca quase real presa em um abraço forte. Seu primo já se encontrava sentado na sala vestido de Capitão América, no lugar do escudo havia um baldinho nos cores da roupa onde Charle pretendia armazenar seus doces.
— Vamos caçar, anjo? — perguntou Charle assim que viu Emma e sua boneca.
— Nós vamos pegar todos os doces possíveis. — respondeu animada pegando um baldinho em forma de abóbora.
— Boa caçada crianças. — desejou Afonso abrindo a porta e deixando os dois passarem.
Os primos começaram a busca pelos doces indo de casa em casa, passando por outras crianças também fantasiadas. A maioria das casas já tinham sido abordadas na busca pelas guloseimas, mas, mesmo assim, os dois continuaram indo as casas.
O tempo é o de menos quando estar se divertindo e os dois só queriam pegar mais doces. Mas em algum momento em meio a essa diversão, Emma sentiu seu corpo pesado e a sensação de estar se queimando de dentro para fora. Safira ficava cada vez mais pesada em seus braços que começavam a formigar, piscou os olhos duas vezes e sentiu tudo sumir de repente.
— Aconteceu alguma coisa Emma? — questionou Charle parado em frente a ela. – Você parou do nada.
— Não foi nada. — suspirou e apertou mais Safira no braço enquanto com o outro segurava seu balde de doces. – A gente ainda não foi em uma casa e eu tenho certeza que lá vai ter doces de sobra.
Emma viu Charle responder e seguir ao seu lado. Sentia-se mau. Não conseguia controlar seus passos e muito menos sua voz, não entendia o por que de ter falado aquilo, não tinha nenhuma casa para o lado em que estavam seguindo. Nenhuma a não ser a casa Blood. Não!
Não poderia mentir para seu primo, mas não conseguia fazer nenhuma ação por vontade própria e agora os dois já caminhavam por uma trilha escura a qual levava direto a porta da frente da casa. No meio do caminho sentiu Safira sair de seus braços e a vislumbrou sumir em meio as árvores, em certo ponto do caminho ouviu galhos sendo quebrados e por cima de um dos arbustos conseguiu ver um cabelo ruivo, se não estava enganada uma das amigas de Safira, Bea, era ruiva.
— Minha boneca sumiu, Charle. — falou segurando o braço do garoto o fazendo parar.
— E você quer procurar ela agora? Nesse escuro? — brigou olhando em volta na esperança de achar a boneca por perto.
— Ela é importante. — choramingou olhando para os pés.
— Ok, mas se ela não estiver por aqui amanhã a gente volta. — Charle disse sorrindo para a garota, era sua priminha no final de contas.
Ambos começaram a fazer o caminho de volta olhando para os lados, ambos sentiam-se observados e querendo ou não Emma sabia quem os observava no meio da noite. Em menos de 2 minutos andando avistaram Safira deitada no meio do caminho, ambos se aproximavam e Emma sentia que algo aconteceria, tinha certeza disso, ainda não conseguia se controlar e isso estava a deixando assustada. Charle se abaixou e pegou a boneca entregando ela a prima que sorria, mas inesperadamente uma risada infantil ecoou em meio as árvores. Os pelos da nuca de Charle se arrepiaram.
— Quem está ai? — perguntou olhando para os lados assustado, mas tudo o que recebeu foram mais risadas e dessa vez o tom de maldade nelas estava mais presente. – Isso não é uma brincadeira legal! Ande apareça! — mas nada era dito, apenas as risadas se aproximavam.
— O que está acontecendo? — a voz de Emma parecia apavorada, mas, no fundo, ela sabia que algo estava errado.
— Eu não sei, acho melh… — foi interrompido por uma faca vinda do outro lado das árvores acertando a árvore do lado dele. – Corre Emma!
O garoto agarrou a mão da prima e a puxou por entre as sombras indo pelo lado oposto. As árvores ficavam muito próximas mas dava para os dois passarem um ao lado do outro, a risada ecoava atrás deles e parecia estar cada vez mais próxima. O sorriso no rosto de Emma era repulsivo para ela mesma, mas não conseguia tirá-lo dos lábios. Estava assustada, não, estava apavorada por não conseguir gritar e pedir para suas amigas pararem. Não queria brincar de assustar seu primo, gostava muito dele para fazer tal coisa, ele foi o único a se aproximar dela quando seus pais a levaram para morar com eles. Eles tinham uma ligação única.
Estavam perdidos, parecia que andavam em círculos e o tempo parecia não passar nunca. A risada tinha parado e depois de mais um tempo correndo pararam, Charle puxou Emma para perto dele a colocando em sua frente, não deixaria nada machucar ela.
— Você está bem? — sussurrou próximo ao ouvido da menina, recebeu como resposta um aceno positivo enquanto ela colocava sua cabeça encostada em seu peito. – Nós vamos sair daqui, prometo.
— É feio prometer e não cumprir, primo Charle. — uma voz próxima a eles se fez presente e passos vinham de encontro a eles de várias direções.
— Quem está ai? O que querem? — gritou apertando Emma em seus braços.
— Somos suas amigas, Charle… Só queremos brincar… — os passos pararam e o vento frio sobrou levantando folhas. — E eu quero saber o que você tem dentro do seu coração.
— Emma corre. — soltou a menina esperando ela correr, mas tudo o que ela fez foi dar um passo para trás de cabeça baixa segurando Safira.
— Por que eu correria? — Emma levantou a cabeça sorrindo sádica, por dentro ela queria dizer para ele correr e sair da floresta que ela ficaria bem ali mas não conseguia.
— O que você está dizendo? Você tem que se salvar! — gritou Charle.
— Você que tem que se salvar. — Emma soltou Safira que ficou de pé olhando para o garoto que estava assustado e tremendo muito com a situação. Emma não queria acreditar, até para uma criança do tamanho dela isso era claro. Elas queriam matar Charle. Não poderia deixar, mas seu corpo não obedecia.
— Emma o que está acontecendo? — o menino se assustou mais ainda quando de dentro da escuridão sairão mais bonecas, cada uma diferente da outra, todas com facas nas mãos e olhares apavorantes.
— Corra Charle ou eu vou te pegar…— uma das bonecas disse e foi nessa hora que ele percebeu que era Safira. A boneca da sua prima, falando e andando na direção dele. Queria correr dali, mas Emma ainda estava no meio daquelas bonecas loucas e não a abandonaria naquele momento, não a abandonaria nunca. Tomado por uma coragem sem tamanhos conseguiu jogar Safira para longe com um chute e correu até Emma a agarrando pela mão, era tudo ou nada, saiu correndo puxando mais uma vez a prima que parecia estar em um estado de choque depois que a boneca saiu de seus braços. A corrida estava mais difícil que antes, não sabia qual era o lado certo mas não poderia parar e olhar para qual lado deveria seguir.
Na cabeça de Emma o medo de matarem Charle estava a deixando louca. Nunca poderia imaginar que suas amigas poderiam querer fazer mal a alguém, em sua mente as primeiras palavras de Safira ecoava como uma cantiga antiga: “— Venha brincar comigo Emma! Vamos ser amigas para sempre.— disse a boneca enquanto estendia uma das mãos para a garota.
— Mas como eu vou te achar? — a garota gritava enquanto tentava alcançar sua boneca.
— Não se preocupe, eu vou te buscar, apenas me espere no lago. — a confiança na voz da pequena Safira era acolhedora.”
[…]
Depois de muito correr os dois se viram em frente ao lago da casa Blood. As pernas de Emma guiaram os dois até o lugar como Safira a pediu, seu corpo esperaria ali, mas sua mente gritava que ali era um lugar perigoso que era ali que as bonecas apareceriam. Charle com todo o cuidado e atenção do mundo se aproximou de Emma tocando-lhe o rosto chamando sua atenção, queria ter certeza que ela estava bem.
— Está tudo bem Emma? — a garota respondeu com um aceno positivo de cabeça com os olhos fixos no lago. – Temos que voltar para sua casa e contar a alguém. Não. Ninguém vai acreditar na gente.
Emma parou de escutar o que Charle e andou até seus pés tocarem a borda do lago, a água se infiltrou dentro do calçado da garota e tocou-lhe. A sensação a dominou e nem sua mente parecia sua, não tinha forças para lutar contra aquilo e sua mão foi de encontro a barra da fantasia de anjo tirando uma pequena faca, Safira tinha colocado ela ali enquanto estava no colo de Emma, a lâmina pálida brilhava a luz da lua. Passos eram ouvidos e Charle puxou a garota pelo ombro na intenção de uma trilha longa e escura, mas não foi rápido o suficiente. Vários corvos bloquearam a passagem assumindo a forma de uma espécie de corvo humano, logo ao lado dele as bonecas apareceram todas com facas em mãos e sorrisos diabólicos.
— Ora… ora, olha quem voltou para nós meninas. — a voz rosnou com um trovão raivoso arrepiando todos os pelos do corpo de Charle. – Parece que ela trouxe um convidado. — o ser olhou o garoto de cima a baixo e lambeu os lábios.
— Emma tem bom gosto para amigos. — disse Safira maliciosa encarando o garoto que escondia Emma em suas costas.
— Entregue Emma a nós e não lhe matamos, criança. — disse Hanna enquanto Zoe, sua gêmea, se aproximava esticando a pequena mão livre.
— Nunca! Nos deixe em paz suas aberrações. — gritou andando de costas, mas parou quando sentiu algo pontiagudo tocando suas costas.
O ser obscuro riu em escárnio quando o menino se virou aterrorizado para a prima, a faca estava firme nas mãos da garota mas os olhos tremiam em medo. Seu corpo estava agindo por conta própria apenas conseguia mexer os olhos por conta própria, sentiu quando a faca golpeou o ar na direção de Charle, gritou internamente quando o garoto caiu e seu corpo montou o dele com a faca entre as duas mãos.
— Emma por favor, pare! Essa não é você. Por favor Emma, nós somos família.- implorava o garoto chorando por ver lágrimas de tristeza e dor escorrerem pelo rosto da prima no momento em que ela se curvou sobre ele. Um sorriso sombrio se instalou nos lábios da garota contrastando com as lágrimas sofridas.
Todos riram quando Charle gritou de dor quando Emma cortou sua fantasia e pele na altura dos ombros, sangue banhou as mãos da menina que chorava em agonia, desferiu um novo corte dessa vez na altura do tórax. A risada de todos ecoava pela floresta junto dos gritos de dor, sangue banhava a garota que desferia golpes e mais golpes no menino. Ele já tinha perdido a consciência quando Emma desmontou o corpo inerte de Charle, seu corpo pesou e aos poucos conseguiu mexer seus dedos para longe da faca. Chorando se debruçou sob o corpo do primo que se esvaia em sangue.
— Me perdoa Charle! Por favor.- chorou tentando estancar o sangue dele.
— Não adianta mais criança, ele vai morrer aqui.- o ser se aproximou de Emma e lhe acariciou os cabelos. – Seus cabelos são lindos e sedosos, seus olhos são expressivos e delicados. Perfeita como eu pensei.- declarou erguendo o rosto de Emma com as duas mãos que eram similares a garras.
— Quem é você? — a voz infantil fez o sorriso do ser se alargar enquanto a levantava.
— Já nos vimos antes eu sou seu amigo corvo, mas pode me chamar de Haphens filho de Halphas.- disse se abaixando para ficar na altura da garota. – Vamos ser amigos para sempre, Emma Happert.
Mas que de presa Emma chutou Haphens e saiu correndo na direção das árvores, tinha que chamar ajuda. Charle ainda estava vivo, disso tinha certeza mas se demorasse mais isso não seria mais verdade, no entanto, quem acreditaria em uma criança? Quem acreditaria que tinha um menino morrendo no meio da floresta perto da casa dos Blood? Não sabia como mas tinha que achar alguém que acreditasse nela e por isso correu, correu entre as árvores escutando todos atrás de si. Não sabia o que eles fariam consigo, mas não queria ficar para descobrir.
Correndo pela floresta sentiu seu peito arder e suas pernas queimarem, não tinha o costume de correr por tanto tempo. Um estalo alto se fez presente ao seu lado esquerdo e Safira saiu de uma das muitas moitas da li, parecia que a boneca sentia a dor dela. Será que ela sabia o que aconteceria? Emma não estava pronta para descobrir e por isso correu passando pela boneca mas não sem antes escutar seu sussurro.
— Me desculpe Emma.
Correu desviando das raízes e dos galhos dos arbustos do caminho, logo a frente uma clareira grande estava a sua espera e nela Bea, Nora, Lissa, as gêmeas Hanna e Zoe, Talia e Amee estavam a sua espera com Haphens, esse sentando em um galho alto de uma árvore. Safira apareceu atrás de Emma segurando a mesma faca que ela usou para esfaquear Charle, estava ensanguentada e cheia de folhas, e estava ali nas mãos de quem se dizia sua amiga.
— Você vai se juntar a nós querida Emma, da mesma forma que todas nós nos juntamos.- disse Nora sorrindo alisando uma pequena machadinha de açougue, Safira mantinha a cabeça baixa atrás de Emma enquanto se aproximava sorrateiramente.
— E nem pense em correr, vamos te pegar antes que pense em qual direção seguir.- dessa vez quem se pronunciou foi Lissa.
— A água do lago ainda está em você.- Amee resmungou encostada na árvore em que Haphens estava sentado.
Lágrimas voltaram a escorrer pelo rosto de Emma e seus joelhos cederam, não tinha mais forças para lutar. Que Charle a desculpasse, mas não conseguiria salvá-lo. Enquanto lamentava-se Safira chegou por trás a segurando pelos cabelos castanhos cacheados, aproximou a faca do pescoço da menina e começou a cortar e um grito agudo escapou por entre os lábios da criança, era torturante para Safira fazer aquilo, agora se lembrava de como tinha morrido, se lembrava do cheiro podre do lugar em que acordará e em como demorou a se acostumar com tudo aquilo.
Cortou os pulsos da garota que agora se debatia em prantos, não poderia fazer nada por ela naquele momento então continuou a cortá-la cada vez mais fundo, cada vez arrancando mais gritos que eram músicas para os ouvidos dos outros. Safira aproveitou de um pequeno momento enquanto cortava o rosto de Emma para se aproximar de sua orelha e sussurra apenas para a garota.
— Ele conseguiu fugir, seu primo está vivo.— todos puderam ver o pequeno sorriso se formar no rosto da menina quando a mesma se deixou mergulhar na escuridão que a cercava.
— Feliz Halloween Emma Happert.- os olhos de Safira brilhavam em um vermelho intenso quando levantou a cabeça.
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Horas mais tarde, um grupo da polícia local se encontrava dentro da floresta que cercava a casa abandonada dos Bloond. Um garoto quase morto tinha aparecido na delegacia atrás do xerife dizendo que sua prima corria perigo, fala que demônios estavam andando pelos arredores da casa antiga e que eles o deixaram naquele estado, logo após isso desmaiou e foi levado ao hospital.
Agora, o grupo seguia por um dos vários caminhos que a floresta tinha. Parecia um labirinto vivo e por isso todos andavam juntos com as lanternas em punhos, logo a frente acharam uma trilha de sangue que seguia até o lago. Aparentemente o local de onde o garoto tinha fugido. Mais a frente uma trilha seguia até uma clareira, a trilha era cheia de armadilhas em forma de raízes grossas e galhos pontudos, um cheiro forte de sangue adentrou as narinas dos policiais enquanto se aproximavam.
O que viram os assustaram, o corpo de uma criança estava destroçado formando o número 9. Um dos policias presentes era o mesmo que achou o corpo de Safira Bents a cinco anos antes, suspirando colocou as luvas e aproximou-se do que restou do corpo. A cabeça, como na primeira vez estava sem o cabelo e couro cabeludo, provavelmente o mesmo deveria ter acontecido com os olhos da garota a sua frente.
— Mais um caso de morte na noite de Halloween próximo a casa dos Blood. — comentou se afastando do corpo mutilado.
— Mas dessa vez temos um sobrevivente. — comentou outro.
— Demônios? Fala sério. Ele deve está traumatizado. — resmungou a única mulher do grupo de 5 pessoas.
— Charle Happert é o único sobrevivente do Halloween sangrento, essa menina era a prima dele, Emma Happert de 10 anos. Me explique como uma criança de 14 anos não ficaria traumatizada com isso?- resmungou irritado recolhendo amostra do sangue que estava espalhado por todo o capim.
A alguns metros distantes da li, uma pequena boneca de cabelos cacheados e olhos expressivos olhava o que há algumas horas era o seu corpo. Emma em seu corpo de boneca observava os policiais retirarem seu antigo corpo inexpressiva, teria que esperar 5 anos para fazer aquilo com uma outra garota. E ai seria ela a olhar o antigo corpo ser carregado. Mas Emma estava feliz, Charle tinha conseguido sobreviver e agora estava bem e longe de problemas, mas teria que descobrir uma forma de Haphens não descobrir isso e mandar uma das meninas no próximo halloween atrás dele. Safira poderia ajudar, e tinha certeza que ajudaria.
— Eu olharei por você para sempre, Charle.
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