Half Of My Heart
8 Capítulo 8
Elisabeta foi surpreendida alguns dias depois por uma ansiosa Ema, que a aguardava em seu quarto em uma tarde ensolarada. Não havia mais conversado com a amiga desde aquela briga, o que também envolvia Ema não saber sobre a totalidade de seu envolvimento com Darcy.
Ema encarou a amiga, derrotada. Sua vida estava um turbilhão e nada mais fazia sentido. De repente parecia que escolher o casamento que seu avô planejara era também abrir mão das duas pessoas mais importantes de sua vida. E ao menos uma delas não precisava ir embora.
— Elisa! – Ema agora forçava um sorriso. – Como vai?
— O que está fazendo aqui? Veio me acusar novamente? – a Benedito bufou.
— Não, é claro que não. Elisa, eu queria me desculpar. Eu sei que fui injusta com você. – suspirou Ema.
— Foi muito injusta comigo. Ema, você me acusou de me envolver com Ernesto. – Elisabeta reclamou.
— Elisa, eu estou dominada pela insegurança. Quando você me disse que passou a noite fora...
— Eu nunca me envolveria com Ernesto. – Elisabeta foi categórica. – Mas eu também não vou aceitar suas desculpas.
— Elisa, por favor. Eu sei que errei, e prezo muito por nossa amizade. – Ema sentiu um nó na garganta.
— Eu também, Ema. Mas eu não tenho certeza se você vai manter esse pedido de desculpas. – Elisabeta sentou-se, olhando para as próprias mãos.
— O que? Por que? – Ema assustou-se. – O que aconteceu?
Elisabeta encarou a amiga com olhos tristes. Sentia-se envergonhada pelo acontecido, por trair a confiança de Ema, mas não deixaria mais um mal entendido se perpetuar entre elas. E foi com voz embargada que confessou.
— Eu e Darcy... – soltou o ar. – Eu me entreguei à Darcy, Ema.
Ema arregalou os olhos. Talvez tenha sido apenas naquele momento que conseguiu entender a dimensão de tudo que acontecia entre ela, Darcy, Elisabeta e Ernesto. Porque conhecia Elisabeta, e agora só podia interpretar a relação dela e Darcy de uma forma.
— Você o ama. – não foi uma pergunta, nem uma acusação.
— Eu não queria, Ema. – Elisabeta sentiu uma lágrima correr por seu rosto. – Eu sempre soube que vocês iriam se casar, mas quanto mais eu tento sair dessa situação, mais me envolvo.
— Elisa, se acalme. – Ema finalmente se aproximou, sentando-se ao lado de Elisabeta e segurando suas mãos. – Me diga o que aconteceu.
— Ema, eu sei que eu não deveria ter feito isso. Só complica tudo. – Elisabeta desesperou-se. – Por favor, me desculpe.
— Eu não tenho que desculpá-la, Elisa. – Ema sorriu. – Eu é quem tenho que pedir desculpas, quem começou tudo isso fui eu.
— Mas você...
— Me deixe falar. – a neta do Barão interrompeu. – Eu incentivei você a conhecer Darcy. Elisa, não é culpa sua se apaixonar por ele. Eu a conheço há tantos anos, minha amiga. Você jamais se entregaria a um homem que não amasse.
— Um homem que será seu marido. – Elisabeta afirmou.
— Essa é uma decisão de nossas famílias, e não nossa. Mas não importa agora, eu quero saber o que você sentiu.
— O que você me disse que eu sentiria. – Elisabeta abriu um pequeno sorriso. – Foi mágico, maravilhoso.
— E você se arrepende? – Ema arqueou a sobrancelha.
— Me arrependo de quebrar a sua confiança. Mas não me arrependo do que vivi com Darcy.
— Então não quero que tenha nenhum arrependimento. – Ema apertou as mãos de Elisabeta. – Não há nada do mundo que eu deseje mais do que a sua felicidade, e a de Ernesto.
— Ema, você deveria desejar a sua felicidade com a mesma intensidade. – Elisabeta sorriu.
— Você sabe que esse é um departamento mais complicado.
— Tudo bem, eu não vou pressioná-la. Mas pense sobre tudo isso, por favor.
— Eu lhe prometo que vou pensar. – Ema sorriu.
E pouco tempo depois as duas se despediram. Elisabeta estava um pouco mais aliviada por Ema saber a verdade, mas não sabia se aquilo significaria alguma coisa. Passara os últimos anos vendo Ema garantir a todos que cumpriria o acordo, mesmo em seus melhores momentos com Ernesto.
E não duvidava que a amiga quisesse sua felicidade, que quisesse ver Ernesto feliz. Mas Ema talvez não compreendesse que estavam todos interligados agora, e que o casamento com Darcy tiraria dos quatro a chance da felicidade.
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Darcy estava em seu escritório na mansão quando Ema foi anunciada. Não tinham combinado nenhum encontro, por isso ficou surpreso ao ver aquela que em breve seria sua noiva adentrar o local, com um olhar curioso no rosto, e um sorriso tranquilo nos lábios.
— Como vai, Darcy? – ela o cumprimentou. – Me desculpe vir sem um convite, mas precisamos conversar.
— Ema, é claro que não precisa se desculpar. – ele sorriu. – Por favor, sente-se.
— Estive com Elisabeta há pouco. – Darcy ergueu a sobrancelha ao ouvir o nome de Elisabeta. – Darcy, me desculpe invadir sua privacidade, mas é a única forma possível de ter essa conversa. Eu preciso saber o que você sente por Elisa.
Parecia uma pergunta simples, mas Darcy sabia que não era. Falar sobre Elisabeta era resumir todas as suas dúvidas e confusões, era inclusive um choque com suas convicções. Jamais pensara ser possível que uma pessoa pusesse a prova tantas verdades absolutas.
— Eu não tenho certeza do que quer dizer... – tentou ganhar tempo.
— Darcy, Elisabeta me contou o que aconteceu entre vocês. – Ema suspirou, impaciente. – E eu conheço minha amiga, sei que ela jamais colocaria nossa amizade a prova.
— Ema, eu respeito muito nosso compromisso. – Darcy começou a dizer.
— Eu não estou aqui para falar sobre nós dois. – ela sorriu. – Sei que o que nos envolve é maior do que gostaríamos, e sei também que nunca tivemos pretensões românticas um com o outro.
— Mas eu não gostaria que tomasse minha relação com Elisabeta como desrespeito. – Darcy respirou fundo. – Embora eu não possa imaginar de que outra forma tomaria.
— Por isso é importante para mim entender o que você sente por Elisabeta. Elisa não é só minha melhor amiga, é a irmã que nunca tive.
— O que torna tudo ainda mais complicado. – Darcy passou a mão pelos cabelos.
— O senhor está tentando me enrolar. – Ema bufou. – Vamos, eu estou esperando uma resposta.
— Me desculpe, Ema. – Darcy sorriu, triste. – A resposta que procura ainda não está tão clara quanto eu gostaria.
— Então me fale sobre o que sente. É muito importante.
— Elisabeta me desafia. – ele levantou-se. – Faz meu coração ficar acelerado, me coloca em dúvida de minhas convicções. Preenche uma parte que eu desconhecia, e que ainda não tenho bem certeza se poderei deixar de lado a partir de agora.
Ema sorriu ainda mais. Darcy podia não saber, mas estava apaixonado por Elisabeta. E isso mudava tudo. Mudava os acordos que tinham, mudava as convicções. E Ema sentiu-se de repente livre, como se um peso tivesse saído de seus ombros.
— Então não poderemos nos casar.
As palavras pularam de sua boca, e nunca pareceram tão certas. De repente todos os anos em que ouviu de Ernesto e Elisabeta o quanto era absurda aquela decisão ficaram claros, cristalinos. Era um absurdo casar-se com um homem que não amava, com alguém com quem não tinha compatibilidade alguma.
— Perdão? – Darcy ouviu, sem conseguir processar.
— Este acordo é um absurdo. – Ema levantou-se, de repente viva. – O senhor está apaixonado por Elisabeta, e eu amo Ernesto. Darcy, não há motivos para este casamento.
— Mas o acordo entre nossos pais... – tentou argumentar, embora não se importasse com isso.
— Às favas com este acordo. – uma risada brotou de Ema. – Terei muita honra em manter nossa parceria comercial, mas não me casarei com o senhor.
Darcy de repente abriu um sorriso. Estivera pensando em romper aquele acordo, em acabar com aquela loucura. Seria a única maneira de garantir que Elisabeta estivesse por perto, estivesse com ele.
— Você não sabe o quanto me sinto aliviado por isso. – Darcy riu também. – Por favor, não fique ofendida.
— De forma alguma. E agora que ficamos acordados, peço sua licença. Tenho uma pessoa para encontrar, e acredito que você também tenha.
Ema surpreendeu Darcy ao se aproximar dele e abraça-lo. O tempo de convivência fora suficiente para perceber que teriam grandes afinidades, e Ema estava feliz de perceber que Darcy faria parte de sua vida. Principalmente sendo o marido de Elisabeta, e não o seu.
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Ernesto organizava seus últimos pertences quando a batida na porta o distraiu. Não havia mais ninguém em casa naquele horário, e por isso também era surpreendente que alguém procurasse qualquer um dos Pricelli. Nem bem terminou de abrir a porta e Ema jogou-se em seus braços.
— Baronesinha? – ele a segurou com força. – O que faz aqui?
— Acabou, Ernesto. – ela se afastou, o encarando com um grande sorriso. – E eu espero que não seja tarde demais, que ainda exista na sua vida espaço para mim.
— Baronesinha, eu não estou entendendo. – ele coçou a cabeça, se afastando um pouco de Ema.
— Eu e Darcy terminamos nosso noivado. E Ernesto, me descupe por todas as vezes em que evitei ouvi-lo. Você tinha toda razão, e só agora consigo ver.
— Você e Darcy não estão mais noivos? – ele arqueou o a sobrancelha. – E como foi que isso aconteceu?
— Depois de todos esses anos eu precisei entender que não poderia impedir a felicidade de Elisabeta. – Ema sorriu, culpada. – E isso só me fez perceber que por tanto tempo eu impedi a minha felicidade.
— Ora, Baronesinha. Eu nem sei quantas vezes tivemos essa conversa. – o italiano disse, contrariado. – Para agora você aparecer repetindo o óbvio.
— Deixe de ser turrão. – Ema reclamou. – Eu o amo, Ernesto. Eu sempre o amei, e sempre estive cega demais pelos compromissos e planos de meu avô. Mas agora eu estou aqui, e quero uma resposta.
Ernesto revirou os olhos, antes de se aproximar e tomar Ema nos braços. Sua boca encontrou a dela, sem mais impedimentos, finalmente sem a barreira daquele noivado que Ema insistia em manter. Mas antes que suas línguas se tocassem, Ernesto se afastou novamente.
— Não. – disse, categórico. – Eu já esperei tempo demais, já vivi tempo demais beijando a noiva de outro homem.
Ele respirou fundo, ajoelhando-se em frente à Ema, surpreendendo-a.
— Baronesinha, eu não tenho um anel. Eu também não tenho posses, como bem sabe. Não tenho nada a oferecer além do meu amor, e não posso prometer nada além de que tentarei fazê-la feliz todos os dias de nossas vidas. Ema, minha Baronesinha, você aceita se casar comigo?
O sim embargado que saiu dos lábios de Ema foi suficiente para que Ernesto se levantasse rapidamente, puxando-a para si. Os lábios dos dois se encontraram em um beijo apaixonado, e Ema finalmente respirou aliviada por saber que estava comprometida com o amor de sua vida.
Ernesto afastou-se dela, segurando sua mão, e juntos caminharam até a cachoeira, onde tantos momentos importantes foram vividos. E ali se amaram como desejavam por tanto tempo, com a certeza de que o futuro os aguardava, de que em breve seus filhos correriam pelos campos do Vale do Café.
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Elisabeta observava os campos do Vale do Café, naquele velho morro que era seu refúgio. Precisava tomar uma decisão, e via-se prestes a abandonar aquele lugar que tanto amava. O vento forte batia em seus cabelos, e seus pensamentos estavam tão longe que mal viram Darcy se aproximar.
Ele a abraçou por trás, sem deixar que ela fugisse. Beijou o pescoço de Elisabeta de forma leve, enquanto as mãos procuravam as dela, entrelaçando seus dedos. Ela conteve a respiração ao senti-lo tão próximo. O motivo de seus novos sonhos e o motivo de um milhão de dúvidas.
— Oi. – ele sussurrou.
— Oi. – Elisabeta respondeu no mesmo tom.
— Eu não sou bom com sentimentos. – Darcy disse, de repente. – Eu nunca busquei me apaixonar por ninguém.
— Eu não imaginaria. – ela riu, irônica, fazendo com que Darcy a apertasse e risse também.
— Ema e eu não estamos mais noivos. – ele disse, e sentiu Elisabeta enrijecer em seus braços, antes de soltar um suspiro e aninhar-se ainda mais nele.
— Não?
— Acho que finalmente entendemos que seria uma loucura. – ele beijou novamente o pescoço dela.
— Foi o que sempre disse a ela. – Elisabeta apertou ainda mais as mãos de Darcy.
— E você estava certa. – uma das mãos de Darcy soltou a de Elisabeta, para afastar os cabelos dela. – Porque eu não consigo imaginar uma vida em que não tenha você em meus braços.
Elisabeta virou-se para Darcy, de repente, seus olhos se encontrando com a mesma intensidade da primeira vez.
— Eu gostaria de ser romântico como Camilo, mas eu não saberia o que dizer. – ele sorriu de lado. – Por isso eu vou dizer que quero você em minha vida, Elisabeta. E espero que possamos descobrir juntos o que é tudo isso que nos envolve.
Ela sorriu, acariciando o rosto dele.
— Eu adoraria saber o que é tudo isso que nos envolve.
Darcy não esperou mais nenhuma palavra antes de beijá-la com ardor. Haveria muito tempo para descobrir o que sentiam, para viver aquele novo sentimento que aflorava entre eles. E não podiam esperar mais nem um segundo para começar.
## FIM ##
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