Meu nome é Matthew Evans.

Tenho 14 anos. E há alguns meses tentaram me exorcizar...

Se eu sou um demônio?

Pode se dizer que sim...

Eu poderia contar qualquer parte da minha insignificante vida, mas as coisas começaram a ficar realmente feias quando um grupo da vila vizinha soube que eu era metade demônio.

Bem, quando se diz que alguém é metade demônio, você deve imaginar uma pessoa que cospe fogo, usa um tridente, é vermelho ou tem chifres. Não que o lance dos chifres não seja verdade.
Um half demon – como somos chamados – é basicamente um humano, só que com alguns “atributos” a mais. Nós temos o olho esquerdo vermelho, como um demônio, o nosso cabelo não tem cor, ou seja, branco e os desagradáveis chifres brotando da cabeça...

Bem, continuando sobre o exorcismo:

Eu estava dormindo quando ouvi alguém me chamar:
-Matt, acorda... Matt acorda logo!

Abri os olhos e vi um vulto embasado. Esfreguei os olhos e vi o rosto de uma pessoa de meia idade, sem nenhum fio de cabelo, usando uma túnica negra- era padre.
-Ah padre, que horas são? – exclamei – Não deve nem ser sete horas da manhã!
São seis e meia, e você precisa comprar pão pra missa da tarde – disse ele, decidido – Levanta.

Levantei e fui cambaleando até o banheiro, joguei água em meu rosto, e fitando o espelho vi o que tanto me incomodava – os chifres.
Coloquei minha camiseta preta, uma jeans e minha famosa bandana pra esconder os chifres e sai da igreja. No caminho até o mercado percebi que todos por quem eu passava me olhavam, mas eu não me importava... Esse era o preço de ser o garoto demônio...

Chegando ao mercado, o balconista me atendeu, e enquanto eu esperava estalando os dedos, percebi que um homem usando capuz que me olhava, mas o que me intrigou foi que ele me olhava com fascínio, e não ódio e desprezo que outros demonstravam.
-Que eu saiba nunca vi esse cara — pensei — Ele se parece com aqueles padres da vila vizinha...

Quando percebeu que eu retribuía o olhar, o homem disfarçou e começou a mexer com os chicletes, atrás dele. No mesmo momento apareceu o balconista.
-Aqui está, um quilo de pão.

Eu estava saindo da loja, quando notei que o encapuzado me seguia. Continuei andando por um tempo, e ele continuava me seguindo.
Quando estávamos próximos a um beco, o sujeito apertou o passo e ficou praticamente atrás de mim. Eu ia virar pra reclamar quando notei mais pessoas encapuzadas dentro do beco.

Alguém me agarrou por trás e tapou a minha boca com a mão, tentei resistir, me rebati, mas não adiantou, mais dois homens agarraram minhas pernas e me levaram relutante pra dentro do beco escuro. Tive a vaga esperança de que alguém apareceria pra me salvar, mas a rua estava deserta.

Quatro homens de capuz me seguravam enquanto um estava mexendo em uma sacola de couro. Imaginei que tipo de coisas um doido encapuzado poderia tirar de dentro de uma bolsa contra um menino imobilizado, e as possibilidades não me agradaram... De dentro da bolsa ele tirou uma bíblia com detalhes em prata nas laterais, um frasquinho de água e uma cruz de prata como esmeraldas de cima a baixo.
-É o meu fim – pensei.
-Saia demônio! – começou a falar o homem com a bíblia na mão – Saia do corpo desse jovem, um corpo que não lhe pertence!
-Espera ai... – pensei – estão tentando me exorcizar?!
-Libere esse menino – continuou o homem – Saia desse corpo que não te perten...

Ele parou de falar subitamente, alguma coisa o tinha abalado, ele estava pálido, olhando fixamente alguma coisa que eu não podia ver, pois estava sendo segurado.

Todos os homens pareciam chocados, afrouxando as mãos. Permitindo assim que eu me soltasse. Levantei-me com um pulo, pronto pra quebrar alguns narizes quando me deparei com uma coisa... Uma pessoa assistia toda a cena...

Era um homem alto, parecendo de ter uns 28 anos, estava com os cabelos devidamente penteados e tinha a aparência da uma pessoa rica e refinada. Estava vestido em um terno vermelho sangue com sapatos pretos muito bem lustrados.

-Ora, ora... – disse o homem com uma voz suave ¬– Matthew Evans...
-Como você sabe o meu nome? – perguntei.
-Digamos que seu pai e eu fomos meio... Chegados... – Dizia em tom cada vez mais assustador.
-Meu pai, mas me pai é um... – fui interrompido por um rugido apavorante.

O homem apoiara as mãos no chão, seus olhos, antes castanhos, estavam assumindo um tom vermelho, como o meu olho direito... Cresceram pelos em todo o corpo do homem e ele aumentou de tamanho a ponto de suas roupas rasgarem. Os encapuzados tremiam de medo quando a face dele se transformou em um focinho. O homem havia se transformado em um cão infernal, e quando pensei que não podia ficar pior, dos ombros da besta brotaram duas cabeças, não era um cão infernal, era um Cérbero.

O Cérbero rugiu e avançou até nós, abocanhando um homem e o levantando até a altura de suas outras cabeças, que estraçalharam a vitima. Nesse momento eu soube que tinha que sair dali. Olhei rapidamente para trás, procurando uma saída, mas não havia nenhuma, a única era a que o enorme demônio estava bloqueando – estávamos encurralados.

Ouvi gritos de horror, o que fizeram eu olhar de volta para frente a tempo de ver mais um homem ser mutilado pelos enormes dentes do Cérbero. Agora havia três homens e mais eu, contra um animal de no mínimo duas toneladas.

Um dos homens, o mais alto, sacou uma adaga com pedras azuis e tentou distrair o monstro, que não caiu na provocação e lhe deu uma unhada que o fatiou em pedaços, os dois últimos aproveitaram a distração pra passar pelo Cérbero enquanto ele comia sua presa. Eles conseguiram, passaram pela besta, mas eu estava paralisado de medo, não os acompanhei, e quando me dei conta da distração o monstro já estava rosnando e vindo pra cima de mim.

O Cérbero rosnava, e andava lentamente pra cima de mim. Eu tropecei, e cai de costas, comecei a me arrastar pra trás, a tempo de ver o monstro avançando. Era o fim. Meus últimos momentos seriam em um beco escuro... Eu nunca mais ia ver as pessoas que amo... Nunca mais ia abraçar o Padre... O Padre...

Eu vi de relance a cruz de prata que usaram pra tentar me exorcizar, não hesitei e a peguei. No segundo seguinte eu vi os dentes do Cérbero a milímetros do meu rosto, como impulso tentei cravar a cruz nele, e deu certo. Dois segundos depois eu me dei conta de que tinha um Cérbero sangrando muito aos meus pés, com uma cruz de exorcismo cravada no olho.

Fiquei sentado um pouco, me recuperando do fato de ter matado um demônio. Depois de levantar percebi que o Cérbero ainda gemia de dor. Eu devia dar um fim digno a ele, mesmo sendo um demônio, eu não podia deixá-lo agonizar até a morte. Andei calmamente até a besta abatida e olhei-o bem nos olhos, percebi que ele também queria que eu acabasse logo com isso. Não pensei duas vezes, com toda a minha força eu pisei na cruz, fazendo esguichar sangue do animal. A imagem do Cérbero começou a tremular, seu corpo estava queimando e virando cinzas. E em pouco tempo só havia a cruz que tinha salvado minha vida...