Half Body — Interativa
1 O dia em que Arthur... Ops, ninguém pode saber.
Notas iniciais

One.
Everybody Wants to Rule the World
1. O dia em que Arthur… Ops, ninguém pode saber.
Os olhos da mulher faiscaram.
De raiva.
Como alguém tão incompetente pode deixar aquilo acontecer? Como alguém que se julgava o melhor segurança do Reino simplesmente deixa algo tão grande acontecer? Como alguém que é vigiado 24 horas por dia simplesmente morre? Assim? Sem qualquer explicação?
— Eu te avisei que isso daria bosta, mas você me escutou? Não! Eu sei que o que eu estou fazendo, Thomas, eu sei! — o Rei resmungou mais para si mesmo do que para a Rainha que agarrava uma parte da mesa para não cometer o segundo assassinato da madrugada.
— Eu sinto muito, Vossa Majestade — o segurança pediu, os olhos marejados, a Rainha só não sabia se eram por tristeza ou por culpa.
A mulher abanou a mão, como se aquilo fosse algo banal.
O que de certa forma — para ela — era.
— Esqueça — ordenou, a voz rouca. Levantou-se ainda nervosa e caminhou em direção a grande janela que tinha na sala de reuniões. Joanna sempre achou aquela janela ridícula, principalmente pela fácil visão e fácil acesso, mas não era Rei, e o feminismo não era lá tão grande naquela época.
Suspirou, voltando a olhar o segurança, que encarava os Reis.
Thomas estava sentado em uma cadeira, praticamente dormindo, com os pés em cima da mesa, quase como se não ligasse para o fato de que seu filho havia acabado de ser assassinado. Enquanto a Rainha estava expressando puro ódio. Nenhum dois pareciam estar tristes.
— Onde está o corpo dele? — a mulher perguntou. O segurança a fitou, e depois de alguns segundos pode compreender de que falavam do rapaz morto.
— Está em meu quarto, Vossa Majestade. Deixei-o por lá, já que não queria acordar ninguém, ou deixá-lo solitário na carruagem — respondeu, temendo qualquer atitude a partir daquele momento.
— Levo-o para a carruagem ensanguentada e vão para longe — ordenou, seus olhos vagando pela sala imensa, as mãos roçando sua pele, e um leve sorriso brotando em seu rosto. — Cave um buraco e o taque lá, e depois trate de disfarçar de qualquer jeito, com rosas, gramas, sei lá, dê seu jeito — a mulher voltou a ficar séria e caminhou rapidamente até Thomas, chutando a cadeira onde o marido estava de olhos fechados.
— Mas Vossa Majestade...
— Acorda, homem! — a mulher rugiu. Thomas deu um grande pulo com o susto, ficando de pé, e ereto e mostrando-se mais alto que a Rainha. E mais temeroso. E mesmo assim o segurança estava tremendo as pernas para o que a mulher lhe faria. — Está na hora de chamarmos o segundo — falou confiante.
Thomas arqueou uma sobrancelha.
O segurança, fitando os dois, boquiaberto.
— Do que diabos você está falando?
— De quem você acha, Thomas? — ironicamente, a mulher bufou e então se virou para o segurança. — Vá fazer o que eu estou mandando, e volte imediatamente! Assim que chegar, não fale com ninguém, e venha me procurar — seus olhos azuis penetraram nos olhos castanhos do homem, que engoliu em seco.
— Mas Vossa Majestade... É o seu filho... — argumentou, a voz quase falhando por estar contrapondo a mulher. Mas tinha de fazer isso! Qualquer um merecia um bom enterro, uma boa passagem desta vida para outra, e por mais que Arthur fosse definitivamente horrível, ele também era um ser humano, e merecia ser tratado como tal. — Não pode simplesmente enterrá-lo aonde bem entender, no meio da madrugada, e-
— Eu não sei o seu nome, e não me interesso em saber — a mulher rapidamente o interrompeu, já enjoando daquele discurso de nem um minuto do homem. Colocou suas mãos sobre a mesa, e apoiou seu corpo sobre os braços, olhando para os olhos escuros do segurança. — Você vai cavar um buraco, vai enterrar o Príncipe Arthur, e vai voltar aqui sem falar isso para ninguém — sua voz era penetrante, e seus olhos mais ainda.
O segurança apenas assentiu, lentamente, e um pouco abobado, mas assentiu, e isso já era suficiente para a Rainha, que sorriu vitoriosa. O homem saiu da sala correndo, e a mulher ficou ereta novamente, ficando séria e fitando seu marido, que sorria em diversão.
— A cada dia que passa seu poder aumenta — o homem comentou dando uma breve piscada.
— Nós precisamos convocar o segundo — exigiu.
O segundo — que Thomas demorou bons minutos para compreender quem era — era o irmão gêmeo do Príncipe Arthur, aquele conhecido como o filho único de Joanna e Thomas. A verdade, é que ele, obviamente, não era filho único, e que também, Joanna e Thomas não eram pais dos rapazes.
É uma longa história.
Tudo começa na Seleção de Thomas — a terceira Seleção Oficial da Inglaterra — quando este, nem um pouco interessado em se prender a alguém, conhece a sua Selecionada Joanna, também interessada somente no poder em que ser Rainha lhe ofereceria. Após semanas se conhecendo, os segredos são compartilhados, e eles fazem um trato: se casariam, mas não teriam nenhum tipo de relação longe dos olhos dos outros.
E foi ai que Thomas em uma de suas caçadas — onde dava espaço para ambos cometerem adultério — conheceu uma jovem camponesa, e dela nasceu seus dois filhos: Arthur e seu irmão gêmeo. Como havia muita pressão para um herdeiro, resolveram então pegar qualquer bastardo que Thomas tivesse gerado, já que Joanna era totalmente contra ter alguém dentro de si, e sempre fora muito cuidadosa em suas relações.
No final, essa camponesa foi útil, e depois de Joanna fingir por oito meses (Arthur ficou considerado como prematuro) no seu primeiro mês, Arthur foi levado, deixando uma camponesa abafada e um bebê chorão para trás. Foi ai que Thomas soube que escolheu certo. No entanto, conforme Arthur crescia se mostrava totalmente diferente do esperado. Reclamão, mandão, chato, metido a besta, e além de tudo, irresponsável para assumir o trono. E isso deixava Joanna preocupada.
Porque ela definitivamente não queria ter que continuar o resto de sua vida sendo Rainha, queria ter uma vida de paz e sossego, mas com um filho daquele jeito, não haveria jeito. Por isso talvez, quando ficou sabendo da morte do rapaz, não deu muita bola. Viver sem aquele pé no saco seria uma bênção de quem quer que fosse. Com certeza.
A ideia inicial de Joanna era fazer o que fizeram anos atrás. Irem até a casa da camponesa, pegar o segundo menino, e então o trazer para o castelo, ensinar-lhe como ser um Príncipe, como ser uma parte de Príncipe Arthur em frente as câmeras, e claro, ter alguém para assumir o trono.
Seria o plano perfeito, para o reinado perfeito, para a Seleção perfeita.
Nada sairia eixos, e Joanna seria considerada a melhor Rainha da Inglaterra.
Seu sonho seria finalmente realizado.
Se o maldito irmão gêmeo colaborasse.
Fale com o autor