Half-Blood
2 #0.05 - Quando a Noite Perde a Cor. (Bonus)
Notas iniciais
◆◇◆
NADA É PRA SEMPRE...
...ATÉ MESMO A IMENSIDÃO ESTRELADA DA NOITE SUCUMBE À LUZ DO DIA...
...MAS...
...MESMO ASSIM AS ESTRELAS NÃO TE ABANDONAM.
VOCÊ PODE ATÉ NÃO ENXERGAR, MAS LÁ DE CIMA ELAS TE OBSERVAM CALMAMENTE...
...ESPERANDO PACIENTES PELO MOMENTO EM QUE PODERÃO BRILHAR FORTES NOVAMENTE.
•••
◆
Era uma manhã como qualquer outra, Isabel observava pela janela enquanto os meninos brincavam em seu jardim. A felicidade corria estampada no rosto daqueles jovens garotos, Despreocupados, sem se importar com nada além de viver e aproveitar a vida.
—Não vale, Damie! *arf* *arf* Você corre muito rápido!
Disse o pequeno Lars assim que parou para recuperar o fôlego.
—Você que é muito lento! Nem adianta reclamar, eu te peguei e tá com você!
Respondeu Damian sorrindo e logo em seguida mostrando a língua.
Ambos continuaram nessa brincadeira até que Isabel os chamou para casa.
◆
Ambos chegaram na cozinha e se depararam com uma mesa repleta de pequenos doces e demais aperitivos. Os meninos mal puderam admirar os doces e notaram o centro da mesa. Nele estava um grande bolo com 15 velinhas em cima, metade do bolo era em glacê preto, e a outra metade era em um tom muito claro de azul, parecendo mais um branco azulado do que um azul claro. Os olhos dos pequenos brilhavam de admiração e suas bocas logo começaram a salivar. Ambos tinham os olhos em um tom meio anormal de amarelo, principalmente os de Damian. Os olhos de Lars lembravam mais um castanho amarelado do que de fato amarelo, mas os de Damian eram amarelos mesmo. Um amarelo vibrante e hipnotizante.
Os dedos de Damian já se mexiam instintivamente de tanta vontade de devorar tudo à sua frente, mas uma voz ressoou de trás deles e recobrou sua consciência.
—Nem pensem nisso! A festa é de vocês mas os doces também são para os convidados!
Disse Isabel tentando parecer rigorosa mas falhando completamente, pois sua voz carregava um tom calmo e gentil que não podia ser ultrapassado por uma falsa rigorosidade.
—Convidados??
Disse Damian, parecendo extremamente surpreso com o que Isabel havia dito.
—Sim — Respodeu Isabel — Sei que vocês não tem muitos amigos mas...
—Não temos nenhum amigo... Não precisamos disso!
—Claro que precisa Damie! Você não sabe o que está falando!
—Não precisamos não! Não é verdade Lars?
Lars olhou triste para o chão e falou baixinho, com um certo tom envergonhado na voz:
—...Ninguém gosta da gente...
Em poucos segundos os dois meninos ficaram com um olhar cabisbaixo e pensativo. Damian Apertou os punhos e rangeu os dentes
—Eles... Eles são maus, não gosto deles também. Não preciso ser amigo deles, tenho o Lars, e o Lars tem eu...
Damian foi até Lars, segurou sua mão e tentou o arrastar pro quintal novamente.
—Vamos Lars...
Antes que os dois chegassem à porta, Isabel os chamou.
—Vocês não podem me dar uma chance de tentar?
O silêncio tomou conta do lugar pelos 5 segundos mais demorados da história.
—Vocês dois sabem que a mamãe só está fazendo isso pelo bem de vocês, não sabem? Não quero que cresçam sozinhos...
—Damian olhou ao chão por mais alguns longos segundos e respondeu:
—Que seja, faça como achar melhor...
Isabel estampou um sorriso na cara.
—Obrigado com confiar na mamãe! Agora vão tomar um banho e se arrumar, não chamei vocês só pra ver o bolo.
E assim os dois subiram as escadas e foram até o quarto.
◆
A casa de Isabel era enorme, para Damian e Lars, que não tinham mais de 8 anos (pelo menos não até soprarem as velinhas), era colossal. O quarto dos dois ficava no 4º andar da casa, e eles tinham uma varanda com vista pra rua e os topos das casas menores. Qualquer outra mãe não deixaria crianças tão novas ficarem com o quarto mais alto da casa, ainda mais um com uma varanda a qual eles podiam se jogar a qualquer hora. Mas Isabel confiava nos meninos, e depois de tanto implorar ela acabou deixando que eles ficassem ali.
A varanda era seu lugar favorito, os dois sempre deitavam ali à noite e observavam as estrelas enquanto jogavam papo fora e falavam sobre a vida, pelo menos a vida que crianças inocentes conhecem. No fim eles sempre dormiam e Isabel tinha que os levar até a cama, algo que já estava ficando difícil, pois enquanto Isabel envelhecia cada vez mais e sentia o corpo cada vez mais fraco, os garotos cresciam cada vez mais e ficavam cada vez mais pesados.
Damian e Lars estavam nessa varanda, observando as nuvens brancas e com forma bem definida no céu. Os dois vestiam roupas bonitas e que haviam sido recém compradas. Lars vestia uma calça jeans clara com as barras dobradas até metade da parte inferior da perna e uma camiseta vermelha com um moletom bege por cima. Damian, ao contrário de Lars, se vestia completamente em tons de preto e cinza. Uma camiseta com caveiras preta por cima de uma camisa de mangas longas preta e uma bermuda de jeans cinza escuro, junto de seus tênis favoritos, all stars de couro preto de cano baixo. Isabel sempre achou estranho, mas respeitou a forma como eles gostavam de se vestir.
Lars rompeu o silêncio com uma pergunta.
—Por que você só se veste de preto?
—Algum problema com isso? -Respondeu Damian — Sei lá, eu simplesmente gosto. A cor me traz um sentimento confortável.
—Hum... legal! — Lars parecia feliz — Damie... Vc não acha que deveríamos tentar? Quer dizer... vc sabe que a Mamãe só quer isso pro nosso bem, às vezes pode ser bom fazer amigos! Parece tão legal...
—Talvez... Mas eles são tão...
Damian ficou pensativo e foi possível ver um leve esboço de raiva em seu rosto.
—...Eles não gostam de mim, me acham estranho. Ninguém quer chegar perto de mim, o único que fala comigo é você, e só pq é meu irmão...
—Não fale isso! Eu gosto de você sim, não sou seu amigo só pq sou seu irmão!
—...Jura?
—Juro! — Lars levantou e estendeu seu dedo mindinho — De dedinho!
Damian colocou um sorriso no rosto e levantou para cumprir o tratado de dedinhos.
—Não importa oq aconteça, você vai continuar sendo meu amigo! Promete?
Disse Damian que teve sua resposta logo em seguida:
—Claro que sim! Mas só se você me prometer isso também!
—Fechado!
*MEOOW*
Antes mesmo que pudessem desatar os dedos eles ouviram um som meio distante. Ambos foram até a beira da sacada e buscaram a origem do som. Em alguns segundos os dois avistaram no jardim deles um filhote de gato, completamente preto. Ele não parava de miar e a cada segundo os miados saiam mais altos e estridentes.
—Ele tá pedindo ajuda! -Disse Damian- A gente tem que ir ajudar ele!
Antes mesmo que Lars pudesse falar algo, Damian já havia saído correndo pela porta e sumido pela casa em seu caminho até o jardim.
Damian chegou em segundos até o quintal e parecia perfeitamente bem, já Lars demorou um pouco mais que um minuto e chegou bem cansado. Era sempre assim, Damian era bem atlético e possuía muito mais vigor que seu Irmão. O gatinho parecia assustado, seus olhos amarelos, tão vibrantes quanto os de Damian, não paravam quietos e corriam pelos rostos dos meninos e todo o lugar envolta. Ele parecia buscar um meio de fugir. Seus pelos estavam completamente arrepiados e ele andava pra trás, mas logo logo ele topou com a quina do cercado da casa.
—Ele deve estar com fome! Lars, cuida dele pra mim, NÃO DEIXE ELE FUGIR!
—Espera... oq você vai fazer?
E Damian já havia sumido pra dentro da casa.
◆◆◆
Quando Damian voltou o gatinho já estava bem mais calmo, Lars estava sentado bem próximo dele e quase conseguia tocá-lo. Damian carregava um potinho com leite e um pequeno prato com vários pedaços de presunto fatiado.
—Damie... Acho que tem uma coisa sobre esse gato que você não percebeu ainda...
—Como assim?
Lars apontou para a parte de trás do gato, em direção a pata traseira esquerda. Damian olhou com um pouco de cuidado e percebeu que aquele filhote não era como os outros, ele não possuía uma das patas!
—Ele... ele não tem uma pata...
Disse Damian, meio perplexo.
—Será que foi por isso que abandonaram ele?
Comentou Lars, surpreso.
—Bem, tanto faz! Eu não vou abandonar ele.
Damian foi até o gatinho e deixou o leite e os presuntos à sua frente.
—Pode comer! — Disse Damian com um sorriso acolhedor — Não vou fazer mal pra você, nem o Lars! Ele não consegue nem matar uma formiga sem começar a chorar.
—I-Isso... Isso é m-mentira!
E Lars já estava com o rosto vermelho. Enquanto Damian ria de Lars e o mesmo tentava se esquivar do fato de que mesmo sendo um menino crescido ele ainda chorava o Gatinho se aproximou do potinho com leite e começou a bebericar aos poucos.
—Ei... olha ele.
Damian parou de rir e olhou para o gatinho. O leite branco manchava seus lábios e pelos completamente pretos.
—Ele é tão fofo...
Disse Lars com os olhos brilhando.
Damian esticou o braço e acariciou o pequeno felino enquanto ele estava distraído com o leite. De primeiro momento o gato pareceu hesitar, mas assim que percebeu que Damian não pretendia o machucar ele ficou calmo e continuou bebendo. Logo o filhote estava ronronando enquanto comia o pequeno banquete que Damian trouxe.
◆
Os meninos haviam trazido o gatinho para o quarto, escondido é claro. Depois de darem um banho nele eles estavam sentados na cama observando enquanto ele, cambaleando por conta da quarta perna ausente, caçava o cadarço de um tênis largado em um canto quando Isabel os chamou para cumprimentar os primeiros convidados. Eles deixaram o pequeno gato no quarto e desceram até a sala. Pessoas e mais pessoas que eles não conheciam e tinham visto apenas de relance em variadas situações.
◆◆◆
Depois de algumas horas brincando e conversando, os dois já estavam mais à vontade e pareciam bem felizes com tudo aquilo, principalmente Lars. De fato Damian não era muito sociável e preferia ficar sozinho, mas Lars gostava de companhia. Lars viveu toda a vida junto de Damian, ele não podia simplesmente trocar a companhia de seu, praticamente, irmão pela de qualquer outra pessoa. Depois de Damian encontrar todo mundo com facilidade em uma brincadeira de esconde-e-esconde ele teve a idéia de mostrar o quarto deles para os seus novos amigos recém feitos.
Já era fim de tarde e o céu já estava naquele tom misturado de azul, roxo e laranja. O quarto, grande como o resto da casa, estava repleto de crianças espalhadas, sem contar Damian e Lars tinham mais 5 meninos e 2 meninas. Damian mostrava sua coleção de brinquedos quando o pequeno gatinho que estava escondido debaixo da cama criou coragem e se mostrou para todos.
—Olha só esse gato!
Disse um menino ali no meio. Ele era maior que todos ali e tinha uma expressão meio abobada no rosto. Esse mesmo menino levantou do chão onde sentava e correu até o gato, o segurando no ar.
—O gato é Aleijado!!
—SOLTA ELE!!!
Berrou Damian para o menino que zombava do gato.
—Calma aí, não vou machucar ele, só tô brincando...
Disse o menino de uma maneira nem um pouco convincente. Ele foi andando até a beirada da varanda e segurou o gato pendurado pra fora dela. O menino segurava o pequeno gato, que se debatia pra ficar livre, apenas pela pata da frente.
—Sempre ouvi dizer que gatos sempre caem de pé, será que é Verdade?
—Hank, solta ele! O coitadinho deve estar com medo!
Disse uma menina que estava ali no meio.
Hank deu de ombros.
—Se você não soltar ele...
Ameaçou Damian, sua voz tremia de raiva. Algo sutil aconteceu... Ninguém percebeu, nem mesmo Damian, mas um de seus fios de cabelo preto, começou a brilhar em contato com a luz da lua e se tornou prateado.
—Calma aí, eu falei que eu só tava brincando. Eu vou soltar.
E Hank soltou.
O pequeno gato caiu em uma queda livre do 4º andar da casa. Todos correram até a sacada para ver o gato enquanto se debatia para ajeitar sua posição.
Mais alguns fios se tornaram prateados...
Gatos de fato conseguem arrumar sua trajetória para cair em pé no chão, mas esse tinha uma deficiência que dificultava isso. Gatos mais velhos aprenderiam a se virar com isso e cairiam em segurança...
Mas ele era apenas um filhote...
Mesmo que caísse de mal jeito, gatos são animais flexíveis e as chances de eles se machucarem gravemente com isso são baixas...
Mas ele era apenas um filhote...
O pequeno gato caiu no chão de forma seca e todos viram que ele ficou lá parado.
Damian e todos os outros desceram para ver se ele estava bem. Chegando lá, Damian foi ver o gato que estava deitado no chão enquanto os outros ficaram olhando em volta. Mais alguns poucos fios de cabelo se tornaram prateados. Eram poucos, mas foi o suficiente para Lars notar.
Damian estava de joelhos do lado do gato. Ele o mexia e cutucava, chamava por ele desesperado...
...Mas ele era apenas um filhote
Lágrimas começaram a descer dos olhos amarelos de Damian, que agora brilhavam como nunca antes. Damiam desabou à chorar e logo Lars estava ao seu lado chorando junto.
Todos olhavam assustados para aquilo. Até que Hank saiu à frente de todos:
—Eu... me desculpa... foi sem querer... E-eu... Me perdoa...
O choro de Damian começou a falhar, e logo ele estava em silêncio, olhando fixamente para baixo.
Por quase 1 minuto aquele local se tornou quase completamente silencioso. Só não alcançou o silêncio total por conta dos sons de choro que eventualmente aconteciam.
—Sem querer?
Disse Damian.
O preto se tornava prata…
—Você diz que foi sem querer?
Continuou Falando.
...E o preto se tornava prata…
—Isso não muda nada...
...O preto se tornava prata…
—...Ele está morto de qualquer jeito…
...O preto se tornava prata…
—E FOI VOCÊ QUEM MATOU ELE!
Damiam se levantou e largou o corpo morto do pequeno gato no chão. Ele estava transbordando em fúria e mesmo com lágrimas nos olhos ainda era possível enxergar ódio no fundo de suas pupilas… Seus cabelos leves voavam com o vento e a luz da lua refletia sobre eles dando a impressão que aquilo era um mar de fios de prata flutuando na água.
O preto sucumbiu à prata, assim como Damian sucumbiu ao ódio.
Sem hesitar Damian correu em direção de Hank e o derrubou no chão com uma joelhada na barriga. Hank soltou um berro de dor e caiu de costas com as mãos sobre a barriga. Damian não se sentiu satisfeito e montou em Hank, despejando uma sequência interminável de socos sobre o seu rosto. Lars puxou Damian de cima de Hank e o implorou pra parar, enquanto isso Hank virou-se e tentou se arrastar pra longe de seu agressor. Damian empurrou Lars e foi à Hank novamente, dessa vez colocando o pé sobre suas costas e empurrando-o para o chão com força. Enquanto fazia isso, Damian segurou o pulso de Hank e puxou seu braço para trás. Damian puxou ao máximo que podia e sentiu que não iria se mover mais que aquilo... Damian ignorou.
Ele pressionou… Mais… E mais… E mais...
*CRECK*
Hank soltou um grito agonizante. Seu braço estava quebrada
Novamente Lars puxou Damian, mas dessa vez desferiu um forte tapa em sua cara. Um tapa que fez com que Damian recobrasse a consciência e visse tudo à sua volta. Lars chorava e tremia, todos recuavam e olhavam assustados para Damian enquanto Hank estava caído no chão. Hank segurava seu braço quebrado enquanto chorava entre soluços. Damian olhou para seus punhos repletos de sangue, não apenas sangue que vazava do nariz e da boca de Hank, mas sangue de sua própria mão, que havia batido com tamanha força nas duras maçãs do rosto de Hank que estava esfolada.
Damian se desligou do mundo à sua volta e parou para pensar. Ele era diferente, ele não era como os outros, não era como o Lars. Ele não sabia oque, mas dentro dele ele sentia algo que sabia que ninguém ali havia sentido na vida. Ver aquele sangue em suas mãos era satisfatório, o formigamento de seus dedos esfolados lhe aliviava.
Seus cabelos, agora prateados à luz da lua, voavam ao vento enquanto Damian dava seu primeiro passo à um mundo completamente novo...
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