Hair

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Obrigada Lady Gaga por essa música maravilhosa. E eu agradeço a quem está lendo também, se verem algo errado, peço que me avisem, por favor!

Boa leitura.

HAIR

Sofia sorriu tristemente ao avistar os comentários transfóbicos em sua foto. Apesar de acostumada com os ataques quase diários, não conseguia não se abalar com aquilo.

“'Sofia?' Ahaha te conheço desde que você se chamava Luiz!”

“E essa cara de traveco?”

“Você não tem vergonha de dizer que virou mulher?”

Cada comentário parecia um tiro doloroso e extremamente intenso. Era como se estivesse ouvindo aquilo pela primeira vez, de novo, de novo e de novo.

Virar mulher? Não, Sofia jamais virou mulher, ela nasceu mulher. Mas eram os órgãos genitais que definiam uma pessoa, era o nome no cartório, era o quarto azul, os carrinhos de brinquedo… Para a sociedade, era assim. E ai de quem fosse contestar!

Eu só quero ser eu mesma
E quero que você me ame por quem eu sou

— O que está fazendo, amor? — o homem aproximou-se vagarosamente, secando os cabelos molhados.

— Nada de importante — murmurou Sofia, fungando discretamente.

— Está chorando? — questionou Pedro, olhando-a com preocupação.

Ele a conhecia muito bem. Pedro conhecia Sofia desde que ela se aceitara, desde que aceitou sua identidade de gênero.

— Não estou chorando, Pedro. Você não precisa terminar de corrigir os trabalhos dos teus alunos? — Sofia desviou do assunto e parou na frente do enorme espelho, avistando olhos inchados e cabelos desgrenhados.

— Não mude de assunto, Sofia. Me conta, por que estava chorando? — indagou, preocupado.

O silêncio foi a resposta que teve, exceto pelo barulho da chuva calma lá fora, enquanto as árvores balançavam-se vagarosamente.

— Não quero te ver triste, Sofia. Sabe disso. — sussurrou Pedro, abraçando-a pelas costas e sussurrando em seu ouvido.

Só os deuses sabiam o quanto doía ver Sofia chorar; ela era a única pessoa com quem realmente se importava, a única que amava, a única que o amava.

— Eu não estou triste… É que… Sabe, mesmo depois de anos ouvindo os mesmos insultos, ainda sinto-me frágil. Em vez de me sentir forte a cada dia que se passa, parece que me sinto mais fraca. — desabafou Sofia.

— Por que você se sente mais fraca?

— Não sei. Talvez seja o medo. Medo de sair na rua e me deparar com esses comentários maldosos, medo ir ao trabalho e ser espancada no trajeto…

Pedro deu um longo suspiro e Sofia parou de repente.

— Me sinto tão impotente, Pedro. Sinto como se fosse a coisa mais frágil do mundo… Como se pudesse quebrar a qualquer momento.

Pedro deu uma pequena risada, atraindo o olhar da namorada.

— Você não é frágil, meu anjo. Longe disso! És a mulher mais forte que conheço. Você já superou tanta coisa… Coisas que eu jamais conseguiria superar sozinho. Enfrentou seus pais, seus irmãos, os olhares tortos nas ruas, enfrentou todo o tipo de coisa ruim. E cá está você, uma mulher que com muita luta conseguiu concluir a faculdade, arrumar um trabalho e passar por todas as dificuldades constantes.

E eu quero que você saiba, eu sou o meu cabelo

Sofia virou-se de frente para a pessoa que amava e, então, passou as mãos pelo rosto masculino, beijando-o em seguida.

— Eu nunca vou compreender de onde consegui tanta força, Pedro. — sussurrou Sofia, afastando-se lentamente.

— De si mesma, Sofia. Porque você se ama. Você ama seu cabelo, você ama quem você é! — sorriu e levou a mecha do cabelo castanho para trás da orelha, enquanto aprofundava-se no olhar terno de Sofia.

A mulher lembrou-se das brigas constantes pela manhã, quando vestia alguma blusa muito feminina ou quando pintou as unhas pela primeira vez. Lembrava-se de gritar enquanto as lágrimas banhavam seu rosto: “Por que eu não posso ser quem eu quero ser?”.

Eu tive o suficiente, eu não sou uma aberração
Eu continuo lutando para ficar legal nas ruas

E por tempos demorou para que alguém a amasse como realmente era. Por tempos demorou para amar a pessoa que ela era.

E todo esse tempo, seus pais jamais voltaram a lhe amar. E por tempos Sofia se perdeu nela mesma, num obscuro pensamento, numa profunda confusão…

Mas recebeu a sorte que muitas não tiveram; recebeu o carinho e apoio daqueles que realmente a amavam. Daqueles que amavam seu cabelo. Seus amigos e Pedro.

As palavras cortantes ainda eram frescas em suas memórias: “Se você morrer, fará bem para nós. Porque ninguém vai sentir sua falta”.

“— Eu vou morrer vivendo tão livre como o meu cabelo” foi a resposta que deu àquelas pessoas que pensava lhe amar. Foi a resposta que deu ao seu pai. A resposta que deu ao mundo.

— Obrigada, Pedro. Eu jamais amaria meu cabelo se você não lutasse ao meu lado.

Pedro sorriu e as lágrimas da mulher que amava desapareceram. No entanto, comentários maldosos continuavam lá, sempre continuariam, mas Sofia já não se preocupava mais com eles.

Porque ela viveu um verdadeiro inferno sua vida toda e não seria comentários pequenos como aqueles que a levariam para baixo. Não mais.

Livre como o meu cabelo

Notas finais
Sei que nem todas as Trans tem essa "sorte", afinal, o Brasil é que mais mata transexuais. Outra: mais da metade das trans aqui veem a única opção que é se submeter a prostituição. Nem todos como a Sofia tem a chance de conhecer alguém maravilhoso, nem todas as Trans conseguem se formar, tem um emprego... Eu sei disso. Mas eu precisava fazer algo assim, porque no fim a gente precisa amar o nosso cabelo, a gente precisa nos amar! E eu agradeço a Luiza, uma Trans maravilhosa que conheci e pude ter uma conversa incrível.

Então.. É isso. Um beijo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!