Hades I Terra-inversa

3 Capítulo 2 - Resgate - Parte I


Notas iniciais
Gente, estou reduzindo os capitulos muito grandes em partes. Mias adiante, os capitulos começam a ficar maiores, então acho que fica melhor já acostumar vocês assim, né. Se gostarem, comentem!

“Acalme-se, Oliver, não entre em pânico”, pedia a consciência do humano. Oliver retornava para o acampamento seguido por Pierre II. Suas mãos ainda tremiam quando ele recolheu a carabina caída. Poderia estourar os miolos daquele monstrinho, porém era muito mais difícil fazer isso enquanto ele se disfarçasse de criança. Uma hora uma criatura-sapo, outra um humano. O que estava acontecendo? Lembrou-se de seu sonho que o atormentava. Do cavaleiro, das criaturas negras que avançavam pelo céu e da floresta que ardia ao ser destruída.

– Escute... – pediu Pierre forçando a mudança de assunto. – Eu preciso da sua ajuda.

– Desculpe! Estou ocupado no momento, arranjando um jeito de ENTENDER a situação ou, simplesmente, sumir dessa porcaria de lugar! – falou o humano em voz alta. – Maldito carro que me trouxe para os confins do mundo!

Pierre fechou a cara.

– Me escute! Minha mãe está aprisionada em uma armadilha lá fora, eu saí para colher ervas com ela e acabamos indo além dos limites da nossa casa. Nos perdemos e quando a reencontrei, ela estava presa em uma armadilha. Eu não consegui tirá-la de lá, então vim buscar por ajuda. Pensei que houvesse um morador aqui que pudesse me ajudar, mas não encontrei nada além desse acampamento!

– Peça para outra pessoa ajudá-lo.

– Mas não há ninguém! – insistiu Pierre desesperado, somente agora Oliver notara seu semblante preocupado e receoso. – Eu não tenho mais ninguém além de minha mãe. Sem ela, eu vou acabar morrendo... Por favor, me ajude!

– Porque eu deveria ajudar um monstrinho? Se você é desse jeito, imagino como sua mãe deva ser! Outra monstrenga também. – Disse Oliver com um “quê” de maldade. A ideia de haver outro monstro igual a Pierre, talvez maior e pior, solto o assustava.

Oliver fizera inúmeras coisas ruins em seu passado que tentava esquecer, mas nenhuma delas o assombrava tanto quanto ter de ficar com um monstro em uma floresta, mesmo que Pierre não fosse tão exótico ou agressivo como uma criatura maligna deveria ser. E se fosse uma armadilha? Riu sozinho ao imaginar pelo que estava passando.

Estava começando a quitar sua dívida pelos males que cometera... Percebeu o silêncio de Pierre e olhou em sua direção; o “garoto” chorava baixinho.

– Ah, não... – grunhiu Oliver. – Você também chora?

– Covarde! Minha mãe está lá, sozinha! E você não quer me ajudar só porque sou diferente? Os humanos são ruins! Agora eu entendo porque não podem saber da verdade... São todos egoístas e preconceituosos! As piores criaturas que já vi.

Oliver passou a mão livre pelo rosto. Algo em sua mente ardeu ao ouvir a palavra “verdade”.

– Eu só queria sair daqui! Entenda que estou perdido! Pare de chorar...

Pierre, ao invés de obedecê-lo, começou a chorar com mais intensidade. As lágrimas cristalinas brotavam de seus olhos, escorriam pelas bochechas inchadas e terminavam por repousar em sua blusa branca. Se havia algo que Oliver odiava era o choro. Nunca chorou em sua vida... Nem mesmo após a morte de seu pai. Nem quando era apenas um bebê. Mesmo que seus olhos doessem... Nem perante um filme triste. Nada o fizera se comover até então. Ninguém o ensinara a chorar e seu desejo de aprender passava longe.

– Ela está muito distante daqui? – perguntou Oliver por fim.

– Não muito – respondeu Pierre entre soluços. – Além do mais, monsieur, eu posso ajudá-lo a sair daqui.

Quando, no passado, ele faria aquilo? Oliver era a última pessoa a quem se recorreria para pedir ajuda.

– Se acontecer algo com ela será sua CULPA! – Acusou o leprechaun e Oliver bufou.

– Tudo bem! Eu ajudo, mas só se você parar de chorar e sumir da minha vida depois!

– Mesmo? – Pierre secou rapidamente as lágrimas, esperançoso.

– Eu juro que, se isso for uma armadilha ou algo do gênero, eu acabo com você! Eu já matei um homem antes e não vou hesitar em fazer isso de novo, principalmente com um monstro.

– Eu já falei que não sou um monstro! – rosnou Pierre olhando o próprio reflexo no espelhinho que carregava constantemente consigo. Um brilho de medo cintilou em seu olhar. – Mas por que você matou uma pessoa?

Oliver brigava mentalmente. Sua parte humana negava o que acontecia, mas sua parte irracional aceitava... Ambas pareciam guerrear dentro de sua cabeça.

– Você ainda não me respondeu – insistiu Pierre.

– Morrer faz parte da vida. Precisei matar para sobreviver, se é o que quer saber.

Pierre fez um som de quem compreendia. Apontou na direção oposta às barracas, onde a floresta era mais densa e os espaços que dividiam as árvores eram mais curtos entre si. Era para lá que deveriam ir. Oliver trouxe a carabina para mais perto e avançou. Não queria ajudar Pierre, mas não tinha escolha se quisesse ir embora.

Assim que os dois seguiram adiante, Oliver percebeu que havia mais rastro de saliva pelo chão. Um pedaço de tecido rasgado passou longe de seu olhar, escondido entre dois troncos partidos sob a grama. Nuvens negras de tempestade iluminavam o céu no horizonte com seus raios. Uma tempestade se aproximava rapidamente. Oliver não tinha mais tempo para perder com besteiras. Seu trabalho, sua casa e sua mãe o esperavam.

– Estamos chegando! – anunciou Pierre após um tempo de caminhada.

Oliver manteve a carabina em punho, pronto para atirar se fosse preciso. Sabia lidar um pouco com uma arma e mostraria isso a qualquer inimigo que aparecesse. A tocha em sua outra mão fraquejou com um vento frio. Teve a impressão de que estavam sendo observados. Pierre adiantou o passo e afastou dois arbustos, entrando na clareira que se sucedia. Oliver precisou de muita astúcia e maleabilidade para ultrapassar as plantas sem se cortar. Acabou por embolar-se numa raiz saliente e quase caiu, resmungando palavrões.

Pierre estava parado diante de uma rede metálica estirada sob as raízes de um grande Cinamomo. Estático, o leprechaun arregalou os olhos e levou as mãos ao rosto.

– O que houve? – perguntou Oliver usando a tocha para enxergar melhor.

A rede era usada comumente para caçar animais, mas que tinha o porte para pegar uma pessoa desprevenida e içá-la ao ar. O galho, no qual a rede estava pendurada anteriormente, encontrava-se cortado e suspenso apenas por uma pequena fibra do caule.

– Minha mãe não está aqui!

– Isso é bom, não é? Se ela estava presa, deve ter conseguido se soltar! – exclamou Oliver em falsa alegria.

– Não! – retrucou Pierre preocupado. Seus olhos reluziam diante da tocha. – Minha mãe não foi solta... Ela foi pega por algo. Meu Deus... Por favor, faça ela estar bem! O que vai ser de mim sem minha mãe?

– Acalme-se! – pediu Oliver com receio de outra crise de choro. – Ela deve estar bem... O galho que prendia a rede pode ter partido...

– Minha mãe não ia conseguir se soltar da rede sozinha... E olhe, a corda foi cortada por algum tipo de navalha. Há caçadores por essas bandas... Não digo caçadores comuns, mas criaturas que gostam mesmo de caçar! E se eles pegaram minha mãe?

Oliver suspirou. Precisavam encontrar um lugar antes que a tempestade desabasse. Em sua cabeça, a mãe do garoto já estava sã e salva.

– Vamos encontrar um abrigo para a tempestade e depois a procuraremos. É o melhor que posso fazer por você agora, se quiser mesmo minha ajuda.

Pierre não gostou da ideia de deixar para procurar sua mãe depois, entretanto tinha receio de ficar sozinho se não fizesse o que o humano mandasse. Não havia instalações na floresta perto o suficiente para que escapassem do temporal, além de uma casa de madeira que sua mãe insistia em passar longe.

– Aqui é o único abrigo que podemos usar.

Oliver observou a casa quando se desvencilhou dos arbustos no meio do caminho. Parou em frente ao portão. Empurrou-o com a mão, rangendo as dobradiças. Pierre grunhiu de receio. Estava escuro e não conseguia enxergar quase nada. Oliver olhou para os lados, desconfiado, e começou a analisar o terreno.

Não havia luz no interior da casa, mas as janelas encontravam-se abertas e a porta também, pois ela abria e fechava alguns centímetros devido ao vento.

– Quem mora aqui? – perguntou Oliver.

– Não sei, minha mãe nunca vem para essa direção. Passamos uma vez por aqui... Ela não gosta.

– Bem, pode servir por hora. Não tem ninguém, eu acho... Precisaremos entrar para conferir.

Um trovão barulhento estourou no horizonte e fez os pelos da nuca dos dois se arrepiarem. Sem parar para pensar nas loucuras e situações que poderia sofrer ao seguir adiante, Oliver resolveu entrar.

Caminhou em passos pesados até a varanda e estacou de receio. Por que aquelas coisas só aconteciam com ele? Bateu na porta três vezes. Pierre respirava ruidosamente atrás de si.

– Olá? Tem alguém aí?

Esperou pela resposta que acabou por não vir. Empurrou um pouco a porta e deu um passo, trancando-a com o pé ao colocar a cabeça para dentro.

– Olá? Eu estou entrando. Meu carro pifou e eu estou perdido... Eu preciso usar o telefone ou algo do gênero.

Uma sensação horrível se apoderou de sua mente. Era tarde demais para pensar em voltar atrás. A chuva começou a cair suavemente durante um minuto, até que, simultaneamente com um raio e um trovão, despencou sem piedade. Oliver largou a tocha no gramado, que se apagou com a água, afastou a porta com o pé enquanto prendia a arma na axila. Apalpou a parede e encontrou o interruptor.

Os dois estavam definitivamente sozinhos. Suspirou até que satisfeito, porque não sabia se poderia encontrar um amigo ou inimigo. Acionou o interruptor e a sala foi inundada com um feixe amarelado. Não havia muitas coisas além dos móveis, três quadros tortos na parede, um relógio cuco estragado ao lado do sofá marrom velho, rasgado e com espuma brotando dos assentos.

A cabeça de um alce empalhado jazia ao lado direito da estante.

“Assustador”, pensou Oliver receoso. Marcas indefinidas de barro no chão, ao redor de um vaso cheio de terra quebrado, ao lado da mesa e alguns traços na parede causavam um mau pressentimento no humano que, sem muitas opções, chorava mentalmente.

– Não estou gostando disso... – disse Pierre assim que entrou. – Acho que é mais seguro que fiquemos na floresta!

– No temporal? Vai sonhando, monstrinho – resmungou Oliver carrancudo. Parecia que uma tropa de fuzileiros disparava interminavelmente sobre o teto.

Pierre encolheu os ombros. A casa, pintada de um tom cinzento por dentro, possuía mais dois quartos, um banheiro e uma área de serviço. Ela apenas parecia pequena por fora. Os dois mantiveram um silêncio constrangedor.

– Vamos ver o que tem por aqui... Quem sabe não encontramos algo para comer.

– Me escute, Oliver. É difícil para você entender o que eu tenho a dizer, mas faça um esforço – pediu Pierre. – Se eu existo, há outras coisas das quais você, e nem nenhum outro humano, podem imaginar. É melhor não ficarmos aqui, por favor! A chuva não é tão ruim quanto o que pode estar nos rondando.

Oliver riu de nervosismo e ignorou o comentário tecido. Entrou no corredor apertado e cheirando a mofo. Parou para observar o retrato antigo e em preto e branco de uma mulher; tinha a pele mórbida, olhos claros e rosto arredondado e liso, cabelos trançados ao redor da cabeça, ela se encontrava sentada em uma cadeira enquanto bordava um pano de prato. Por algum motivo, a imagem lhe pareceu assustadora. Os contornos do quadro foram devorados pelo limo, que, aliás, estava por todas as peças.

Sacudiu a cabeça e continuou até chegar a dois quartos; escolheu aquele cuja porta entreaberta revelava uma cama de lençóis encardidos e revirados. Havia, também, uma mesa de cabeceira baixinha e arranhada, um armário sem uma das portas que revelava duas ou três mudas de roupas emboladas e, para sua surpresa, um lampião desligado ao lado da cama.

– Quem usa um lampião nos dias de hoje? – perguntou Oliver cético.

O ruído de impacto e vidro quebrando fez Oliver se sobressaltar.

– Oliver! – exclamou Pierre parado de frente ao outro quarto.

Oliver colocou a mão sobre o peito enquanto resmungava dezenas de xingamentos.

– Qual é o seu pro... – começou Oliver, mas parou antes de terminar.

As paredes do cômodo eram feitas de pedra. A porta, apesar de aparentar ser de madeira por fora, fora revestida por uma couraça metálica da espessura de um palmo. As pedras arredondadas do piso apresentavam arranhões e marcas escuras do que parecia ser sangue seco.

Uma contagem feita por tracinhos começava no teto e terminava no chão, provavelmente passando da casa dos milhares. Teria alguém ficado preso ali por todo aquele tempo? Não havia janelas no quarto e a única luz provinha da lâmpada capenga e suspensa na parede por dois fios elétricos torcidos. Foi olhando para o alto que percebeu que havia mais marcações de tempo.

“Mas que lugar é esse?” perguntou perturbado. “Algum tipo de prisão, ou forte de proteção talvez.” Com surpresa, percebeu que o mesmo olho esculpido no lampião fora desenhado sobre o piso de pedras.

– Oliver... – tartamudeou Pierre trêmulo. – Temos que sair daqui!

– O que? – indagou o humano perplexo. Como num passe de mágica, Pierre não estava mais no corpo de um garoto, mas no de um leprechaun. Suas pernas tremiam, assim como suas mãos. No piso, o espelho que sempre carregava estava caído. – O que significa isso?

– Apague as luzes! – pediu Pierre correndo de encontro a sala.

Oliver ficou sem reação. Piscou aturdido quando a casa mergulhou no completo escuro quando Pierre apagou a luz da sala e do corredor. Ouvia, além da chuva lá fora, os passinhos de Pierre varrendo o escuro. Demorou um pouco para que um pequeno brilho amarelado, tão frágil quanto uma vela, acendesse no corredor. O leprechaun usou o lampião, que Oliver vira no outro quarto, para guiar Oliver.

– O que está acontecendo?

– Temos que sair daqui, Oliver! – o semblante de Pierre era assustador e macabro à luz do lampião, mas Oliver já não o temia tanto. – Eu sabia que não deveríamos ter vindo para cá...

Oliver prendeu a espingarda de baixo do braço e usou as mãos pra chacoalhar os ombrinhos finos e macilentos de Pierre. Ele sentiu uma sensação estranha de náusea no momento em que o tocou.

– Por que tanto pânico?

– É um Caçador de Recompensas! – explicou Pierre sacudindo a cabeça. – Não há tempo de explicar. Eles são criaturas horríveis... São cavaleiros do Chamado desertados! E...

Antes que Pierre continuasse, o som da porta da frente sendo aberta atraiu a atenção deles.

– É ele! – balbuciou Pierre empurrando Oliver para dentro do quarto-forte. Assim que passou, encostou a porta. Amenizou ainda mais o brilho do lampião, até quase apagar, e gesticulou para Oliver pedindo silêncio.

O humano não entendeu. Fosse o que fosse o que morava naquela casa, certamente não era amigo. O som dos passos pesados da criatura, tão pesados que faziam mais barulho que Oliver e Pierre juntos ao andar, invadiram a sala. Ele não ligou a luz, mas pela pausa que fez deu a perceber que notava a diferença em sua casa. Oliver esgueirou seu olhar através da brecha na porta. Era possível ver apenas um pedaço do sofá da sala e a janela atrás dele. A sombra do ser no escuro tomou o campo de visão quando ele depositou algo sobre o móvel.

Dentro do humano, em algum lugar obscuro e distante, um alerta de perigo o invadiu. A adrenalina possuiu suas veias junto com o pavor de estar num quarto escuro e cheirando a suor. Oliver viu os olhos miudinhos de Pierre cintilando do mesmo sentimento: medo. Poderiam ser mortos. Humano e não-humano agora eram, sem dúvidas, aliados.

Notas finais
só pra constar que esse capitulo e o outro ainda não estão completamente revisados. Podem-se encontrar alguns erros ainda.