HOW FAR DOES THE DARK GO?

16 Capítulo 16 - Lembranças I


Rebeca POV

Acordei completamente confusa, sem nenhuma noção do que estava acontecendo, onde estava e como consegui chegar lá. Tentei me levantar, mas senti todo o peso do meu corpo e deitei novamente. Estava meio zonza, senti uma grande dor no pulso ao me apoiar. Notei que o mesmo estava enfaixado.

Abri um pouco do curativo e me surpreendi ao ver que estava em carne viva. Era muito tenebroso olhar aquilo, então foquei minha atenção no quarto em que estava. Não era a cabana na floresta e nem o hospital, era uma casa comum, em uma vizinhança qualquer, com várias pessoas.

Tentei levantar novamente, para olhar pela janela. Dessa vez não cai na cama com o peso do meu corpo. Consegui caminhar até a janela, haviam carros passando e pessoas caminhando pela rua. Me encostei na parede, com os braços cruzados, pensando nos últimos dias. Apoiei minha mão direita na janela, um vento gélido soprou, senti todo o meu corpo ficar arrepiado, olhei para minha mão e tudo ao redor dela estava congelado.

Me afastei da janela, sem entender, foi assim que eu vi toda a parede em puro gelo. Fitei minha mão com muito medo, estava envolta de fumaça, uma fumaça gélida, que foi mudando de cor, até se transformar em fogo. Fiquei encantada e espantada ao mesmo tempo. Aquilo parou no meu momento de distração, quando alguém bate na porta.

— Entre!

Esperava que Jeff entrasse por aquela porta, mas me surpreendi ao ver que era uma simples pessoa e sua cara não era uma das melhores. Era uma mulher, acho que de uns 40 e poucos anos, cabelos enrolados que iam até seus ombros, olhos castanhos escuros e a pele tão clara. Vendo a bandeja mais atentamente, pude notar que ela estava com medo de algo, pensei ser a grande parede de gelo atrás de mim, mas ela já tinha entrado no quarto assim.

— Quem é você? — perguntei.

Ela não respondeu, apenas deixou a bandeja em cima da cama e saiu. Não entendi seu comportamento. Me aproximei da cama, pegando a bandeja em mãos. Tinha uma xícara de chá verde, com um pedaço de bolo, acho que era de morango. Não tenho certeza. Preferi nem tocar naquilo, não sei quem era aquela mulher, nem se ela tinha colocado veneno ali.

Abri a porta, dando de cara com um corredor, do lado direito haviam mais dois quartos, presumo que um seja o banheiro. Do lado esquerdo ia para a sala de estar, eu acho, bom... Conseguia ver uma televisão ligada. Tomei coragem e fui para o lado esquerdo. Haviam duas pessoas falando, que pararam no momento em que entrei na sala. Era aquela mulher que entrou no quarto em que estava. Junto a ela, tinha um cara, suponho que seja seu marido.

Os dois me olharam com certo desdém, me senti desconfortável com isso. Olhei para todos os lados e nem sinal de Jeff. Me aproximei daqueles dois e eles foram se afastando. Pareciam estar com medo.

— Quem são vocês? — perguntei com um pouco de esperança.

— Não são ninguém importante! — uma voz surgiu atrás de mim. Me virei, ficando de frente para Jeff. — Não deveria ter saído da cama. Precisa descansar. — ele ia pegando meu braço, mas eu me afastei. — Rebeca, por favor!

— Não até me dizer o que está acontecendo! Onde estamos e quem são essas pessoas? — gritei.

— Explique para ela, Jeff. — Um cara de máscara surgiu do corredor, parando ao lado de Jeff.

— Acho que você não se lembra dele, provavelmente nem os apresentei de verdade. Você estava ocupada, se contorcendo de dor.

— Me explique o que aconteceu, claramente!

Jeff POV

Noite anterior

As coisas começaram a se mover, saíram de seus lugares, como se estivessem voando de um lado para outro. Muitos objetos caíram no chão. Com tamanho barulho e sua gritaria, alguém lá de cima notaria. Olhei para Jack, que parecia estar fora de si, ele pegou sua faca e partiu para cima de Rebeca e eu não tive tempo de impedi-lo.

— Jack! — gritei.

Com a faca, ele arrancou o pedaço de pele que estava o simbolo deixado por Slender. Automaticamente, os gritos pararam e ela desmaiou. Estava completamente ofegante, por alguns segundos pensei que ele iria matá-la.

— Isso vai resolver os problemas por um tempo, mas não podemos ficar aqui, temos que levá-la para outro lugar. — ele disse limpando a faca.

— Arrancou um pedaço da pele e carne dela!

— Não será como antes, mas ela se recupera disso. Agora, precisamos achar uma casa, ou qualquer lugar que possamos cuidar dela.

— Temos que fazer um curativo nela antes. — disse enquanto pegava as coisas para fazer o curativo.

— Quem é ela, Jeff? — essa pergunta pairou no ar, enquanto eu pensava numa resposta sensata.

— Conheci ela tem 1 ano e alguns meses, ela era uma de minhas vítimas.

— E por quê ela está viva?

— Não consigo matá-la. Algo nela é diferente, queria descobrir o que era.

— Descobriu?

— Ela tem poderes, Eyeless! — ele pareceu surpreso, mas não tanto quanto eu esperava, como se eu tivesse tirado uma grande dúvida da mente dele. — Slender nos atacou na floresta e a marcou, não sabia ao certo o que fazer, foi ai que tive a oportunidade.

— Fez com que ela usasse os poderes para se teletransportarem?

— Sim.

— Mas por que aqui, Jeff? No seu antigo bairro?

— Eu não sei, mas deu certo!

Terminei de fazer o curativo no pulso de Rebeca, peguei ela no colo e fomos carregando ela pelas ruas. Seu corpo estava em um conflito para decidir em qual temperatura ficaria. Uma hora estava ardendo em chamas e na outra estava tão frio quanto um iceberg. Achamos uma casa, que seria basicamente o necessário para nós.

Rebeca POV

Ele me explicou o quê fizeram para chegar até aqui. A única coisa que não me contavam, era quem são essas pessoas. Minha cabeça estava meio grogue, então foi um pouco difícil notar que aquelas pessoas moravam ali e estavam sendo reféns de Jeff para nos servir. Fixei meu olhar em Jeff, totalmente incrédula.

— Solte essas pessoas. — pedi. — Já acordei, podemos prosseguir viagem!

— Nem os conhece.

— Não me importo! — elevei meu tom de voz. — solte eles e os filhos, sei que os trancou no porão. São apenas crianças, Jeff! Imagine o trauma que irão ficar!

— Talvez eu mate todos eles. — ele foi se afastando, quando segurei seu braço com toda força e coragem restante em mim. — Seu braço está muito gelado.

— Solte eles! — falei, sumindo no corredor.

Voltei para o quarto em que estava antes, peguei minha mochila que estava encostada no canto da parede. Estranhei o fato da parede em que fica a janela, não estar mais congelada. Talvez tenha sido pura ilusão da minha mente?

Jeff e seu... Amigo? Me esperavam na porta dos fundos, mesmo não estando muito bem, precisava seguir caminho e não queria que aqueles dois fizessem algum mal para aquela família. O dia estava muito ensolarado. Olhei para o curativo em meu braço, não parecia estar sujo com meu sangue. Fui desenrolando, percebendo que meu braço estava curado, não comentei nada com Jeff, apenas enrolei novamente e fingi que nada tinha acontecido.

Prosseguimos caminho. Cada passo que eu dava, era como um martelo batendo em minha cabeça. O colar em meu pescoço começou a brilhar. Jeff também não sabia o significado disso, apenas parou no meio do caminho, pensando no que poderia ser aquilo.

— Essa é uma boa hora para dizer que têm coisas estranhas acontecendo comigo? — perguntei já ofegante por causa do nervosismo.

— Estranhas, como? — perguntou Jack.

— Estranhas tipo... quentes e geladas! — falei estendendo as mãos e mostrando uma envolta em chamas e a outra envolta de uma fumaça gélida.

— Desde quando isso acontece? — Jeff perguntou.

— Não sei... Vocês não parecem tão surpresos como eu pensava.

— Rebeca, eu já desconfiava de seus poderes, desde o dia que te conheci, havia algo estranho em você. Não estou tão surpreso também, pois magia é normal em meu mundo.

— Magia? Olha... Só vou aceitar o fato de que magia existe pois têm um ser sem rosto atrás de nós. Eu nem sei o motivo, tenho até medo de saber. Mas alguém poderia me explicar o que está acontecendo comigo?

— Você fala muito! — Jack reclamou.

— E você fala de menos!

— Os dois parecem duas crianças! — Jeff disse impaciente.

Bufei, apenas aceitando que eles não responderiam minha pergunta. Eu parecia normal por fora, mas por dentro estava assustada. Minha vida não é nada normal. Eu acordo de um coma em um hospital, sou adotada por não ter pais, quase sou morta por um assassino, fujo com esse assassino, transo com ele e agora acho que estou desenvolvendo poderes. O que mais pode acontecer?

— Aonde estamos indo, exatamente? — perguntei.

— Quero conferir uma coisa.

Assenti com a cabeça e fui apenas caminhando com eles, até que sinto uma tontura, olho ao redor, reconheço esse lugar. Memórias confusas, voltando em um único momento.

— Jeff, tem algo de errado comigo!

— O que?

— Eu acho que vou... — não terminei a frase, apenas cai para o lado, em choque.

Jeff me segurou, olhei para ele, mas via outra pessoa. Ou, na verdade, aquele era Jeff sem suas cicatrizes? Acho que estava alucinando com isso. Passei a mão em seu rosto, parecia mesmo ser real. Um suspiro, apenas um suspiro foi necessário, então me lembrei de coisas inesperadas, no momento em que nossos olhares se fixaram.

Eu acordei com a luz da lua, estava assustada, tinha acabado de ter um pesadelo. Levantei da minha cama, indo em direção ao banheiro, não estava com um bom pressentimento sobre meu pesadelo. Eu estava morrendo. Conhecendo a jovem garota com talentos especiais que eu sou, sei que isso teria um grande significado.

O dia se iniciaria daqui algumas horas, precisava começar a me arrumar. Não que eu queira ir mais uma vez para escola, mas ou eu ia, ou Dave me mandava de volta para os meus pais, o que não é uma opção, já que eu congelei eles e todo um país lá fora, só para fugir. Essa é uma longa história, não tenho tempo para contar.

Algo em mim dizia que esse novo dia seria incrível. Mas o sentimento de que algo ruim possa acontecer, prevalecia com certa frequência. Limpei minha mente e fui direto para meu closet, pegar minha roupa do dia. Assim que me troquei, desci as escadas até a cozinha. Têm poucos meses que me mudei para cá, não fiz muitos amigos, na verdade só tenho Jane.

Jane é o tipo de amiga louca, que você não gostaria nunca de ter como inimiga, mas agradece por ter como amiga. Ela morava na casa da frente, tínhamos uma amiga que morava na casa ao lado, ela se mudou tem uns dois meses.

Assim que terminei de me arrumar, procurei por meu pequeno diário e o coloquei na bolsa, ajeitei a saia e o cabelo antes de sair de casa. Abri a porta e caminhei até o ponto de ônibus. Durante o caminho, escrevia algumas coisinhas no celular, estava tão distraída, que tropecei e quase caí no chão, mas parei no meio do ar. Levantei novamente, olhei para os lados, ninguém tinha visto aquilo. Se não fosse meus poderes, teria sido uma queda feia.

Quando cheguei perto da escola, só tinha que atravessar a rua. Um calafrio invadiu meu corpo, um carro passou por mim, dentro dele tinha uma família, um casal e dois garotos. Não deu para ver direito, passaram muito rápido, junto a um caminhão de mudanças.

Jeff me sacudia em seus braços, tentei voltar para realidade. Olhei ao meu redor, tudo estava em preto e branco. Pisquei meus olhos inúmeras vezes, tentando acordar daquele transe horrível. Senti meu corpo estremecer todo, estava com frio mas soando como se estivesse com muito calor.

Aquele flash back não encaixava na minha memória, apesar de ter total certeza de que vivenciei aquilo. Senti a palma da minha mão arder, não tinha nada ali. Levantei do chão, com a visão já recuperada. Fiquei um pouco preocupada, pois senti um pouco de enjoo e tontura. Aqueles dois apenas acompanhavam meus movimentos.

— Você está bem? — Eyeless perguntou com tanta suavidade na voz, como se já soubesse a resposta e o motivo da mesma.

— Um pouco enjoada... Minhas memórias estão uma bagunça!

— Como assim? — Jeff.

— Estou tendo alguns flashes e acho que são do meu passado, da época antes de ser encontrada no hospital.

— Por que isso viria agora?

— Não sei.

Prosseguimos nosso caminho, por mais desconfortável que eu estivesse. O dia mal havia começado e eu acordei na casa de estranhos, descobri que possivelmente tenho poderes e tive flashes do passado. Mais um dia normal na minha vida estranha.

Após ruas e ruas, ficava mais impaciente, pois não chegávamos a lugar algum. Olhei no relógio, já eram 4 da tarde e nada de chegarmos no tal lugar.

Tive o sentimento de já ter passado por aqueles lugares antes. Jeff parou abruptamente, fazendo com que eu esbarra-se em seu corpo. Segui seu olhar até um grande prédio, uma escola para ser mais exata. Tudo ficou turvo e preto e branco novamente. Tentei resistir quanto aos enjoos, mas não me contive.

Andamos por mais alguns minutos, chegamos em uma rua aleatória, qualquer. Eu conhecia aquele lugar, sabia que conhecia. Estava no meu primeiro flash. Tenho total certeza disso, as coisas que estou vendo são do meu passado, eu estou me lembrando!

Chegando na escola, fui direto para meu armário, pegar minhas coisas. Jane veio por trás de mim, me dando um mega susto.

— De novo, você quer me matar do coração?! — gritei.

— Que nada! — ela riu.

O Sinal tocou.

— Vamos para aula?

— Vamos.

A primeira aula passou voando, para piorar meu dia eu ainda tive que fazer dupla com o Randy. Randy era o típico valentão da escola e ele tem uma leve queda por mim, mas deixei bem claro que não gosto dele. E ele continua inssistindo.

Como sempre, ele chegou atrasado, não falou nada a aula inteira. As horas passaram rápido, quando percebi estava no horário de saída. Teria que voltar sozinha, Jane saiu com a mãe dela. Andei pelas ruas, só queria estar logo em casa. Coloquei os fones de ouvido, fechei os olhos por alguns segundos e quando abri, cai nos braços de alguém. Olhei ao redor, estava na minha rua, na casa ao lado da minha.

— Ok... Isso é meio embaraçoso! — falei me levantando e ajeitando a roupa — me desculpe por isso, eu não te vi!

— Eu nem te vi chegando — ele riu. Confesso que foi o riso mais lindo que já vi — Não tem problema, eu estava distraído também. Meu nome é Jeffrey, mas pode me chamar de Jeff.

— Eu sou a Rebeca.

Estendi minha mão para ele, o mesmo apertou minha mão. Vi aquelas milhares de caixas empilhadas no jardim da frente, depois voltei minha atenção para Jeff.

— Então... Seremos vizinhos? — perguntei.

— Você que mora na casa ao lado?

— Sim! — falei sorrindo.

— Jeff, vai ficar ai conversando ou vai me ajudar com essas caixas? — gritou um garoto loiro. Suponho que sejam irmãos.

— E esse é meu irmão, Liu — Jeff apontou para o loirinho.

— A sim! — soltei uma risadinha fraca. — Por quê se mudaram?

— Meu pai conseguiu uma promoção e tivemos que nos mudar.

— Vocês vão gostar daqui, é um ótimo bairro — falei já pegando minhas coisas para voltar para casa. — bom... Já vou indo, tenho lições para fazer. Foi um prazer conhecer vocês!

Me despedi e voltei para casa, sentei no sofá e assisti televisão por um tempinho.

Jeff POV

Pensei que não voltaria naquele lugar por um longo tempo, na verdade pensei que nunca iria voltar ali, onde tudo começou. Tudo parecia intacto, aquela rua inteira parecia estar do jeitinho em que deixei da última vez. Exceto por uma coisa, por uma grande coisa. Minha casa, ela estava erguida novamente. Cada mínimo detalhe estava ali, como se nunca tivesse ardido em chamas.

Fiquei um pouco receoso de ter voltado ali, um sentimento estranho de que eu deveria ir embora pois não gostaria do resultado. Prestei mais atenção na rua, mais atenção em todo o caminho que fizemos até aqui. Tudo estava vazio, como uma cidade fantasma. Olhei para o céu, as nuvens se moviam e os pássaros chamavam minha atenção, pois estavam parados no ar. O tempo estava parado, as pessoas não saíram de suas casas, presumo que desde o momento que chegamos.

Rebeca olhava tudo aquilo com confusão em seu olhar. Seu olhar... Vi aquele olhar inúmeras vezes, mas agora parecia fazer mais sentido do que das outras vezes, como se ja tivesse vivido isso antes. Parado nesse mesmo lugar, suspenso no tempo, olhando para ela.

Mas havia outra coisa que não se encaixava ali. Pensava no ano em que me mudei para lá, parecia faltar algo na história, ou alguém. O dia em que nos mudamos, tinha alguém lá, alguém cantando...

Enquanto desempacotava as coisas, uma mulher que mora no fim da rua veio nos cumprimentar. Se apresentou dizendo que seu nome era Bárbara e nos mostrou seu filho, Billy.

— Bem — disse minha mãe — eu sou Margaret, esse é meu marido Peter e meus filhos Jeff e Liu.

As duas iam conversando, Bárbara logo nos convidou para o aniversário do seu filho. Eu e Liu estávamos prestes a recusar, quando nossa mãe disse que adoraríamos ir. Quando terminamos de desempacotar as coisas, fui até minha mãe.

— Por que aceitaria um convite para uma festinha? Não somos mais crianças!

— Jeff, nós acabamos de nos mudar pra cá; devíamos mostrar que queremos passar um tempo com nossos vizinhos. Agora, vamos à festa, e ponto final.

Não poderia discordar, quando minha mãe dizia algo, era aquilo e pronto. Terminei de fazer minha parte, desempacotando as minhas coisas e pondo-as no lugar depois que escolhi meu quarto. Desmoronei na cama, após esse dia longo. De repente, senti algo muito estranho, não uma dor e sim um sentimento estranho. Ignorei aquilo como se fosse um sentimento qualquer.

Ouvi alguém cantarolar próximo a janela, olhei para o lado e lá estava Rebeca, na sua pequena varanda, lendo um livro e ouvindo música nos fones. Fui até minha varanda, para observá-la melhor ou até mesmo conversar. Me apoiei na grade, chamando a atenção dela.

— Você me assustou! — ela falou sorrindo — como está a mudança?

— Tudo está certo e por ai?

— Tudo certo também. — ela levantou da cadeira, se aproximando. — gostou da casa nova?

— Maior do que minha casa antiga — ri.

— Desculpa se te incomodei. Tenho o costume de ficar cantando aqui fora, enquanto leio um livro ou fico esperando o tempo passar.

— Não me incomodou.

Houve alguns segundos de silêncio, que ficamos parados encarando um ao outro. Os olhos dela pareciam brilhar com a luz do sol refletida. Seu sorriso era puramente branco, seus dentes caninos eram os que mais se destacavam. Essa garota realmente sabe chamar atenção.

— Vamos estudar na mesma escola? — perguntei.

— Creio que sim, lembro-me e ver dois nomes a mais na lista de chamada. Então, além de ser da mesma escola, seremos da mesma sala! — falou toda entusiasmada.

Um barulho de batida ecoou, vindo da casa dela. Ela olhou para trás, como se estivesse checando algo. Bufou como se já soubesse o que ou quem estava lá.

— São seus pais? — perguntei.

— Oi?

— Seus pais chegaram?

— Ah! Sim, sim! — ela falou muito rápido, indo em direção a porta da varanda — eu tenho que voltar para dentro, nos vemos amanhã?

— Nos vemos sim. Tchau! — acenei.

— Adeus, jeff! — ela entrou e trancou a porta. Eu voltei para o meu quarto, deitando novamente na cama.

Rebeca POV

Senti muito calor, muito calor mesmo. Os enjoos e tonturas só pioravam, uma sensação ruim vinha daquelas casas ao meu redor. Me afastei em passos curtos, gritava em minha mente para ficar o mais longe possível dali. Estava lembrando de meu passado, mas havia partes dele que minha memória se recusava em trazer aquilo de volta.

— Não posso ficar aqui! — falei em meio a lágrimas que começaram a descer pelo meu rosto sem motivos aparentes.

— O que está dizendo? — Jeff tentou pegar em meu braço, mas eu recuei — Por que está chorando?

— Fique longe de mim, por favor!

Dei as costas para os dois, pude ouvir Jack sussurrar algo como "Deixe-a ir!". Corri para longe, não tão longe... Parei em frente a uma delegacia. As luzes estavam ligadas, vários policiais corriam de um lado para o outro. A porta se abriu, vários policiais saíram de lá. Um deles parou na minha frente, me puxou pelo braço e me levou para dentro.

Não consegui entender muita coisa, só me via parada em frente a uma mesa, com dois policiais me olhando.

— Rebeca Darling Manson, desaparecida por dias. Sua mãe esteve preocupada com você!

— Pode deixar comigo, Alex. Esse caso é meu! — diz um terceiro policial, entrando na sala e dispensando os outros dois.

Ele me parecia muito familiar. Alto, pele pálida, cabelos escuros, olhos castanhos claros. Eu já tinha visto ele antes. Em partes dos meus Flashes.

— Por onde você esteve? — ele gritou irritado, batendo na mesa.

— Quem é você?

— Chega desses joguinhos, Rebeca! — ele me segurou pelos ombros, me assustando.

— Está me assustando! — gritei.

As luzes começaram a piscar freneticamente, algumas até se quebraram. O policial me olhava fixamente nos olhos, ele estava tão confuso quanto eu. Percebi isso no segundo que ele se afastou de mim. Tudo voltou ao normal, na repleta calma.

— Não se lembra de mim?

— Deveria?

Ele cruzou os braços, andou de um lado para o outro, pensativo.

— Ao menos ainda usa o colar que te dei.

— Esse colar foi um presente de um... Amigo — fiz uma pausa pensando em Jeff e como ele deve estar agora. Não tenho certeza sobre nada a respeito de nós dois, apesar das coisas que fizemos. — Eu não sei quem é você, ou o que quer de mim, mas peço que me deixe ir!

— Você sabe o tamanho da confusão que causou ao nosso mundo quando sumiu?

— Nosso mundo?

— Scary, Rebeca! Scary! — meu corpo ficou todo arrepiado ao ouvir esse nome.

— Quem é você?

— Dave! Mas você sabe quem eu sou, só não se lembra. Como isso... — ele fez uma pausa, como se tivesse lembrando de algo. — Você usou a magia proibida, não foi? Claro que foi! Mas como? Para fazer isso você precisaria de ajuda de alguém de fora...

— Me tira daqui! — gritei repetidas vezes, até as coisas começarem a tremer.

— Rebeca, você precisa se lembrar, ou estaremos perdidos.

Só queria sair dali o mais rápido possível. Olhei para a janela na minha direita, uma ótima visão da rua por sinal, Jeff e Jack estavam parados do lado de fora. Levantei da cadeira, indo até a janela. Fiz um sinal para eles, dizendo que precisava de ajuda para sair dali.

— Quem são eles? — Dave perguntou — Não está pensando em fugir né?

Dei um soco em seu rosto, fazendo ele cair para trás, corri até a porta e tentei abrir. Mas estava trancada. Vi Dave se levantar e vir lentamente até mim.

— Precisa se lembrar de quem você é! Sei que consegue sentir algo dentro de si ainda.

Consegui abrir a porta e correr em direção aos garotos. Voltamos para a tal casa, sem dizer uma única palavra. Ainda estava assustada e com um péssimo pressentimento sobre aquelas quatro casas da rua.

— Onde nós estamos? — perguntei.

— Na minha antiga casa. Eu morava aqui antes de... Tudo.

E o silêncio reinou novamente com essas palavras de Jeff. Era difícil pensar que Jeff já foi um humano comum. Com uma família e tudo mais. Entramos na casa e nos acomodamos, cada um em um canto. Jack saiu, dizendo que precisava se alimentar ou coisa do tipo. Prefiro nem pensar sobre isso, apenas aceitar.

Sentei na mesa da sala de jantar, me apoiei em minha mão e me pus a pensar.

No momento que entrei em casa, respirei fundo, contei até 10 e desci as escadas. Dei de cara com Jane e Dave. Eles pareciam preocupados com algo.

Dave era um amigo, não um grande amigo e sim um instrutor enviado para me ajudar a controlar meus poderes. Ele que me ajuda com muitas coisas. Moramos juntos, ele se passa por meu pai, já que a casa é dele. Mas quase nunca está em casa. Quando aparece, sei que não vêm com boas notícias.

— O que aconteceu?

— Quem era aquele cara? — Jane perguntou me zombando.

— Agora não, meninas! — Dave falou impaciente — eu acho que você não deve ficar aqui por muito mais tempo.

— Por que?

— Seus poderes, são maiores do que pensei! Chegam em um nível absoluto, que nunca vimos antes... Rebeca, nós achamos que Graciele passou os poderes dela para você!

— Acha que eu sou a última? — olhei para os dois, completamente ofegante só de pensar no tamanho poder que eu teria.

— Rebeca... — Jane chamou minha atenção para seus olhos castanhos — Nós temos a total certeza de que é você!

Esses últimos dias foram um caos. Acho que fiz tudo sem pensar nas consequências antes. Minha cabeça estava para explodir com tanta informação.Precisava descansar por um tempinho ou iria pirar!

Jeff POV

Rebeca estava quieta desde a hora que encontramos ela. Essa viagem está sendo muito cansativa, já que ela não é acostumada com isso. Desde que chegamos, minha visão tem piorado cada vez mais. Fico me lembrando da época antes do acidente, mas alguns rostos ainda são borrões para mim. Muitos e muitos borrões.

Andei pela casa, relembrando os últimos momentos em que estive nela. Relembrando do incêndio, dos gritos e dos seus rostos apavorados.

Essa casa tinha tudo para ser o local em que ficaria com minha família por longos anos, até ir para faculdade, arranjar meu emprego e casa própria. Ter uma vida normal. Ao olhar meu passado, penso o quão certo foi o momento em que as trevas me consumiram e perdi meu controle.

A forma como isso começou, como tudo isso começou, era até lamentável.

Acordei cedo no outro dia, desci as escadas para tomar café da manhã e ir para escola. No segundo que me sentei para comer, tive o mesmo sentimento estranho do dia anterior. Só que agora estava mais forte. Tive uma pequena dor, como um puxão, mas ignorei novamente.

Eu e meu irmão tivemos a sorte por estar no começo do ano, assim não perdemos nada. Assim que terminamos o café da manhã, andamos até o ponto de ônibus. Olhei por longos segundos a casa de Rebeca. Não sabia se ela já tinha ido para escola ou ainda iria.

— Você gostou daquela garota, né? — Liu.

— Não sei do que está falando! — me fiz de desentendido.

— Sabe sim! — insistiu — Mas me responde uma coisa... De onde ela veio? Lembro de estar olhando pra rua e quando pisquei, ela estava em seus braços.

— Ela disse que estava andando distraída, então nos esbarramos.

— Estranho! — ignorei seu comentário e prossegui caminho.

Sentamos no banco do ponto de ônibus, esperando. Então, do nada, um garoto de skate pulou por cima de nós, por apenas uns centímetros de nossas cabeças. Demos um salto, surpresos.

— Mas que porra é essa? — falei com o susto.

O garoto deu a volta, vindo até nós. Ele deu um pisão na ponta do skate, pegando na mão. Coisa boa não viria dali.

Cheguei na sala de jantar, encontrando uma Rebeca completamente perdida em pensamentos. Quis conversar com ela, precisamos saber logo o que está acontecendo aqui.

— Você os matou? — ela levantou a cabeça se pronunciando. — Matou sua família, Jeff?

— Por que quer saber?

— Realmente, precisa de motivos?

— Sim... — ela bufou, derrotada, então prossegui. — Eu os matei. Nessa mesma casa, anos atrás. Foi um verdadeiro banho de sangue.

— Se sentiu bem fazendo aquilo?

— Perfeitamente bem.

— Mudaria o que fez? Mudaria alguma coisa daquela época?

Essa pergunta pairou no ar enquanto eu pensava em alguma resposta. Por mais óbvia que essa resposta seja.

— Jeff?

— Não.

— Não o que?

— Não mudaria o que fiz, pois se mudasse não seria o que sou hoje.

Ela levantou da cadeira e veio até mim. Seu olhar não deixava de brilhar por nem um segundo. Parou na minha frente, por seu silêncio estava buscando as palavras certas para dizer. Não havia medo nela.

— Está evitando algum assunto! — afirmei.

— Vários, pra falar a verdade. — pensou por alguns segundos — Acho que não é o momento...

Continua...