Notas iniciais
Personagens originais às vezes são difíceis de descrever, o que faz com que os capítulos tenham séculos de um pro outro...

Alexis passou a noite em claro tentando escrever, e não saiu nada. A verdade era que já estava absurdamente cansado de escrever aquela porcaria medieval. Bom, não era um porcaria, era uma sequencia do último livro que tinha escrito, sobre um cavaleiro medieval em meio à uma Guerra Santa. A história até que era boa, cheia daquele romance melodramático que conquistava as jovens e ao mesmo tempo sangue e cinismo que cativava a atenção dos jovens. Mistura perfeita que vendia livros, pôsteres, filmes e jogos de videogame. O problema era que ele não agüentava mais aquela porcaria de espada, armadura e cavalo. Já tinha inventado o nome para uns quatro cavalos diferentes em cinco livros. Por que toda guerra o cavalo de alguém tinha que morrer? Que o cavalo tinha a ver com a guerra? Odiava ficar inventando nome pros cavalos, mas aquelas pestes brancas, pretas, malhadas... a cor que fossem, precisavam de nomes.

Começou a pensar em escrever um livro sobre outra coisa, pra ver se recuperava o ânimo em continuar aquele. Talvez alguma coisa sobre ficção científica, ou sobre a segunda guerra mundial. Seria bom ensinar um pouco de história pro povo daquele país. Mas acabou se desanimando ao pensar no que os personagens fariam no meio da porcaria da Guerra. Por que, afinal, independentemente do contexto, a história precisa girar em cima de personagens, e ele não estava com paciência para moldar as circunstâncias.

Pensando nisso, e se não fossem personagens? E sim os países? Será que saber que o Japão tinha atacado Pearl Harbor despertaria os sentimentos das pessoas da mesma forma que a morte do último cavalo? Com certeza não, mesmo que fosse um fato exageradamente mais trágico.

Vai ver estava só ficando velho, chato e implicante. Talvez estivesse na hora de mudar alguma coisa em sua vida. Talvez estivesse na hora de ter um filho...

Foi desperto por um “você vai se atrasar” mal humorado do outro lado da porta. Olhou para o horário no canto da tela do notebook, estava mesmo atrasado.

Juntou suas coisas de qualquer jeito, deu um “tchau” apressado para sua esposa muito mal humorada que estava sentada no sofá.

Amanda, a esposa de Alexis, era muito bonita. Morena, com longos cabelos lisos e olhos esverdeados. Que aliás, fazia completo jus à Alexis quando se casaram. O homem era alto, tinha os cabelos muito escuros e lisos indisciplinados, se vestia muito bem e cuidava da aparência. Isso quando se casaram, porque Amanda continuava deslumbrante, enquanto Alexis só tinha se mantido alto. O corte despontado e inovador que tinha no cabelo tinha virado uma bagunça de fios, tinha perdido os músculos definidos e estava começando a engordar.

A reunião foi péssima. Na falta de ideias do próprio autor, os sócios da editora decidiram por eles mesmos a história, que na opinião de Alexis tinha ficado horrível. O enredo era pobre, não tinha significado nos personagens. Era sim recheado de cenas melosas e fofas que arrebatariam o coração dos adolescentes, além de cenas que provavelmente dariam excelentes efeitos especiais. Tradução: era um livro escrito para virar um filme. Um assombro das bilheterias.

Voltou para casa cansado, pensando seriamente em se enfurnar por horas na banheira. O que não fez. Ao chegar, descobriu a casa escura e silenciosa. Vazia. Onde Amanda tinha ido? Sentou-se no sofá, ligou a televisão e ficou vendo algumas reportagens aleatórias, uma ou outra cena da novela da tarde, até cair no sono. Já eram mais de vinte e três horas quando ele acordou com o som da porta sendo destrancada.

– Aonde você foi? – Ele perguntou, ao observar sua mulher entrando pela porta.

Amanda estava trajando um vestido curto, negro, carregando os saltos altos nas mãos e parecendo estar cansada. Olhou para ele com desdém, não querendo responder a pergunta. Virou o rosto e subiu as escadas, até o quarto para tomar banho.

Nos vinte minutos que se seguiram, Alexis ficou ponderando sobre o que sua vida tinha virado: a vida que tinha conquistado com muito trabalho e talento, a carreira que sempre quis seguir, agora lhe era sem graça e fútil. A mulher que amava, que tanto tinha feito na vida para agradar, agora saia sem lhe avisar e voltava completamente indiferente. Não podia fazer nada quanto à carreira, mas ia consertar tudo com a esposa, com certeza.

Subiu as escadas, dois degraus por vez. Entrou no quarto devagar, dando duas partidas leves na porta do banheiro, assim que percebeu que o chuveiro tinha desligado:

– Eu posso entrar?

A pergunta soou estranha a seus próprios ouvidos de marido, só que mais estranha ainda foi a resposta:

– Não.

Ele ficou alguns minutos parados, até a porta se abrir violentamente contra ele, acertando-lhe o nariz.

Amanda saiu do banheiro, com os cabelos e o corpo enrolados em toalhas. Sentou-se na cama, tirou o tecido da cabeça e começou a passar os dedos pelos fios negros e lisos.

–Então, onde foi hoje? – Alexis perguntou, passando o dedo pelo nariz que doía, após verificar que não havia saído sangue.

– Sai com algumas pessoas. – Ela respondeu, desinteressada.

Alexis a viu se levantando da cama, e indo em direção ao grande guarda-roupa, pegando uma camisola para vestir. Ele queria continuar o assunto, queria conversar com a esposa, descobrir o que estava tão errado. Amanda estava mais irritada e indiferente para com ele nos últimos dias, e ele realmente queria indícios de como inverter aquela situação.

A mulher tirou a toalha, deixando a mostra seu corpo escultural. O homem percorreu a pele dela com os olhos, sentando-se na cama, no exato ponto onde ela estava antes. Era realmente belíssima. Vestiu a camisola cor de vinho despreocupadamente, como se Alexis nem estivesse ali. “Algumas vantagens que vem com a intimidade” pensou ele.

– Estava com outro homem, Alexis. – Ela disse olhando diretamente para os olhos azulados dele.

O homem ficou estático por alguns minutos, olhando-a terminando de se arrumar e se deitando para dormir, com os cabelos ainda molhados.

“Não posso ter entendido direito... ela me disse isso com essa naturalidade,e continua agindo como se nada tivesse acontecido?”

– Apague as luzes quando estiver pronto para se deitar. – Ouviu a mulher dizendo, virando-se no lado dela da cama.

–Amanda... o que exatamente você espera que eu faça agora que me disse isso? – Perguntou ele, incrédulo, tentando entender o que sentia naquele momento. Sabia que devia ser ódio, mas a situação era tão inesperada que nem isso ele conseguia distinguir com clareza.

– Que você assine a carta de divórcio sem criar escândalos. – Ela respondeu, já quase dormindo. – Não fique ai parado, estou com sono.

Notas finais
Reviews garantem a sua boa ação do dia, e por consequencia sua entrada no céu!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.