[HIATUS] Mudanças impuras
22 Um repentino salto no escuro
Notas iniciais
Sabe-se, que na vida, há circunstâncias das quais não temos como fugir, o que nos obrigada a tomar uma decisão. Ou ficamos parados a esperar a posteridade agir por si, impulsionada pelo que já está feito, torcendo por melhoras independentes, ou saltamos cada obstáculo mesmo nos arriscando a cair, a fim de não sermos tragados pelo caos crescente e corrosivo.
Após ter revelado a Lavínia mais sobre os fatos terríveis do passado que os entrelaça irremediavelmente, súbito, Henry sente que deve tomar uma atitude adversa ao previsto, pois só assim terá a prova que tanto deseja sobre a intensidade do amor que ela declarou nutrir por ele.
Diz-se que numa casa de muitos quartos, você precisa ocupar apenas um. Isso significa que, teoricamente, há limites na vida que não deveriam ser ultrapassados, para não nos sentirmos deslocados, sem canto fixo. Porém, se não testarmos nossa capacidade à fronteira mais aguda, jamais saberíamos o que existe além, por estarmos reduzidos à nossa anódina visão míope.
Henry está refletindo sobre esses conceitos, voltando para seu próprio quarto, vestido apenas de cueca e segurando o resto das roupas em uma das mãos. Entra na sua suíte e joga as peças a um canto. Toma banho, escova os dentes, prepara-se para dormir, mas sua inquietação mental cresce, aos poucos, cada vez que revisa suas ações, especialmente por ter acabado de deixar Lavínia numa solidão aflitiva que a machucará através de mais e mais dúvidas a respeito do passado obscuro de seu pai, que a envolve de modo degradante.
Sai do banheiro, veste apenas outra cueca preta e limpa. Senta-se na cama olhando para o celular, logo ali por cima de sua mesa de estudo, espera a audácia vir. Alcança de cima da mesa de cabeceira, a abarrotada carteira de cigarros, de onde retira um, e o isqueiro ao seu lado. Enquanto fuma, admirando as formas abstratas produzidas a cada baforada, Henry angaria a coragem que necessita. Numa atitude determinada, pega seu celular e busca entre os contatos organizados em ordem alfabética a letra “i” referente às nomeações Isa 1 e Isa 2. Clica na segunda opção e espera alguns segundos para ser atendido.
— Alô! Henry, baby, é você? — A voz clara e feminina de Isadora Abranches se faz ouvir, do outro lado da linha.
— Oi, Isa... Desculpa te ligar a esta hora. Mas preciso falar com você. É urgente. Podemos conversar? Ou tem alguém aí nos ouvindo? — quer certificar-se de que não são espionados.
— Oh, meu bem, não se preocupe. Sabe perfeitamente que só durmo depois das três da madrugada e... faltam ainda quinze longos minutos para isso. Quanto a poder falar... — Ela se cala um tempo, como que verificando se o que dirá em seguida procede, e ri sonoramente. — Sim, podemos conversar à vontade. Minha “vítima sexual” desta noite acabou de entrar no banheiro. E estou feliz em saber que este celular que você me deu não é mesmo só um enfeite.
— E quem disse que não é? Na verdade estamos nos falando telepaticamente. Não percebeu? — O tom irônico surge apenas para descontrair o seu clima de tensão interna.
— Eu te conheço, Henry, então não adianta vir com enrolações pra cima de mim... Qual é o problema, querido? Diga de uma vez.
— Vamos adiar a segunda etapa do plano. — Ele solta, exibindo firmeza no que diz, embora isso seja apenas a fachada.
— Adiar? Como assim? Por que isso agora depois de tudo que combinamos que eu faria e... e depois do que já aconteceu? — parece confusa, mas não chateada.
— Olha... Digamos que optei por complicar um pouco mais as coisas... para o meu lado, é claro.
— E o que decidiu agora? Não vai matar o empresário, vai? — Por trás da brincadeira de Isa há um receio autêntico, pois ela sabe o suficiente do quanto o senhor em questão é odiado por Henry.
— Não, vou fazer o contrário disso.
— Que será...? — incita-o a revelar o que planeja.
— Enviar-lhe um presente de grego... se a sorte me favorecer.
— Enviar o quê?
— Isa, isso não importa. Você não entenderia. Juro que um dia te conto a história toda e você vai finalmente entender. — Henry nunca falou sobre Lavínia e nem sobre o sequestro. Portanto, Isa só sabe fragmentos do que houve, porque ele se absteve de expor toda a situação para não comprometê-la ainda mais e, ao passo que já viu como muito complexo o fato de ser sua “parceira na vingança”.
— Então você tá me liberando da minha... participação nisso?
— Bom, por hora sim... Até segunda ordem. Volto a ligar pra você, caso eu precise. Fique alerta... ok?
— Henry, você desistiu dessa coisa de vingança? É isso?
— Já disse. Nós vamos adiar. Isa, eu vou fazer uma coisa que acho que é preciso ser feito, mas o resultado do que eu vou fazer... não é totalmente seguro. Eu posso ser preso... ou talvez não. O certo é que tenho que testar algo. — Henry fala, mas suas palavras são direcionadas mais para si mesmo.
— Garoto, você tá realmente me assustando, falando assim. — De repente, Isadora fica séria. — Por que você pode ser preso?
— Porque eu vou dar uma arma para o meu inimigo... a melhor arma que eu possuo.
— Tá me dizendo que vai arriscar tudo... só pra fazer uma merda de teste?
— Isso mesmo.
— Você enlouqueceu de vez?
— Provavelmente sim... ou talvez eu esteja tomando a atitude mais sensata diante da minha situação. Isso eu vou descobrir em breve.
— E como é que eu fico nisso?
— Do mesmo jeito de antes... aguardando.
— Tudo bem, Henry... Faça o que acha que tem que fazer. Mas, por favor, não me deixe sem notícias por muito tempo... ou eu garanto que esqueço o nosso acordo e te procuro, nem que seja contra a sua vontade... aí não me importarei mais de associarem meu nome ao seu. Tá entendido? — A voz dela é de pura preocupação.
— Ei! Calma! Está bem, eu prometo que vou fazer de tudo para não demorar tanto a te ligar da próxima vez... Mas se eu não fizer isso, você está autorizada a me visitar trazendo algum bolo, de vez em quando... se não se incomodar de ser revistada na entrada, por policiais gordos e mal-humorados.
— Não fala isso... nem brincando. — A voz embargada de Isadora termina por denunciar a sua emoção. — Você é mesmo um coração de pedra por me deixar aflita desse jeito!
— Eu também te amo, Isadora Abranches. — Henry fala com sinceridade, mesmo que seu tom de voz soe um tanto insolente. — Agora tenho que desligar, pois preciso dormir algumas horas. Senão passarei o resto do dia como um zumbi... E eu realmente preciso recarregar minhas forças para suportar o que está por vir.
Embora a ligação tenha sido encerrada, Henry permanece com o aparelho entre os dedos, fumando e o observando, acreditando ter decidido por uma tática de significado dúbio, propositalmente.
[...]
Se na casa de Henry, a atmosfera prevê uma possível mudança brusca de circunstâncias, na república, o caso é um tanto diferente, já que a própria Vicky tenta encontrar estabilidade emocional através da desordem aparente em seu relacionamento amoroso.
A segunda-feira, contrastando com os últimos acontecimentos, ressurge com o céu claro prenunciando um dia de sol e quente, como se estivesse desconsiderando que viria a seguir um momento de tristeza e de decepção profunda, invadindo algumas vidas de modo repentino e atemorizante.
Louise já se havia levantado para ir ao seu trabalho de recepcionista na clínica odontológica e Vicky, não. Ela passou praticamente a noite toda insone, perturbada demais devido ao ciúme e à postura hesitante de Manu, fracassando em tentar justificar-se, por nunca ter mencionado o nome de Dayse. “Por que ela foi tão evasiva nas respostas? Será que está interessada por essa menina?” As reflexões da morena vão avolumando-se, quando ela começa a relembrar o modo atrevido e desinibido com que Dayse tratou Manu na frente de todos durante o show. Vicky percebeu que a garota não tem o menor problema em assumir e demonstrar a sua orientação sexual “diferente” perante qualquer um. Certamente, ela possui pais compreensivos que a apoiam e admiram sua bravura, assim como Manu. Ela, por seu lado, é obrigada a viver em eterno disfarce, mentindo para sua família, para os colegas da faculdade e até para si mesma, pois a verdade é que sua conduta farsante também tem a ver com a dificuldade dela própria em ser alguém não-comum, que teria que vencer obstáculos de preconceito social e de aceitação pessoal. Está envolvida nestes pensamentos, quando escuta batidas na porta que, em seguida, se abre. É Manu que já está pronta para irem à faculdade. Ela veste calça jeans, camisa em tom amarelo-queimado, por baixo de uma jaqueta aberta de tecido semelhante a jeans sem mangas e tênis cinza. Suas feições também evidenciam uma noite de completa insônia. Há olheiras profundas, abaixo de seus olhos castanho-esverdeados.
— Bom dia. Você não vai levantar... para irmos? Já estamos atrasadas. E você sabe que a professor Norton não perdoa atrasos e acaba dando bronca toda vez. — Manu entra e vai logo tentando agir de forma mais usual possível, querendo que a outra se sinta à vontade para conversarem, mas sua voz baixa e enfraquecida demonstra nervosismo.
— Bom dia. Uhum... É... Eu sei. Eu já tô levantando. — Vicky olha para a parede e mostra expressão de enfado, afasta as cobertas, levanta-se, pega os seus pertences, que havia trazido consigo, e anda na direção da porta, passando direto por Manu.
Manu respira aliviada por não ter obtido uma resposta grosseira do tipo “Não enche o saco e me deixa em paz!”, como supôs que ouviria após terem aquela discussão na noite passada. Então, ela segue a morena, calada e pensando em mais coisas para dizer. Observa quando Vicky entra na suíte e a impede de fechar a porta, com a mão, segurando-a, ao passo que lhe dirige um olhar fixo, pedindo atenção.
— Sabe... hoje à tarde... eu poderia faltar na lanchonete com uma desculpa qualquer. Nós poderíamos ficar em casa fazendo brigadeiros para comer e... e nós também poderíamos escolher um filme para assistirmos juntas. O que você acha?
— Eu acho que não há necessidade de você faltar ao seu emprego por um motivo fútil. — declara enquanto lava o rosto e pega a escova e põe a pasta dental, iniciando a escovação dos dentes. Mas, ao ver a expressão apreensiva de Manu, sente-se obrigada a ser menos rude. — Olha, Manu... É sério. Você não precisa faltar no seu emprego por minha causa.
— Mas a gente precisa conversar! Eu preciso que você me deixe explicar algumas coisas... pra resolver esse mal-entendido entre a gente.
Vicky respira fundo a fim de controlar o impulso de exagerar em sua atitude colérica.
— Bem, faremos assim... Vamos pra faculdade ter um dia normal de aulas, à tarde você vai pra lanchonete e vai trabalhar como sempre e-e... quando você voltar, à noite.... se ainda quiser, nós conversaremos com calma e eu escutarei o que tem a dizer, seja o que for. O que acha?
— Ah... Caralho! E vamos passar o dia inteiro nesse clima de velório? — Manu encosta-se à soleira da porta e cruza os braços, numa expressão desgostosa.
— Veja pelo lado positivo. Nesse ínterim... você terá mais tempo de pensar no que tem a me dizer, sem vacilar muito e, quem sabe, eu possa ouvir e acreditar. — Vicky enxágua a boca e começa a se despir para um tomar banho rápido. Não há nela traço algum de vergonha, pois não pensa em nada malicioso neste momento, ao contrário, está com a cabeça cheia de pensamentos apreensivos.
Manu, conformada, apenas acena positivamente para não reiniciar uma contenda, que iria acumular injúrias infundadas, e se afasta, deixando Vicky terminar de se aprontar em paz. Vai para a cozinha tomar seu café da manhã, esperar Vicky concluir o dela, para poderem sair juntas, como de costume.
[...]
Frida está na cozinha preparando o café da manhã. Ela termina de organizar a mesa, colocando sobre esta as xícaras e os talheres, pois, os pãezinhos, junto com o resto dos ingredientes gostosos, já estão todos no ponto. A senhora canta uma canção antiga, conhecida e de conotação religiosa, não se dando conta da presença de Henry escorado à parede perto da porta com ar carregado, sorrindo triste ao vê-la cantar. Todavia, Ele contradiz seu semblante melancólico, ao estar muito alinhado, vestindo uma camisa escura de mangas longas, levemente dobradas nos punhos, o que deixa exposto o seu Rolex, peça onerosa que combina perfeitamente com a calça social de cor cinza e aos sapatos de cor marrom, de alta qualidade, e que igualmente se harmoniza com sua postura de empresário bem sucedido e arrojado.
Henry observa Frida em sua melodiosa tarefa doméstica e experimenta uma sensação nostálgica, dos tempos em que era só um menino e ela o repreendia por ser tão intransigente, rejeitando suas propostas de convidar seus amigos de escola para festejar qualquer evento banal, apenas para que ele tivesse companhia e aplacasse o isolamento ao qual sempre se impunha, efeito advindo do trauma pela circunstância da morte de seus pais.
— Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado... Ai, meu amor, quem te disse assim... que a flor do campo é o alecrim? Ai, meu amor, quem te disse assim que a flor do campo... é o alecrim? — Frida segue cantando, contornando a mesa, enquanto faz o seu trabalho distraidamente, até que, de repente, movimenta a cabeça para o lado e nota a presença dele. — Meu Deus, menino... Que susto! Você aí, parado e quieto, feito alma assombrada. — ri de sua reflexão, mas percebe a expressão compenetrada dele e fica preocupada. — Hum... Nossa! Tá com uma carinha péssima. Não dormiu bem? Pela hora avançada, vejo que levantou tarde, como eu, que tomei um daqueles comprimidos e acabei exagerando por querer uma noite inteira de repouso.
— Primeiro... Bom dia. Depois, não, não dormi muito bem. — Henry aproxima-se da senhora, mas não lhe dá o costumeiro beijo na testa dela, pois está sem ânimo. — E sim, levantei tarde porque vou ter que resolver algo antes de ir para a empresa. Agora diga, você já preparou a bandeja com o café da Lavínia?
— Sim... Você vai querer levar pra ela? — contempla-o de esguelha, com ar desconfiado. — Olha, Henry, eu sei que ontem você foi vê-la e... imagino que foi mais do que conversa o que vocês tiveram. Mas, se quer saber, eu lavo as minhas mãos! Ontem, eu também conversei com a Lavínia e... Sabe o que eu descobri? Que não adianta tentar colocar juízo na cabeça de quem não quer. Essa garota e você têm mais semelhanças do que imaginam. Então... quando tudo isso acabar, ou vocês se matam... ou se amam de uma vez, porque são dois cabeças-duras, que não aceitam que lhes digam o que fazer. — desata a falar, porém, ao ver o semblante totalmente introspectivo de Henry, estanca e sente um inesperado aperto no coração. — O... O que foi, Henry? Faz tempo que não te vejo com uma cara tão séria.
— Frida, leve você o café da manhã pra ela e aproveite pra se despedir... porque hoje mesmo Lavínia deixa esta casa. Disso eu me encarregarei. — anuncia impondo a maior calma que consegue. Senta-se à frente da mesa para tomar o seu café da manhã, sem deixar de buscar, como hábito, o jornal do dia para ler.
— O quê? — A senhora fica boquiaberta, olhando diretamente para ele, admirada com as palavras proferidas e escoltadas de tamanha impassibilidade.
— É isso mesmo que você ouviu. Lavínia sairá desta casa hoje e terá sua liberdade de volta... completamente. — Henry acrescenta tomando um gole de sua xícara de café e abrindo o jornal, mostrando desinteresse ao que diz.
— E... e a tal vingança que você tanto falou... Onde está? Desistiu dela?
— Sim, desisti. Por que tanta surpresa? Não era exatamente isso que você queria o tempo todo? Então? Deveria estar feliz por mim. Eu estou tirando o peso do rancor das costas e dando a chance para que Lavínia faça as escolhas que achar melhor. Não é uma maravilha que a vida tome seu próprio curso? — volta a fingir estar concentrado na leitura de uma página do jornal.
— E você decidiu isso assim... do nada... depois que o mal já foi feito? Tem noção de que essa menina pode ir direto as autoridades, nos denunciar pelo que fizemos com ela? Quanto a mim, eu não me importo de ser presa, Henry... sou apenas uma velha, que não tem tantos anos de vida a mais. Mas eu não... eu não suportaria se isso acontecesse com você, meu filho. Você já passou por tanta coisa ruim nessa vida. Ai, meu Deus! O que vai ser de você agora? Eu sabia que isso não ia acabar bem... Eu sabia! — Frida vai à pia, abrindo-a, passa a molhar as mãos e lavá-las sem parar, retirando alguma sujeira imaginária, enquanto seus olhos vertem lágrimas silenciosas.
Henry deposita o jornal de lado, suspira algumas vezes, buscando serenidade, levanta e caminha até a agoniada senhora. Roda o registro da torneira até fechá-la e toma as mãos dela, molhando um pouco também as suas.
— Mãe, olhe para mim. — Henry exige carinhosamente, o que consegue de prontidão. — Se algo me acontecer, como ser preso ou qualquer coisa desse tipo... eu quero que você saiba que fui eu e somente eu o culpado por tudo. Eu praticamente a obriguei a ser minha cúmplice, sequestrei a Lavínia, eu a mantive aqui contra a vontade dela... e rejeitei os conselhos que você me deu pra não fazer isso. Portanto, eu ficarei muito chateado com você, se não disser a verdade caso tenha que ser interrogada futuramente. Quanto ao seu sustento, não tem com o que se preocupar. Além de já ter reservado uma boa quantia em dinheiro que durará bastante... eu quitei sua aposentadoria, você terá acesso à sua conta em breve... chegará pelo correio.
— Henry... faça com que a Lavínia fique aqui só mais um tempinho! Nós podemos conversar com ela e convencê-la a não nos denunciar. Nós podemos... não sei... pedir que ela seja compreensiva e nos perdoe... — A angústia de Frida só aumenta e a faz ignorar o que Henry diz, enquanto vai supondo mil maneiras de solucionar a situação, sem que ele seja crucificado.
— E podemos implorar que ela não reúna todo o ódio do mundo por mim, assim que eu lhe revelar a verdade sobre nós afinal, e que não deseje também fazer a sua própria vingança? Ah, Frida! Isso é bobagem! Eu apenas sei que não quero mais mantê-la aqui como uma prisioneira. Esta brincadeira não me agrada mais! Perdeu a graça. Eu a amo... e quero ter certeza de ela me ama com a mesma intensidade... ou não. Justo por isso, pra mim, chega! Eu colocarei minha vida em suas mãos e deixarei que faça o que quiser com ela. Não mereço menos que isso!
Dito isso, Henry dá um renovado suspiro e solta os dedos umedecidos e frouxos da senhora. Volta a se sentar, no intuito de recomeçar a refeição da manhã, tentando manter a aparente tranquilidade, ocultando seu pavor e inquietação internos.
Frida, vendo-o tão obstinado como sempre, firme no caminho que estabelece para si, acha um despropósito tentar insistir para que retroceda. Ela o olha, com o coração cheio de amor maternal e devotamento sofrido. Achega-se a ele vagarosamente e lhe beija a cabeça, por cima dos curtos fios aloirados.
— Só não esqueça, meu filho, que sempre estarei do seu lado, venha o que vier. — arremata em tom consolador, pega a bandeja pronta que está à quina da mesa e sai.
Ao entrar no quarto, Frida encontra Lavínia banhada, em pé diante da janela de vidro, escovando os cabelos, ao passo que lança um olhar fixo e reflexivo para algum ponto fora da casa. Ela traja uma blusa polo feminina em tons de verde-claro e róseo na gola, bem como um encurtado short branco de tecido bem costurado, com detalhes de botões em seus proeminentes bolsos laterais. Nos pés há uma sandália simples de dedo.
Frida força uma tosse, a fim de espantar a emoção por estar neste instante diante dessa que, em questão de horas, terá o poder de absolver ou condenar o seu querido filho.
— Bom dia, Lavínia. Desculpe ter demorado a trazer o seu café. Mas é que eu tomei um daqueles comprimidos tranquilizantes e acabei levantando mais tarde que o normal. — Frida tenta não transparecer de imediato a sua amargura.
— Não deveria tomar mais esse tipo de medicação, Frida... Viu o que houve comigo? Mas, enfim... não tem problema que esteja um pouco atrasada... afinal, eu também não acordei cedo. Além de dormir tarde... minha me-menstruação... fi-finalmente resolveu vir, me fazendo ficar um pouco fraca e sonolenta. Então, estamos quites. — Lavínia anuncia, sem ter noção de que suas palavras fazem a senhora respirar aliviada, pois ela tinha pavor até da possibilidade de ver a garota grávida. Seria ainda mais traumático e outro crime para ser adicionado aos tantos já cometidos por Henry.
Lavínia afasta-se da janela, enquanto tenta impor segurança em sua conduta para não parecer muito constrangida ao tocar no assunto de seu ciclo menstrual. Coloca a escova capilar sobre o criado-mudo e se senta na cama, encarando-a amistosamente, exibindo os dentes num sorriso brando. Contudo, a alegria superficial apresentada, não é o bastante para esconder sua expressão algo tristonha, a um observador mais experiente.
— Que bom! Então... Ontem, quando Henry esteve aqui em seu quarto, você conseguiu que ele lhe desse as respostas que tanto queria? — Frida não resiste à tentação de lançar uma pequena dose de ironia sobre a jovem e, ademais, de especular o quanto a garota já sabe. Ela põe a bandeja sobre a cama, próximo dela, para que inicie sua refeição matinal, e se senta ao seu lado.
— Segundo Henry, meu pai foi o responsável por coisas terríveis que aconteceram no passado. Ele provocou a morte dos pais dele. Com Abigail foi da pior forma. Ele a en-engravidou... e levou o-o bebê depois, não sei para onde e nem por quê. Isso ele não me disse. Mas ele disse que ela se jogou do sétimo andar do a-partamento onde morava e que meu pai apenas se-seguiu com sua vida normal de empresário, marido e pai, sem nunca reparar seus erros. — Lavínia busca ar para liberar pela boca e revisa tudo o que lhe foi revelado por Henry. Volta a olhar para a senhora, querendo repartir um pouco de sua dor. — E-Eu não sei... como vou encarar o meu pai novamente, Frida. Acho que nunca mais poderei vê-lo da mesma forma. Mas, por mais absurdo que pareça, estar diante dele e questioná-lo sobre essa história de horror... é tudo em que penso neste momento... Só penso nisso.
— Bem, espero que não me jogue outra xícara de café no rosto pra tentar sair daqui, de qualquer jeito... e conseguir ter este seu desejo atendido. — Frida sente compaixão pela moça e busca descontrair o clima de tensão presente.
— Puxa, Frida. Se está com medo que aquilo volte a acontecer... então, porque ainda está sentada aí, me fazendo companhia? O que garante a sua integridade física diante de uma prisioneira revoltada? — Lavínia arrisca desanuviar a mente através de humor. Ela se dispõe a beber do suco e a comer dos pãezinhos para igualmente fortalecer o organismo, enquanto fala: — Mas você não parece estar com medo que eu faça isso, nem está agora com... aquela inseparável arma, que sempre traz com você.
— Bom, vai ver que é porque você voltará à sua vida de antes, hoje mesmo. — Frida declara subitamente, rápida e direta.
— Co-Como? O-O que disse? — A garota quase se engasga com o suco, devido ao susto.
— Estou dizendo que Henry virá, daqui a pouco, e levará você de volta... para onde você quiser ir. Você está livre, Lavínia, finalmente. Sinta-se feliz. Ao que tudo indica, ele desistiu dessa vingança sem rumo. Isso é ótimo, não é? — As palavras positivas de Frida mostram-se opostas ao seu tom de voz entristecido.
Lavínia fica tão pasmada que nem consegue mais comer ou pronunciar qualquer palavra. Ela fica a calcular quantas vezes supôs que seria uma jornada longa, até que pudesse obter algum sucesso em convencer Henry a desistir de mantê-la em cárcere privado e, principalmente, de se vingar de seu pai. Contudo, saber repentinamente que está tudo acabado, assim como num passe de mágica, proporciona a si uma sensação de desamparo e algum medo de encarar o mundo lá fora novamente. Nada seria como antes, não depois de saber tanto sobre as tragédias de um passado que a enlaça amargamente, não após descobrir a face obscura de seu estimado pai, de ter se tornado mulher nas mãos de seu carcereiro e de passar a nutrir por ele sentimentos muito intensos. Em questão de um mês, Lavínia teve a vida virada de ponta-cabeça por Henry e agora não sabe exatamente que direção poderá tomar e que postura deverá assumir. “Foi cedo ou brusco demais? Eu deveria ficar mais tempo aqui e me acostumar à ideia de ser livre e poder tomar minhas próprias decisões?” Estas perguntas ficam, ironicamente, ecoando em seu pensamento.
Ao observar espanto na expressão da jovem, Frida não resiste e se larga à vontade de serenar sua alma, de alguma forma. Ela busca a mão gelada de Lavínia e a faz levantar-se para lhe dar um abraço terno e sincero, que é retribuído com timidez no início e com fervor gradativo. Todavia, nem mesmo o abraço da senhora, tira a loira de sua atual condição de mudez, por encontrar-se absorta demais em sua divagações.
— Lavínia! Ei! Vamos, agora termine de tomar seu café e não pense em nada. Tenho fé que tudo se ajeitará... com o tempo. Mas você terá que ser forte, pois está prestes a receber o que mais deseja, ou seja... a verdade inteira. — Frida desfaz o abraço, enquanto fala e torna a lhe encarar docilmente. — Só lhe peço que pense bem, antes de tomar qualquer atitude precipitada e saiba que Henry jamais teve intenção de machucar você. Ele nunca faria isso, porque o que sente por você beira à adoração, ao fanatismo... E, mesmo que ele tenha cometido tantos erros terríveis, não é uma pessoa má; é apenas um homem que sofreu traumas emocionais na infância...
Frida ainda diz mais algumas palavras em favor de seu filho adotivo, mas Lavínia está dispersa demais, nada escuta nem nada responde, apenas treme por dentro, pressentindo que, em breve, estará ante uma realidade devastadora, que irá influenciar cada um de seus passos posteriores.
[...]
Fale com o autor