[HIATUS] Mudanças impuras
46 Amor de superação
Notas iniciais

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Sentada no banco de trás do carro de Dico, Lavínia recosta-se à janela envidraçada e fica a repassar os últimos acontecimentos, enquanto é levada para a casa de seus pais. Está muito triste, mas tenta não chorar outra vez, principalmente porque sabe que Louise, que está no banco de passageiro da frente, lança-lhe de vez em quando olhares de preocupação.
A chuva que havia começado na madrugada desta quinta-feira, agora, pouco mais que sete da manhã, é somente uma fina garoa, que dispersa mais vento e frio que gotículas de água propriamente. E a loira pensa que o clima nebuloso e friorento só agrava seu estado de amargura. A decepção que sente pelo fato de ser Henry o mentor por trás do falatório maldoso direcionado ao seu pai somente aumenta a cada instante em que volta a pensar nesta horrível situação, ainda mais quando lembra o quão esperançosa estava e como desejou crer na sinceridade dele quando lhe disse que tinha desistido da tal vingança.
Lavínia respira profundamente e interrompe suas ponderações ao se dar conta de que já está nas adjacências da mansão. No entanto, assim que o Fiat vermelho se aproxima da casa dos Albuquerque, ela, Dico e Louise percebem uma movimentação estranha. Há uma minivan estacionada a uns metros. Na lateral dela pode-se identificar a imagem de um símbolo característico, que se refere a uma emissora de televisão. Notam um homem dentro do veículo e, do lado de fora, uma mulher e outro homem, que estão em pé, conversando distraidamente. Ela tem os medianos cabelos escuros, alisados e arrumados para trás das orelhas e segura nas mãos um microfone, ao passo que o homem que a acompanha carrega nas suas uma câmera filmadora.
— Ah, caramba! Tem uma equipe de jornal na frente da casa dos seus pais. — Louise constata e depressa fecha o cenho, mostrando indignação.
— Oh, meu Deus! Que droga! O que mais eles querem? — A loira solta a exclamação incomodada com a presença daquelas pessoas ali, que a fazem ver como será complicado para a sua família voltar ao normal depois de deflagrado o escândalo.
Louise e Dico trocam olhares e pensam igual. Assim, quando veem Lavínia descendo do carro, repetem o gesto, seguindo-a.
— Vivi, nós te levaremos até o portão. — declara Louise.
Lavínia pensa em recusar, não quer abusar da boa vontade deles, pois já fizeram muito ao lhe dar carona, teme agora atrasá-los para seus trabalhos. Contudo, não tem tempo para falar qualquer coisa porque a jornalista e o seu parceiro de profissão logo se achegam a eles, com o microfone e a câmera em punhos.
— Hei! Vocês são parentes do empresário? Vieram visitá-lo? Podem nos dar uma entrevista, por favor? — A mulher lança as palavras afoitamente, causando mal-estar nos jovens, que fazem grande esforço para se desviarem dos intrusos.
— Não há nada a ser dito, saiam do nosso caminho! Deixem-nos em paz! — Louise não se reprime e solta sua raiva de vez.
Lavínia concentra-se em apertar o botão do interfone e fica esperando uma resposta do interior da mansão.
— Quem é? — A voz de uma senhora surge do outro lado do aparelho e há uma clara irritação nela, pois está pensando que talvez seja a jornalista bisbilhoteira insistindo novamente em querer falar com alguém da casa.
— Nena, sou eu, Lavínia. Eu quero entrar, mas o portão está fechado e eu não ando com a cópia das chaves. — A loira explica rapidamente.
— Oh, é a minha menina! Que bom! — Nena fica exultante ao ver que se trata de Lavínia.
A loira, assim, despede-se de Louise e Dico, que mantém a escolta até o instante em que ela consegue adentrar pelo portão. Em seguida, os namorados voltam para o carro, sempre se esquivando da jornalista, e se apressam em sair dali.
Já no interior da casa, Lavínia encontra-se com Nena.
— Lavínia, que bom ver você! — Nena, a senhora que trabalha para os Albuquerque há anos e que ajudou na criação da loira, recebe-a afetuosamente enquanto a vê adentrar na enorme sala de estar. As duas se abraçam espontaneamente demonstrando o afeto que há entre elas.
— Também fico feliz em ver você, Nena. — responde a moça, desfazendo o abraço e postando os olhos para todos os cantos. — Onde estão meus pais?
— Hum? Ah, eles... — A senhora mostra-se um tanto nervosa. Ela dobra e desdobra um pano de prato nas mãos, como quem pondera sobre o que deve falar.
— Tudo bem, Nena, eu sei o que está a-acontecendo... Já sei so-sobre o escândalo no qual o meu pai está envolvido. — A loira se mostra ansiosa.
— Oh! É mesmo... É óbvio que você já deve ter visto as notícias. Está em toda parte. — Nena constata, olhando para a jovem com pesar. — Bom... Sua mãe acordou cedo, se é que dormiu alguma coisa, e não quis tomar o café da manhã. Eu a vi andando como um zumbi, indo para os fundos da casa.
— E... o meu pai? — questiona, sentindo a ansiedade aumentar.
— Está no escritório... desde ontem à noite. Ele se trancou lá depois da briga feia que tiveram... — A idosa morde o lábio inferior, comprime os olhos e retorce o pano, lamentando ter falado mais do que pretendia. Assim, pensa em remediar o erro — Oh, quer dizer... Eles apenas tiveram uma conversa acalorada, nada muito sério... e...
— Nena! Por favor, pare de tentar a-amenizar os fatos. Diga-me a verdade. Eles bri-brigaram feio mesmo, né? — repreende-a um pouco, sentindo-se cada vez mais agoniada.
A senhora percebe que é realmente inútil tentar esconder a seriedade dos acontecimentos. Portanto, rende-se e decide contar o que houve, apesar de sentir-se penalizada ao ver no belo rosto da moça grande aflição.
— Sim, brigaram demais. Seu pai tentou, mas não conseguiu explicar direito sobre o que houve entre ele e a tal mulher que o acusa de estupro. Sua mãe estava possuída de ódio, gritou ofensas terríveis e eles ficaram discutindo por horas... — De repente, Nena interrompe o relato e olha muito séria para ela.
— O que foi, Nena? Diga! — A loira já pressente a má notícia.
— Lavínia, sua mãe disse que quer o divórcio. Parece que seus pais vão se separar mesmo... Eu sinto muito. — Nena anuncia, com voz tristonha.
— Não... Isso não vai acontecer. Não vai, eu não vou deixar! — Lavínia agita-se demais e acaba assustando a senhora, que depois fica mais penalizada ainda.
— Ah, menina! Eu sei que isso é muito difícil pra você, mas a decisão final é deles. Não há o que você possa fazer, por isso não deve se sentir assim. Precisa manter a calma. — Nena busca consolar Lavínia ao vê-la com um olhar mesclado de tristeza e revolta.
— Nena... a minha mãe ainda gosta de tomar suco natural na refeição da manhã, certo? — Lavínia questiona, desconsiderando as últimas palavras da senhora, deixando-a intrigada.
— Sim... ela gosta. Mas o que isso tem a ver? — Nena faz cara de quem está confusa.
— Olha, apenas faça como eu pedir, ok? Quero que me traga um copo cheio de su-suco porque eu vou levar pra ela. — faz a solicitação, porém, ao ver a senhora parada, mais uma vez ela se inquieta. — Vamos! Rápido, Nena!
A idosa, então, obedece. Segue para a cozinha e em poucos minutos volta de lá trazendo um copo de vidro repleto de suco de laranja, fresco e gelado, que Lavínia toma em mãos para, sem demora, ir ao encontro de Darlene.
Lavínia a vê sentada em um dos bancos de cimento, pintados de branco e azul, que ficam no terraço do quintal. Ela tem o rosto abaixado e não liga a mínima para a beleza do jardim repleto de plantas e flores perante si, nem para o vento agradável ou para o céu, que começa a querer liberar seus primeiros raios de sol desta manhã. Inusitadamente não há pintura alguma em seu rosto, o que evidencia seu desfalecimento emocional. Porém, ainda preserva a costumeira sofisticação no modo de se vestir. Traja vestido de seda estampado e sandálias delicadas. Depois de puxar o ar para os pulmões, buscando controlar a ansiedade, Lavínia aproxima-se dela. Senta-se ao seu lado, segurando firme o copo de suco na mão, e a percebe constrangida, certamente por ter sido flagrada em seu momento de dor, de fragilidade. Darlene, portanto, desvia o rosto para o outro lado, tentando em vão esconder os sinais do choro.
— Lavínia... Filha, você está aqui. — Sua voz é gentil e receptiva, mas fraca, quase sumida. Ela enxuga os olhos com as costas das mãos, ao passo que olha de viés para a jovem.
— Sim, mãe, eu estou... e já sei sobre o e-escândalo envolvendo o papai. — fala pausadamente e opta por ser direta.
Darlene permanece calada e pensativa por uns instantes, no entanto, quando decide falar novamente, o faz para ratificar a triste informação mencionada antes por Nena.
— Lavínia... — encara-a e há amargura em seu olhar. — Eu e seu pai vamos nos divorciar.
Ao ouvir o enunciado, Lavínia também fica um momento a refletir, procurando na mente uma forma de se expressar, de impedir o que agora parece inevitável.
— Mãe... Pense bem sobre isso, não aja de forma pre-precipitada. — força-se a falar com calma, medindo cada vocábulo.
— Precipitada? — Há algum pasmo em Darlene. — Lavínia, você não pode imaginar o que eu estou sentindo, o tamanho da minha decepção... Não pode mesmo.
— É, mãe, você tem ra-razão, eu não posso... Mas, por outro lado, eu po-posso sim ter uma ideia de como será a sua vida e a do meu pai se vocês se separarem... e sei que isso não trará fe-felicidade ou alívio pra nenhum dos dois, ao co-contrário... só irá trazer mais dor e sofrimento...
— Ele me traiu! Me traiu pela segunda vez! — A mulher se exaspera e grita as palavras. Em seguida, respira fundo e tenta se acalmar de novo. Com o olhar perdido em algum ponto longe daquele jardim, ela começa a recordar o tormento que viveu anos atrás e que a machucou profundamente. — Deus sabe como foi difícil superar o que ele me fez no passado. Eu nunca imaginei, nem nos meus piores pesadelos, que sentiria essa dor outra vez. — confessa com voz chorosa, fazendo Lavínia encher-se de compaixão.
— Eu sinto mu-muito que você esteja so-sofrendo tanto. E eu sei que... que não deve ser nada fácil falar comigo sobre i-isso. Afinal, e-eu sou o re-resultado dessa primeira traição, não é? — observa Lavínia, cabisbaixa, já segurando a vontade chorar.
— Ah, Lavínia! Isso não tem nada a ver com você, filha. — Darlene pega o copo de Lavínia e o coloca ao lado de si, sobre o banco onde está sentada. Depois toma as mãos trêmulas da moça e lhe olha fixamente. — Eu sei que a nossa relação sempre foi problemática, porque eu demorei a compreender o quão injusta eu estava sendo, o quanto eu perdi em não desfrutar mais da sua valiosa companhia. Eu passei anos sonegando carinho, alimentando rancor e descontando em você uma culpa que não era sua, que nunca foi... e eu me arrependo muito disso.
Um pequeno brilho de esperança reluz na alma de Lavínia.
— Mas você conseguiu co-compreender, conseguiu ti-tirar o rancor do seu coração e é por isso que estamos aqui agora co-conversando em paz, sem brigas, sem mágoas... E também é por isso que eu quero, sim, me envolver nessa questão. Você e o meu pai são a mi-minha família, são o que há de mais importante pra mim. Então, por favor, mãe, eu preciso que você me escute. — A voz da loira é carinhosa e chorosa ao mesmo tempo.
Darlene impacienta-se outra vez e liberta as mãos de Lavínia, mas permanece olhando-a com uma expressão entristecida.
— Veja, Lavínia, eu fico muito feliz que você pense assim. Agora eu também entendo o quanto a sua presença é essencial na minha vida. Mas o que você quer que eu escute? Que o seu pai não violentou essa mulher? Poupe seu tempo, eu sei disso. Sei que ele jamais faria algo assim. O que eu não consigo engolir é que ele tenha fraquejado novamente, que tenha esquecido a família dele, que tenha me esquecido e se deixado levar por uma qualquer... de novo!
A loira experimenta algum incômodo ao ouvir Darlene falar “uma qualquer” referindo-se também à mulher que possivelmente a gerou, porém, escolhe ignorar este sentimento dispensável, pois, no fim das contas, sua mãe sempre será ela e ninguém mais.
— Eu concordo que ele errou, que foi mesmo um fraco... Só que esse tipo de mu-mulher é muito ardilosa... sabe como envolver um homem. Certamente ela planejou ca-cada passo que daria para seduzir o papai, por ver ne-nele a chance de a-aparecer e lucrar... porque é claro que essa mu-mulher não passa de uma vigarista asquerosa, uma alpinista social.
Lavínia, então, pausa sua fala e observa a reação de Darlene e, ao notá-la quieta, resolve continuar:
— Mãe, ele já está pa-pagando caro pelo que houve e tem motivos de so-sobra para amargar arrependimento... Você sabe que ele foi destituído do cargo da presidência na empresa, que o fa-falatório não vai passar rápido. Será difícil e ve-vergonhoso enfrentar os colegas empresários, lutar para re-restabelecer o seu nome. E, se você o deixar, ele não vai su-suportar... ele vai desabar de vez... — emociona-se e, sem mais conseguir conter-se, permite que lágrimas escorram por seu rosto.
Darlene experimenta um enorme aperto no coração ao notar o pranto baixo e sofrido da jovem.
— Oh, Lavínia! Essa é uma situação horrível... triste para todos nós. — Darlene também emite sua lamentação.
— Sim, é mesmo horrível. — tenta controlar a emoção para poder continuar argumentando. — – Mas eu acredito que você e o papai podem su-superar essa fase ruim. Afinal, uma união co-como a de vocês, que já sabe o que é vencer obstáculos, não pode ser desfeita por uma noite de e-embriaguês e inconsequência.
— Lavínia... — A mulher libera o nome da filha, pensando no quanto a pobre moça está, de fato, imensamente atrelada a todo este sofrimento.
— Por favor, pe-pense nos momentos bons que vocês vi-viveram... e que ainda podem viver. Não são dias e sim a-anos de co-convivência feliz e harmoniosa. Eu sei que apesar de tudo e-existe amor, afeto e vo-vontade de continuar juntos... — A voz chorosa, os olhos lacrimosos e as mãos unidas dão ênfase à súplica de Lavínia. — Então, por favor, não desista do seu amor... Não desista da no-nossa família. Eu imploro, mãe, não desista, por favor!
Darlene não mais chora nem emite palavras, porém, em seus olhos está explícita a sua agitação emocional. Por mais que esteja querendo levar adiante a separação, especialmente por estar com o orgulho ferido, pensar sobre a efetivação deste ato ainda lhe causa imenso desconforto. A verdade é que o pedido comovente de Lavínia para perdoar e superar a dor da traição, absurdamente, coaduna-se com o clamor de sua alma, uma vez que realmente ainda ama o marido e já viveu muitos dessabores a fim de não perdê-lo. A despeito de ter-lhe trazido tamanha provação, ele realmente conseguiu ser um bom marido, à maior parte do tempo de convívio no casamento.
Passado um instante de silêncio, suspiros pesados e algumas reflexões, a mulher fica mais uma vez frente a Lavínia, pondo sua mão sobre a dela, exigindo-lhe atenção.
— Tudo bem, eu me rendo. Vou fazer o que me pede, filha. Eu darei mais uma última chance a este casamento. — Com voz clara e solene, Darlene expõe sua decisão, fazendo Lavínia arregalar seus lindos olhos violáceos e sorrir imediatamente. Ela não se contém, quase pula sobre a mulher, envolvendo-a com os braços e lhe beijando as faces.
— Obrigada, mãe... Obrigada! Que bom! — As palavras são de comoção e alívio. Darlene fica envergonhada com tal manifestação de contentamento, porém, acaba entrando no clima afetuoso. Dá um forte abraço em Lavínia e nota o quanto esta moça lhe é querida.
— Tá, tá... Chega de abraço... ao menos por enquanto... — queixa-se suavemente e desfaz o abraço, depois olha para o copo de suco repousado sobre o banco, pensando que desde o dia anterior não se tem alimentado direito. — Antes de encarar a vida novamente preciso resgatar minha força física e confesso que agora, sim, consigo sentir alguma fome... Mas acho que só este copo de suco não será o suficiente para me satisfazer.
Ambas esboçam um sorriso sincero e a atmosfera muda um pouco, fica menos tristonha, evidenciando que as coisas poderão solucionar-se gradativamente. Darlene vai à procura de Nena para pedir a ela que lhe prepare um café da manhã mais reforçado, pois se sente mesmo com vontade de repor a energia a fim de levar adiante sua nova resolução. Lavínia agradece o convite para acompanhá-la na refeição, mas prefere ir ao encontro do pai lá no escritório, para onde, minutos posteriores, dirige-se levando uma bandeja contendo o básico para o café da manhã, que pretende fazer com que ele aceite.
Ela bate na porta diversas vezes e nada. Depois de algum instante a mais de espera, resolve pronunciar-se.
— Pai, sou eu, quero falar com você! Abra a porta, por favor! — fala de modo enérgico, voltando a persistir nas batidas.
Escuta-se o barulho da chave girando na fechadura da porta e, em questão de segundos, esta é aberta por um senhor Gregory Albuquerque quase irreconhecível. Os sinais da idade na pele agora se mostram muito profundos, bem como os cabelos grisalhos desalinhados parecem mais numerosos, deixando-o envelhecido uns dez anos, o que se agrava pelas enormes olheiras e que comprovam a noite mal dormida. Usa a mesma camisa e a calça que estava trajando no dia anterior, quando chegou da empresa. A gravata e o terno estão jogados sobre o sofá, onde ele pernoitou. O odor do álcool, ou melhor, do conhaque está impregnado por todo o ambiente. Lavínia, no entanto, trata logo de retirar a garrafa esvaziada da bebida cara e importada de cima da escrivaninha, pondo-a de lado num canto do piso, e em seu lugar coloca a bandeja, que já pesa em suas mãos.
— Argh... Que cheiro forte! E que escuridão! — Ela se queixa, enquanto já começa a afastar as cortinas e abrir a janelas, fazendo o sol e o vento adentrar, diminuindo um pouco o odor da bebida que se alastra pelo escritório inteiro.
— Lavínia, não abra, filha. Minha cabeça dói e os meus olhos estão ardendo... — reclama, pondo uma mão à frente do rosto, tentando protegê-lo da claridade solar e também esconder seu estado lastimável, enquanto volta a se sentar no sofá, que lhe serviu de cama.
— Como poderia ser diferente... se passou a noite toda se ma-martirizando, pensando no que vai fazer a partir de agora, e bebendo sem se alimentar direito? — olha-o como uma mãe olharia para um filho que se feriu numa briga de escola, com piedade e recriminação. — Eu lhe trouxe o seu café, quero que o tome.
— Filha... — Há na expressão dele a vergonha estampada ao perceber que Lavínia já está ciente de tudo o que se passa. Logo, ele se inquieta um pouco mais, até reunir coragem para dizer o que acha que deve. Puxa-a gentilmente pelo braço, fazendo-a sentar-se ao seu lado. — Lavínia, escute... Tudo o que eu quero é que você saiba que eu jamais violentaria uma mulher, como disseram que eu fiz. Eu sei que eu errei, que não deveria ter me empolgado por causa do sorriso sedutor daquela senhora... nem tê-la acompanhado em taças de champanhe ou ido com ela ao seu quarto lá no hotel. Eu fui um tolo, um ingênuo! Agora eu só sinto vergonha de mim mesmo e um grande arrependimento.
— Pai, acalme-se! Não se preocupe mais co-com isso. — Ela apregoa, mesmo que, em seu íntimo, uma voz ressoe dizendo que ele foi mesmo um bobo fracote, que não soube combater e se esquivar da armadilha à qual o empurraram sem clemência.
— Por favor... apenas me deixe falar. — Ele deixa claro que sente necessidade de desabafar.
— Se quer mesmo falar, então fale. — anui, observando-o esfregar uma mão na outra, mostrando ansiedade.
— Eu não conheço de verdade a Isadora Abranches, só a vi algumas vezes. Aliás, ultimamente ela estava em todas as reuniões festivas que a Giant Solution promovia. Ela esteve sempre me cercando, querendo parecer simpática, interessada em aprender mais sobre a consultoria de marketing, me tratando como se eu fosse um tipo de ídolo, alimentando o meu ego, me fazendo gostar da companhia dela... Depois foi ficando ousada, passou a se insinuar pra mim. Então, nós bebemos juntos algumas vezes e fizemos o que não deveríamos. Mas não houve agressão física, muito menos envolvimento emocional, nem da parte dela nem da minha. Foi algo de momento... uma tentação, um impulso sexual e nada mais. Eu agi muito mais movido pela bebida e pela empolgação, pela atração física... porque, na realidade, eu amo a minha esposa. Eu amo a Darlene... e estou me odiando por fazê-la sofrer e por causar esse desgosto também a você, minha filha. — divulga a sua parte do ocorrido, com olhos fixos nela e impondo voz de lisura, de quem tem consciência do erro e agora, de fato, sente-se compungido.
— Pai... vai ficar tudo bem. Não se aflija tanto. Eu co-conversei com a mamãe e lhe garanto que o senhor terá tempo... pra provar o seu arrependimento e o seu amor por ela... Ela vai dar ao senhor uma última chance. — diz gentilmente, embora em seu íntimo esteja com raiva pelo que escutou.
— Isso é possível mesmo? — Os olhos do senhor Gregory repentinamente exibem um pequeno raio de esperança, ele se levanta e fica a andar de um a outro canto do escritório, parecendo ainda descrente do que escuta. — Oh, filha! Você tem certeza do que está dizendo?
A sua dúvida se deve ao fato de que, na noite anterior, sua esposa nem ao menos deixou que ele abrisse a boca para se defender das acusações gravíssimas. Estava muito irritada, gritando e lhe lançando as piores injurias, fazendo-o crer que não teria a menor oportunidade de reparar o erro cometido.
— Sim, Greg. Você terá uma última chance... Espero que não a desperdice e não me faça lamentar por ceder mais uma vez. — Darlene surge no recinto, assustando o senhor Gregory e Lavínia, que ficam perguntando-se há quanto tempo ela tinha chegado ali e o quanto ouviu do diálogo deles.
Ele abre um sorriso amarelo, enquanto tenta recompor-se do pequeno alarme.
— Obrigado, Darlene! — Ele se aproxima, tencionando abraçá-la, porém, ela cruza os braços e fecha o cenho.
— Não agradeça a mim, e sim a Lavínia... Estou atendendo a um pedido dela. — O rosto sisudo de Darlene está voltado para o outro lado, mostrando que ela não quer ainda olhá-lo diretamente.
Lavínia, enfim, sorri para o pai e lhe pisca um olho, vigiando para que Darlene não flagre tal gesto. À loira não passou despercebido que a mãe cuidou em se maquiar e se perfumar antes de ir ter com eles ali.
— Ai, mãe! Venha, me dê sua mão... e você me dê a sua também, pai. — Lavínia ergue-se do sofá, põe-se entre os dois e estica um braço de cada lado.
O senhor Gregory logo a atende, pondo sua mão sobre a da filha e, a seguir, Darlene imita a ação. Lavínia, então, aperta as mãos dos pais e lhes puxa com docilidade.
— Toda família pa-passa por situações complicadas, de so-sofrimento ou de traumas... mas somente naquelas em que há amor e perseverança é possível superar qualquer dificuldade. — traz os pais para mais perto, até que eles fiquem frente a frente. — Somos uma família de verdade, que enfrenta as provações unidos, de cabeça erguida, por isso iremos vencer este momento ruim... e voltaremos a ser felizes, como merecemos.
Darlene e Gregory finalmente se contemplam sem desviar os olhos. Ele sente vontade de falar o que lhe vem do fundo de sua alma, o quanto está prostrado de remorso, que a ama e sabe que não adianta simplesmente pedir perdão por ter sido um sujeito fraco que se permitiu viver uma aventura fugaz. Todavia, contorna mais o corpo, prende-lhe a mão que está livre e lhe envia um sorriso esperançoso.
Na realidade, todos eles sabem que somente o tempo será capaz de amenizar as feridas e as tornar cicatrizes não tão dolorosas, que serão marcas para reviverem, jamais esquecerem. Pai, mãe e filha permanecem entreolhando-se de mãos dadas por um bom tempo, instantes em que buscam ânimo para retomar a vida cotidiana e enfrentar o que ainda há por vir. Porém, estão agora confiantes que o seu amor é forte o bastante para superar todos os obstáculos.
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