[HIATUS] Mudanças impuras
13 Tempo de trégua
Notas iniciais
♥ E assim vem a paixão, incendeia a alma e perturba a noção. ♥
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Henry desfaz o abraço em Lavínia e se levanta. Ela não se volta para conferir o que ele está fazendo, mas percebe a sua movimentação e, por ter agora o pensamento imensamente caótico, acredita que esteja se preparando para sair do quarto para deixá-la sozinha, acompanhada somente de milhões de dúvidas. Supõe realmente que esteja disposto a agir de forma egoísta e típica da maioria dos homens que, após conseguirem o que desejam, se desfazem de suas “presas sexuais” sem clemência. “Será que ele só quis se aproveitar de mim? Ah, descarado! Agora vai sair e deixar claro que o que aconteceu não foi nada pra ele. Ou talvez só parte dessa maldita vingança!” Com este pensamento negativo, ela começa a se encher de mágoa consigo mesma, de embaraço, de culpa e raiva por ter sido tão vulnerável, tão fácil. Sua imaginação pessimista é tamanha que já o visualiza rindo dela, de sua fraqueza. Ira, assim como sofrimento e arrependimento começam a dominá-la. “Eu não vou chorar, não vou dar esse gosto pra ele!” Promete a si que não deixará que ele a veja sofrendo por se sentir usada como um artefato sexual.
Henry parece alheio à agonia de Lavínia. Ele veste a cueca, cata o restante das roupas, inclusive as dela, que coloca sobre uma poltrona que há ali e, mantendo numa das mãos as próprias roupas, põe-se à sua frente, constatando que ela evita olhá-lo, senta-se, encurva-se, sem deitar, só para se aproximar do seu belo rosto. Não se intimida com a expressão séria e carrancuda, ao contrário, acha uma gracinha o “bico” que ela faz. “Deve estar confusa, sem saber o que vai acontecer agora. Por isso está com raiva. Mas até zangada é bonita. Caramba!” Ri por tal pensamento e ela nota o brilho jocoso nos olhos azuis. O coração dispara, pois, neste instante, supõe mesmo que ele esteja gozando de si e da sua situação fragilizada. Henry, por seu lado, perde segundos apreciando-lhe os traços bem-feitos, cheira a pele do seu ombro, onde atrita com delicadeza os lábios e sorri novamente. Ela disfarça a emoção que o toque provoca nela, enquanto lhe assiste se erguer e sair do quarto.
Quando se encontra finalmente só, Lavínia respira fundo e busca forças para se levantar da cama, para ir ao banheiro, pois sente vontade de se lavar, tirar os resquícios da ato libidinoso que praticaram. Atenta-se ao silêncio. Dá-se conta de que a canção, que se repetiu várias vezes enquanto estavam no quarto, parou de tocar. “Nunca ouvi essa música antes, mas tenho certeza que se ouvir de novo, vou reviver tudo o que houve aqui nesta noite. Oh, céus! O que resta me acontecer?” Nua, dá os primeiros passos incertos e vergonhosos ao banheiro. Em uma gaveta abaixo da pia, busca por sua presilha dourada, porque não quer molhar os cabelos. Olha-se no espelho, sente as faces ficarem quentes ao se deparar com o seu reflexo. “Ai droga, olha isso. Eu tô marcada no pescoço! Esse sedutor... Cachorro safado!” Lastima ao ver um chupão evidente em seu pescoço, quando levanta os cabelos, unindo-os no alto da cabeça. Nunca em toda a vida se sentiu possuída destes ímpetos de dizer palavrões e, mesmo assim, há uma espécie de brilho diferente em seus olhos, uma satisfação inexplicável, quase alucinada. Respira fundo, engole os xingamentos, entra no box, abre a torneira e deixa a água lavar os rastros do sexo. Esfrega-se com sabonete líquido, faz espuma, sente um ardor desconfortável na vulva, lembrete de que havia deixado de ser virgem há minutos. Demora um bom tempo asseando-se, pensando sobre o que tinha feito, pensando em Henry, em sua capacidade de persuasão, na atração absurda que ele exerce sobre si, na dúvida aflitiva quanto ao depois, no medo de ter sido apenas usada, porque tem consciência do ódio que ele nutre por seu pai e da sua condição de prisioneira. “O que ele pensa que tá fazendo comigo?” A questão da vingança lhe vem à mente, não sabe o que se passa na cabeça do homem que a subjugou ao seu charme e poder de convencimento, que lhe mostrou o prazer carnal iniciando-a ao universo do sexo, que é fascinante, mas que, por si só, pode ocasionar dessabores e traumas emocionais. “O que eu fiz? Ai, meu Deus! E agora?” Ela sofre com as ideias desagradáveis. Entretanto, é uma pessoa inteligente, sabe que não há como reverter as ações passadas, apenas aprender a lidar com elas, superá-las, caso seja necessário. “Não adianta chorar sobre o leite derramado!”
Quando termina de banhar-se e de escovar os dentes, Lavínia solta os cabelos, ajeita-os com as mãos mesmo, volta ao quarto e leva um grande susto. Henry havia entrado novamente, sem que ela o ouvisse ou sequer percebesse a sua circulação. Está deitado na cama, banhado, com o peitoral à mostra, trajando-se unicamente com uma cueca boxer, quieto, relaxado e com os olhos fechados.
Ela luta para se manter calma, imaginando que não obteria êxito caso quisesse mandá-lo sair. Teria que aceitar a sua presença de qualquer forma. Assim, tenta não se encher de nervosismo ou de raiva e se obriga ainda a não fixar os olhos nele, muito menos no seu corpo semidesnudo. Vai ao guarda-roupa e, apesar da escuridão parcial, escolhe uma calcinha bege e um vestido com tecido macio de algodão, que não é bem uma camisola, mas pode servir como uma. Como ele aparenta estar dormindo, ela não vê problema em se trocar ali mesmo, porém, opta por se virar para o canto da parede.
Henry, que apenas finge dormir, entreabre os olhos, fica admirando novamente o corpo esguio com vontade de pronunciar elogios apaixonados em voz alta, mas se contém e espera.
Assim que termina de pôr a toalha estendida em cima da poltrona junto com as demais roupas usadas, ela fica meio sem jeito para deitar na cama ao lado dele. Respira fundo, ergue de leve o edredom, na parte que dá, pois Henry está deitado por cima deste, vai acomodando-se devagarinho para não o acordar. Já deitada e quase encoberta, decide virar-se ao lado oposto, não quer ficar olhando-o e pensando demais nesta situação constrangedora, principalmente porque sente uma lassidão enorme, sabe que precisa dormir para descansar a mente e o corpo. “É só o que importa no momento.” Permite-se estagnar a mente e ir aos poucos relaxando. Entretanto, a sua tranquilidade é abalada quando Henry remexe-se na cama, levanta o restante do edredom, pondo-se embaixo dele junto com ela e a envolve trazendo-a para si.
— Oh! Não estava dormindo? — solta com voz fadigada e baixa ao se sentir sendo abraçada, e seu pulso se agita, embora as forças estejam esvaindo-se por causa da sonolência que a invade.
— Não, só tava com os olhos fechados. — responde num sussurro rouco, achegando-se mais, buscando um melhor ajuste dos corpos, enfiando a cabeça em sua nuca através das madeixas loiras, cheirando a região, feliz por poder expressar sua satisfação por tê-la em seus braços. — Hum... Que delícia! Seu cheiro é muito bom.
— Ah, não... Eu mereço! Por que voltou aqui? Eu quero descansar... preciso dormir, droga! — replica, amuada. A vergonha persiste, fazendo-a ficar mais esquiva, só que, mesmo exausta e acanhada, ainda sente arrepios pelo contato do corpo dele se enroscando nela atrevidamente. Além disso, está mais perturbada a cada instante, não consegue entender o que ele realmente pretende com toda essa abordagem íntima.
— Pois pode dormir... e, se quer saber, eu também tô morrendo de sono, mas desiste porque eu não vou sair. Eu vim pra dormir contigo e vou ficar. — apregoa, bocejando e se aconchegando mais a ela.
Depois de alguma tentativa vã de se livrar do abraço, ela simplesmente desiste e termina por permitir que a mantenha assim aderida ao seu corpo, por puro cansaço ou por estar, conscientemente ou não, gostando de ser aquecida, já que o frio da noite havia chegado e se instalado. Portanto, eles acabam dormindo assim mesmo, num enlaço prazeroso e tortuoso ao mesmo tempo.
A manhã chega trazendo a sua luz acolhedora. As cortinas não haviam sido fechadas e por isso o brilho do sol adentra por quase todo o quarto através da vidraça sem, no entanto, impedir que o friozinho se faça presente e espalhe no recinto um frescor agradável.
Lavínia pisca algumas vezes e abre os olhos. Ela pensa em se levantar, mas sente dificuldade por cauda do peso sobre a sua cintura: o braço de Henry, que ainda a envolve, inerte, caído e pesado. Aliás, parte do seu corpo está presa por trás, inclusive uma de suas pernas, entrelaçada à dele, e seus cabelos, pois o rosto do loiro está praticamente afundado no travesseiro junto com algumas de suas longas madeixas. Logo, quando tenta mover-se, sente que não consegue. Não seria nada fácil livrar-se desse abraço que durou a noite inteira.
Henry está realmente em sono denso, com a cabeça enterrada na almofada, por isso nem se dá conta da pressão que seu corpo exerce sobre o dela. Contudo, de tanto tentar mover-se e se desprender, Lavínia termina por despertá-lo.
— Hum... Já acordou? — Ele diz, com voz grave.
O rosto amassado, os olhos sonolentos, azuis da cor do céu, deixam Lavínia quase sem ação. “Um demônio lindo!”, exclama mentalmente.
Henry muda de posição, afastando o edredom e expondo o tórax e as pernas másculas.
Ela ofega. “Um perfeito e absoluto capeta sedutor!” Sente a saliva se acumular e travar a meio da garganta, mas agradece intimamente por, enfim, se ver livre das garras charmosas.
— O so-sol já está alto, deve ser tarde. — tenta ignorar os mil pensamentos impuros que passam por sua cabeça ao vê-lo tão exposto à luz do dia, só de cueca, olhando-a com olhos semicerrados, muito à vontade, como se fosse um hábito dormirem juntos. Fica agoniada.— Mas... você tem mesmo ca-cara de quem go-gosta de dormir até... o meio dia. — gira o corpo, fica de barriga para cima e o olha de viés, querendo reunir forças para sair de perto o quanto antes.
— E você de quem fica maravilhosa, mesmo gaguejando pela manhã. — Ele fala de forma descontraída.
Embora ainda relute contra o sono, Henry aproxima-se para envolvê-la nos braços novamente, mas Lavínia o impede, coloca a mão em seu peito, afasta-o e se senta na cama. Ele suspira, conformado, ela se recosta à cabeceira, junta as pernas, abraça-as com os dois braços e puxa o ar aos pulmões algumas vezes, adquirindo coragem para começar o novo diálogo.
— Henry, nós... precisamos conversar sobre o que houve... ontem à noite. — articula pausadamente, uma técnica que sempre lhe ajuda a evitar a gagueira nervosa, ao passo que fixa os olhos sobre os próprios pés para não olhá-lo diretamente.
Henry apenas boceja para espantar a insistente sonolência, alonga os braços e as pernas num espreguiçar gostoso, parecendo não dar à mínima para a seriedade das palavras dela.
— Sabe do que precisamos? De café da manhã, um bem caprichado. Eu faço questão de preparar pra nós dois. Vai ver como não sou bom apenas de cama, mas também de cozinha. — Há ironia em sua voz e, por trás disso, um desejo de fugir de qualquer assunto sério e atormentador, pelo menos neste momento.
— Henry...
— Certo! Então tá... eu vou só dar uma passada no meu quarto e depois vou lá pra baixo pra fazer o nosso café da manhã. Assim, você tem tempo pra sua higiene de rotina. — Já desperto, levanta-se num movimento ágil, assustando-a um pouco, e se encaminha à saída do quarto. Quando está com a mão na maçaneta, volta-se mais uma vez e a olha, sorridente. — Eu te espero daqui a uns minutos... lá na cozinha. — dá uma piscadela travessa e sai.
A mente de Lavínia demora a registrar a última frase, ela quase não consegue crer que ele esteja dando-lhe liberdade para se locomover em outros cômodos da casa. “Será que o que houve ontem entre nós mudou os planos de vingança dele? Será que ele aceitou que isso é mesmo uma loucura sem rumo?” Rapidamente, o coração dels se enche de expectativas favoráveis. Eles poderiam conhecer-se melhor agora, poderiam superar os traumas do passado juntos, num começo de algo bom, numa relação de namoro normal, com a diferença que os ajustes deverão ser maiores para que a relação possa ser aceitável, ou melhor, saudável, já que o que tiveram até aqui está longe de ser considerado sadio. “Puxa! Eu me entreguei a ele, permiti que fosse o primeiro a me tocar de modo íntimo. Se eu lhe dei esta confiança, então ele me deve e é justo que pague à altura.” Lavínia imagina que poderão suplantar as impressões amargas e substitui-las por emoções novas, que há, de fato, chances de descartarem o começo bizarro. “Nesta vida tudo pode ter conserto, até Henry Sorelle” Sorri, satisfeita, enquanto se levanta da cama e vai à suíte. Tira a roupa e toma mais um banho, dessa vez, sem se importar em molhar os cabelos, depois, enrola-se numa nova toalha e escova os dentes. Está feliz e cheia de esperança. Seu pai é o ponto controverso. Precisará de habilidade e paciência para convencê-lo a não odiar Henry pelo que havia feito com ela, e a não envolver a polícia. Entretanto, sabe que a confusão será enorme, principalmente, devido ao seu tempo de sumiço e à forma como isto ocorreu, às mil e uma versões que surgirão, todas de difícil aceitação. Quanto à trágica história envolvendo seu pai, este é mais um problema a ser solucionado. “Nós temos muito que conversar.” Tem em mente que ele lhe deve explicações, isto é um fato. A tal história tem seus lados obscuros, exige uma séria revisão, para a qual certamente ele será convocado a elucidar. “Ninguém parece tão santo nessa história toda.” Ela penteia os cabelos e os deixa soltos para que sequem ao ar livre. “Meu pai e Henry vão ter que se entender. Afinal, só com as feridas curadas é que nós dois poderemos ter uma verdadeira chance... se for a vontade dele também.”
Ela volta ao quarto, escolhe uma calcinha lilás, um vestido curto, rodado e discretamente florido, em tons de azul e branco, com um zíper atravessando toda a coluna e com um vão na parte da frente de modo a expor o colo, os ombros alvos, a partir de alcinhas finas. Opta por uma sandália de cor amarronzada, delicada e feminina. Sente vontade de expressar no visual toda a sua felicidade, a sua transformação de moça para mulher.
Um frisson invade seu estômago e ela sabe que não é só por causa da sede e da fome, mas também por conta da sensação de liberdade ao atravessar a porta do quarto sem impedimento algum, sem receio de ser flagrada ou repreendida. Vai caminhando sem pressa pelo corredor, indo em direção às escadas, descendo-as, com a mão direita do corrimão e o coração saltitando no peito. Chega à sala, olha ao redor, achando a decoração comum, com móveis em tom claro, sem exagero em parte alguma, tudo de bom gosto. Há três janelas grandes, todas abertas, o que clareia e areja ainda mais o ambiente permitindo ver a área de fora, bem semelhante a uma habitação do tipo interiorana. Busca com os olhos a cozinha e já vai sentindo um cheirinho gostoso de café que a guia facilmente ao local que procura. Quando chega, depara-se com Henry e seu sorriso largo. Encontra-se banhado, veste camisa polo em tons de branco e vermelho, uma bermuda jeans-clara e chinelas marrons. Tem sobre seu ombro um pano de prato e termina o preparo do café. Está colocando o líquido enegrecido, fervente, na garrafa térmica, ao passo que o vapor sobe no ar e o cheiro aumenta ainda mais.
— Bom dia, Lavínia! — cumprimenta em tom caloroso e formal, como se a estivesse vendo só neste momento.
— Bom dia, Henry! — Ela entra de vez na cozinha e na brincadeira. — Eu tô com mais sede do que fome. — confessa, aproxima-se e se senta em frente à mesa, maravilhada com a quantidade de coisas gostosas que tem para comer. Há pãezinhos esquentados no micro-ondas, fatias de queijos dentro destes, assim como ovos fritos temperados com orégano, salsa e pitadas de sal rosa, algumas frutas, suco de laranja natural em uma jarra de vidro, leite fresco e café passado na hora. Enfim, há diversas opções saborosas.
Henry retira de dentro da geladeira uma garrafa com água e entorna o líquido em um copo que busca no aparador de louças na pia.
— Mais alguma coisa, milady? — entrega-lhe o copo d’água parecendo um garçom educado, o que a faz recordar de imediato o seu disfarce como Diego Vasques, e isso a incomoda um pouco.
— Não, obrigada. — bebe com gosto o líquido gelado, saciando a sede, solta um suspiro aliviado e ergue as sobrancelhas. — Ei! Onde está a Frida? Por acaso você a matou e enterrou no quintal? — “Brincadeira sem graça!” Arrepende-se imediatamente e dá um risinho envergonhado.
Ele põe o pano de prato sobre um canto seco da pia e se senta ao lado dela, ainda com o sorriso tranquilo no rosto, deixando claro que a piada não o irritou em nada, ao contrário, até gostou de vê-la brincar, incentivada pelas milhões de dúvidas que tem, sobretudo quanto ao que lhe aguarda neste inusitado relacionamento.
— Claro que sim. Estava me dando muito trabalho aquela velha chata e abusada! — Não resiste ao ouvir a própria voz emitindo tais palavras e cai na gargalhada, imaginando o pasmo de Frida se pudesse ouvi-lo. — Ok. Agora chega. Falando sério... ela não está aqui desde ontem, foi visitar uma parenta, uma prima que está à beira da morte, ou algo assim.
— Hum. Nossa... que triste. — mostra-se reflexiva.
— Eu aposto como não é grave, apenas exagero da Frida. Bem, não sei quanto a você, mas eu tô faminto. Então se me dá licença... — morde avidamente um pão, enquanto sorve goles do café com leite. — Hum! Isso tá bom!
Lavínia também inicia a refeição, acha tudo uma delícia, gradualmente, a sensação de estranheza a deixa, acaba largando-se à descontração, tal como ele. Não tarda em estarem sorrindo, conversando sobre amenidades, como os detalhes a respeito da casa, por ser grande e antiga, sobre os moradores que a habitavam antes de Henry a comprar. Enfim, discorrem sobre qualquer assunto que não atrapalhe o clima ameno. Ao terminarem, já saciados, eles se olham com cumplicidade por um instante, como se fossem um mero casal de namorados jovem e feliz. Henry levanta-se, vai juntando as louças sujas e as colocando dentro da pia. Lavínia olha para ele e acha impossível não admirá-lo. Não há nele apenas beleza física, mas também uma postura arrogante e cativante ao mesmo tempo. É um homem bonito e naturalmente sedutor.
— Não me diga que você é um ótimo la-lavador... de louças também. — sente o embaraço querer voltar, as faces já corando involuntariamente.
— Procuro mesmo ser o melhor em tudo o que faço... principalmente quando gosto do que faço. — anuncia, enviando-lhe um olhar penetrante.
— Eu po-posso ajudar... enxugando as louças. — levanta-se sentindo-se impaciente por causa do olhar firme posto sobre si.
— E eu aceito. — Ele sorri, pega o pano de prato da pia e o lança no ar. Lavínia apanha-o e logo se mostra boa auxiliar, recebendo pratos, copos e talheres para secar.
O silêncio reina nos instantes em que estão concentrados em suas respectivas ações domésticas, mas somente Henry demonstra espontaneidade, pois a loira não consegue ser eficiente em esconder sua inquietação, que volta e meia a domina. Quando acabam, deixando a cozinha limpa, ela sente que deve dizer algo, antes de perder a coragem.
— Henry... e-eu... — respira fundo e busca falar com calma. — Eu acho que temos que conversar sobre o que houve... ontem à noite... sobre nós... sobre...
— Não, não precisamos, pelo menos ainda não. — interrompe-a, vence a distância que os separa, indo prender as mãos trêmulas dela entre as suas. — Não precisamos nos martirizar, Lavínia. Ontem, só aconteceu o que era inevitável, o que ambos desejávamos. Veja como podemos ficar juntos e bem, sem brigas, sem conflitos ou palavras duras... Trégua, Lavínia! Vamos nos permitir um tempo de trégua para que possamos viver somente o momento do presente, do agora.
— Até quando? — lança-lhe a pergunta em tom de lamentação, de mau agouro; a pergunta que é um problema para todos.
— Não sei ainda, eu admito. Eu não previ que me envolveria de verdade com você, pensei que conseguiria manter isso apenas na minha fantasia... nos meus desejos ocultos, mas eu não fui capaz. — Os olhos dele fogem por um instante. Henry pensa em Frida, tem consciência de que ela morrerá de angústia ao saber o que está acontecendo entre eles, com pena de Lavínia e decepção por ele estar indo contra todas as sequelas que surgirão após este envolvimento, que não deveria existir. Sabe que a sua mãe adotiva não o poupará de insultos afetados e dramáticos, ou quem sabe até ficará contra ele, uma vez que, de fato, compartilha de plena consciência da carga negativa que a sua união com Lavínia poderá trazer no futuro.
— E depois, Henry, o que vai ser de nós? O que vai ser de mim? Vai me trancar de novo na-naquele quarto? Vai continuar com essa sua vi-vingança horrível? — Ela sente o coração se encolher dentro do peito, os olhos começam a lacrimejar.
— Eu não sei! Neste momento, eu não sei o que te responder, ok? Só tô te pedindo pra gente não pensar nisso agora. Não fica assim, por favor, Lavínia, vem aqui, fica calma. — pede com voz serena, tentando abraçá-la, mas ela recusa, empurrando-o e caminhando sem saber exatamente aonde ir.
Henry observa-a meio desnorteada caminhando para a sala, indo postar-se em frente à janela aberta, olhando para os arredores do terreno adiante da casa e para o céu. Respira profundamente como quem busca recobrar a tranquilidade.
Ele não resiste ao desejo de tentar amenizar a sua aflição, de retirar de sua mente qualquer pensamento ruim. Aproxima-se outra vez e lhe dá um abraço por trás, não encontrando nova oposição, deposita beijos afetuosos em seu pescoço, fazendo-a estremecer inevitavelmente.
— Parece que... vai chover. — Ela muda completamente o discurso, deixando claro que aceita não tocar em assunto sério, por enquanto.
— Eu amo chuva, você não? — Henry olha para o céu e vê nuvens se acumulando, enquanto a aperta mais, feliz por ela ter aceito mais uma vez a sua louca sugestão de fugir dos problemas pelo tempo que for possível. Ele segura seu rosto, beija-a, ao passo que a vira de frente para si, intensifica a carícia, deleita-se com o seu sabor inigualável, aumenta a pressão, já mostrando nova excitação.
Lavínia rende-se ao prazer dos lábios ávidos de Henry, intuindo que ele provavelmente não se contentará somente com beijos apaixonados, não depois da noite passada. E a previsão dela é certeira, pois, após algum tempo sugando-lhe os lábios, acariciando seu corpo, roubando-lhe o fôlego, solta-a e a segura pela mão, conduzindo-a escada acima, ao quarto. Ela pensa em protestar. “Mas de quê adiantaria? Ele sabe ser bem convincente quando quer, vai conseguir me atrair de qualquer jeito”, conclui.
Ele passa a mão por todo o vestido, procurando descobrir como tirá-lo, até que encontra o zíper atrás e começa a deslizá-lo para baixo, sem deixar de beijá-la nem por um instante.
— Henry... espera. — está aturdida, sem fôlego, não consegue acompanhar a empolgação dele.
— Ah, Lavínia, não dá, o seu cheiro, o seu sabor... você me deixa louco! — volta a atacar os lábios dela, excitando-se mais.
— Não po-podemos fazer... isso sem pro-proteção de novo. Eu... eu não quero engravidar! — Embora esteja excitada, meio atordoada, consegue manter o senso de responsabilidade, em especial, porque teme que a situação se complique mais.
Henry compreende, concorda e busca uma solução. A sorte, afinal, é que ele possui uma quantidade considerável de preservativos anticoncepcionais numa gaveta em seu quarto, vestígios da época em que andava “solto pelo mundo”, transando sem compromisso algum.
— Você tá certa. Então vem comigo. — segura sua mão e a leva ao outro quarto.
Ela fica feliz por poder saber onde ele dorme. O quarto em questão não é muito diferente do dela, é amplo, tem suíte, mas não tem uma improvisação de sala de biblioteca e pintura, os móveis se assemelham em seus tons claros. Há um guarda-roupa, uma poltrona, uma mesinha de estudo, em cima desta, uns blocos de anotações, um estojo de lápis e canetas, um notebook, com uma cadeira à frente, uma cama de casal, que é estilosa e espaçosa. Não existem fotos ou recortes de jornais que possam ser vistos pelo seu campo de visão, pois, por uns instantes, ela teve medo de vê-los ali também. O recinto possui ainda uma porta corrente de vidro que conduz a uma pequena varanda enfeitada com alguns jarros de plantas bem cuidadas, umas espécies já crescidas, que se harmonizam perfeitamente com o cenário adiante. A partir de um olhar sobre toda a propriedade e os arredores, pode-se encontrar árvores grandes e folhosas, bosques floridos, e as demais casas que estão um pouco distantes.
Lavínia apoia-se no parapeito e fica admirando a paisagem bonita, o verde que existe em toda a localidade, o céu, agora acinzentado formando a chuva, e o vento delicioso que lhe acaricia as faces. "Ah, quanto vento. Que maravilha! " Porém, mesmo que suas faces recebam a ventania gélida, ficam vermelhas, quando ela olha para além da porta envidraçada, ao interior do quarto, e se depara com Henry observando-a, por saber o que logo mais aconteceria novamente entre eles. Seu coração torna a se agitar.
Henry busca na gaveta do guarda-roupa uma camisinha, que põe sobre o criado-mudo, enquanto a flagra analisando o ambiente. Vai até ela.
— Lavínia, eu te mostro a casa inteira se quiser... mas depois. — fala mansamente, ao mesmo tempo em que já tem as mãos nela, levando-a para dentro do quarto outra vez.
— Eu adorei essa varanda, tem uma vista muito bo-bonita. — expressa com nervosismo, ao estar diante da cama. Seu rosto delata a vergonha que sente quando Henry, espontâneo, tira a própria camisa e a arremessa para longe, sempre olhando-a diretamente. A pulsação acelera muito.
— Prefiro a vista daqui. — Ele envolve sua cintura com um dos braços, puxando-a para colar-se a ele, enquanto a outra mão lhe alcança o rosto, passeando o dedo em sua bochecha e lábios. Não se cansa de decorar os traços dela e pensa que ela fica mais linda a cada expressão diferente que lhe mostra.
— Co-Como você consegue... isso? — Ela solta, sentindo-se perdida nas duas porções de mar azul que lhe avaliam com fome.
— Como eu consigo o quê? — sorri, quase não lhe ouvindo, uma vez que está mais ocupado em apreciá-la.
— Você... sabe. — Sua voz fraqueja.
— Não sei não. Quero que você diga. — aproxima mais o rosto e parece divertir-se com as reações que lhe provoca.
— Me seduzir assim, droga! Me deixar sem...
Lavínia não consegue terminar o que tem a dizer, pois Henry surpreende-a com um beijo cheio de paixão. Beijo este que dura o tempo de ele conseguir tirar o vestido dela e levá-la para a cama. Ele faz com que ela se deite, tira-lhe a sandália, acaricia cada canto da perna, sobe pelas coxas, desce a mão até a calcinha, retira-a com facilidade. Enquanto arremessa a peça para qualquer canto, escorrega a língua sem pudor por sua intimidade, suga, fricciona, introduz, causando o primeiro gemido forte de Lavínia. Dessa vez, ela é menos passiva, para admiração dele, que se vê sendo ajudado a tirar a bermuda e a cueca. Ele opta por ficar calado e deixar a atitude ousada dela passar "despercebida". No entanto, quando apanha o preservativo de cima do criado-mudo, nota-a acanhada outra vez, então não solicita que o ajude nisso também, supõe que talvez seja demais para ela, por enquanto. Ele mesmo coloca a camisinha, eleva-se sobre ela, beija-a com paixão e a penetra sem tanto cuidado, como na noite passada, o que a faz sentir alguma dor, que felizmente rapidamente acaba, dando lugar à sensação de prazer.
Assim, a vontade de ambos parece não ter fim, pois mais uma vez se entregam ao desejo de formarem um só corpo, em meio à sofreguidão palpável que os toma e cresce a cada momento juntos. Eles passam o restante do dia no quarto, mostram-se insaciáveis, o sexo acontece várias vezes, não conseguem parar de querer um ao outro e de demonstrar tal desejo. E quando não estão apenas se beijando e se abraçando, interrompem estes gestos afoitos e carentes apenas para comer algo, para repor as energias perdidas.
No meio tempo, Henry e Lavínia mantém conversas alegres sobre assuntos afins, nada que os angustie ou feneça a atmosfera romântica, falam dos filmes favoritos, dos gostos musicais, do tipo de leitura que apreciam, etc. Henry acaba revelando bastante de si, de assuntos referentes ao seu trabalho, sobre sua firma, a Sorelle’s Technical Marketing, uma empresa que possui uma equipe atuando sob seu comando, separadamente, em estratégias de marketing, constituída por especialistas que têm formação técnica. Lavínia fica extasiada com a importância da função dele. Ela não fica atrás em revelações de si mesma, confessa-lhe o quanto gosta de cultura, de literatura e, em especial, de artes manuais, visuais, cênicas, enfim, de todo tipo de manifestação artística.
O tempo e os problemas não importam mais para eles. Lá fora, a chuva vem e vai, ao longo das horas, e só não molha a casa inteira, invadindo pelas janelas abertas porque Henry ao menos se lembra de ir fechá-las, no momento em que desce para preparar mais um lanche aos dois. O dia passa rápido e o começo da noite chega sem que se deem conta. A vida lá fora não os aflige como antes. Só o que lhes interessa agora é o mundo prazeroso que os protege dentro do quarto. Esta sensação de acolhimento, porém, tende a durar tão-somente até serem obrigados a encarar a realidade, até Frida voltar ou até voltar, por fim, a lucidez de ambos.
[...]
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