[HIATUS] Mudanças impuras
12 Sob o testemunho da lua
Notas iniciais
☾ ● ◯ ☾ ● ◯
Louise olha a hora através do celular e constata que são três e quarenta e sete da madrugada. Deitada em sua cama, no escuro, continua pensando sobre suas dúvidas e medos, bem como na saudade que sente de Lavínia, até que o sono chega gradativamente para tirar dela toda e qualquer preocupação com o mundo externo, sem saber que agora mesmo a “bonequinha de louça” está longe dali, viva e, para todos os efeitos, bem viva. Isso se levarmos em conta que em momentos de medo, de aflição ou de excitação é que mais nos sentimos vivos, pois a loira se encontra profundamente inserida em uma trama do destino que a envolve e a confunde cada vez mais, proporcionando-lhe emoções fortes e avassaladoras.
[...]
Cerca de oito horas antes...
Lavínia está banhando-se, seus pensamentos estão todos em superabundância enquanto sente a água escorrer por seu rosto e corpo, cuidando em não molhar os cabelos, que estão presos por sua fivela dourada no alto da cabeça, em um coque, com alguns teimosos fios soltos, espalhados pela nuca, orelhas e testa. Ela tenta recapitular os acontecimentos daquele dia, que por suas contagens deve ser sexta-feira. Lembra que, pela manhã, houve o incidente, quando não conseguiu obter sucesso em sua primeira tentativa de fuga, da cara de espanto e indignação de Frida, quando apareceu no quarto depois para limpar a sujeira que estava por todo o ambiente, de como a fez manter-se longe dela sob a ameaça de atirar caso fosse preciso, até quando veio lhe trazer o almoço, horas depois. Sua mente volta um pouco mais no tempo e a leva para a expressão de fúria que viu no rosto de Henry, a mão forte e larga pressionando seu braço ao arrastá-la escada acima, a forma grosseira como a jogou na cama, a mão por baixo de sua perna prendendo-a desavergonhadamente, a fim de limpar a ferida, a excitação inevitável que sentiu devido ao toque másculo e rude, o que lhe causa maior frustração e vexame, só de pensar. Também se recorda de ter ficado aliviada quando ele terminou de fazer a assepsia da ferida e saiu do quarto, deixando-a sentada na cama e se recriminando por não conseguir evitar sentir tantas coisas a respeito dele. “Droga! O descarado é atraente demais!”, constata mentalmente e bufa de irritação. É obrigada a admitir que ele a perturba mais do que o normal, que essa fascinação que sente é forte e incompreensível, pois não deveria existir, visto ele a estar mantendo presa, com pensamentos vingativos contra o seu pai. Pensa na possibilidade de se tratar de uma espécie de síndrome de Estocolmo, mas descarta tal alternativa por pensar que este estranho encanto não é algo que só tenha percebido agora perante a verdadeira aparência dele. Pois, mesmo antes, quando ele estava disfarçado de Diego, havia um clima tenso envolvendo-os, um sentimento que ela, na época, não pôde avaliar com clareza, como está fazendo agora. A verdade é que, desde o primeiro contato, o fascínio se instalou, no início por sua personalidade esquiva, intrigante, tímida e educada, e agora por seu porte arrogante, imponente, rude, atrevido, de quem é capaz de tudo para conseguir o que quer. Admiração e desejo não são sentimentos que nos assolam por escolha, caso fosse assim, ela optaria por não sentir nada por ele, apenas raiva e vontade de vê-lo longe. Infelizmente, porém, nada em sua vida está sendo como gostaria que fosse.
[...]
Henry estaciona o carro diante da casa, tira a chave da ignição e o cinto de segurança, olha para o banco do passageiro e pega a pizza que ele havia encomendado e esperado ficar pronta para poder trazer. Será a janta dele e de Lavínia. Não está com disposição e nem tem tempo hábil para preparar algo para ambos comerem, embora saiba e goste de cozinhar, às vezes. A pizza deveria servir por hora. Abre a porta do carro, fecha e sai em direção à entrada da casa, sentindo o frescor da noite e não querendo pensar em como ela acabaria.
Ainda com a pizza na mão, encontra a chave, abre, vai entrando e já buscando o interruptor para acender a luz, pois está tudo em um breu total, sinal de que Frida havia seguido em sua viagem. Com um toque, todo o ambiente é iluminado, na sala e nos arredores dela, pois um único interruptor acende diversas luzes ali. Volta a fechar a porta com a chave e vai à cozinha, acende a luz desta, vê que o relógio na parede marca nove horas e vinte e dois minutos. Coloca a pizza sobre a mesa grande de mármore, retira-a da caixa de papel, corta-lhe um pedaço generoso e põe sobre um prato grande, de fundo raso, juntamente com garfo e faca. Vai à geladeira, retira de lá um refrigerante, desenrosca a tampa e entorna o líquido gelado em um copo de vidro, até quase à borda. Coloca o copo em cima do prato, ao lado da fatia de pizza; não quer usar a bandeja. Respira fundo e vai em direção às escadas, subindo os degraus sem pressa.
Ao estar diante da porta do quarto de Lavínia, Henry sente alguma dificuldade em ter que equilibrar o prato e buscar a chave no bolso, mas não demora tanto e consegue. Abre a porta e o que vê seria constrangedor se não fosse muito interessante. Lavínia está em pé de frente para o guarda roupa aberto, veste somente uma calcinha preta e segura uma camisa nas mãos, que parece decidir entre usar ou não. Está meio de lado e meio de costas, distraída, por isso não o vê. A cena permite que Henry possa apreciar os contornos do corpo esguio, branquinho e bem-moldado. Seus olhos passeiam pelas pernas torneadas, deparam-se com as nágedas, as costas lisas, os braços longilíneos, que lhe permitem entrever os seios medianos com auréolas róseas e bicos com igual formosura. Os cabelos loiros estão presos em um coque, expondo o pescoço fino, com alguns fios a cair um aqui outro acolá de modo displicente. Ele suspira, extasiado, sem conseguir desviar o olhar. Todavia, a visão maravilhosa ocorre para Henry no tempo de segundos apenas.
— Achei que não viesse me trazer janta hoje... — Lavínia fala, terminando de vestir a camiseta de algodão verde-escura e olhando na direção da pessoa que havia entrado no quarto, mas logo se dando conta de que não é Frida, como supunha. Ela solta um gritinho agudo de espanto e pega do guarda roupa uma peça qualquer só para cobrir a parte de baixo de seu corpo exposta, nem percebendo que põe à frente da cintura outra camisa. — O que você...? Ah, droga! Sai daqui! — Não sabe o que dizer, seu rosto está em chamas de raiva e vergonha.
— Desculpa! Eu não pretendia... não podia adivinhar... — Ele apenas deita o prato sobre a mesa e se retira, sem dizer mais nada.
Fora do quarto, Henry encosta-se à porta trancada, ofegando e já suando. “Puta merda! Que foi isso?”. Dá-se conta de que seu membro, dentro da calça, está estimulado. Respira fundo e caminha apressadamente para seu próprio quarto. Entra, vai tirando a roupa, joga o blazer escuro em cima da cama, senta-se nela e tira os sapatos, lançando-os com os pés um pouco adiante, desabotoa e retira a camisa branca que logo se junta ao blazer, assim como o jeans escuro e a cueca. Nu, direciona-se à suíte, abre a torneira do chuveiro e deixa a água cair sobre si, não sendo, porém, o suficiente para apagar o fogo que o consome por dentro. Permite-se pensar em Lavínia sem qualquer entrave, nos momentos em que a observou à distância, por um bom tempo, às vezes, tendo que usar até binóculo para não correr o risco de ser flagrado guiando seu carro nas proximidades da mansão dos Albuquerque. Lembra-se que, naquela época, a loira não era mais do que um objeto de uso para atingir o principal alvo do seu ódio: Gregory Albuquerque. No início, ele não a via em um sentido sexual, teve apenas simpatia pela jovenzinha ingênua. Porém, com o tempo, as coisas mudaram e percebeu que segui-la, observá-la, analisar seu comportamento e rotina tornou-se um prazer, um verdadeiro vício. Seguido do primeiro recorte de jornal que havia guardado de uma revista sensacionalista, contendo imagens dela ao lado do pai e da mãe, em frente à mansão, a partir de uma reportagem que tinha como foco o estilo de vida exuberante, bem sucedida, do empresário Gregory Albuquerque, vieram muitas outras fotografias, tanto dela como de pessoas com quem ela convivia e convive ainda. Ela própria tornou-se, assim, a sua compulsão, a sua obsessão inevitável, e ele nem sabe ao certo quando isso começou, muito menos tem ideia das consequências que virão depois. Só sabe que não tem mais volta, que não pode negar a atração enorme que sente. “Está aqui, tão perto... sem entender o que representa pra mim.” Henry sente aumentar a sua excitação. Leva a mão ao seu membro, agora completamente rígido, e inicia movimentos de masturbação, com a mente apenas em Lavínia, em sua figura bela, delicada, encantadora, na vontade de tocá-la, de beijá-la, de fazê-la sua por inteiro. Os movimentos se intensificam e ele geme de forma contida. “Lavínia.” Pronuncia o nome em sua mente e isso é o incentivo necessário para continuar por alguns minutos e finalizar o auto estímulo, soltando o líquido meio esbranquiçado, melando parte de sua perna, parte da parede e chão do banheiro, ao mesmo tempo em que seus olhos lacrimejam por sentir uma emoção forte, uma sensação de quase culpa.
Termina o banho e depois volta para o quarto, onde escolhe uma cueca preta, uma calça para dormir com cordão, do tipo leve de algodão, nas cores preta e cinza, e uma camisa regata branca, que se amolda bem ao seu tórax, deixa-o com aparência mais jovem. Sai do quarto descalço, já sentindo alguma fome, pois se lembra de não haver comido nada desde que chegou. Vai à cozinha, come alguns pedaços da pizza com o refrigerante como acompanhamento. A verdade, porém, é que a sua mente não o deixa relaxar, portanto, a fome também logo passa. Após novas tentativas de ingerir um pouco mais da pizza, desiste e volta para a sala, caminha ao barzinho improvisado, a um canto da parede. É um típico bar em casa, com balcão retangular de madeira envernizada, quatro bancos altos diante deste e estante atrás, moderna, espelhada e contendo bebidas diversas. Henry pega da estante uma garrafa, um Whisky Ballantine’s, desarrolha a tampa e entorna a bebida amarelada no copo de vidro, que pega da prateleira atrás do balcão. Toma um gole e sente a bebida esquentar na sua garganta. “Hum...! Sensação boa!”. Ele pensa que seria bom ouvir alguma música, assim, liga o som do aparelho Hometheater, instalado na estante abaixo de onde fica a TV. Um CD já está lá e logo a música suave, um clássico antigo com a voz feminina se faz ouvir e apreciar. É Out of our hands, de Samantha Fox. A letra é melosa e, coincidentemente, fala da angústia de uma noite perfeita, da visão do paraíso, quando não se tem a quem recorrer, quando não há para onde ir, de uma resposta que não está em nossas mãos e de como é breve o tempo que dedicamos à pessoa amada.
Senta-se no sofá, com o copo em uma das mãos e na outra o controle do som, sorve outro gole do uísque e volta a pensar em Lavínia. Ele reflete que talvez esteja muito carente. Há quase um ano que não se envolve com ninguém, por opção própria, pois pretendentes ao belo de olhos azuis é o que não falta. Por outro lado, a verdade é que nunca se permitiu estar em um relacionamento sério, um que durasse mais que umas noites de prazer. Quando a parceira escolhida se manifestava desejosa de algo mais, mostrando-se apaixonada, ele simplesmente terminava tudo, com as desculpas mais usuais possíveis. Por isso, todas eram uníssonas em denominá-lo de frio, egoísta, coração de pedra, mas nenhuma delas compreenderia que o vazio existente nele era algo fora de seu controle, o qual elas jamais preencheriam. Ele chegou mesmo a imaginar que nunca se apaixonaria por ninguém, que era mesmo esse coração de pedra que diziam, até se ver dominado por uma emoção inconveniente pela garota impedida, a inocente que deveria ser usada como meio para atingir um fim: a ruína de outro ser.
De repente, sente uma vontade imensa de fumar um cigarro. Ansiedade e pesar o invadem de antemão, pois lembra que há três meses ele havia parado de fumar, tinha decidido e prometido a Frida que jamais voltaria a este vício tão prejudicial. Ainda tenta esquecer a avidez, a sofreguidão que sente e resolve mudar de música, escolhendo ao acaso uma mais atual. É Missing, da banda The XX. O tom é mais introspectivo e tem uma batida bastante sensual. Ele acha maravilhoso ouvir o som envolvente, enquanto preenche seu copo outra vez e bebe seguidos goles da bebida que só o convidam a somar pensamentos tortuosos a respeito de Lavínia. Volta a mente para o momento em que entrou no quarto e a viu seminua, da sensação de deslumbramento que experimentou. A coisa volta a ficar séria porque percebe que está ficando excitado novamente, e a fissura pelo cigarro só cresce. “Inferno!” Remexe no controle remoto para aumentar o volume da música e acaba colocando no modo repeat. Enfim, o som ecoa alto por todo o ambiente.
Como qualquer viciado faria, Henry convence-se de que fumar apenas um cigarro não o prejudicaria mais do que já havia prejudicado. Com tal pensamento, ele busca na mente um lugar onde pudesse haver um cigarro, pois ele e Frida vasculharam a casa, na época da decisão de parar o vício, e ambos jogaram todos os maços existentes no local, até os que ele escondia em lugares estratégicos. Mas ele tem certeza de que poderia haver pelo menos um em algum lugar. Pensa e pensa. “No quarto? Não... Na cozinha? Pode ser. Sim!” Ele sabe que, além do quarto, era lá o seu local preferido para esconder os maços. Levanta-se, toma mais um gole da bebida, deixa o copo na mesinha de centro e vai até lá. Procura com ânsia gaveta por gaveta. Na última à direita, entre os panos dobrados de prato, encontra uma carteira aparentemente aberta. A felicidade e a paciência vão embora no instante em que percebe o invólucro completamente vazio. Ele o amassa entre os dedos com força e, irritado, joga-o na lixeira da cozinha. Seu coração dispara numa ansiedade o invade profundamente.
Sem conseguir pensar em mais nada que o impeça de cometer uma loucura, Henry vai em direção às escadas, subindo apressadamente, com o som ainda podendo ser escutado por todo o local. Ele sabe que o que fará a seguir será a pior de todas as suas atitudes e que depois não terá como consertar o erro. Passa como um foguete pelo quarto de Lavínia e entra no seu só para pegar a chave que está no bolso da calça que vestia antes. Volta e logo se encontra em frente ao quarto dela mais uma vez. Enfia, gira a chave e abre a porta. A luz está apagada, mas há uma razoável iluminação no quarto que vem da vidraça exposta deixando o brilho da lua cheia entrar. Ele não busca o interruptor, prefere que a escuridão parcial esconda o seu rosto, a sua expressão de luxúria.
Lavínia está em pé diante da janela de vidro admirando o esplendor da lua cheia. Traja-se com a mesma blusa verde e com uma saia curta de tecido estampado nos tons rosa e branco. As longas madeixas aloiradas estão soltas, entremostrando parte do seu rosto. Ela desvia os olhos da janela, lança-os sobre ele e finge não sentir medo, mas seu corpo trêmulo a denuncia.
— Além de louco, psicopata... estuprador? — indaga ao vê-lo se aproximar a passos lentos.
— Por que diz isso? — A acusação o pega de surpresa, porém, continua andando.
— Não é... o que veio fazer aqui? Me estuprar?
— Não sou estuprador. — Há indignação em sua voz.
— Então po-por que está aqui agora? — enerva-se.
— Eu queria só te ver... saber se está bem. — sabe que é evidente aos dois que quer, sim, mais do que isso.
— Me ver? Saber se e-estou bem? — agitada, repete debilmente as palavras, algo dentro de si diz para se manter quieta, não cutucar a onça com vara curta, mas não consegue, sua paciência está no limite. Ela própria não gosta das sensações que ele lhe instiga.
Sem desviar os olhos dela, Henry coloca os braços sobre o vidro, encurralando-a ao meio, fazendo com que Lavínia se encoste à janela envidraçada e sinta a respiração suspender, tanto pelo nervosismo como pela visão intrigante dos olhos dele que, refletindo a luz externa, mostram-se mais hipnóticos do que nunca. Parece-lhe um bruxo querendo enfeitiçá-la. Teme estar morta, pois nem sabe mais se o seu coração ainda pulsa. “Por quê? Demônio!” A mente está confusa.
— Não tenha medo. Eu sei que você também sente. — A voz rouca a assusta ainda mais.
— Do-do que tá falando, seu mi-miserável? Eu não sinto nada! — desvia os olhos e não se move. Poderia tentar fugir, escorregar por baixo de seus braços, contudo, teme que ele seja como as feras que gostam de caçar as suas presas, principalmente quando fogem.
— Mentir não vai adiantar, eu sei que sente... e hoje, pela manhã, ficou mais óbvio ainda. Você estava excitada, eu percebi. — vai aproximando o rosto enquanto fala, analisando o efeito do que diz, através da respiração falha dela.
— Fri-Frida! Ca-cadê a Frida? — diz, trêmula.
— Ela não está aqui, mas se estivesse, o que acha que faria? Lavínia, eu não vou te machucar. — Não gosta de vê-la chamar por Frida como se ele fosse uma ameaça.
— Então sai... sai daqui! Me deixa em paz! — Seu nervosismo começa a crescer vertiginosamente.
— Olha pra mim. — convida, não em tom de ordem, mas de simples pedido mesmo, e praticamente encosta seu rosto ao dela.
— Vo-você tá... bêbado? — Lavínia sente o bafo de álcool saindo da sua boca.
— Não o suficiente. — sorri e expõe um olhar sarcástico, imaginando quantas pessoas culpam a bebida exagerada por seus atos impulsivos e erros inconsequentes.
— Me deixa! Eu-eu não quero! — ejeta, ao vê-lo tentar beijá-la.
— Eu sei que quer... como eu também quero. É inútil fingir que não. — segura seu rosto com uma das mãos para forçar o beijo e ela não encontra alternativa a não ser tentar o que estava evitando, fugir da armadilha para a qual ele a empurra aos poucos. É rápida, consegue escapar, por baixo, depois olha para um canto e outro do quarto entendendo que não há para onde ir.
— Maldito, infeliz... miserável... insuportável! — Os xingamentos saem em profusão, enquanto caminha de costas olhando-o raivosamente, lastimando a sua condição de presa fácil, sem perceber que está indo na direção da cama.
— Vai, continua me ofendendo se isso te faz bem, mas não adianta, ambos sabemos o que sentimos quando estamos perto... essa maldita atração que não nos deixa em paz. A diferença é que eu sinto isso há mais tempo e entendo o que se passa e você não, por isso fica com medo do que sente, com medo de mim. — argumenta, de novo, reduzindo a distância entre eles.
De repente o previsto acontece, ela topa na borda da cama, desequilibra-se e cai sentada. Levanta-se imediatamente na intenção de se desviar outra vez, só que ele já está perto o bastante para prendê-la pelos braços e forçá-la a se deitar na cama, vindo para cima dela, ajeitando-a da melhor forma, derrotando suas tentativas de fuga.
— Não! — está muito assustada.
— Fica calma! Eu já disse que não vou te machucar. — segura-lhe os pulsos unidos acima da cabeça, mantendo-os presos, enquanto ela se debate em vão. — Eu só quero provar uma coisa.
— Provar? Provar o quê? Que é mais fo-forte do que eu? Seu covarde! — oscila de chorosa a brava. Olha-o desafiantemente, já que não tem mais como escapar. Seu coração parece querer pular boca afora de tão aflita que se encontra.
— Não. Eu quero provar que me deseja da mesma forma que eu te desejo. — relaxa o corpo sobre o dela, apenas um pouco.
— Eu-não-te-desejo! Eu já di-disse que não sinto nada! — pronuncia a primeira frase de forma soletrada no intuito de que acredite nela.
— Então prova. Me dá um beijo e, dependendo de como for, eu que saio e te deixo em paz. — impõe ar de seriedade.
— O quê? Eu não vou cair nessa co-conversa. Sai de cima de mim... agora!!! — reúne forças para esbravejar.
— Só tô pedindo um beijo. Eu já disse que depois saio. — persiste em fazer cara de quem está sendo sincero.
Alguns segundos se passam. Ele a observa abertamente e ela pensa na melhor opção a adotar.
— Promete que sai... de-depois? Promete mesmo? — obriga-se a crer que ele está propondo um acordo que irá cumprir.
— Sim, eu prometo... mas só depende de você. — Sua expressão agora é enigmática.
Lavínia tenta não fixar seus olhos nos dele, vai aproximando o rosto, erguendo o quanto dá o pescoço até encontrar seus lábios, unindo-os num beijo sem língua e de poucos segundos.
— Pronto, agora me solta! — exige.
— Isso não foi um beijo, foi no máximo um selinho mísero. Você pode fazer melhor. — Absurdamente, ele se queixa.
O sangue de Lavínia esquenta por conta da indignação.
— Seu desgraçado! Tá bri-brincando comigo! Que tipo de beijo você quer?
— Assim. — beija-a de surpresa.
Lavínia não tem tempo de reagir, seus olhos automaticamente se fecham, apesar de ainda mostrar alguma tentativa para impedir o gesto lascivo, ela sente o coração disparar como louco, quando a língua dele, sem demora, exige passagem para explorar os cantos internos da sua boca. Mais uma vez, termina por ceder de modo quase irrefletido por causa da sensação dominadora de prazer. O corpo a prendendo, a respiração junto à sua face durante as pausas dos beijos na busca da melhor acomodação, o cheiro inebriante da mistura do odor da pele dele e do álcool, presente tanto no aroma como no sabor, fazem-na ficar em estado de embriaguez passiva e experimentar um estonteamento tal que, mesmo ele tendo liberado seus pulsos há uns bons segundos, ela parece não se ter dado conta ainda disso.
— Henry... Não! Por favor! — pede frouxamente, sente arrepios por a estar beijando e dando leves mordidas em seu pescoço, enquanto as mãos largas e grossas passeiam por seu corpo, acariciando, roubando-lhe gemidos e suspiros. — Não! Para... Por favor. Você pro-prometeu. Seu mentiroso!
— Admita que tá gostando. Fala! — desafia-se, sem interromper as carícias.
— Nã-Não! — vira o rosto e sua boca aberta solta arquejos agoniados.
— Olha pra mim e fala. Quem é que tá mentindo agora? Você sente o mesmo que eu, gosta disso... e precisa, como eu. — Henry prende, com uma das mãos, o rosto dela para que o olhe nos olhos, enquanto a outra mão desce, com atrevimento, invade por dentro da blusa, apalpa-lhe os seios, a cintura, o ventre e segue, aos poucos, até o meio das pernas, começando a envolver suas partes íntimas.
— Pa-Para... Para com isso! Eu-eu nunca... nunca estive com um-um homem assim... antes. — está prestes a chorar.
— Você é virgem? — A pergunta sai em tom de quase recriminação, mas na verdade há um sorriso contido em seu olhar.
— So-sou. Por quê? Não sou a única virgem co-com vinte anos no mundo. Me solta... Agora! — Não gosta de ser questionada sobre a sua virgindade, isto a faz voltar a si para reagir com mais vigor e tentar livrar-se da coação emocional e física a que está sendo submetida.
— Calma! A verdade é que eu já sabia... ou melhor, desconfiava, pelo seu jeito. Mas pra mim é ótimo, vou adorar ser o seu primeiro. — Segreda a última frase ao seu ouvido, causando nela um arrepio na espinha, tanto de medo como de inevitável excitação.
Henry quer realmente provocá-la a fim de obter as reações desejadas, quer confirmar que ela sente a mesma atração intensa, inevitável e que pode ser a falha não prevista na sua missão de vingança.
— Vo-você disse que não é um estuprador. Lembra? — Estremecida, ela deixa claro o tamanho da sua ansiedade.
— E eu não sou... mas olha pra você, tá a fim tanto quanto eu... e tá preparada. — volta a beijá-la na boca, no queixo, no pescoço, em cada canto de pele que consegue.
— Não... Eu não tô!
— Vai continuar negando que também quer mesmo estando assim? Seu corpo me diz o contrário. — A mão de Henry ousa ir além e encontra a intimidade dela por cima da calcinha umedecida, constatando a lubrificação aparente.
Lavínia sente-se traída por seu próprio corpo, tem vontade de gritar, de chorar, de sumir por se ver exposta dessa forma ultrajante, por estar molhada, denunciando a inegável excitação.
Henry percebe a luta interna dela entre aceitar ou não o que sente, por considerar algo errado, pela situação em que havia sido trazida para a casa que é agora seu cárcere, pelas coisas horrorosas que ele declarou sobre o pai dela e devido ao seu sentimento de vingança. Tudo forma um grande e lógico empecilho ao fascínio forte entre eles.
— Lavínia, esquece quem somos, ao menos por um momento. Esquece quem é você ou quem sou eu... deixe acontecer o que nós dois queremos. Não pense no que há lá fora, eu te peço, permita eu te amar... só um pouco. Eu quero e você também quer, não negue, ambos sabemos que é assim. — Seu tom torna-se calmo, afável, parece mesmo suplicar, enquanto beija os arredores de seus lábios com suavidade, o que a faz ficar confusa em dobro, sobretudo, porque compreende que está cada vez mais tentada. Sua respiração fica superiormente descompassada, seus olhos adquirem um brilho novo. Não é mais medo, é dúvida, é vontade, desejo puro e instintivo mesclado a certo pânico advindo de tal constatação.
Henry sabe que está forçando demais, impondo sua vontade e não lhe dando chance real de escolha. Tem consciência do quanto é injusto querer tomá-la à força, com o agravo de ela ser virgem ainda. Felizmente, porém, seu atrevimento tem limite, ele nunca seria capaz de estuprá-la, jamais teve intenção de cometer este crime. Por isso, apenas a olha fixamente, esperando uma atitude qualquer, uma palavra qualquer. Pensa em sair de cima dela e do quarto também, dar fim à agonia instalada. Afinal, já ganhou muito aproveitando o sabor delicioso da sua boca e está feliz por isso, por vê-la retribuir, mesmo não tendo deliberada intenção.
Contudo, Lavínia faz algo completamente inusitado, até para ela mesma. Dominada por um impulso reinante, segura com as duas mãos o rosto de Henry e o beija, querendo que ele entenda a sua resposta absurda sem que precise articular nenhuma palavra. E não é mesmo preciso, pois ele compreende rápido o recado e fica extasiado por ver a sua proposta ser aceita. Ele a abraça com mais força do que antes, enterrando-se na boca desejada, sugando-a com gosto, contente por notá-la agora realmente entregue à sua investida.
A partir daí entregam-se às carícias sem impedimentos, aos beijos mais intensos, às mãos que não se limitam a nada. O vencedor único é o desejo que os invade sem piedade e os faz irem além dos beijos sôfregos. Henry tira-lhe a blusa por cima da cabeça, enquanto abafa o rosto entre os seios excitados, beijando-os e arrancando da loira suspiros incontidos. Ele desce a mão, desabotoa a saia e abre o zíper, puxando-a para baixo, tirando-a pelas pernas macias, marcadas tão-só pela laceração superficial em um dos joelhos, que agora não parece doer nada. Volta a beijá-la com paixão e ela corresponde, desliza a mão até alcançar a última peça de roupa, a calcinha, vendo-a calada, ele entende que pode prosseguir; é delicado, despe-lhe sem pressa. Ao fim, quando a tem completamente nua, Henry respira com dificuldade, admirando mais uma vez o corpo bonito. A excitação é quase sufocante.
— Linda, linda... Linda demais! — sussurra rente à sua boca, nas pausas dos beijos molhados.
Lavínia não pensa mais em nada, seu cérebro literalmente parou de funcionar no instante em que lhe deu o beijo de aceitação.
Henry ergue-se para tirar a própria roupa, prevendo que ela não o ajudaria nisso, talvez ela queira mostrar-se passiva por opção ou por inexperiência, ou ainda por indecisão quanto ao ato que cometerá, de qualquer forma, ela não demonstra mais recusa ou protesto, apenas rendição. Então ele age rápido, tira a blusa, a calça e a cueca, ficando despido em questão de segundos, com receio de que ela mude de ideia e desista, principalmente porque ele está com a excitação a mil, o membro completamente ereto. Lógico que Lavínia percebe a ereção evidente dele e sente um frisson no estômago, fica feliz que seja apenas a luz da lua que os ilumine, mantendo as suas feições de vergonha ocultas na meia-luz.
Henry volta a beijá-la e vai acomodando-se ao seu corpo. Gemem baixinho ao se verem assim juntos, pele na pele, beijam-se com fervura, esfregam-se sem saber o que fazer com tamanha excitação. Prazer, prazer e prazer é tudo o que há neste momento. No entanto, ele quer prepará-la ao máximo para que ela não sinta tanta dor quando a fizer sua por completo. Leva a mão à sua intimidade e vai penetrando-a com um dedo, depois dois, sem deixar de avaliar as expressões de seu rosto, que pode ser visto mesmo através do sombreamento parcial do ambiente. Ela parece aceitar bem os movimentos dos dedos, somente arqueja e reage positivamente enquanto ele explora mais a sua boca. Ele está no seu extremo, mas tenta controlar-se. Com a calma que consegue no momento, volta a se acomodar sobre ela, abrindo-lhe as pernas com as suas, ficando ao meio, apoia um dos braços acima da sua cabeça, outra mão a acaricia e desce para facilitar a penetração, a partir de um beijo longo e absorvente, vai introduzindo seu membro rígido, respirando fundo, contendo a vontade de entrar com tudo. Transpira bastante, respira fundo diversas vezes. Ela demonstra sentir alguma dor, mas a lubrificação ajuda muito. Ele segue entrando, entrando, até que entra por inteiro, e para, com dificuldade, preocupado com ela.
— Lavínia, você tá bem? — questiona por meio de um sussurro rouco e a respiração arfante, com suor escorrendo por seu corpo.
— Uhum... tô. — esboça ofegantemente. A dor não é tão intensa quanto imaginou que seria.
Após uns instantes com o membro rígido dentro de si, gradativamente, ela vai acostumando-se ao corpo estranho que a penetra. Então ele começa com movimentos lentos, sempre lhe olhando a fim de observar suas expressões, enquanto lhe beija nos lábios e no pescoço, depositando pequenas mordidas e sugando em alguns pontos. Quando percebe que ela começa a gemer, agora não de dor, mas de prazer, aumenta o ritmo dos solavancos, o que é um alívio para ele, que pode respirar melhor e sem tanto esforço.
O que Lavínia passa a sentir é algo novo, agudo demais, uma agitação que parece querer esgotá-la de tão intensa. Ela geme e geme sem parar, tem a impressão de que algo vai explodir dentro dela, algumas lágrimas escorrem por seu rosto contraído, por causa do prazer desmedido que experimenta pela primeira vez.
Henry percebe o que conseguiu provocar nela e fica feliz demais, pois sabe que também não vai aguentar mais por muito tempo, está prestes a gozar. Ele se move fazendo a fricção tornar-se mais vigorosa e a respiração de ambos ganhar mais força. Após novos instantes, ela se enrijece, quase grita de euforia e relaxa, dando a entender que chegou ao clímax. Depois é a vez de Henry soltar um clamor de êxtase e ceder ao gradual relaxamento físico, embora a respiração continue ofegante, assim como a dela.
Henry sai de cima de Lavínia, pende o corpo para ficar ao seu lado. Ela se vira para o canto oposto, dando-lhe as costas, e ele a puxa para novo abraço. Eles ficam assim unidos, mas sem se olhar, sem se falar, apenas sentindo o cansaço um do outro, o toque dos corpos suados e saciados, os sentimentos confusos, angustiados, suspensos no ar, e uma vontade imensa de que o tempo pare neste exato instante, para não terem que voltar à realidade, não terem que lembrar quem de fato são e quais a suas reais posições neste momento de suas vidas. Enquanto seus corpos abraçam-se, entregues às dúvidas do depois, o som que se escuta é de suas respirações ofegantes e a música, que repete e repete, vinda de lá de baixo, da sala. O sexo, este ninguém viu, ninguém testemunhou, somente a lua.
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