[HIATUS] Mudanças impuras
23 Se me deixar, não vá longe demais
Notas iniciais
Sentada atrás de uma mesa branca, contendo pequenos blocos de folhas para anotações e lembretes, um porta-canetas, ficha de ordenação por chegada de pacientes e um telefone fixo à sua frente, está Louise. A clínica odontológica onde trabalha como recepcionista é simples, mas decorada com esmero. As paredes são pintadas, meio a meio, com tinta a óleo em tons de verde-claro e branco-gelo. Há cadeiras escuras, com estofados bege, ar-condicionado de qualidade, revistas diversificadas, à disposição, sobre uma retangular mesa envidraçada de centro, bebedouro, copos biodegradáveis, café e chá sempre quentinhos. Enfim, tudo para garantir o conforto e o atendimento aprazível aos clientes que optam por fazer ali seu tratamento dentário.
Louise verifica a hora no seu celular e fica entediada ao constatar que ainda está longe do meio-dia, o que a faz suspirar e encarar as pessoas com certa empatia, uma vez que a maioria delas chega à clínica com sintomas de medo e estresse, e ficam a contar cada segundo, até o momento de serem atendidas e despachadas, para poderem estar livres e bem longe dali, o mais rápido possível. Ela ri internamente, pensando que também sente uma profunda chateação por algo que nem sabe o que é.
Quando a porta do consultório se abre e sai a cliente da vez, uma bela mulher de seus trinta e poucos anos, que acabara de ser atendida pelo doutor Tavinho, apelido dado por Louise ao médico odontologista, desde que o viu pela primeira vez, e foi aprovada para exercer a função de recepcionista, na clínica dele. O doutor Luiz Gustavo Calleb, ou só doutor Gustavo para a maioria, é irmão de um ex- affair seu e é lógico que já teve também um momento de transa com ela, há um tempo, assim que ela adentrou para o quadro de funcionários da clínica. Contudo, Tavinho segue a linha ética e nunca considerou correto o envolvimento entre patrão e funcionária, mesmo que a tal funcionária fosse uma pessoa que adorasse sexo sem compromisso algum e, muito menos, cobranças tolas. No entanto, eles optaram por ficar apenas na base do profissionalismo.
— Agora pode entrar o senhor José Afonso de Lima. — Louise interrompe seu próprio pensamento, ao encaminhar a pessoa seguinte, olhando a ordem de listagem da sua prancheta e a invocando em tom sonoro e audível.
No mesmo instante em que o senhor se embrenha na sala do dentista, o celular de Louise vibra e se ilumina, indicando uma chamada. Ela vê, na tela, o nome de Dico e sente um involuntário arrepio na espinha de excitação. “Praga de homem que não sai do meu pensamento!”. Antes de atender, força-se a manter-se calma.
— Oi, amigo. — fala baixinho para não ser escutada pelas pessoas presentes no recinto.
— Tá sem poder falar agora, Louise? — Ele interroga por conta do tom baixo de sua voz e ignora o fato de ser chamado de “amigo”.
— Não é isso, posso falar, sim, mas é que eu tô no trabalho. Tenho que ser mais contida aqui... para não ser inconveniente. Ai, Dico, o que você quer me ligando em plena segunda, pela manhã? — franze a testa e espera a resposta.
— Gostaria de te convidar para irmos ao cinema do Q-Smallcity... na sessão das dezoito horas. — Há certa expectativa por trás de suas palavras.
— Você tá me chamando para ir ao Shopping justo hoje? É segunda-feira! — Mas, intimamente, ela está adorando a possibilidade de vê-lo mais uma vez.
— Pois é justo nas segundas que eles fazem descontos ótimos, não sabia? Qual é? Vamos aproveitar! Eu sei que está em cartaz um filme muito interessante. Você vai gostar... Vamos! Eu passo na sua república lá pelas dezessete e te pego. Pode ser, meu anjo?
Silêncio.
É a segunda vez que ele a chama de meu anjo como se fosse a coisa mais natural do mundo, sem nenhum indício de malícia, deixando Louise desarmada com sua amabilidade despretensiosa. Ela reflete que ou ele é um ótimo ator ou não está tão a fim dela, como havia imaginado, e quer apenas manter uma amizade mesmo, então calcula mentalmente os riscos de se deixar levar pelas armadilhas de um novo encontro. Porém, seu lado racional não está funcionando muito bem estes dias. A presença deste moreno a faz ver claramente os perigos e, mesmo assim, não consegue evitá-los.
— E aí, Louise? — Dico insiste.
— Tá! Eu aceito. Mas não pense que vai rolar algo entre a gente, viu? Vamos sair juntos, assistir ao filme, conversar como bons amigos... e só. — continua testando as intenções dele.
— Ok... Louise, não tem que se preocupar mais com isso porque nós já havíamos feito esse acordo antes, lembra? Garanto que não ultrapassarei nenhum limite... se você não ultrapassar. Afinal, eu entendo que amigos devem sempre se respeitar. — declara, em tom seguro.
Dessa forma, após combinarem todos os detalhes do passeio de amigos, eles se despedem e Louise fica pensando sobre as palavras dele, constatando que definitivamente não é com ele que ela deve preocupar-se, e sim com ela mesma.
[...]
Um pouco depois das dez horas da manhã, Henry adentra o quarto de Lavínia, fica parado no meio do recinto e a olha firmemente, vendo-a sentada à beira da cama, abraçada a uma almofada, com expressão de desânimo mesclada a confusão mental.
— Então, está pronta para enfrentar o mundo que te espera lá fora? — Ele interroga em altivo e bom som, fingindo estar confiante do que tenciona fazer.
Quando ela o vê, de imediato nada faz, mas em seguida joga o travesseiro de lado, levanta-se, caminha apressada em sua direção e, inesperadamente, envolve o tronco robusto com os braços, enterrando a cabeça em seu peito.
— Já está um pouco tarde para uma saudação tão efusiva de bom dia, não acha? — Ele afaga seus cabelos e se esforça para manter o controle sobre a própria emoção.
— Henry... Então é ve-verdade mesmo o que a Frida disse? Você de-desistiu de toda essa loucura de vi-vingança e... de me manter... presa? — Por suas palavras fragmentadas, é possível perceber o seu grau de nervosismo.
— Digamos que eu resolvi mudar um pouco as coisas pra ver o que acontece. E quanto a mantê-la presa, não quero mais que seja assim porque não interessa quantas vezes diga que me ama... Eu finalmente entendi que você nunca será minha totalmente, até que saiba e aceite o que se passa ao nosso redor, até que esteja ciente de toda a verdade e seja livre para estar comigo por vontade própria.
— Mas agora você está tentando... fazer o que é certo, não é? Então, po-por favor, fala pra mim que tu-tudo vai ser... resolvido, a partir de agora, e que va-vamos ficar todos bem! — Ela está sem coragem para olhá-lo, por isso permanece com o rosto grudado ao seu peitoral, por cima da camisa preta que ele veste.
— Talvez sim, talvez não... Eu sou a última pessoa a poder dizer isso. Ei, por que você está tremendo? — questiona de forma atenciosa.
— Não co-consigo evitar. Eu estou com... tanto medo! — Lavínia confessa.
— Com medo de quê? — Ele sabe que a pergunta é tola, mesmo assim a faz, querendo impor segurança em sua voz para tranquilizá-la.
— De tudo! Eu não sei... se quero saber a verdade po-porque eu tenho medo de me sentir pe-perdida e sem saber como me encontrar... no meio dessa história horrível! Eu acho que... não quero mais saber de nada! — A voz embargada denuncia sua vontade de chorar.
— Ora vamos, Lavínia, seja honesta consigo mesma, você quer a verdade, sim, você sempre a quis, apenas teme agora pelo que ela pode continuar dizendo do seu pai, de você... ou de nós dois. — segura-a pelos ombros e a afasta o suficiente para que o encare. Percebe o quanto ela está preocupada, porém, sabe que não pode voltar, que precisa seguir com o que decidiu fazer.
— E depois, Henry? O que vai a-acontecer? — Algumas Lágrimas escorrem por seu rosto e seus olhos exibem uma brilho trêmulo.
— O que você quiser que aconteça, meu amor. A decisão será toda sua. — deposita uma mão sobre seu queixo e desliza com o polegar sobre a bochecha, sentindo a umidade advinda de seu choro e uma enorme vontade de consolá-la.
Ao ver Lavínia tão abatida e amedrontada, Henry sente-se tentado a mentir, dizer que os problemas todos serão rapidamente solucionados, que ele, a partir de agora, terá paciência e sabedoria para conduzir suas atitudes vindouras, que não alimenta mais em seu coração um ódio corrosivo, fazendo-o persistir num revide preparado e direcionado especificamente ao pai dela, e que eles serão felizes juntos. Este falso consolo verbal, porém, não é externado; fica apenas em seu íntimo.
— Não entendo... o que você está dizendo. — Lavínia morde o lábio inferior, agoniada.
— Logo entenderá. E mesmo que você se perca no caminho disso tudo... eu sempre estarei esperando que você venha para mim, demore o tempo que for preciso. — Henry não resiste e a aperta com força em seus braços, sentindo o coração se comprimir dentro do peito, como se fosse a última vez que lhe seria permitido fazer este gesto carinhoso, e experimenta um desejo egocêntrico de jogar tudo para o alto, não soltá-la nunca mais.
Ficam assim abraçados por um longo tempo, um percebendo a respiração descompassada do outro, enquanto cada qual busca um consolo, um fio de esperança qualquer no futuro.
Meia hora depois de ter-se despedido outra vez de uma desconsolada Frida, Lavínia que, ao se deparar com o efetivo momento de partir, insistiu em não levar nada além da roupa que vestia desde cedo, ou seja, a blusa polo verde-clara de gola rósea, o short curto e branco de tecido e a sandália simples, encontra-se sentada no banco da frente do carro de Henry, tendo-o ao seu lado como o motorista-robô, visto que ele não exprime mais qualquer emoção, aliás, se existe alguma emoção nele, deve estar escondida por trás dos óculos escuros que usa.
— Você... va-vai mesmo... me levar para onde eu quiser ir, co-como a Frida falou? — Ela resolve puxar assunto.
— Sim, mas antes passaremos em um lugar. — responde, conciso.
— Que lugar? Aonde nós iremos? — A curiosidade a faz questionar.
— Ao lugar que penso ser o adequado para terminar de dizer o que falta você saber dessa história... por completo. — Ele profere de forma protocolar e séria.
— Droga, Henry! Você tá me a-assustando cada vez mais... falando de-desse jeito. — desvia os olhos da estrada e volta a encará-lo, com ar de crítica, ao passo que mexe no equipamento sonoro do carro, tentando pôr alguma música para quebrar o clima de tensão instalado, mas logo desistindo por pura agonia.
— Eu sei e sinto muito. Então, por que não ficamos quietos até chegarmos, ok? — Ele propõe e ela concorda.
Henry continua com os olhos fixos na estrada. No entanto, seu olhar de concentração é apenas um meio de esconder a sua agitação mental.
Um vento forte invade pelo vidro rebaixado da janela do carro, enquanto Lavínia, com os cabelos soltos, espalhados no ar, repara na vista de fora. Tenta aproveitar o passeio que a conduz para a liberdade, envia os olhos para cima e confirma uma impressão, ao sentir o ar fresco invadir suas narinas. “É certo que vai chover”. Constata que o tempo está mudando rápido assim como as atitudes de Henry, pois o céu claro que prognosticava um dia de sol e calor, neste momento, está dando lugar a nuvens acinzentadas.
Após alguns minutos, que parecem a Lavínia como uma tortura lenta, ela reconhece o caminho que os levará à frente do prédio luxuoso onde esteve com Henry, no dia em que ele a fez desmaiar e a capturou, levando-a para a casa dele.
— Eu me lembro desse lugar. O prédio! Vo-Você está me levando para aquele seu... apartamento?
A pergunta dela fica sem resposta, pois Henry opta por permanecer mudo. Ele apenas acena para um senhor parado adiante dos enormes portões gradeados, que o reconhece e o deixa passar. Direciona o carro para a garagem subterrânea do edifício e diminui a velocidade, enquanto busca a sua numeração correspondente. Ao encontrar a vaga, estanca o veículo e desliga o motor. Por fim, olha-a.
— Não se preocupe. Eu quero que você venha comigo até o meu apartamento. Lá nós poderemos ter a nossa conversa definitiva. Depois, eu a levarei para onde quiser ir... para qualquer lugar mesmo. — dizendo isto, Henry cerra automaticamente os vidros das janelas e destrava as portas para poderem sair.
Mais uma vez, Lavínia apenas acena positivamente com a cabeça. Ela se retira do carro, acompanhando os movimentos dele.
Surpreendentemente, ele dá a volta no automóvel e abre o porta-bagagem, de onde tira uma caixa tampada, razoavelmente grande e retangular. Após, verifica as fechaduras e aciona o alarme do veículo, mantendo o objeto envolto a um dos braços.
— Que caixa é essa? — A loira não contém a curiosidade.
— Nada de mais. Siga-me. — responde, ainda muito sério.
Eles caminham pelo estacionamento, passando por demais carros e algumas colunas de concreto, até encontrar a parte reservada ao elevador, no subsolo. Assim, que a porta se abre, eles observam que não há ninguém lá dentro. Entram e ele aperta os números sete, zero, dois, referentes ao apartamento dele. Lavínia percebe que sua inquietação só aumenta à medida que o elevador sobe. Ela olha para Henry e o percebe silencioso, o que a faz conjecturar que, para ele, esta situação também é bastante perturbadora. O elevador descontinua e a porta se abre. Eles caminham pelo corredor e, mais uma vez, ela se vê ante à porta do apartamento dele. A partir deste instante, tudo se assemelha a ela como um retrocesso no tempo. O interior do apartamento, fora o fato de ser dia e não noite, está exatamente como Lavínia recorda-se. Justo por isso, ela fica com uma sensação de algum temor, por se encontrar no local onde ela foi surpreendida, desmaiada e sequestrada por ele. Está, portanto, no local que simboliza a sua reviravolta de vida.
— Faz um bom tempo que eu não venho aqui. — Henry corta o silêncio, enquanto a surpreende analisando cada canto da sala, com o olhar um tanto disperso.
— Está... tu-tudo tão limpo! Como pode? — flagra-se admirando o brilho reluzente do estiloso cinzeiro feito a aço, posto em cima da envidraçada mesinha central, e acha interessante ver que não há uma única sujeita no ambiente que supostamente esteve fechado por um longo período.
— Bem, isso se chama a mágica dos contratos de empregadas diaristas. Há uma chave-reserva que fica permanentemente na própria empresa prestadora desse serviço. Enfim, isso não importa. Olha, você quer algo? Aposto como deve ter suco, frutas e água fria na geladeira. — fala cordialmente, com intenção de desanuviar a atmosfera pesada.
— Não, Henry. Eu quero acabar logo co-com isso. Essa ansiedade...está me matando. — anuncia, enviando-lhe olhos apreensivos.
— Tá certo. Então, venha comigo. — chama-a e já vai afastando-se na direção do seu quarto.
Lavínia segue-o, mesmo que as pernas quase não a obedeçam, efeito da agonia. “Ai, meu Deus, essa agonia não tem fim?”, pensa, enquanto ingressa no cômodo.
Assim que põe a caixa sobre a cama, Henry abre as amplas persianas, proporcionando arejamento e luz ao recinto, e nota o olhar transversal que Lavínia envia para a parede.
— Eu tirei tudo o que havia aí e guardei. Agora sei o quanto aquelas fotografias te assustaram. Eu jamais quis que você as visse... Pelo menos, não daquela forma. — anuncia, ao passo que retira os óculos escuros da cara e os mantém na mão esquerda, pressionando as hastes, ao ponto de os dedos adquirirem uma coloração esbranquiçada. No entanto, não desvia os seus penetrantes olhos azuis dos dela, o que denota a sua fingida ausência de abalo, inclusive, ao relembrar o que fez, depois que ela viu as imagens aderidas à parede.
— Vo-Você... passou muito tempo... planejando esse se-sequestro, não foi? — Ela, sim, não consegue fixar os olhos em Henry, pois está uma pilha de nervos.
— Foi. — confessa simplesmente e busca nos bolsos da elegante calça cinza algum cigarro e o isqueiro, mas não acha, apalpa os da camisa escura em gesto inútil, pois, súbito, lembra-se de tê-los deixado no porta-luvas do carro, pragueja internamente e respira fundo para poder prosseguir sem a ajuda da nicotina. — Lavínia, esta caixa pertence a você. Pode abri-la.
Ela franze o cenho e fica confusa, porém, anda à cama e o obedece, abrindo a caixa e demonstrando surpresa.
— Nossa! Eu não... tô acreditando. Você reuniu todas as peças... que eu usava quando vim com você... aqui pela primeira vez. — Lavínia aspira o ar profundamente e tenta pronunciar as palavras de modo pausado, a fim de livrar-se, ao máximo, da gagueira nervosa. — É impressionante. Você... não esqueceu nada!
Tira, de dentro do caixote de papel, a saia estampada preta, a blusa de tecido bege, o Scarpin escuro de salto médio, que está dentro de um saco plástico, os brincos, a corrente e o pingente de ouro, e a bolsa de festa vermelho sangue Clio Style, contendo todos os seus acessórios, até o celular. Ela fica pensando que deveria estar contente por ter seus pertences de volta, contudo, de alguma forma este gesto metódico e detalhista de Henry configura-se algo lúgubre.
— Por que isso, Henry? Parece mais... um tipo de ritual.
— Acho que se pode dizer que é... Eu sei. É bobagem. O fato é que eu só imaginei que poderia devolver você ao mundo como a encontrei, ao menos na aparência. — confessa.
— Quer que eu... troque de roupa... agora? — pergunta, com os olhos oscilando entre ele e as peças sobre a cama.
— Bom, de qualquer forma são suas coisas. Usando-as não seria a melhor forma de levá-las? Fique à vontade para fazer isso na suíte, se quiser. Eu posso esperar aqui. — sugere, sempre mantendo uma postura cordial.
— Henry! Você vai mesmo me fazer... ter um a-ataque de ansiedade? — suspira, resignada. — Ok! Tudo bem... Eu troco.
“Se isso servir para ajudar de alguma forma, não tem problema”. Ela reúne as peças e as devolve à caixa para levá-las consigo até à suíte, encostando a porta em seguida. Acende a luz, pois constata que a iluminação do dia está ficando fraca, devido ao céu que se acumula em nuvens lá fora. Não perde tempo e age de forma automática. Tira a roupa que veste, exceto a calcinha e o sutiã, e a joga em qualquer canto, substituindo-a rapidamente, peça por peça, tentando não pensar em nada. Mas após calçar-se, pôr os brincos e o colar, ajeitar as madeixas loiras com os dedos, prender uma parte deles com a fivela cor de ouro, destacando a longa franja, umedecer os lábios com o batom-gloss e passar a fina correia metálica da bolsa vermelha sobre o ombro direito, para finalizar a troca de visual, avista-se no espelho afixado na parede, acima da pia, e sente uma angústia renovada apoderar-se de si. “Meu Deus, que estranho! É como se eu estivesse voltando no tempo”, pondera, com a mão sobre o decote em V, segurando o pingente sobre o alvo colo. Ela experimenta a sensação de estranheza em sua própria forma, uma vez que tudo em seu aspecto físico a leva para o dia em que se trajou-se com esmero para se encontrar com o homem que era o seu pretendente e se chamava Diego. Mas a mesma forma externa agora é o lembrete de que não é mais aquela garota virgem, sonhadora, dócil, ingênua e romântica demais.
No quarto, Henry põe-se a caminhar de um lado a outro, mexendo nos áureos cabelos curtos, irrequieto, como se fosse um bicho enjaulado, prestes a ser levado para o abate. Porém, ao ouvir a porta da suíte abrir-se, exibindo a loira bem arrumada, ele empaca e sorri, admirado.
— Ah! Lavínia... Você está tão linda! Exatamente como naquele dia. — suspira de prazer e depois se queixa internamente, por saber que não tem mais como fugir ao que irá suceder-se.
— Que bobo... Vamos com isso, Henry. Eu fiz tu-tudo o que você pediu. Agora é a sua vez. Acaba logo com isso, po-por favor. Se tem algo a me dizer... apenas fale! — Seus batimentos cardíacos se aceleram rapidamente.
Henry impõe uma postura decidida e seleciona as palavras com cautela.
— Está bem. Mas, antes, quero que saiba que não me arrependo do que eu fiz, apesar de ter sido errado, ilegal... porque eu consegui ter você comigo por algum tempo e pude lhe dizer o que sinto... que eu te amo. Mas eu confesso que, no início, eu quis apenas usá-la para atingir o seu pai.
— É, eu sei. você disse isso... quando nos vi-vimos na sua casa, assim que você me levou pra lá. — relembra o primeiro dia na casa de Henry.
— Sim, eu queria que ele soubesse o que é perder alguém que se ama, sem ter como impedir. Então, um tempo atrás, eu passei a seguir você, a estudar seus passos... até que, em algum momento, eu percebi que você tomou conta dos meus pensamentos. Eu desejei ter você comigo e esse desejo cresceu em mim, por isso que eu te sequestrei, te fiz ser minha, e desprezei todas as consequências. Foi uma tentativa idiota de unir o útil ao agradável, porque eu quis manter você comigo e ao mesmo tempo fazer aquele canalha encontrar o inferno que ele merece, pra vê-lo apodrecer lá um bom tempo... e pagar, ao menos um pouco, pelo mal que ele causou.
— Chega! Eu imploro! Eu co-compreendo a sua dor... mas você pa-parece mesmo um louco falando assim. Você não entende? Ele continua sendo o meu pai, Henry, e eu co-continuo sem poder acreditar nas coisas horríveis que você me contou. É tudo muito co-complicado. Mas, afinal... você ficou de me falar o... resto da história. O que eu ainda não sei? O que é? — incita-o a falar, mesmo estando apavorada e sem, na verdade, querer ouvir.
— Ok. Lá vai... — desvia os olhos do piso, respira densamente e volta a encará-la. — Lembra quando eu disse que o seu pai levou o bebê que ele teve com a Abigail... pouco tempo depois de ele nascer?
— Sim... e-eu lembro. — confirma, com voz quase sumida.
— Você me perguntou se eu sabia onde ele estava e, na hora, eu não respondi... disse que teria que perguntar ao seu pai.
— Mas... você sa-sabe onde ele está? Você sabe, não é? — Lavínia fica expectante.
— Sim, eu sei... Ele está bem aqui diante dos meus olhos. Esse bebê é você, Lavínia. — Ele usa o tom mais calmo que lhe é possível.
— O-o quê? Não! Que absurdo! Eu sou filha de... Darlene. — Lavínia meneia a cabeça em movimento de negação.
— Essa é apenas a mulher que te criou como se fosse sua mãe... só que ela não é. Sua mãe biológica é Abigail. Eu lamento ter que dizer isso... Mas essa é a verdade que faltava você saber.
As feições de Lavínia se alteram gradativamente. O horror começa a invadi-la dificultando-lhe a respiração. Ela é obrigada a se sentar na cama para não cair, pois as pernas fraquejam. Sua mente tenta adaptar-se ao que foi declarado para saber como lidar com isso a partir de agora. Contudo, os tremores por todo o corpo são inevitáveis. Os cabelos parcialmente presos, que deixam somente a franja sobre a testa, não ocultam o que está óbvio em seu olhar: o desespero.
Henry tenta aproximar-se para consolá-la.
— Não! Fica aí! — Ela desvia o rosto e levanta o braço direito, com a mão espalmada para o alto, exigindo que ele mantenha distância. — Se o que vo-você diz é verdade... então você e eu...no-nós somos... — trava, não consegue concluir a frase.
— Irmãos? Nunca fomos e nunca seremos isso, Lavínia. Não importa que a mesma mulher nos tenha gerado. Seu pai a levou desde sempre... e nos tirou qualquer chance de sermos mais do que estranhos. Eu só vi você pela primeira vez há três anos, através de uma reportagem de revista em que estava o seu pai, a mulher dele e você, todos em frente à mansão Albuquerque. Eu não acreditei quando eu vi aquele monstro com sua família perfeita e feliz. Eu senti tanto ódio! Foi naquele momento que eu comecei a pensar em vingança... em usar você como instrumento... E o resto você já sabe.
Lavínia fica parada, com a cabeça baixa, apoiada nas mãos apenas digerindo cada palavra dele, esforçando-se para admitir ser mesmo verdade o que ele lhe revela. Sua respiração fica muito falhada, obrigando-a a buscar o ar pela boca aberta.
— Eu sei o quanto isso é difícil pra você, Lavínia... e o quanto tá te machucando ouvir toda essa tragédia sem fim. Eu sei, meu amor! E acredite quando eu digo que jamais planejei me apaixonar por você. Apenas aconteceu, não pude evitar. — volta a tentar aproximar-se dela, mas retrocede, ao vê-la tapar os ouvidos e se retrair completamente, rejeitando-o.
Transtornada, ela se levanta, sem olhá-lo, dá uns passos até ficar em frente à parede onde antes estavam as imagens perturbadoras. Fecha os olhos e puxa o ar com força aos pulmões, expelindo-o pela boca, fica assim por uns instantes, tentando ignorar o fato grotesco de ter-se envolvido, de forma emocional e sexual, com este que se mostra agora como seu irmão. Contudo, permite-se repassar as circunstâncias de sua vida, tudo parece encaixar-se terrivelmente. Uma mãe distante, um pai ultra protetor e uma eterna sensação de distanciamento da sua própria realidade.
— Fala alguma coisa, Lavínia! Me diz o que você está pensando! — Há ansiedade explícita na voz de Henry.
Ela seca com as mãos as lágrimas que escorrem e demonstra, através de seus olhos apagados, um absoluto estado de entorpecimento. Apenas sabe que deve sair de perto dele imediatamente.
— Você prometeu que me... levaria para onde eu quisesse... depois dessa conversa. Então... ou você me leva ou só me deixa ir porque... aqui eu não fico mais nem um minuto! — determina, com uma bizarra frieza na expressão ao se virar para encará-lo.
— Lavínia... — Henry busca qualquer palavra, qualquer motivo que justifique mantê-la só mais um pouco ao seu lado.
— Não tem problema... Eu acho a saída. — Lavínia passa por ele querendo ir na direção da porta.
— Espera! Eu te levo... Já disse que levarei você pra onde quiser ir. — Henry é rápido e a segura pelo braço.
— Não me toca!!! — Ela esbraveja e puxa o próprio braço com força. — Se vai mesmo me levar, então vamos... Agora!
Henry compreende, por fim, que ela está transtornada demais e, de coisa nenhuma adiantará, inventar desculpas para atrasar o momento de vê-la partir. Por esta razão, ele simplesmente resolve aceitar o tiver que ser.
— Pra onde você quer ir? — pergunta, ameno.
— Na estrada... eu indico o lugar. — Lavínia agarra-se à correia da sua bolsa, olhando para a porta do quarto e pensando unicamente em sair do pesadelo em que se encontra agora.
Henry e Lavínia caminham de volta ao carro, no estacionamento, em um silêncio funéreo e assim permanecem boa parte do trajeto. Ela somente lhe dirige a palavra para indicar o caminho e ele não demora a entender para onde ela os está conduzindo, pois a direção também é bem conhecida por ele. Na verdade, ele já previa que ela iria correr ao encontro do pai, assim que se libertasse. Portanto, logo o majestoso edifício referente à Giant Solution é avistado. Henry estaciona o veículo a um alcance moderado, do lado oposto à avenida onde se localiza a empresa e, através dos óculos escuros, observa de relance Lavínia submersa em pensamentos distantes.
Assim que se dá conta de que o carro está parado, Lavínia retira o cinto de segurança e tenta abrir a porta, mas percebe que está sob trava automática.
— Eu quero sair... Destrava as portas! — emite a ordem, ríspida.
Henry tem as duas mãos presas ao volante, sentindo o mundo inteiro esvair-se diante dos seus olhos.
— Se... você procurar, vai encontrar na sua bolsa um papel anotado com todos os meus números de contato e endereços...
Lavínia solta uma gargalhada inesperada, interrompendo o que ele diz, ao passo que balança de leve a cabeça, em sinal de negação, e escuta as portas serem destravadas.
— Sabe por que... eu não te entrego à polícia imediatamente, co-como deveria fazer? — afronta-o com um olhar repleto de amargura e aversão. — Porque não é de prisão que você precisa... é de tratamento psicológico. Você é doente!
Henry engole em seco as acres palavras, fechando os olhos, por senti-los em brasa. Mas, em um movimento precipitado, ainda reúne energia para prendê-la pelo pulso.
— Vá e viva a sua vida. Apenas entenda que eu estou esperando por você... porque eu sei que você me ama da mesma forma que eu amo você. — impõe certeza ao dito, enquanto lhe olha fixa e apaixonadamente.
— Tudo o que eu sinto por você agora... é pena!!! — Lavínia grita, em tom ácido.
Henry solta-a finalmente e a observa sair do carro, golpear a porta com brutalidade, para dar a volta, pela frente do para-brisa e seguir adiante, num passo ininterrupto. Ele sabe que apenas se machuca vendo-a partir, que deveria afastar-se desta cena, não olhar para trás, mas não consegue fazer isso, não consegue parar de olhá-la, de querê-la de volta. Quando gotículas de chuva começam a cair, ele amaldiçoa o céu nebuloso, o vento gelado, a ausência do sol para consolá-lo, com sua luminosidade e calor. Respira fundo, lembra-se de buscar por cigarros. Estica o braço para alcançar o porta-luvas. O celular é o primeiro a se apresentar ante seus olhos, pois também acabou indo parar ali. Pega-o, põe-no sobre o banco do passageiro desprezando-o, mesmo sabendo que deve ter uma centena de ligações perdidas, tanto de clientes, de funcionários da sua empresa, como de Frida. Ao encontrar a abarrotada cartela de cigarros, contendo apenas dois, acende um e avista a fumaça se compor, misturar-se à corporatura de Lavínia, que agora mais parece um vulto móvel, difuso. Isso dá a Henry a sensação de ela fazer parte de um sonho. Ele continua lhe assistindo atravessar a avenida, com o vento a bater em suas cabelos, que se espalham por suas costas, harmonizam-se com suas vestes elegantes, compondo um cenário que é, ao mesmo tempo fascinante e tortuoso. Sentindo os olhos lacrimejarem, ele retira os óculos, dá tragos seguidos no cigarro e compreende que está realmente sofrendo com a partida de Lavínia. “Olha pra trás, meu amor. Olha pra mim mais uma vez.”, implora internamente que ela lhe envie um sinal corpóreo qualquer que o faça crer que ela compartilha da sua doença, queele não está sozinho neste mar agitado de desejo e paixão.
Porém, Lavínia anda em passo reto, sem se voltar jamais.
[...]
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