[HIATUS] Mudanças impuras
33 Os desmandos do coração
Notas iniciais
Por volta de seis da manhã, Louise já está na cozinha da república, devidamente vestida e tomando o seu café da manhã para ir ao seu trabalho no consultório odontológico, onde permanecerá até o meio-dia.
Vicky está deitada na cama que agora ocupa, ou seja, na cama de Lavínia. Ela busca reunir entusiasmo para se levantar e enfrentar este dia, o qual supõe que vá ser bastante difícil de aturar, pois daqui a alguns minutos terá de ir para a faculdade e se encontrar com Fábio, no intuito de auxiliá-lo em seu primeiro dia ali, como seus pais a fizeram prometer que faria. Está com fones postos em seus ouvidos e escuta uma triste canção. Vai ouvindo a música e derramando algumas lágrimas de seus grandes e negros olhos, com o rosto em um aspecto de tristeza. Um soluço involuntário se solta da sua garganta, uma vez que sua mente a faz rever os momentos que viveu ao lado de Manu, de quem agora está fisicamente afastada, embora não consiga deixá-la ir, sair de dentro da sua alma. Sente-se mais deprimida ao visualizar a ruiva em seus devaneios, por outro lado, é imaginando-se ainda junto a Manu que encontra uma razão para seguir.
Se Vicky encontra-se em lamentação e se achando fraca para encarar o dia, Manu, no quarto ao lado, não está muito diferente. A ruiva acordou bastante reflexiva esta manhã, pois teve um sonho com Vicky, no qual elas ainda estavam felizes, sendo as mesmas amantes ardentes, que costumavam ser. Igualmente, permanece na cama e quer ouvir algo entre as músicas que estão em seu celular, antes de decidir por se levantar, ir-se arrumar, partir rumo à faculdade e ao seu curso de arquitetura. Ela olha para o lado e observa que Lavínia ainda dorme profundamente, visto que chegou à república depois das duas da madrugada. Manu sabe que a loira tem passado por alguma perturbação emocional, mas desconhece os detalhes. Por exemplo, ela não sabe que, quando Lavínia, terminou de cumprir com todos os seus hábitos de higiene pré-pernoite, seu cérebro é que foi um inimigo, impedindo-a de conciliar o sono. Tragicamente não conseguiu parar de pensar em Henry, na conversa que tiveram, no modo impulsivo e apaixonado com que ele a abordou. Não pôde acalmar seu coração, que ficou coalhado de remorso, apenas ao recordar as sensações que o seu irmão lhe provoca. Todos esses sentimentos tão errados e tão intensos lhe causaram ânsias de medo de não ter forças para impedir que esta loucura siga adiante. Por conta destes conflitos internos, só dormiu quando o corpo não mais suportou o pranto e o cansaço físico, rendendo-se finalmente e a fazendo mergulhar no mundo dos sonhos, não menos perturbadores que a realidade.
Assim, enquanto Lavínia repousa no leito onde deveria estar Vicky, Manu emite suspiros, justo por saber que só lhe resta ter resiliência e aguardar o porvir dos acontecimentos. Pois, a verdade é que, apesar de estar encontrando alegria, sexo e companheirismo com Dayse, de fato, Manu lamenta que o seu relacionamento com Vicky tenha acabado de forma abrupta. Ela sente que ainda há uma atração latejante entre elas e não compreende ao certo por que Vicky quis terminar o relacionamento delas. No entanto, encarando os fatos com mais minúcia, ela suspeita que Vicky esteja tentando desistir de sua orientação sexual. Em razão de querer ser exatamente como os pais dela desejam, agora sacrifica a si mesma em prol deles e por não ter a coragem para ser feliz sendo quem é.
Na faculdade, às sete e meia, no pátio central, setor que oferece acesso a todos que ali queiram entrar, ou seja, no recinto aberto e extenso, de onde podem ser vistas as salas de aulas, em corredores enormes, com alguns bebedouros, e outros âmbitos inerentes à conjuntura universitária, estão diversos jovens estudantes. Uns poucos colegiais estão sentados em bancos próximos de árvores frondosas e de jardins em canteiros cimentados, outros permanecem em pé e conversam com os demais colegas e há ainda os que caminham prontamente em busca de seus locais de estudo. A atmosfera universitária pode ser sentida em toda a juventude que ali se encontra, por meio de seus gestos, risos e euforia peculiares.
Manu e Vicky também acabam de chegar. Elas, de dois dias para cá, estão na base da adequada amizade, tratando-se com menos indelicadezas e até indo e voltando juntas da faculdade, sem jamais iniciarem alguma conversa de cunho pessoal, só amenidades. Ao notar-se no espaço central, sem demora, Manu quer ir para a sala de aula, mas algo a impede e a intriga. Um rapaz de pele trigueira e olhos cor de caramelo se aproxima da morena.
— Vicky! Bom dia, prima! Eu cheguei há alguns minutos e pra mim é até um alívio finalmente ver uma cara conhecida neste lugar. — Fábio confessa e sorri abertamente, pois para ele tudo ali é novidade, tanto o ambiente como as pessoas. Ele lhe dá, sem cerimônia alguma, um abraço e dois beijos, um de cada lado do seu rosto, deixando-a enrubescida e fazendo Manu prender a respiração pela surpresa que sente ao ver Vicky sendo abordada com tanta empolgação por outra pessoa.
— Bom dia, Fábio. — Vicky responde sucintamente e, ao perceber o olhar fixo e inquisidor de Manu sobre seu primo e o deste sobre a ruiva, ela se vê quase na obrigação de apresentá-los, por isso intercala seu olhar de uma para a outra figura curiosa. — Manu, este é Fábio, meu primo... Fábio, esta é Manu, minha... colega de curso e também uma amiga que mora na mesma república.
— Oh! Muito prazer, Manu. Que bom que agora tenho a alegria de conhecer mais um rosto aqui. — brinca o rapaz, demonstrando seu bom-humor, enquanto estende a mão a fim de apertar amistosamente a da colega de Vicky.
— Oi. — Manu emite o som acre, fecha a cara e deixa evidente a sua antipatia e que tão-só o cumprimenta por mera educação. Depois, ela olha diretamente para Vicky. — Vamos indo pra sala, Vicky... Você sabe que a professora não gosta que nenhum aluno entre depois que ela inicia a aula.
Fábio, perspicaz, capta um clima estranho na exigência que a ruiva utiliza no intuito de levar Vicky para a sala de aula.
— Manu... Pode ir na frente que eu vou depois. É que, já que é o primeiro dia do Fábio aqui e ele não sabe onde fica a sua sala de aula, eu vou auxiliá-lo... Quer dizer... eu vou ajudá-lo... indicando o rumo para que ele a encontre. — Por algum motivo, capricha na justificativa que dá à ruiva. Esta, por seu lado, fecha o cenho mais ainda e olha com desprezo para os dois primos à sua frente.
— Ok... Se você não liga para o risco que corre de levar bronca da professora, então... foda-se! — dizendo tais palavras recheadas de cólera, Manu deixa-os em atmosfera de algum constrangimento por parte da morena e de desconfianças, pelo lado do rapaz.
Manu segue em direção à sua sala de aula, firme e irada em seus passos. Quase se pode ver fumaça saindo de suas narinas e luzes faiscantes de seus olhos, tamanha raiva que sente. Assim que adentra o recinto estudantil, ela se senta em sua cadeira, que fica atrás da que é ocupada por Vicky e retira o celular da mochila, passando a cronometrar os minutos que levariam até que a morena entrasse na sala também.
A professora entra, saúda os alunos e começa a sua aula e nada de Vicky chegar. Manu sente uma tremenda impaciência e, quando marca o tempo de doze minutos, a morena finalmente aparece à porta pedindo licença para poder entrar. Embora a professora não seja de fato favorável à entrada de alunos após o início de suas aulas, abre exceção para Vicky, pois sabe que ela é uma boa aluna e raramente atrasa, permite que entre e se sente em seu assento.
— Foi realmente preciso mais de dez minutos pra você indicar a sala de aula para o seu primo? Que ridículo! — Manu diz, sem se conter, após ter direcionado seu tronco para a frente, ficando a centímetros dos cabelos cacheados de Vicky.
— Manu... eu demorei apenas porque ele ficou puxando assunto comigo sobre bobagens do dia a dia... nada de importante... só que, quando dei por mim, eu vi que havia demorado mais que o previsto... por isso que me atrasei um pouco. — justifica Vicky, dobrando o corpo para olhar nos olhos da ruiva, achando que este convívio com o seu primo já começa a lhe dar dores de cabeça.
As duas não mais trocam palavra, principalmente porque a professora lhes convoca a darem atenção à sua aula.
Chega a hora do intervalo.
— Manu, você gostaria de ir lanchar comigo e com o Fábio. Ele me convidou... eu aceitei porque fiquei com um pouco de pena, afinal é o primeiro dia dele aqui. Não há quem ele possa convidar, até que se enturme e faça novas amizades. Bom, nós marcamos de nos encontrar no quiosque que fica perto do pátio central... E aí, você quer ir? — Vicky convida, sentindo necessidade de fazer isso. Quer deixar claro que não vê o primo com olhos de malícia.
— Não mesmo! Se você quer ficar amparando o seu primo como se ele fosse um neném desprotegido... o azar é seu. Não me inclua nisso! — Mais um vez a expressão de Manu é de pura irritação.
Vicky resigna-se e, mesmo sem vontade alguma, vai encontrar-se com Fábio no local escolhido para lancharem.
Todavia, depois que Vicky sai da sala, Manu não resiste à tentação e termina por segui-la de longe. Fica só observando a cena que lhe parece um filme de terror. Se ela já estava com raiva por ter visto o rapaz cumprimentar a morena com exagerado entusiasmo, agora a coisa piora dez mil vezez, visto que presencia quando o rapaz bonito de olhos amarelados passa o braço pelos ombros de Vicky e eles caminham pelo pátio, como se fossem um casal. Manu sente vontade de ir até eles, retirar a pata de cachorro sarnento de cima dela e esbofetear o garoto atrevido até vê-lo desmaiar. No entanto, tudo o que faz é voltar para a sala de aula e ficar remoendo sua fúria até que termine o intervalo, ou melhor, até que chegue a ocasião de voltar para a república, visto que não vê a hora de ter fim esta tortura, pelo menos por hoje.
Dessa forma, quando recomeça a aula e outro professor adentra o recinto para ministrar sua respectiva disciplina, Manu permanece muda, surda e quase cega ao movimento e informações do ensino que está sendo repassado. Vicky também fica calada e parece estar nervosa, lançando olhares de soslaio para a ruiva atrás de si, sem saber ao certo o que ela está sentindo ou pensando.
O tempo para as ex-namoradas transcorre numa lentidão agonizante, enquanto, hora em vez, elas olham para o relógio na parede acima da porta de entrada da sala de aula, rezando para a sirene ecoar seu som, indicando o fim do dia letivo. Entretanto, quando isso ocorre, somente Vicky levanta-se, após ter fechado o livro e reunido os seus pertences de estudo, pois a ruiva permanece sentada com expressão um pouco distraída e agastada, mesmo vendo diversos alunos saindo e outros se aprontando para imitá-los.
— Manu. Ei... Manu! Você não ouviu? A sirene tocou! É hora de irmos. — Vicky alerta-a, estranhando que ela não manifeste qualquer ação.
— É claro que eu ouvi. Não estou surda! — responde, abrasiva, e quando percebe que foi por demais evidente em sua raiva, tenta disfarçar um pouco. Respira fundo. — Olha... pode ir indo para a república porque eu vou ficar aqui mais uns minutos. Eu não terminei de anotar o conteúdo que o professor pôs no quadro.
— Tudo bem. Se você quiser, eu posso te esperar. — Vicky mostra intenção de recolocar seu material na estreita mesa de estudo.
— Não! Prefiro que você vá logo... não preciso que me espere. Pode ir. Quem sabe no caminho você topa novamente com o seu primo... e eu não quero atrapalhar o bate-papo agradável de vocês. — Mais uma vez a ruiva sente vontade de morder a própria língua, por não conseguir contê-la.
Não vendo outra alternativa, Vicky prende seu material escolar entre os braços meio trêmulos e sai da sala de aula, deixando Manu entregue às suas próprias amarguras.
Manu só inventou a desculpa por estar muito chateada e não querer ir caminhando, lado a lado, com Vicky de volta à república, visto ser ela, neste minuto, a principal causa de seu agastamento. Portanto, quando a percebe longínqua o suficiente, põe-se também na direção da casa.
Ao chegar à república, Vicky depressa deposita seu material escolar em cima da cômoda e se encaminha para a suíte do quarto de Louise a fim de tomar um relaxante banho, porque sente o corpo fraco e suado, necessitando repor as energias, nem que seja por meio de uma ducha cálida. Ao terminar o banho, porém, ela percebe que se esqueceu de, anteriormente, ir buscar suas vestes limpas na cômoda que fica no seu antigo quarto. Sem opção, ela anda até o outro recinto, coberta somente pela toalha amarela, em pingas d’água a cair ali e acolá, até mesmo de seus cabelos molhados. Assim que adentra o quarto, entretanto, leva um susto, pois dá de cara com Manu, que está sentada na cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos em punhos semicerrados, postos em cada lado de seu rosto, amparando o alvo queixo, contraído pela irritação.
A ruiva igualmente se espanta um pouco com a repentina presença de Vicky, mas disfarça e permite que ela ande pelo quarto, enquanto fica olhando-a com expressão enigmática. Quando a morena passa por ela, espalha no ar o aroma de pele lavada e fresca. Manu experimenta uma perturbação mental que a faz agir de forma inconsequente, totalmente impulsiva. Ela vai à porta e a fecha por dentro com a chave, que retira do trinco e a mantém segura em sua mão, enquanto a respiração torna-se densa e os olhos ameaçadores.
— Manu... o que você pensa que está fazendo? Por que fechou a porta? — O coração de Vicky começa a acelerar rapidamente. Não sabe o que pensar, pois foi pega desprevenida.
— O que eu penso não! O que você pensa que está fazendo? O que é que tá rolando entre você e esse seu... primo? Ou você é tão idiota que não percebeu o que ele pretende conseguir de você? — Manu praticamente vira um monstro indo para cima de Vicky e a arrostando com determinação.
— Não, Manu! Não é nada disso que você tá pensando. Ele só está sendo legal comigo, simpático... Ele veio transferido para a nossa faculdade e ainda não conhece muita gente. É natural que aja assim. Não tá rolando absolutamente nada! — sente-se mais agoniada ao perceber o que a ruiva está imaginando.
— Então você é uma idiota mesmo! Desperta pra vida, garota! Ele quer te comer, como todo homem faz quando tem uma prima bonita, gostosinha e disponível pra isso! — vai aproximando-se de Vicky e a deixando mais e mais aflita com tais acusações cheias de devassidão.
— Por favor, para com isso! Me dá essa chave... Não quero discutir isso com você. Eu só quero sair daqui! — Vicky exige, segurando a vontade de chorar, ao lembrar que sua família está quase a entregando numa bandeja prateada para o seu primo e que ela está cedendo aos caprichos dela, por não ter forças que a ajudem a desobrigar-se de tal sacrifício.
— Quer a chave? Então vem tirar de mim... se for capaz! — Manu faz o impensado, enfia a chave no meio dos seios, por dentro da camisa baby look em tom de azul-escuro que está vestindo e direciona olhos desafiadores para Vicky.
Vicky fica olhando para ela sem crer em seus atos impetuosos. Com efeito, sente-se confusa e um pouco estática. Mas, simultaneamente, experimenta um prazer oculto por ver a ruiva em despontas de ciúmes, sente vontade de instigá-la ainda mais.
— O que será que aquela garota com quem você tá saindo agora vai achar... quando souber que você está cobrando ciúmes do que não te pertence mais? — Mesmo nervosa, aflita e assustada, Vicky dá uns passos na direção da ruiva, encarando-a.
Caso existisse um resquício de autocontrole em Manu, este se esvai no momento em que Vicky lhe faz a pergunta incômoda. Ela a puxa pelo antebraço com agressividade e a empurra, girando o corpo de Vicky, fazendo-a bater com as costas contra a porta fechada, sem lhe dar chance de opor resistência. Tendo-a sob seu domínio, Manu faz o que há dias estava com vontade e não lhe era consentido. Ela cola seu corpo ao da morena, esfregando-se de modo ousado, aspirando-lhe o cheiro da pele molhada onde o nariz e a boca alcançam, ao passo que a prende mais a si. Enfia o rosto com gosto entre os seios volumosos, na fresta generosa, através da toalha, e no pescoço, por onde trilha um mordiscar e chupar, arrancando-lhe gemidos involuntários. Percebendo que já está quase garantindo seu objetivo, ela agrava as carícias. Enquanto uma mão permanece presa ao pescoço moreno e cheiroso, a outra desce, sem constrangimento algum, adentra pelo meio das pernas inquietas e agora em evidente excitação, levantando um pouco a toalha pelo caminho e tendo algum frágil refreamento advindo da mão de Vicky que ainda, num lampejo de lucidez, tenta impedi-la de alcançar sua intimidade. No entanto, Manu é mais forte e decidida, pois continua invadindo e invadindo, sem decência ou noção de limite, até que encontra o monte púbico, que encobre as duas dobras de pele. E, quando ela toca o clitóris úmido e pulsante, imediatamente Vicky solta outro gemido mais intenso, sobretudo porque a ruiva faz questão de tocar e esfregar os dedos com requinte premeditado, abrindo-lhe descaradamente em busca dos finos lábios com suas terminações nervosas e glândulas secretoras, liberando na morena sensações incríveis de prazer, ao estimular o seu ponto sensível, apalpando e friccionando de acordo com seu desejo, mostrando-se mesmo ágil e metódica. Contudo, antes de promover o esperado orgasmo, Manu aproxima-se e encosta a boca na orelha de Vicky.
— Isso aqui nunca deixou de ser meu. — Com frieza, ela a solta, retira a chave de entre os seios, abre a porta e empurra Vicky para o lado com grosseria, quase a fazendo e ir ao chão, tamanha atitude ríspida, deixando-a com cara de total choque, boquiaberta. Mas, ao invés de sair prontamente, Manu torna a olhá-la, desta vez com desprezo e ira. — Pra início de papo... Lave a sua boca antes de tocar no nome da Dayse. E depois... agora quem cansou fui eu! Eu cansei da sua covardia... da sua falta de amor próprio e de sonhar que um dia você mudaria por mim. Eu só lamento ter que te ver dando uma de hétero por aí com o seu primo a tiracolo... — Ela sente uma pequena trava na garganta. — Porque eu sei que um dia você vai acordar para sua realidade e talvez seja muito tarde... você vai estar casada, com filhos e muito infeliz... porque não passa de uma covarde!
Com olhos lacrimosos e furiosos, Manu sai do quarto, abandonando Vicky, deixando-a a mercê das duras palavras que acabara de lhe dizer.
Vicky sente-se transportada a um inferno ainda mais doloroso do que antes, visto que agora Manu deixou claro que as chances de um dia elas se acertarem novamente são mínimas. E a verdade é que, em seu interior, Vicky nunca quis encarar os fatos com limpidez de ideias, ao contrário, enfiou-se num mundo fantástico e ilusório, onde o amor delas seria uma fortaleza inabalável, isso apesar de a ruiva estar saindo com outra garota, pois em seus devaneios amorosos, ela seria a única garota amada por Manu. Contudo, ao relembrar os gélidos olhos da ruiva, enquanto ela lhe jogava verdades sem qualquer delicadeza ou piedade, Vicky cai em si e vê o quanto as coisas mudaram e como a sua existência é patética, especialmente por estar consciente de ser a única culpada disso. Assim, ela chora e chora muito, repassando mentalmente cada palavra, cada gesto e expressão facial utilizados por sua querida Manu para lhe ofender profundamente. Os soluços e a fraqueza no corpo são tamanhas que Vicky experimenta uma leve tontura, obrigando-a a reclinar-se na parede para não desmoronar de vez. Neste canto de parede, permanecerá uns incontáveis minutos, até que consiga ao menos reunir forças para voltar a encarar suas colegas de república, em especial, Manu e, essencialmente, a si mesma.
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