[HIATUS] Mudanças impuras
6 O acordo
Notas iniciais
Lavínia está deitada na cama, abraçada a uma almofada, olhando o céu através da fresta das cortinas da janela envidraçada e observando a noite chegar. Ainda chora, só que não mais compulsivamente, mas sim um choro lento, já que sente o corpo fraco, pesado.
A porta se abre e é outra vez Frida.
A senhora vem para trazer-lhe a última refeição do dia. Ela busca o interruptor para acender a luz, mas se detém ao perceber a garota deitada na cama, muito quieta. Contenta-se, então, em enxergar apenas através da escassa iluminação proporcionada pela janela de vidro, que está com as cortinas semicerradas. Chega a pensar que Lavínia dorme, porém, apurando um pouco mais a vista, constata que não. Nota ainda que a comida do almoço não fora tocada. Somente a água da jarra é que não está mais lá.
Ela pega a bandeja antiga substituindo-a pela nova e, antes de se retirar novamente, olha para Lavínia sentindo comoção por vê-la tão indefesa, tão frágil. “Ela se parece com...” Obriga-se a não completar o pensamento, pois isso lhe traria mágoas que prefere deixar no passado, pelo menos, por enquanto. Abre e fecha a porta com suas chaves, ajeita melhor a bandeja, admitindo intimamente ser mesmo uma tremenda dificuldade equilibrá-la e, ao mesmo tempo, ter de segurar a maldita arma. “Como se eu tivesse coragem de atirar nela. Imagina! Mas espero que ela nunca perceba isso, caso contrário, nem sei o que aconteceria.”
Frida caminha pelo corredor e alcança as escadas. Desce. Já está passando pela sala quando ouve o conhecido barulho do motor do carro de Henry, que se aproxima da casa.
Continua caminhando.
Na cozinha, ela deposita a bandeja em um canto da pia.
— Henry! — chama em tom alterado, ao perceber que ele já havia entrado pela porta da frente.
Henry aparece em segundos.
Ao vê-lo, Frida não evita achá-lo abatido. Supõe, contudo, que ela própria esteja a apresentar o mesmo aspecto. Ambos estão sofrendo de igual expiação e esgotamento.
— Me chamou? — mostra-se desconfiado.
— É que... Ela... Bem... — Frida não sabe ao certo o que dizer.
— O que é que tem ela? Não quis comer? Te ofendeu? Implorou por ajuda? O que houve? — Não gosta da expressão algo aflita no rosto dela.
— Sim... quero dizer... é que... — gesticula com os braços no ar como quem busca a melhor forma de expor o que pensa. — De manhã, fiz exatamente como você me orientou, eu entrei lá e tentei ser o mais rápida possível, não dei tempo pra ela falar nada. Só deixei a bandeja com o café da manhã e saí. Mais tarde eu voltei com a comida do almoço, fiquei até surpresa quando vi que ela tinha aceitado bem o café da manhã, que tava banhada e tinha vestido outra roupa... mas, então... — cala-se novamente, deixando Henry cada vez mais curioso.
— Então o quê?
— Ela começou a puxar assunto, dizendo que o pai é rico e coisa e tal. Ela achou que eu estivesse aqui por causa do dinheiro, eu cortei logo o papo e saí...
— Certo, mas tudo o que você falou até agora não foi novidade alguma, não é? Nós já prevíamos que ela tentaria muitas coisas, inclusive te comprar. Por que então você tá com essa cara de enterro? — Mas Henry conhece muito bem a sua “mãe postiça” para saber qual é a resposta.
— Ai... Henry! Você já deu uma boa olhada nessa menina? Meu Deus! Ela não vai aguentar! Ela vai pirar quando começarmos a jogar toda essa sujeira em cima dela. — morde o lábio inferior, segura as lágrimas e respira fundo. — Agora, poucos minutos atrás... eu fui lá deixar a janta, mas eu vi que ela nem tinha tocado no almoço.
— Olha, Frida, nós já sabíamos que não seria fácil pra ninguém e principalmente pra ela. — fala em tom professoral, como se estivesse ensinando um estudante a entender um conteúdo, ao passo que lhe segura pelos ombros suavemente, mantendo contato visual firme. — Eu entendo a sua agonia, mas peço que você não perca o foco. Ela vai aguentar sim, eu sei que ela é mais forte do que aparenta, eu sei. — anuncia as últimas palavras parecendo direcioná-las mais para si mesmo. Dá-lhe um beijo casto na testa e volta a lhe olhar. — Tem que ser assim. Você, mais do que ninguém, deveria compreender isso. Eu não vou desistir e nem vou permitir que você desista ou que atrapalhe os nossos planos. — arremata, afaga de novo seus ombros, ao observá-la menos exasperada, solta-a e caminha para a saída da cozinha.
Por um ínfimo momento, Frida sente vontade de dizer abertamente que os planos que ele anuncia como se fossem dos dois são, na verdade, somente dele, embora ela se submeta a eles com resignação.
— Vai falar com ela... agora? — pergunta com a testa enrugada seguindo-o e ficando parada na divisória entre a cozinha e a sala, enquanto o vê avançar com agilidade alguns lanços da escada.
Ele, por seu lado, finge não a escutar e continua seguro no seu passo.
“É claro que sim! Estou louco para vê-la. Meu dia foi horrível, não consegui me concentrar em nada direito lá na empresa”, admite mentalmente. Tudo o ele que tem em mente é Lavínia em sua casa, trancafiada num quarto, bem como a lembrança da sua expressão de surpresa e pavor, quando percebeu que ele a havia ludibriado usando identidade e aparência, ambas falsas, para atraí-la a uma armadilha na qual ela será parte de um plano para aniquilar o seu estimado pai.
“Imagina quando ela souber do resto.” Henry balança a cabeça, afastando da mente tal pensamento, antes de tirar do bolso as chaves e abrir a porta do quarto dela.
Ao contrário do que fizera Frida, ele vai logo procurando o interruptor para acender a luz, sem se importar em incomodar o sossego de Lavínia.
Ela se encontra agora sentada à cabeceira da cama, abraçada não mais à almofada, e sim às próprias pernas, tendo a cabeça repousada entre os joelhos, deixando ver grande parte dos cabelos loiros e longos, que se espalham e cobrem parte do seu corpo esguio.
Mesmo estando absorta em suas reflexões funestas, Lavínia escuta a porta ser aberta e nem se dá ao trabalho de olhar na direção, pois acredita que é Frida trazendo-lhe qualquer outra coisa. No momento, sente-se fraca demais para discutir com ela sobre o quão criminoso é o homem que a trouxera àquele lugar contra a sua vontade. Está mesmo tão distraída que nem percebe os passos se aproximando da cama.
Lavínia assusta-se quando, por fim, sente alguém se sentando à sua frente. Levanta o rosto e dá de cara com dois olhos de um azul intenso a espreitá-la de forma inquietantemente cobiçosa. Não consegue emitir qualquer palavra. Apenas tenta afastar-se dele, ir para o lado.
Henry impede-a no ato, segura-a pelo braço com uma mão invadindo a parte rente à sua axila direita, enquanto a outra mão adentra por seus cabelos, entrelaçando dedos firmes como ganchos de ferro na base da sua nuca, fazendo com que as costas dela topem na cabeceira da cama e ela, mantenha-se aprisionada fisicamente e ao seu olhar.
Nesse ínterim, ele também nada esboça de palavras, tão-somente aumenta a pressão a cada tentativa dela de se esquivar, forçando-a a lhe olhar diretamente. Seus olhos azuis brilham de forma singular enquanto se conectam aos violáceos dela.
Ao experimentar tal contato coercitivo, Lavínia sente um arrepio lhe trespassar o corpo. Tudo lhe parece irreal, como parte de um sonho bizarro. Ela fecha os olhos e, quando voltar a abri-los, sente-os lacrimejantes. Sabe que está visivelmente sobressaltada, assustada com o olhar penetrante de Henry, que parece mesmo querer invadi-la, consumi-la só com os olhos.
Lavínia tem mesmo a sensação de estar sob um tipo de transe hipnótico que a imobiliza de forma grave. Seu coração está acelerado e ela já respira de forma pesada.
Henry vai aproximando mais e mais o rosto, vagarosamente, até poder sentir-lhe a respiração descompassada. O olhar dele se desvia para a boca bem-feita entreaberta que solta débeis ofegos nervosos. Ele umedece o lábio inferior com a língua, como se estivesse diante de uma comida realmente saborosa. Então, sem pedir licença, cola os lábios nos dela.
Empreendendo, enfim, alguma reação, Lavínia ergue o braço que está livre e coloca a mão com o punho cerrado no peito dele, na intenção de empurrá-lo. Porém, não consegue ser firme o suficiente. Tenta ainda manter a boca fechada, mas até nisso fracassa, pois os lábios de Henry se movimentam sobre os seus fazendo pressão, induzindo-a a abri-los e, com força e persistência, ele obtém sucesso na sua investida.
Não demora para Lavínia experimentar a invasão da língua de Henry. De novo, ela busca libertar-se, não corresponder a esse beijo roubado e lascivo. Agita-se, vira um pouco o rosto e emite um gemido sofrido.
Henry torna a lhe capturar os lábios. Sem se refrear por nada, ele aprofunda mais a carícia, guiando outra vez a língua para sempre friccionar a dela.
As ideias na mente de Lavínia ficam embaralhadas. Nunca antes ela teve que vivenciar uma situação assim, nunca precisou mostrar o seu lado agressivo-defensivo e, efetivamente, nunca foi beijada com tamanha exigência, posse e intimidade, ou melhor, nunca nenhum homem a subjugou desta maneira. É-lhe tudo incomum e absurdo. Apesar disso, há outra coisa, também muito perturbadora. Lavínia é inevitavelmente assaltada por um desejo maior que a sua razão. E este desejo, embora seja digno de lhe causar imensa vergonha, é inegavelmente forte, instintivo. Não podendo mais resistir a ele, deixa-se levar como uma derrotada que, após travar uma batalha injusta, suja e cruel, teve todas as chances de fuga esgotadas.
Henry percebe-a enfraquecida, não mais impondo resistência, mas ele prossegue deleitando-se, movendo os lábios sobre os dela com a língua a lhe invadir a cavidade úmida em agitação para obter alguma reação da língua que, como a dona, prefere agora tentar opor-se a ele por meio da inércia.
Somente depois de uns bons segundos é que ele, aos poucos, afrouxa a pressão à nuca e ao braço dela, e diminui os movimentos do beijo, até se afastar, sem soltá-la completamente.
Enquanto seus olhares voltam a se encontrar, eles ofegam bastante.
Henry exibe uma expressão embevecida, ao mesmo tempo em que passa a língua nos próprios lábios como quem suga até o último néctar que resta neles.
— Desculpa... — murmura, quebrando o silêncio. — Eu sei que não vai fazer sentido o que eu vou te dizer, Lavínia... mas vou dizer mesmo assim. Eu fiz o que fiz, mesmo sabendo que era inadequado... porque eu não resisti. Eu esperei tanto, tanto tempo, pra ter você comigo... que eu quase não consigo acreditar que esteja aqui.
Confusa, afoita, corada e totalmente constrangida, inclusive com raiva de si mesma, por fim, Lavínia consegue empurrá-lo. Vai para a outra ponta da cama e se agarra de novo à almofada. Está com o coração batendo rápido e as faces, bastante coradas.
— Esperou?! Que loucura é essa? Eu... eu não entendo! O que isso si-significa? Por que acha que po-pode me beijar dessa forma??? O que você quer de mim??? — esbraveja com plena irritação.
Henry suspira fundo e se levanta, pondo outra vez de frente para elab.
— Ok, é normal que fique assim, muito chateada e confusa. Mas, se serve de algum consolo, saiba que eu não vim até aqui para isso, só... aconteceu. — observa-a menear a cabeça, incrédula, e manter a expressão de raiva. Torna a suspirar. — Escute, Lavínia, na verdade, eu vim te fazer uma proposta.
Lavínia permanece calada apertando a almofada contra seu peito. Mas, ao fim de uns segundos, olha de modo enviesado para ele.
— Que proposta? — Vencida pela curiosidade, pergunta.
— É o seguinte: se você comer aquela comida ali que a Frida te trouxe... — aponta na direção da mesa de madeira sobre a qual está a bandeja com a janta. — eu te conto algo que eu acho importante você saber no momento.
Ela fica indecisa novamente, no entanto, após alguma nova ponderação, coloca o travesseiro de lado, levanta-se, anda e pega da bandeja o prato com a comida, que já não está tão quente, e também o garfo e a faca. Volta para a cama e se põe a comer, sem olhar para Henry.
Ainda em pé, Henry observa-a, com os braços cruzados, sustentando um semblante meio austero.
Quando ela termina a refeição, faz o processo inverso, devolve o prato com o garfo e a faca à bandeja. Derrama água num copo, bebe um pouco. Retorna à cama. Senta-se e olha para ele.
— Sua vez. — intima-o a cumprir o acordo.
Henry descruza os braços e passa a mão pelo cabelo, algo agitado.
— Antes, eu preciso deixar claro que eu sei o quanto vai magoar o que eu vou te dizer. Porém, por outro lado, é a chance que eu tenho pra te fazer ver que o monstro nessa história não sou eu... ou melhor, não sou apenas eu. — volta a puxar o ar aos pulmões. — Bem... muitos anos atrás, antes de eu nascer, e você também, o seu pai, o senhor Gregory Albuquerque e o meu, Mathias Sorelle, eram sócios e trabalhavam na mesma empresa... onde, aliás, o seu pai trabalha até hoje. Eles se davam bem, eram até amigos. Um dia, a secretária do seu pai pediu demissão e a vaga foi ocupada por uma mulher chamada Abigail. O meu pai uma vez me disse que ficou completamente fascinado e se apaixonou por ela assim que a viu. O tempo passou, eles iniciaram um namoro. Na primeira oportunidade, ele a pediu em casamento e ela só impôs uma condição, que ele acolhesse também a sua melhor amiga, Frida... que seria uma espécie de governanta na casa deles. Ele aceitou, mas exigiu que ela largasse o emprego, pois queria que ela se dedicasse só a ele, ao lar e, mais adiante, aos filhos. Assim ficou estabelecido que seria. Então eles se casaram. No início tudo ia bem, até que a Abigail começou a ter... umas saídas misteriosas...
Henry interrompe a narrativa, como se estivesse forçando a memória a recuperar o que ele sabe e o que ouvira dos relatos de seu pai e da própria Frida.
Ele continua:
— Na empresa, o meu pai passou a ser alvo de comentários maldosos. Todos diziam que a mulher dele, a bela e sedutora Abigail, era amante do ex-chefe dela, o senhor Gregory Albuquerque, que também era casado. — nota a expressão de Lavínia se alterando. — Em casa, as brigas estavam apenas começando. Quando minha mãe engravidou, o meu pai duvidou da paternidade. Mas quando eu nasci e as pessoas notaram as semelhanças evidentes entre mim e ele, ele também notou, viu que eu era, sim, seu filho. Ele ficou feliz, também porque ela parou de arranjar de sair de casa, parecia mais tranquila e reservada ao lar. Isso demorou um bom tempo. Mas depois ela voltou a sair. E já não ligava mais em ser discreta, saía sem dizer pra onde... ou com quem ia se encontrar. Ele, sem saber como fazer a Abigail parar de se comportar assim, começou a jogar e a beber para afogar a mágoa. Na empresa, a amizade entre o seu pai e o meu estava totalmente arruinada, eles não trocavam mais nem duas palavras, se não fosse algo de extrema necessidade, por conta do trabalho. De qualquer forma, o meu pai tentou segurar a frustração e a raiva que consumiam ele dia a dia, porque ele ainda alimentava a esperança de que tudo não passava de um equívoco, de que a sua querida esposa estava apenas vivendo uma fase complicada de estresse, de rebeldia ou algo do tipo. O que ele não podia prever é que as coisas iam ficar piores, bem piores. Jamais passou pela cabeça dele que ela o abandonaria, que abandonaria tudo. Mas foi exatamente isso o que ela fez. Eu tinha acabado de completar nove anos, quando vi a minha mãe sair de casa, com algumas malas nas mãos, pra ir embora e não mais voltar. E, obviamente, as coisas foram de mal a pior. O meu pai passou a beber e a jogar todos os dias, ia trabalhar bêbado e chegava em casa mais bêbado ainda. Às vezes, ele me acordava, só pra me dizer que minha mãe era uma puta sem vergonha, que ela tinha um caso com um homem casado, que não nos amava e que nunca mais voltaria. Quando eu sentia que não podia mais suportar aquilo, eu corria pros braços da Frida, que continuava morando conosco. A Frida sempre me consolava dizendo que ela voltaria, sim, para nos buscar, que nós iríamos morar com ela... que eu deveria ter paciência. Mas o que sabe uma criança de nove anos? Eu só queria a minha mãe comigo e uma família normal...
Novamente Henry detém o discurso, mostra-se afetado.
— É...só que nada ficou normal. — lastima. — O meu pai piorou muito, até que ele foi intimado a participar de uma reunião, na qual os demais sócios, entre eles o senhor Gregory Albuquerque, anunciaram que o meu pai deveria se afastar da empresa, pois o seu acúmulo de dívidas e o seu comportamento indevido estavam prejudicando o desempenho dele no trabalho e isso não seria mais tolerado. Ou seja, ele foi sumariamente demitido. Uma semana depois disso... eu vi o meu pai entrar pela porta da frente da nossa casa com a expressão de derrota estampada na cara, provavelmente por ter sido recusado em uma nova tentativa de voltar ao mercado de trabalho. Ele nem me notou sentado no sofá, vendo TV, passou direto, foi pro quarto dele. Minutos depois, eu escutei um barulho e corri. Aí eu vi. Ele tava caído no chão com sangue saindo da cabeça. A Frida ainda tentou tapar os meus olhos, mas era tarde... eu sabia que ele tinha se matado.
Completamente alarmada, Lavínia ainda busca processar as informações, com a mão na boca entreaberta.
De repente, ela meneia a cabeça a partir de uma negação ferrenha.
— Mentira... mentira! Mentira!!! O meu pai e a sua mãe... amantes? Não, não mesmo! — põe-se de pé e passa a caminhar de um lado a outro. Sua inquietação evidencia que está muito abalada. — O... o que pensa que está fazendo? Você não... não pode ficar so-soltando calúnias assim, não pode!!! Se essa sua história é me-mesmo verdade, então por que, por exemplo, quando atingiu idade su-suficiente, não comprou uma arma e deu um jeito de... de acabar com a vida do meu pai... pra pagar na mesma mo-moeda, já que a sua ra-raiva por ele era tão grande? — sente um misto de confiança em sua análise e um arrepio por tal pensamento. — Pelo que eu pu-pude ver até agora... você seria capaz de cometer um crime mais sério, como esse... pois já provou que é muito esperto em se di-disfarçar e assumir uma identidade falsa. Então por que esperar tanto tempo? Por que toda essa palhaçada agora???
A expressão de Henry muda, ele franze o cenho, seus olhos se comprimem quase se fechando, exibindo uma chama de fúria, enquanto os punhos se cerram e as unhas se cravam na pele da palma da mão.
— Sim, eu não nego que já pensei em simplesmente matar e me livrar de uma vez por todas do responsável pela destruição da minha família. Mas logo eu me dei conta de que a morte desse canalha seria muito pouco! — assevera sentindo a ira aumentar. — Ele me tirou tudo, tudo!!! Me tirou a minha mãe, o meu pai e... — estanca, puxa o ar com força aos pulmões. Olha-a. — Ele me tirou, Lavínia, a chance de ter uma família normal e feliz. Então eu quero que ele sofra, que se sinta perdido, derrotado, sem rumo... Só depois é que eu posso desejar que ele morra.
Ao escutar a resposta cortante e fria, Lavínia experimenta maior aflição, uma vontade enorme de ir ao encontro do seu pai para ele abrigá-la em um abraço aconchegante e lhe dizer que tudo vai ficar bem, como fazia quando sua mãe a atormentava por qualquer motivo. Seu pai sempre foi o seu porto-seguro, a pessoa em quem ela devotava toda a confiança do mundo. Por esta razão, Lavínia envia a Henry um olhar de súplica, já sentindo lágrimas rolarem por seu rosto.
— Não, não... não.. Oh, Deus, não! Henry, não fale assim! Por favor, por favor... não... não faça nada contra o meu pai, eu imploro! Ele é meu pai, é meu pai! Entenda, tudo o que você diz... é absurdo, sem lógica... talvez haja um engano! Você de-deve estar vendo o que houve pelo lado errado! Olha, o meu pai é um... homem bom, ele é incapaz de pr-prejudicar qualquer pessoa. Eu juro, eu juro... acredite, por favor! Ele sempre foi um pai maravilhoso pra mim... e eu não po-posso ficar parada enquanto você faz ameaças a ele! Se... se você quer tanto sa-saciar a sua sede por vingança, desconte em mim! Me mate, se quiser! Me mate! Eu prefiro isso.. a ver o meu pai sendo vi-vítima... de um ódio tão corrosivo! Tão horrível!!!
Lavínia desaba em lágrimas, pondo as mãos sobre o rosto, enquanto é invadida por um turbilhão de emoções, especialmente por supor que Henry esteja, de fato, contaminado até à alma de puro ódio pelo pai dela.
Ao vê-la chorando desconsoladamente, Henry é afetado. Aproxima-se.
— Lavínia... — põe as duas mãos sobre os ombros trêmulos dela.
Como se tomasse um choque de repente, Lavínia esquiva-se para trás, ao mesmo tempo em que afasta de si as mãos dele e lhe olha por meio de um olhar totalmente amargurado. Contudo, não suportando manter um contato visual, ela vira o rosto e volta a chorar.
— Se você soubesse o que significa pra mim, se compreendesse que... apesar de tudo, mesmo sendo eu a te causar toda essa dor que eu sei que você tá sentindo, seria mais fácil eu deixar que me arrancassem sangue do corpo a te ver chorar assim... — Ele estica o braço e, num movimento espontâneo, coloca a mão sobre o rosto molhado de lágrimas dela, fazendo-a lhe olhar. — Eu queria poder te proteger dessa dor, desse sofrimento, porque... você é muito importante pra mim, Lavínia, mais do que possa imaginar. — diz num sussurro rouco.
A voz grave dele revela as palavras desnorteadoras que soam como um presságio amedrontador para Lavínia.
Ela esquiva o rosto libertando-o da mão de Henry e torna a fugir do seu olhar.
No entanto, Lavínia pressente quando Henry anda lentamente afastando-se sempre mais dela, até abrir a porta do quarto e se retirar de maneira silenciosa, deixando-a perdida, confusa, sentindo-se desolada, como nunca antes em toda a sua vida.
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