[HIATUS] Mudanças impuras
50 No cair da chuva (Parte 1)
Notas iniciais
A tarde deste sábado exibe um céu repleto de nuvens cinzentas, prenunciando que a chuvinha tênue que começa a cair, tornar-se-á forte e constante, alongando-se pelo resto do dia, provavelmente.
Na república das garotas, os minutos avançam para mais de meio-dia.
Lavínia está deitada em sua cama, conversando com Louise, que se encontra sentada ao seu lado, já arrumada e devidamente pronta para ir à faculdade.
— Não vai mesmo, Vivi? — pergunta apenas para se certificar.
— Não, não vou... Tô morrendo de sono, tudo o que eu quero é aproveitar o tempo chuvoso e dormir a tarde inteira, pra tirar essa sensação de ressaca do meu corpo... — boceja e espreme os olhos, tentando mantê-los abertos. — Eu já te disse que a minha mãe me ligou hoje cedo, me chamando urgente... querendo que eu me juntasse a ela pra dar apoio ao papai, durante a entrevista que ele daria... Não tinha como eu dizer não, eu precisava ir, mas eu não pude descansar nada porque, como sempre, cheguei da boate de madrugada e acho que dormi, no máximo, quatro horas.
— Puxa! Você deve estar quebrada mesmo. Mas valeu a pena o sacrifício, né? Pois, pelo que você me falou, eu acho que as coisas para a sua família estão realmente se ajeitando muito bem... E essa fofoca sobre o suposto estupro não irá demorar tanto assim para ser esquecida. — Subitamente, Louise ri mostrando-se cômica, zombeteira. — Ai, Vivi, imagina a cara que o Henry vai fazer quando descobrir que não conseguiu te colocar contra o seu pai... que, na verdade, você está muito feliz e em harmonia com ele e que, portanto, o mirabolante plano de vingança pra destruir o seu pai foi em vão, um fracasso... Ou talvez ele tenha assistido à reportagem e já saiba. Que demais! Espero que ele morra se roendo com o próprio veneno.
— Hum... Não quero pensar nisso, Lou... Por favor, não estraga o meu sono! — queixa-se, melindrosa, a loira, mudando de posição para a de lado, na cama, enquanto ajusta a cabeça no travesseiro macio e aperta o outro contra seu busto, abraçando-o e fechando os olhos.
— Fugir do assunto não vai fazer ele desaparecer, Vivi. — Louise ergue-se da cama, pega a sua bolsa que está sobre a cômoda e a coloca no ombro. — Falando em fugir... E o Pietro? Já avisou pra ele que você não vai pra faculdade hoje? Amiga, não faz pouco caso do seu namorado não, ele é maravilhoso, gentil e tá na cara que está cegamente apaixonado por você... por isso ele merece que você lhe dê mais atenção.
Lavínia respira pesadamente, reabre os olhos e os põe sobre Louise, e sua expressão é de agastamento e alguma ironia.
— Você é ótima dando conselhos, não é Lou? Eu a-agradeço, respeito a sua opinião e busco refletir sempre sobre o que você me fala.... E, sim, depois eu ligo para o Pietro e lhe explico por que faltei... Mas e quanto a você? Consegue seguir algum conselho que eu te dou? Quando vai conversar com o Dico e contar pra ele que você está grávida? — Ainda deitada, a loira somente arqueia um pouco o queixo e lhe envia as questões.
— Pra você ver que eu também te escuto, Vivi, saiba que eu e o Dico teremos essa conversa importante hoje, depois das aulas. Eu serei justa e não farei nada sem comunicar a ele antes, como você me pediu que eu fizesse... Porém, não pense que eu vou mudar de ideia, porque a minha decisão já foi tomada. — passa a mão nos cabelos lisos e curtos, olha-se no espelho de parede logo adiante, e torna a olhar para a loira. — Agora eu preciso ir, senão me atraso para a primeira aula.
— Vai lá, amiga... e, por favor, não se precipite. Não vá colocar em risco a boa relação que há entre você e o Dico, porque é óbvio também que ele te ama muito... está se esforçando, como pode, pra resolver a separação dele com a Míriam e ficar só com você. — Lavínia diz, tentando recorrer ao lado sentimental da outra.
Louise encaminha-se à porta, põe a mão sobre o trinco, girando-o e a abrindo, mas permanecendo imóvel por uns segundos, como quem pondera sobre as palavras da amiga. Em seguida, olha-a de novo, respira cansadamente.
— Quer saber? Nem sei se eu quero mais que ele faça isso, talvez seja melhor terminar tudo de uma vez... Não sei mesmo se quero continuar sendo essa pessoa apaixonada, fiel e boba... — conjectura, evidenciando sua instabilidade emocional e a vontade de se desfazer a todo custo do que a perturba. — Às vezes, eu acho que a minha vida era melhor antes... antes do Dico entrar nela.
Louise sai, deixando Lavínia com uma impressão bastante negativa, intuindo que o relacionamento de Louise e Dico passará por uma enorme provação e não há garantia de que sobreviva a tantos conflitos. Porém, a loira tenta apagar da sua mente qualquer motivo para lhe inquietar e atrapalhar o sono. Apenas vira-se outra vez na cama, procurando a melhor posição, mantendo-se ainda agarrada à sua querida e macia almofada lilás para, após alguns minutos, já estar dormindo profundamente, e este sono pesado irá durar até que o despertador do seu celular se ative e lhe acorde.
De todo modo, Lavínia não está sozinha na república, pois, embora Louise tenha saído, Vicky e Manu — que só precisará aprontar-se para ir à lanchonete a partir das três horas — estão consigo. A morena se encontra na cozinha, com um copo de vidro na mão, bebendo uns goles de água, experimentando também uma leve sonolência. O clima de chuva e frio sempre a faz ficar assim, inclusive, pensa que deve vestir outra roupa, pois a que usa agora não está ajudando a amenizar a friagem, uma vez que traja apenas blusa branca de algodão, de alcinha fina, sem sutiã, saia jeans, curta e surrada, e sandálias simples.
Ao terminar de ingerir o líquido, ela enxagua superficialmente o copo e, dando um sonoro bocejo, o deposita no aparador de louças. Neste instante, toma um grande susto, quando Manu, que se aproximava sem que ela percebesse, abraça-a por trás.
— Ai! Que susto, Manu! Não vi você chegar... — solta a respiração, que havia sido suspensa. Depressa sente o corpo se enervar, reagir e se avivar, porque Manu já a agarra de forma lasciva, enfiando a cabeça na curva do seu pescoço, cheirando-o com gosto e sem acanhamento, por baixo dos cachos longos e escuros.
— O dia tá maravilhoso pra amar... Vamos pro quarto? — cochicha ao seu ouvido, beijando e mordiscando a região abaixo dele, que mostra os pelos eriçados.
Súbito, vem à memória de Vicky uma cena como esta, que aconteceu quando ainda eram namoradas, o que a faz cair em si e entender que não pode deixar a ruiva usá-la ao seu bel-prazer, sobretudo, porque ela nunca cedeu a uma conversa esclarecedora depois da última vez que transaram. Portanto, precisa mostrar-se firme, caso contrário nada mudará, nada se resolverá. Esta é mais uma das dicas de Fábio, que lhe recomendou que soubesse reconhecer o momento de se impor para não se tornar uma simples bajuladora submissa da ex-namorada.
— Não! Me solta, Manu, para com isso! — reclama e se liberta, mas termina ficando de frente para ela, sentindo a pia aderida em si, por trás, um pouco acima de suas nádegas.
— Por quê? Qual é o problema? Eu sei que você tá a fim... — A ruiva volta a investir, querendo beijá-la na boca, mas, como ela vira o rosto, ataca-lhe de novo a garganta, deslizando uma mão atrevida para tocar nos seios volumosos, que ficam estimulados, com os bicos salientes, perceptíveis através da blusa de tecido fino de algodão, quando sentem os dedos massageando-os.
— Eu que tenho... que te perguntar qual é o seu problema. Você acha que é fácil assim? É só chegar e ir me agarrando para eu me derreter toda pra você? — A morena protesta, ofegante, lutando para afastar a ruiva de si. — Pra você é conveniente esquecer que tá namorando outra garota, porque assim pode ficar com as duas ao mesmo tempo, mas pra mim, não é... Então, me larga, sua pervertida, porque eu não vou ser a sua amante!
Manu, assim, interrompe as carícias, pois compreende que Vicky não está apenas bancando a difícil, ela está arisca, aborrecida de verdade.
— Relaxa, pô, não precisa ficar toda nervosinha assim... E pra sua informação, eu e a Dayse não estamos mais namorando, nós acabamos. — anuncia e oferece um sutil sorriso ao ver a cara pasmada de Vicky. Porém, quando volta a querer tocá-la, é novamente impedida.
— Você tá falando sério mesmo? Mas por que terminaram? Foi ela quem terminou ou foi você? — averigua, identificando algo estranho nesse repentino término de namoro.
Manu puxa o ar e o libera com força, resignada, sabendo que a partir de agora Vicky não a deixará em paz até satisfazer a sua curiosidade.
— Foi a Dayse quem terminou, Vicky. — encara-a francamente. — E você é a responsável por isso ter acontecido, mesmo que de forma indireta.
— Eu sou a responsável? Como assim? — Vicky ergue as sobrancelhas, surpreendida.
— Sim, porque você sempre esteve entre mim e a Dayse e ela percebeu isso... — aproxima-se outra vez, estende os braços e os põe um de cada lado nas bordas da pia, cercando Vicky, que se mantém atenta às suas palavras. — Percebeu que, embora eu gostasse dela, sentisse atração física, isso não era o suficiente pra ela se sentir satisfeita... entendeu que eu não conseguia retribuir os sentimentos dela com a mesma intensidade... porque é por você, Vicky, que o meu coração bate mais forte.
Vicky escuta o que ela diz, nota o seu olhar apaixonado, profundo, compreende as suas palavras e, apesar de ainda tentar ocultar o regozijo, não obtém sucesso nisso e acaba sorrindo. Entretanto, resolve solucionar a questão que de fato lhe interessa.
— Manu... então, você vai voltar pra mim? Vai ser minha namorada de novo, não vai? — Seus olhos estão grandes, negros e brilhantes e Manu reflete que é impossível não se atrair e se perder nestes belos olhos suplicantes de Vicky.
Entretanto, Manu não responde de imediato, prefere fazer um deleitoso suspense para torturar um pouco esta morena, que é a culpada por não ter conseguido devolver a Dayse o afeto íntegro que ela merecia, e merece. Assim, a ruiva se achega à boca semiaberta de Vicky e arrasta suavemente seus lábios nos dela, absorvendo o seu hálito fresco, depois segue para a bochecha até chegar outra vez ao seu ouvido.
— Não sei... ainda tô na dúvida... — sussurra, mordisca-lhe a orelha, enquanto uma mão segura-lhe a cintura, para mantê-la junto a si, e a outra corre lascivamente pelo corpo, excitando-o, inserindo-se por baixo da blusa, vagando pelo ventre brônzeo, encontrando a pele arrepiada e indo postar-se de novo nos seios fartos, apalpando-os com gosto. — Por que a gente não vai pro quarto e você não me ajuda a pensar melhor sobre isso?
Vicky solta um pequeno gemido quando a ruiva resolve que apenas bolinar nos seus seios não é o suficiente para convencê-la a ceder e passa a usar a outra mão também, que desce e, sem constrangimento algum, invade ao meio das suas pernas, por entre a saia jeans, forçando-a um pouco para cima e chegando, sem grandes protestos, à sua intimidade, friccionando a região sensível e latejante, simulando uma penetração com os dedos através da calcinha rendada, e agora um pouco molhada, fazendo a morena mover os quadris, num ato sexual quase instintivo. Por fim, a própria Vicky, tomada de desejo, procura a boca de Manu e a beija com ardor, aceitando as carícias e a língua da ruiva, que se enrola na sua, embaciando-lhe o juízo por uns instantes.
— Oh... Chega, Manu! Tudo bem. Vamos logo pro quarto... porque a Lavínia pode acordar e nos pegar aqui... transando no meio da cozinha... — A muito custo, ela consegue falar, entre gemidos e arquejos de prazer, louca de vontade de igualmente colocar as suas mãos sobre o corpo nu, branquinho e sardento da sua amada, mas sem querer, de forma alguma, chocar a amiga loira, que sabe estar descansando a poucos metros de onde estão.
Manu tira as mãos aproveitadoras do corpo da morena somente para lhe puxar, praticamente arrastando-a para fora da cozinha e quando volta a falar, não há apenas alegria em sua voz, mas também um toque de descaramento explícito:
— Já que você insiste... Então, vamos!
[...]
O quarto é suficientemente espaçoso, iluminado e abastecido com móveis e demais utensílios e acessórios diversos para satisfazer um estudante jovem que, de fato, gosta de dedicar alguns momentos ao aprendizado, às fórmulas e cálculos que fazem parte predominante do seu curso de engenharia civil. É possível ver, entre os materiais domésticos, uma estante de ferro pintada de branco, preenchida com livros bem cuidados, vinculada à parede lateral, chegada à janela, que neste momento se encontra aberta, oferecendo a visão de outros apartamentos, que ficam em frente a este, bem como das casas embaixo e, acima, do céu totalmente nublado.
Fábio está semideitado na cama, com as costas prensando duas almofadas juntas, parte sobre o colchão e parte sobre a cabeceira amadeirada. Ele usa uma bermuda azul, surrada e velha, e nada mais. Deste modo, pode-se apreciar o peitoral definido e relaxado do belo rapaz. Há um volumoso livro didático ao lado de si, um caderno contendo rascunhos variados, um estojo com lápis, canetas e borracha, o seu celular e um pequeno notebook, que está sobre outro travesseiro, sendo este bem fino, e ambos postos em cima de seu abdômen. Ainda termina de fazer a sua pesquisa em um site específico para a sua área de estudo, quando escuta uma batida na porta.
— Filho, posso entrar? Tá vestido? — Dona Goreth fala em tom brincalhão, dando novas batidinhas na porta.
— Tô, sim... Pode entrar, mãe. — responde, desviando os olhos cor de caramelo da tela do notebook para a porta, vendo a mãe adentrar em seu quarto e se postar em pé, frente a si.
— Eu fiz lanche... Quer que eu traga pra você aqui no quarto ou vai comer na cozinha? — A senhora pergunta, olhando para o lado, conferindo e se aliviando ao ver que a garoa que cai lá fora não está invadindo o quarto pela janela aberta, mesmo que o vento esteja um pouco forte.
— Pode deixar lá mesmo, logo mais eu vou... e prometo que lavo a minha parte para não acumular louça suja. — afirma, pois sabe que a sua mãe, mesmo não admitindo, é um tanto neurótica quando o assunto é limpeza e organização.
Ela sorri e permanece parada no centro do quarto, com os olhos fitos nele, como se o estivesse analisando.
— Por que tá me olhando assim, mãe? — inquire, passando a mão no queixo e sentindo que a sutil barba está precisando ser depilada novamente.
— Fábio, como estão indo as coisas na nova faculdade? Já se acostumou? Fez amizades?
— Está indo tudo bem, mãe. Sim, já estou completamente acostumado... Os professores são bons e o pessoal da minha turma é legal. — tira o notebook e o amassado travesseiro de cima de si, pondo-os de lado e erguendo o tórax para se sentar numa posição mais ereta.
— Que bom, fico feliz por saber. — Ela anuncia, contente. Porém, súbito, mostra-se reflexiva outra vez. — E a Vicky? Ela estuda pela manhã também, isso eu sei... Vocês têm se encontrado com frequência?
Fábio devolve para a mãe um olhar propositalmente ingênuo, como se não soubesse dos planos romanescos que ela e a tia Vera, mãe de Vicky, estão armando para ele e para a sua prima.
— Sim... Às vezes a gente se encontra e passa horas batendo papo, e rindo... Eu já me sinto bem próximo dela... Afinal, a minha prima é mesmo uma garota agradável, meiga.
— E não é só isso não... Já reparou como ela é linda? — Na realidade, não é uma pergunta, mas uma declaração empolgada. — Eu sei que as três filhas da Vera são bonitas, mas não dá pra negar, a Vicky é a mais bela de todas, sem dúvida alguma, você concorda?
— Pode até ser, mãe, porém, se eu fosse a senhora não diria isso na frente da Lídia ou da Raquel, porque elas podem ficar ressentidas, achar que a senhora não gosta muito delas, que prefere mais a Vicky. — Ele alerta e acha engraçada a expressão um tanto aturdida que a mãe faz.
— Mas... eu não tenho preferência por nenhuma, eu gosto das minhas três sobrinhas igualmente... eu só acho que a Vicky é mais bonita... e...
De repente, o celular de Fábio se acende e toca. Ele o pega e tem que disfarçar o prazer que sente ao ler no visor o nome “Rafael”.
— Só um minuto, Rafa. — atende e fala ao celular. Em seguida, baixa o aparelho, mantendo-o na mão, e se dirige à dona Goreth com a maior naturalidade do mundo. — Mãe, é um amigo lá da faculdade que tá me ligando... A senhora pode me dar licença? — está obviamente solicitando privacidade.
— Oh! Tudo bem, claro... Eu vou ver se a novela que eu gosto de assistir já começou. — sorri, compreensiva, e sai. Apesar disso, Fábio, desconfiado, anda com os pés descalços para a porta, abre-a vagarosamente, cuidando em não fazer barulho, põe a cabeça para fora do recinto e só sossega quando vê a mãe sumir para além do corredor estreito indo à sala. Feito isto, ele pode afinal manifestar a sua felicidade, abre um sorrisão lindo, enquanto morde o lábio inferior, não se aguentando em sua vontade de escutar a voz do bad-boy.
— Hum... Até que enfim resolveu me ligar, hein, Rafa... Quase achei que você tinha me esquecido. — fala ao telefone, com voz manhosa, enquanto se recosta à cabeceira da cama outra vez.
— Acontece que eu costumo cumprir com a minha palavra... Mas por que você me deixou no vácuo, esperando aqui na linha feito idiota? — O garoto protesta, mas a sua voz não se altera muito. Na realidade, Rafa está incomodado somente porque não foi fácil achar um local reservado na faculdade, onde pudesse fazer a ligação em paz, sem que corresse o risco de ser abordado por algum conhecido, já que ele de fato, devido ao seu comércio ilegal, conhece muitas pessoas que poderiam querer aproximar-se e puxar papo, atrapalhando-o. Igualmente, ele não poderia ficar em espaço aberto, sob alguma árvore, pois está chovendo há horas sem parar, razão pela qual ele acabou molhando-se um pouco para ir a uma sala que soube estar desocupada e assim ficaria por um tempo. Além disto, Rafa também já não aguentava o desejo de falar com Fábio, ele esperou o quanto lhe foi possível apenas porque não queria dar o braço a torcer e demonstrar a sua ansiedade.

(Proposta de Imagens representativas de Rafa e Fábio)
***
— Foi mal, Rafa, me desculpa... Minha mãe estava aqui no meu quarto e é lógico que eu tive que esperar ela sair.
— Ah... Tá certo... Então você mora com seus pais? — questiona, curioso.
— Com a minha mãe, o meu pai morreu quando eu tinha quatorze anos, eu não tenho irmãos... por isso, nós moramos num apartamento não muito grande... Somos só eu e ela. — faz o resumo e o bad-boy fica mais intrigado.
— Que coincidência... também perdi o meu pai, há pouco mais de dois anos, e eu não tenho nenhum irmão ou irmã. — revela e, após uma pausa, decide fazer nova pergunta. — Você e a sua mãe se dão bem?
— É claro, Rafa... Ela é a minha mãe! Por quê? Você e a sua não se dão? — Agora é Fábio que se mostra curioso.
— Não... Eu e ela quase não nos falamos e geralmente só nos topamos uma vez no ano, no natal, e a bruxa ainda aproveita a ocasião pra me lembrar o quanto não me suporta. — declara, infligindo apatia à voz.
— Nossa, Rafa! Como pode falar assim da sua mãe, cara? — Fábio abisma-se e Rafa bufa do outro lado da linha.
— Se você tivesse ouvido o que ela me falou quando eu fui ingênuo o bastante pra lhe contar que era... que eu sou... — Ele tem alguma dificuldade em concluir o enunciado, pois se agita muito. — Ah! Você entendeu o que eu quis dizer, né?
— Entendi, sim.... e eu acho que provavelmente ela apenas não estivesse preparada para saber que tem um filho gay, você poderia ter ficado na sua e esperado mais um tempo... como eu. Eu ainda não disse pra minha mãe e não pretendo dizer tão cedo, até eu me formar, garantir alguma estabilidade financeira, me sentir mais seguro.
— Tá! Isso pode até funcionar pra você, no meu caso, eu duvido muito... Mas isso não importa mais... e eu não te liguei pra ficarmos falando das nossas mães. Que assunto chato! — impacienta-se.
— E ligou pra quê? — Fábio interroga, prendendo o riso maroto.
— Ah... Bom... É que eu pensei em te chamar pra gente sair hoje à noite, só que o tempo tá muito chuvoso e eu acho que vai ficar assim até o fim do dia. — prognostica, meio emburrado, passando a mão no cabelo ainda um pouco úmido.
— Ué! E por acaso você quer me levar pro meio do mato e não para um local que tenha um teto para nos proteger da chuva? — argumenta em tom de chacota.
— Vendo por esse lado, tem razão... Mas o lugar é um pouco distante, quase saindo da cidade... Eu quero ir lá porque tô a fim de sentir a vibe, saber o que rola, se é legal. Você topa? — Enfim, faz o convite.
— Que horas eu passo na sua república pra te buscar? — Fábio vai direto ao ponto.
— Na maioria das vezes, a diversão nesse tipo de clube noturno só começa a partir da meia-noite, então, me busca às onze, ok? — determina.
— Ok, tá combinado. — Fábio anui.
Após isso, ambos ficam uns poucos segundos em silêncio. Entretanto, Fábio sorri e não resiste à vontade de provocar o garoto.
— Rafa, confessa pra mim que você também tá louco pra me ver, vai... eu quero ouvir. — pede, em tom grave e lascivo.
— Até mais tarde, Fábio... Tchau! — Rafa, ao invés de atender ao pedido, replica, indelicado, e encerra a ligação.
Fábio permanece com o celular na mão, olhando-o sem esmorecer o sorriso. “Ai, ai, Rafa, eu aposto como ainda vou ver esse seu orgulho exagerado se dobrar em mil pedacinhos e você vai aprender a nunca mais desligar na minha cara ”. Devolve o aparelho à cama e se retira do quarto para ir em busca do lanche que sua mãe fez para si.
[...]
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