[HIATUS] Mudanças impuras

36 Faça o que digo, não o que faço


Notas iniciais
Olá, queridos leitores, como vai a vida? Espero que em paz. Vejam, primeiramente gostaria de me desculpar por não ter postado este capítulo no prazo estabelecido. Mas, justifico-me dizendo que estive doente, com uma gripe forte, agora estou bem. Contudo, torço para que a espera de vocês seja compensada, pois minha inspiração ajudou e eu decidi presenteá-los logo com dois capítulos, um seguido do outro. Deixo meu eterno agradecimento à autora Estrela de Rubi, de “Vítima do Amor”, por ter lindamente betado este episódio. Beijinhos e boa leitura.

— Mas... Fábio, não sei se eu consigo fazer isso que você tá me dizendo pra fazer... E se eu ficar nervosa e me atrapalhar? E se a Manu ficar mais chateada comigo e a gente brigar outra vez? — Vicky expõe suas dúvidas. Ela esfrega uma mão na outra, em mostras de inquietação, enquanto olha, ansiosa, para o primo. Está, na verdade, pensando como será difícil pôr em prática as dicas que ele lhe está dando.

— Preste atenção, prima. Você tem que ser objetiva e corajosa. Tem que saber exatamente o que você quer... Olha, eu vou te fazer umas perguntas simples e rápidas e quero que você as responda, da mesma forma, tudo bem? — Ele determina.

— Uhum. — Ela anui, obediente. Fica esperando as perguntas que lhe serão feitas, fazendo com que seus grandes olhos negros pareçam ainda maiores, por conta da curiosidade estampada neles.

— Você quer mesmo voltar a ser a namorada da Manu? — Ele lhe olha sem desviar os olhos, inquisidor e, ao mesmo tempo, gentil.

— Quero, sim... Eu quero... eu... — fala euforicamente.

Fábio faz um novo sinal com a mão aberta, em sua direção, para que entenda que deve interromper a frase, porque, neste instante, ele quer respostas sucintas. Então, ela para de falar e aguarda a próxima pergunta.

— Você está ciente de que foi você quem estragou tudo? Está arrependida por ter dispensado a Manu... como se ela fosse uma coisa que não te servia mais? — Vicky sente uma pontada no coração, ao ouvir Fábio pronunciar em voz alta a grande falha que cometeu com a sua amada.

— Estou. — Vicky responde, desta vez sem delongas, fazendo beicinho infantil, chorosa.

— E sabe que terá que mudar se quiser que ela volte a pensar em te aceitar de volta? Você, melhor do que eu, já deve ter notado que ela está muito magoada e, neste momento, sem conseguir entender de fato o que sente por você ou que deve fazer. Ela está confusa e talvez pensando em te colocar na friendzone pra sempre... Você tem que agir rápido, pois do jeito que as coisas vão, ela vai ficar cada vez mais ressentida. — Fábio está sendo sincero e, mesmo não querendo ofender, acaba impondo rigidez às suas colocações.

— Sim. Você tem toda razão. Eu só não sei como fazer isso, como conseguir mudar... Fábio, eu...

Mais um vez ele ergue a mão, pedindo que ela se cale, ao perceber que ela começaria sua queixa sem fim.

— Vicky, se você confiar em mim e fizer tudo como estou te orientando, tenho certeza que a Manu voltará pra você... Só tem que ter mais confiança em si mesma. Tem que se arriscar mais, garota. — Ele ergue a mão, segura seu queixo. — Você tem que se olhar e perceber o quanto é bela e capaz de conquistar sua própria felicidade, sem precisar ficar com medo do que seus pais vão pensar ou dizer. A vida é sua e não deles. Mude! Mude antes que seja tarde demais!

— Eu sei, primo... Eu vou tentar. — Vicky olha-o com suas pupilas muito escuras, ainda se mostra meio insegura.

— Olha, você realmente tem que mudar, Vicky. Chega de ficar pelos cantos, com cara de funeral! Não deve mais se entristecer por tudo e nem ficar depressiva só por que a nossa família é desatualizada e preconceituosa. — é enfático, quer repassar-lhe sua firme opinião.

— Mas... Fábio, é a nossa família! E você está falando dos meus pais... Eles... eles são... — Por contraditório que pareça, ela quer defender seus pais, por sentir que é correto, como boa filha que é.

— Desatualizados, preconceituosos e muito mal-intencionados! Prima, eles sabem que você é fácil de ser manobrada e estão dispostos a te entregar para o primeiro homem que se interessar por você, sem nem ligar pra sua sorte... Pra eles, basta que você obedeça cegamente a tradição da família. É só isso o que importa pra eles! Entendeu? — Ele não deixa que Vicky desvie seus olhos dos dele, pois quer que ela entenda bem o que ele está dizendo.

Fábio é um rapaz destemido, que aprendeu a se virar sozinho, sem conselhos de ninguém, razão pela qual acabou sofrendo com as dores de paixões proibidas, medos de todo tipo e uma luta interna até encontrar seu próprio caminho de aceitação pessoal, como um rapaz gay, que quer garantir sua prosperidade no mundo, como qualquer outro ser humano. Agora ele não vê problemas em ajudar sua prima a não passar pelo que ele passou, ainda mais, por notar que ela é bem mais frágil do que ele e suscetível à depressão crônica.

— Faça como eu digo. Mantenha sua paixão em segredo, por enquanto... Como já estava fazendo antes de dar o chute na bunda da ruiva. — Não contém sua ironia e ele mesmo ri do que disse.

— Fábio! Tá rindo? Ah, puxa! — Mas ela também termina por rir, junto com ele.

— Tá! Desculpa... Não quis ser maldoso com você. — para de rir e volta a mostrar sua expressão séria e compenetrada. Ele olha bem no fundo dos olhos de Vicky e a coage a fazer o mesmo. — Vicky, estude, forme-se, torne-se independente! E, quando for a época certa, deixe que os seus pais decidam se vão ou não continuar te amando... pois cabe a eles entender que você é livre para escolher a vida que quer levar e com quem você quer dividir esta vida. Não permita que te oprimam, que te condenem a uma existência infeliz, ao lado de quem você não vai amar de verdade. Você tem o direito de amar quem você quiser e ninguém tem nada a ver com isso. A sua vida quem tem que viver é somente você!

A mente de Vicky começa a absorver tudo o que ele diz e ela sente uma emoção jamais experimentada. Este é o seu momento divisor de águas: Antes de Fábio e depois de Fábio! Em tempo algum, imaginou experimentar grandiosa injeção de ânimo. As palavras de seu primo penetram profundamente em sua alma. A catarse acontece de forma magnífica, alterando a olhos vistos, a expressão apresentada por ela, como se ressurgisse, neste segundo, para o seu real lugar no mundo. Ela enche o peito de ar, adotando uma expressão diferente, como se fosse outra Vicky. De fato, a Vicky que existe agora é a que vai à luta, nem que precise vencer a si mesma para seguir, passo a passo, cada orientação que lhe foi dita por seu primo, que agora lhe parece mais como um perfeito anjo, que caiu do céu para salvá-la de ser apenas a filha submissa, a futura esposa e mãe desprovida de íntegro amor ou alegria em seu ilusório lar. Sente-se destemida, como jamais supôs ficar em toda a sua trajetória, até aqui. Respira fundo e devolve o sorriso confiante que ele lhe dá.

— Obrigada, Fábio! Suas palavras estão fazendo minha visão de mundo mudar. Eu me sinto outra pessoa... Agora tenho fé em mim. Acredito que sou capaz, sim, de consertar os meus erros, de reconquistar a Manu e de ser feliz com ela... porque eu a amo e sei que podemos ser felizes juntas... Eu sei! — A certeza dela é tamanha que salta aos olhos.

Fábio fica pensando, ao vê-la assim, que se ele fosse hétero, iria sentir-se sexualmente atraído por ela, pois Vicky está exuberante, com seus brilhantes olhos negros de cílios compridos e espessos. Suas bochechas redondas estão coradas, bem como seus belos lábios agora tremem, sim, mais de pura determinação, de vontade de concretizar o que se passa em sua mente.

— Ótimo! Que bom que minhas palavras estão obrando este milagre. Mas não se iluda. Aquela ruiva não vai facilitar a sua vida. Eu já disse. Ela está confusa e magoada. Você vai ter que ser forte e estar preparada para tudo... inclusive, para uma possível rejeição, no começo... Não será nada fácil dobrar aquela diaba irritada. — Fábio prognostica, rindo.

— Ai, primo! Vai querer me desanimar logo agora que eu tô tão segura de mim mesma? — Mas em seu íntimo, Vicky sabe que ele tem razão e apenas a está alertando para as possíveis falhas de percurso.

— Claro que não, Vicky, só estou sendo honesto, apenas isso. E tem mais... Se ela não te quiser depois que você fizer de tudo para seduzi-la, então busque outra. Você é linda e pode muito bem encontrar outra menina para amar. Não será o fim do mundo, aliás, isso acontece o tempo todo na vida das pessoas. — afirma como quem fala por experiência própria.

— Tá, tá... Ok! Não quero pensar nesta possibilidade agora. Preciso confiar que terei sucesso em minha reconquista... Não quero voltar a ficar depressiva. Eu quero a Manu! E, nesse momento, meu único interesse é recuperar a minha namorada. No resto, eu penso depois. — declara, com voz segura. Tal postura decisiva de Vicky dá a Fábio a boa indicação de que o seu xarope de ânimo foi eficiente e renderá benefícios para sua prima.

Porém, de repente, os olhos de Fábio são atraídos para mais adiante de onde ele está. Ele libera um risinho malicioso, por conta do rapaz que surge, em seu raio de visão, caminhando um tanto apressado. “Você é pontual, hein, garoto machão?” Fábio pondera, sem demonstrar a Vicky sua súbita perturbação, enquanto confere a hora no seu relógio de pulso. “Vou deixar você me esperar... só um pouquinho.” Sorri sutilmente. Portanto, vê quando Rafa, o Rafael – primo de Dico – segue em direção ao lugar que eles haviam combinado de se encontrar, às escondidas. Trata-se de um banheiro precário, quase em total desuso, que é somente utilizado, raras vezes, por alguns auxiliares de serviços gerais e que se localiza numa área um tanto afastada das salas de aula e da maior movimentação estudantil e docente.

Vicky está alheia às emoções atuais do seu primo e permanece declarando seu imenso amor pela ruiva, confessando, com muitas palavras, o quanto que somente Manu causa-lhe empenho, por ser muito importante para ela. Ao passo que Fábio ainda avista a figura móvel de Rafa e vai recordando os fatos do dia anterior, mais especificamente, do momento em que eles se toparam por acaso, numa situação constrangedora e infame, em especial, para o bad-boy charmoso. O encontrão sobreveio quando Fábio encaminhava-se para a saída da faculdade na intenção de ir-se embora, visto já terem acabado as suas aulas do dia. Ele andava e, ao mesmo tempo, lia um livro referente ao seu curso de engenharia civil, pois queria tirar uma dúvida sobre um assunto. Subitamente esbarrou em um rapaz que vinha na direção oposta. O tal rapaz é Rafael, que marchava apressado e agitado, pois havia acabado de ganhar uma recriminação por parte do próprio reitor da faculdade, que não gostou nada de ver o jovem estudante de conversa com um sujeito estranho, na frente do centro estudantil. Isto seria uma bobagem por parte do reitor se não se tratasse de um delinquente famoso que, na verdade, é reconhecido publicamente como ex-detento de um presídio da localidade próxima, por acusações de roubo, tráfico e agressão física, um sujeito tido como de alta periculosidade. O reitor acreditou, ingenuamente, que Rafa estivesse sendo ameaçado ou assediado pelo criminoso, que talvez quisesse obter favores escusos do inocente, por isso que lhe disse para ficar um tempo dentro da faculdade, até que o homem estranho fosse embora. Rafa, compondo estilo de menino bonzinho, obedeceu prontamente, indo rápido abrigar-se na parte interna do local. Contudo, o bad-boy nunca imaginou que iria topar-se bruscamente com Fábio e, em razão disso, deixar cair, de suas mãos agitadas, uns pacotinhos suspeitos.

— Ô... idiota! Não vê por onde anda não? Você é o quê? Um tipo de retardado? — Rafa não poupou palavras para liberar sua irritação, por ter permitido, sem querer, que os pacotinhos caíssem.

— Olha, cara, foi mal aí... Mas você também deveria prestar mais atenção e não sair andando feito um maratonista louco... como se estivesse sendo perseguido por um serial killer. — Fábio articulou, com bom humor, causando no próprio Rafa uma vontade de rir.

Ambos se olharam, bem nos olhos, por uns segundos, tempo suficiente para suscitar emoções controversas dos dois rapazes.

Fábio observou o belo sorriso dele e ficou pensando se teria alguma chance com o menino machão. E algo no olhar de Rafa o fez, depressa, deduzir que sim. Então, como a querer mostrar gentileza e simpatia, agachou-se para ajudá-lo a recolher os seus pertences do chão.

— Não! Não preciso de ajuda! Pode deixar, que eu mesmo pego as minhas coisas! — A agressividade de Rafa voltou em dobro. Havia também um traço de receio em sua expressão. Contudo, já era tarde, pois Fábio pôde dar uma boa olhada nos tais pacotinhos e soube imediatamente do que se tratava. Eram drogas, ou melhor, era uma pequena mistura de drogas, rolinhos de cigarros de maconha, algumas pedras de crack, embrulhadas em papel para disfarçar, e uns tipos de comprimidos alucinógenos.

— Tá olhando o quê? Isso não é da sua conta, idiota! — esbravejou o bad-boy, olhando para Fábio com olhos de irritação. Rafa estava, de fato, muito chateado por se ver exposto a um rapaz que lhe era desconhecido e que podia representar uma delatação à instância superior da faculdade, fazendo-o ser expulso dali, por causa do pequeno tráfico.

— Calma, cara... Fica de boa, porque eu tô na minha. Não precisa ficar achando que sou o tipo dedo duro. Eu penso que cada um sabe o que faz com a própria vida. Não sou juiz e nem jurado. — Fábio não ligou para a cólera de Rafa e lhe entregou dois pacotes, que buscou do chão.

— Tá certo... Sendo assim, peço desculpa por ter sido grosseiro... e digo a você que isso aqui é apenas um meio rápido e prático de ganhar dinheiro. Embora eu fume uns baseados, de vez em quando, não sou viciado nem nada. — Rafa justificou-se e amenizou o tom de voz, não quis passar a imagem de um mero drogado, sem noção.

— Se quer saber... Eu até tô interessado em comprar alguns destes pacotinhos aí. — Fábio simulou interesse nos rolinhos de maconha.

— Olha, agora não vai dar... O reitor tá de olho em mim. Ele me flagrou com o meu chapa e, por sorte, pensou que o Leonardo fosse só um criminoso rondando a faculdade. — Rafa anunciou, sem acanhamento e soltou um risinho jocoso, pois, no fundo, gostou de sentir a adrenalina correndo por suas veias, pois ele realmente gosta da emoção do risco, de arranjar uma boa briga, se isso lhe acarretar benefícios, assim como gosta de se exibir como um Bon Vivant, sempre rodeado por belas garotas, para caracterizá-lo como amante-pegador.

Contudo, ao ver esse sorriso irônico no rosto juvenil de Rafa, Fábio ficou mais atraído por ele, porém, disfarçou.

— Mas... Você tá querendo comprar quantos cigarros? — Rafael ficou curioso para saber se o rapaz boa-pinta estava mesmo a fim de lhe comprar algumas unidades dos rolinhos de maconha.

— Bem, estou pensando em te comprar uns quatro pacotes, pelo menos... pois breve irei a uma festa de uns amigos e quero presenteá-los. Vou animar ainda mais a diversão deles. — Comprimiu os olhos e sorriu sedutoramente, bolando mais falsidades.

Rafa desviou os olhos, tendo o rosto um pouco corado, e não percebeu Fábio estava mentindo.

— Se é assim, nós podemos dar um jeito, sei lá... A gente pode marcar de se encontrar num lugar que não me vejam te passando o bagulho ou recebendo a grana. Eu tô meio ressabiado, pois eu sei que o reitor tem seus espiões aqui dentro da faculdade. Esses dedos-duros.... Filhos da puta! — cuspiu sua ofensa aos alunos que servem de informantes para o reitor. A expressão embravecida de Rafa fez Fábio sentir um frisson no estômago, por conta da vontade de saber mais sobre o jovenzinho brigão.

Combinaram o valor a ser pago pelo produto, o horário e o local para o encontro, que foi sugerido por Fábio, sendo o tal banheiro desativado. Ele alegou que eles teriam privacidade e poderiam fazer a negociação sem testemunhas. Assim, o acerto foi estabelecido e, por isso, voltariam a se ver, no dia seguinte.

Fábio pisca forte duas vezes para abandonar a lembrança e voltar a dar atenção para o que sua prima, Vicky, diz. Ele, então, decide responder às palavras dela, finalmente.

— Você está mesmo progredindo bem rápido, prima. Fico extasiado por ver esta significativa mudança. Espero que continue assim... e saiba que eu ficarei vigiando você, orientando e dando força para que não se deprima mais, não importa se a Manu vai voltar ou não a ser sua namorada. Quero vê-la sempre confiante e, de preferência, com este lindo sorriso no rosto.

A conversa entre os primos volta a fluir livre e suavemente. Eles ficarão repassando as dicas dele, uma por uma, por mais uns quinze minutos, tempo controlado por Fábio que, em seguida, irá ao encalço de sua “presa sexual”, o mal encarado Rafa.

[...]

Em casa de Naira, mãe dos gêmeos...

Aline e Sarah encontram-se no quarto. Elas haviam passado a noite juntas, algo que está tornando-se habitual, e agora estão na cama, deitadas e recém-acordadas. Em meio à conversa matutina, Aline termina por mencionar o nome de Dayse, elogiando a sua voz como cantora e fazendo Sarah ter uma repentina crise de ciúmes, exibindo grande chateação.

— Desculpa, Sarah. Ah! Mais que droga também! Eu não posso mais nem tocar no nome da Dayse e você fica aí toda melindrosa...Que saco! Será que você esqueceu que eu e ela fomos namoradas? Não sabe que agora somos amigas e integrantes da mesma banda, da qual você também participa? — Aline solta, dando baforas de ar, agoniada pela atitude enciumada da sua atual namorada.

— Acho que eu tô cansando, Aline... Você ainda é apaixonada pela sua ex e isso tá na cara, para quem quiser ver. Eu tô me sentindo mal com isso. Não tô conseguindo mais disfarçar! — Sarah admite, com voz amuada. Ela empurra Aline, que já se punha por cima dela, querendo acariciá-la, para suavizar o clima tenso.

Sarah levanta-se da cama e começa a vestir suas roupas que estão espalhadas, parte na poltrona e parte pelo piso.

— Caramba, Sarah! Vem aqui, por favor. Volta pra cama, vamos fazer as pazes. Não me deixe assim. Eu prometo que te faço esquecer qualquer nome... em questão minutos. — solta, com voz sensual. Espera que a Sarah intua que ela está com a libido em alta, com desejo de fazer sexo matinal e quer ficar de bem com ela, apesar de as palavras da patricinha terem um fundo bem verdadeiro em suas acusações. Com efeito, Aline ainda ama Dayse e, cada vez que a vê, seu coração se enche de angústia e anseio, em razão de querer tê-la novamente junto a si.

— Sexo! É só isso o que eu sou pra você, não é? Você não gosta de mim, Aline... Só tá me usando para ter sexo fácil com uma menina tola como eu. Eu sou uma idiota mesmo! Agora eu percebo isso muito bem. — Sara lamenta e começa a querer chorar, enquanto termina de pôr a bolsa sobre os ombros, agora vestidos, no intuito de sair do quarto, ir-se embora da casa de Naira.

— Ah! Poxa! Você vai mesmo me deixar assim? Caramba! Eu tô querendo fazer as pazes com você, entendeu? É claro que eu também quero transar... porque eu gosto de transar com você. Não há nada de errado nisso, Sarah! — Aline também se ergue da cama. Ela está linda, com sua lisa, escura e longa cabeleira solta, o rosto enrubescido e com expressão de malícia. Veste apenas blusa babylook cinza-clara, calcinha vermelha, super sexy, e está descalça.

Sarah olha diretamente para ela e fica mais agastada, por sentir vontade de ceder aos encantos da gêmea. No entanto, ela recusa esta emoção e desvia os olhos, retirando-se do cômodo, andando naturalmente pelas partes da casa, pois todos que ali habitam já se acostumaram com sua presença constante. Aline vem logo atrás dela, tentando convencê-la a voltar para o quarto e nem se importa com o fato de estar seminua, andando pela casa da mãe. Sarah, no entanto, faz-se de surda e muda, firme em seu passo, rumo à saída. Quando ela passa pela sala de refeições, avista Chris, Naira e o seu jovem companheiro, Bruno. Todos estão numa conversa animada e tomam o café da manhã.

— Bom dia, Sarah. Venha, minha querida, sente-se conosco e tome seu café da manhã. — Naira é bastante amistosa com a atual namorada de sua filha.

— Obrigada, Naira. Você é mesmo um doce de pessoa... Mas eu preciso ir. Estou com pressa e sem tempo. Tenho algo a resolver, por isso já vou... Bom dia e tchau pra todos. — inventa uma desculpa qualquer, no mesmo instante, querendo não ser mal educada, porém, livrando-se de ter que ficar com eles, em presença de Aline, que a atormentaria muito mais.

— Que merda! Vai mesmo embora e me deixar de pau duro? — Aline desata. Há chacota misturada com irritação na voz alterada, ao passo que abre os braços e mostra como está, ou seja, seminua e excitada. Sarah finge não ouvir o sarcasmo dela e segue para seu carro, que está parado à frente da casa. Está resolvida a entrar nele e o conduzir para longe dali, pelo tempo máximo que puder.

— Aline! Cuidado com a boca suja, menina! Eu não admito este tipo de linguajar horrível dentro da minha casa. Tenha mais respeito pelo teto que te guarda! — Naira a repreende firmemente, em tom mais alto que o da filha.

Por mais estranho que pareça, Naira não teria se chateado com Aline, caso ela não tivesse pronunciado as palavras chulas. Com efeito, a mulher e dona desta casa não se importa com o fato de Aline estar seminua no meio da sua sala de refeições, pois já se habituou à sua desinibição e só não admite falta de respeito no modo de se expressar. Para Naira, o limite da liberdade é a falta de respeito.

Bruno e Chris entreolham-se fazendo caras de tédio, pois também já estão cansados de presenciar o comportamento impetuoso e um pouco violento de Aline.

Naira continua encarando a filha, como quem exige que ela diga algo.

— Ah, mãe... Me desculpa! Você tem razão... Vou tomar mais cuidado com a minha boca, da próxima vez. — Aline suspira pesado, baixa a cabeça, dá meia volta e vai outra vez se enfurnar no quarto.

Naira senta-se de novo à mesa, ao lado de Bruno.

Chris ergue-se da cadeira. Naira olha para ele.

— Se vai lá falar com ela, Chris, faça um favor para todos... Tente botar juízo na cabeça dessa menina! Ela está ficando insuportável. E tem sido assim desde que ela e a Dayse terminaram o namoro. Não sei quando ela vai superar isso de verdade. Diga a ela que é feio usar a Sarah, que é uma menina boa e meiga. Aline está sendo egoísta, isso só traz mágoa e sofrimento, tanto pra ela como para a pobre iludida. — Naira sabe que apenas Chris é capaz de dar conselhos para a gêmea. Aline só escuta o irmão e mais ninguém.

Chris ouve o recado da mãe e sai rumo ao quarto da sua irmã. Assim que abre a porta, encontra a bela de cabelos longos e escuros jogada sobre a cama, olhando para o teto, com expressão de choro. Ele se senta na cama, bem próximo à cabeça dela e Aline imediatamente usa as coxas do irmão como travesseiro, pedindo, de forma silenciosa, que ele lhe acarinhe as madeixas, com seus dedos finos e delicados, mais femininos que os dela.

— Preste atenção, sister. Ficar dando uma de crazy bitch não vai resolver o seu problema. — Chris começa a conversa, já entrando com os dedos pelos cabelos da irmã e lhe presenteando com um relaxante cafuné. Aline sorri, mas nada diz. Ela ama o jeito cômico de seu irmão gêmeo. Fica pensativa. Ele continua: — A Sarah também não merece que você a use só pra ter sexo fácil...

— Eu sei. Aff! Até parece que você e ela combinaram neste discurso de “sexo fácil”... Tá, eu admito que não estou loucamente apaixonada pela Sarah. Mas eu juro que tenho tentado gostar dela... de verdade. — Aline interrompe a fala do irmão para esboçar alguma justificativa.

— Bom... Mas, pelo que todos vimos, não está funcionando, pois ela saiu daqui transtornada de raiva. Me diz uma coisa... Enquanto você estava com ela, falou algo sobre a Dayse? — Ele já desconfia que sim, porém, quer obter a confirmação. É interessante observar que o tom cômico de Chris é deixado de lado ao adotar a postura de irmão conselheiro e preocupado.

— Falei, Chris... Eu e a minha maldita boca grande! Parece que eu tô sempre dizendo ou fazendo tudo errado... Que droga! — Aline controla a vontade de chorar e comprime os lábios, em sinal de contrariedade.

— Você não se conforma com o fim do namoro com a Dayse, não é? Às vezes eu fico pensando o que foi que a minha amiga fez de tão bom com você. Você simplesmente não a esquece. — exibe um tom um pouco pervertido.

— Eu já te contei uma porção de coisas boas que nós fazíamos na cama... Mas com ela é mais que sexo. Eu amo a Dayse, Chris... E eu fico me sentindo péssima por saber que ela está com aquela ruiva, como nova namorada... e eu só assistindo, sem poder fazer nada... Nada! — Aline mostra indignação.

— É, você não pode fazer nada mesmo. Mas eu sei que ela ainda sente atração por você... — Chris solta e se arrepende do que disse, pois havia prometido à Dayse, sua melhor amiga, que manteria segredo sobre isso.

— Você sabe? Como assim sabe? Ela te falou alguma coisa sobre mim? — Aline ergue-se, fica sentada na cama, pois quer olhar nos olhos do seu irmão para que ele perceba a sua ansiedade. — Fala, Chris.... Ela pode ser sua melhor amiga, mas eu sou sua irmã. Vamos, fala, por favor! Me ajuda, vai... Me dá uma luz!

— Tá... Chega de drama! Eu vou falar, mas isso vai ficar apenas entre nós. Não quero que ela sonhe que vou te revelar o que ela me contou. — Chris estabelece a condição para que dizer o que Dayse confessou-lhe, em segredo.

— Eu juro... Ficará só entre nós. — Aline faz um X com os dedos indicadores e os beija, intercalando-os, em menção ao juramento que faz.

— Ela me contou que ainda gosta de você... que sente atração e que fica nervosa na sua presença. Mas, por outro lado... ela não consegue te perdoar pela sua traição, mesmo sabendo que você só fez aquilo porque achou que seria parte de um jogo sexual entre vocês. E... ao que tudo indica, ela também está gostando daquela ruiva... mesmo que a relação delas ainda não esteja definida. — Pronto, Chris revela o segredo que Dayse tanto lhe pediu para guardar.

— Ah... Que merda! Quer dizer que ela também gosta de mim... e não me perdoa porque é uma orgulhosa. E o que ela quer, então? Que eu me rasteje implorando perdão? É... porque, na época que eu fiz aquela idiotice, só restou fazer isso... Deus sabe o que eu fiz pra que ela me perdoasse, Chris... Foi tudo em vão! Ela não quis me perdoar de jeito nenhum. — A gêmea desabafa, sentindo um aperto enorme no peito.

— Oh, querida, eu sei... Eu vi o seu sofrimento. Mas o que você fez foi feio demais... Aline, você não poderia deduzir que, porque vocês duas faziam pequenas loucuras sexuais... ou os seus múltiplos jogos eróticos, que ela fosse aceitar você colocar outra garota no meio do sexo de vocês. Afinal, a Dayse pode até ser ousada e criativa, mas não creio que seja o tipo que curte um Ménage... Muito menos aceita provocações deste tipo. — Chris toca num assunto delicado para Aline.

No passado, quando Aline e Dayse ainda namoravam, a gêmea vivia inventando formas de seduzir ainda mais a sua amada de cabelos esverdeados, pois sempre foi o tipo de garota carente, possessiva, que gosta de ter sua parceira presa a si, numa teia de erotismo, no intuito de nunca ser abandonada. Entretanto, a bela Aline acabou exagerando na dose, visto que, numa fase em que estavam em desarmonia, ela decidiu provocar, fazendo com que Dayse a visse beijando outra garota. Na verdade, ela pretendia que Dayse tomasse uma atitude típica das pessoas enciumadas, que a arrancasse dos braços da moça estranha e a levasse para qualquer lugar, onde pudessem reconciliar-se, através de um sexo irrigado de paixão. Contudo, Dayse apenas a abandonou, pôs um ponto final no namoro delas e lhe deu a única opção de ser sua amiga. Aline ficou desolada, pois pôde sentir o poder do orgulho de Dayse.

— Pois é, eu descobri isso da pior forma... com ela me jogando pra escanteio, sem dó nem piedade... Chris, eu te digo uma coisa. A Dayse consegue ser muito má quando quer, porque ela sabe, ela entende tudo o que eu tô passando, mas finge que não se importa... ou não se importa mesmo. — lamenta, sentindo angústia. As lágrimas de Aline agora não podem mais ser detidas, caem por seu rosto, que se contrai em razão da dor emocional.

— Não sei se isso é consolo, Aline, mas eu acho que ela finge, sim... porque é como você diz... Ela é orgulhosa e prefere deixar as coisas como estão. Além do mais, ela tá curtindo a Manu, por enquanto. — Chris usa de toda a sua honestidade, fazendo Aline cessar o choro, pois se sente intimidada com o que ele declara.

— Pra mim chega, Chris! Eu cansei de ficar só olhando e esperando que ela volte a ficar comigo por conta própria. Agora eu vou agir... e eu vou precisar da sua ajuda... Não ouse me negar isso! Eu preciso de você do meu lado. — Aline ainda funga e esfrega o dorso da mão pelo nariz, ao dizer as palavras, com determinação, enchendo o peito de ar para adquirir ânimo.

— O que você está pensando em fazer... especificamente? — questiona o gêmeo, sentindo que sua participação nisto será maior do que ele gostaria.

— Vou lutar pelo meu amor... e fazer o que for preciso para que ela veja que nós podemos ficar juntas e sermos mais unidas que antes... que podemos superar nossos problemas. Vou provar que eu posso fazê-la mais feliz que essa ruiva insossa. — arremata, olhando diretamente para seu irmão, buscando apoio. A obstinação presente em Aline chega a contagiar Chris que, sem se conter, abraça-a com força.

— Pode contar comigo, my darling... O que eu puder fazer para unir minha best friend e minha sister... eu farei. I promise! — Chris anuncia, mesclando novamente inglês e português, mostrando que seu lado comediante voltou, especialmente porque quer animar sua querida irmã.

Aline realmente sente-se mais animada e torna a pôr um sorriso no rosto.

[...]

Notas finais
Viram aí, queridos, como o “Santo Fábio” está obrando milagres com sua prima? Ela, ao que tudo indica, vai mesmo mudar sua postura depressiva para se tornar mais firme e alegre, em sua reconquista da ruiva amada, Manu. Mas, o próprio Fábio parece que vai cair de encantos pelo bad boy Rafa... OMG! No que isso vai dar? A Aline está que não se aguenta mais. Ela ama mesmo a Dayse e, assim como a Vicky, quer lutar para reconquistar o seu grande amor. Bom, mas verdade seja dita, eu fiquei com dó da patricinha Sarah. Chris é um irmão gêmeo que todos nós gostaríamos de ter, não é? Ele é meigo, carinhoso, conselheiro e engraçado. É isso aí, meus lindos. Beijos e até já!