[HIATUS] Mudanças impuras

35 Da reflexão ao conflito armado


Notas iniciais
Gente! Olha eu aqui outra vez! Estão felizes? Bom, espero que sim. Boa leitura, queridos. OBS.: Capítulo magnificamente betado por Estrela de Rubi, autora do Yaoi "Vítima do Amor". Obrigada, amiga!

Madrugada de segunda para terça...

Está recostado ao parapeito da minúscula varanda, existente no apartamento. Seus lindos olhos azuis olham para o céu noturno, com uma expressão muito séria. O loiro veste apenas a peça íntima, a saber, uma calça em moletom, de cor cinza-escura. Está, então, desnudo da cintura para cima, deixando à mostra seu tórax largo quase desprovido de pelos. Em uma das mãos, entre seus dedos, há um cigarro, do qual tira tragos esporádicos e na outra, um grande e achatado copo de vidro, contendo uísque, que leva à boca, sorvendo o líquido amarelado, alternando isto com o fumo, numa ação quase automática, despercebida. Com efeito, Henry tem os pensamentos dirigidos para além de onde está e nada, nem mesmo a bela música ao fundo, uma sugestiva canção de Jace Everett, Damned if i do, ecoando a partir de seu potente equipamento sonoro, o tira de sua concentração reflexiva. Pensa na frustração que sentiu há algumas horas. Assim que saiu da sua empresa, a Sorelle’s Technical Marketing, foi direto para a casa noturna na qual sua amada está trabalhando, na esperança de vê-la novamente. Mas, afora ter ido muito cedo, no horário em que ela não teria chegado, ainda ouviu, de outra atendente, que Lavínia não viria hoje, por ser segunda-feira, seu dia de folga, aliás, o primeiro dela. Portanto, teve que recuar, sem ter sua vontade atendida. Sentiu-se tão chateado que quando entrou no carro e se pôs a dirigir foi estacionar, quase sem querer, na frente de sua república. Ali permaneceu por quase uma hora, com os olhos fixos na casa de portão de ferro cinza e muro pintado de bege. Esperou, esperou e esperou até cansar. Nada de ver ninguém sair ou entrar da residência, muito menos Lavínia. O que ele nem desconfia é que se tivesse chegado apenas cinco minutos antes, teria flagrado Lavínia saindo com Pietro, no carro do rapaz. Tal visão teria sido traumática, sobretudo porque ele nada poderia fazer, por receio de agravar ainda mais suas chances de reconquistá-la. Teria, sim, experimentado imensa angústia, mas teria controlado sua fúria, pois gosta de agir com premeditação em cada passo que dá, mesmo que sua personalidade explosiva o traia, às vezes. Ademais, Henry vê o pinguim—surfista como um adversário anêmico, destreinado, como alguém que passa a imagem de bom moço, respeitador e que não a induziria a nada mais que beijos, por enquanto. Entretanto, erroneamente, supôs que ela estivesse dentro da casa, deitada e dormindo em sua cama, segura e desacompanhada. Com tal pensamento de consolo, ele viu, como única alternativa, voltar para seu apartamento, onde agora se encontra a lamentar que sua intenção tenha sido fracassada, ou melhor, adiada.

De fato, Henry, neste instante, pondera sobre as formas que irá usar para manter contato periódico com Lavínia, um feitio de obrigá-la a vê-lo continuamente. Na verdade, ele não possui uma razão, uma desculpa que justifique uma convivência normal entre eles, porque, mesmo que ela viesse a aceitar coexistir com ele somente como irmão, isto seria algo impossível, visto haver sentimentos inconvenientes que, não sendo próprios de irmãos, afetariam muito este convívio. Desta forma, está consciente de que eles têm apenas duas opções. Ou se condenam e se conformam em ser unicamente irmãos, reprimindo qualquer sentimento a mais, ou lutam contra tudo e contra todos para ficarem juntos, como casal, sem ligar para as críticas, para os preconceitos. Ou seja, teriam que lutar contra o mundo caso optassem por dar vasão ao que verdadeiramente sentem um pelo outro. Mas ele sabe que ela já tomou sua decisão, que concorda com o pai dela, considerando-o nocivo à sua vida e, por isto, deve ser mantido longe ao máximo, o que o deixou extremamente combalido, irritado e com o orgulho ferido. Henry não aceita isso. Ele quer, sim, conviver e ficar com ela. Então, o que ele pretende fazer é convencer Lavínia a tolerar sua presença na vida dela, de qualquer forma. E a maneira que tem de fazer isso é estando presente onde ela estiver. Como, porém, ele tem um afazer específico ao seu cargo, demandando tempo e dedicação, que é sua empresa, não pode espioná-la o tempo todo, como gostaria. Assim, resta-lhe a boate, o local de trabalho dela, onde ele pretende passar a frequentar sempre, no intuito de observá-la e se fazer ser visto por ela, querendo, aos poucos, dobrá-la. Este pensamento está fixo, incutido em sua mente, bem como a ideia de se vingar do pai dela, de fazê-lo pagar por ser um infindável entrave no seu caminho.

Ainda pensando sobre a sua retaliação, ele alcança, da mesinha minúscula que há na varandinha, o seu Smartphone e disca o número de Isadora Abranches.

— Ei, gatão, tudo bom com você? Que maravilha ouvir sua voz! — Isa é receptiva, mostra animação ao atendê-lo.

— Tudo bom, sim... Isa, precisamos conversar. Dá pra ser agora? — Henry quer garantias de obter um diálogo sem interrupções, por saber que ela pode estar acompanhada de algum amante.

— Sim. Não há ninguém comigo hoje, Henry... Podemos falar tranquilamente. — anuncia, firme.

— Ok. Veja... Quero saber quando a coisa começa a acontecer de verdade.

— Vou precisar de alguns dias.

— Quantos dias? Como assim? — quer uma resposta mais precisa.

— Bom... vou precisar, no máximo, de uma semana... podendo ser menos que isso, pois estou tentando localizar um amigo que vai me ajudar a participar do “Falando com a Joyce”... Sabe, é aquele programa super sensacionalista, nojento, que exibe as confusões, os dramas e todo o sofrimento das pessoas. É horrível! Mas será eficiente para provocar um real escândalo na vida do empresário... como você deseja.

— É isso aí! É isso que eu quero... Quero que aquele canalha comece a sentir as consequências dos seus atos, que sofra ao menos um pouco... pela situação que ele mesmo provocou! — O loiro expulsa as palavras, sentindo as veias de suas têmporas quererem saltar para fora de sua cabeça, ao passo que sopra baforadas ligeiras, pelos másculos lábios.

— Eu fui de novo na delegacia onde tinha feito a queixa de violência sexual... — Isa sente-se um pouco incomodada, por causa do tom explosivo com que Henry libera o que pensa sobre o Sr. Gregory, mas continua a atualizá-lo sobre os fatos.

— Pediu para reabrirem o caso? — volta a questioná-la, visando estar ciente das atitudes dela.

— Pedi... Eu disse que não tinha solicitado a reabertura dele antes... porque estava emocionalmente abalada e precisava de tempo para criar coragem. É lógico que eles acreditaram em mim.. e me disseram que tomarão as devidas providências de agora em diante... e que irão chamar o empresário, em breve. Ele será intimado e terá que responder ao interrogatório que farão.

— Uhum... Estou sabendo. — Ele anui, incentivando-a a falar mais.

— Será um processo chato e demorado. E ainda tem o fato de que ele é um senhor rico, bem visto no seu meio empresarial... e parece ser apenas um marido e um pai de família comum. — A própria Isa não revelará ao seu amigo que vê o Sr. Gregory exatamente assim, ou seja, como um mero coitado que teve o azar de meter-se com o loiro vingativo.

— Essa é a imagem que ele mostra, Isa... não a que ele esconde. Disso eu não tenho dúvidas! — Ao ouvir esta fala dele, Isadora prefere não contrariá-lo. Ao invés disto, ela prefere seguir informando-o sobre o que lhe disseram, na delegacia.

— A denúncia será investigada. Não será preso, até que caia sobre ele qualquer sintoma verdadeiro de culpa. Mas, de algum modo, ele vai se sentir muito confuso e enrolado quando a polícia chamá-lo. E quando isso for divulgado em rede nacional, o nome dele ficará sujo... não importando mais que ele seja culpado ou inocente. O mal já estará feito. Será mesmo um escândalo!

— Boa menina! Você aprendeu direitinho, Isa... Estou orgulhoso. — Henry mostra, agora, entusiasmo.

— Pois é... Mas como eu disse... Preciso de tempo até achar este meu amigo, que me colocará na frente das câmeras de televisão. Ele é o produtor do tal programa da apresentadora Joyce Santos... e é também um ex-affair meu. Sei que não me negaria um favor. — Isadora explica com tranquilidade e de modo direto.

— Tá certo, minha deusa... Eu entendi e vou esperar. Afinal, já imaginava que isso não aconteceria de um dia para o outro. Mas você está fazendo tudo como o combinado. Fico mesmo feliz por isso. Até já depositei o pagamento pelos seus serviços na sua conta. Pode sacá-lo quando quiser, ok?

— Ok... Eu confesso que nem estava pensando neste pagamento. Mas eu o aceito porque sei que você ficaria chateado se eu o recusasse. — Isa diz, sincera. Ela não está agindo apenas por dinheiro.

— Eu ficaria, sim, muito irritado se você não o aceitasse... porque não quero fugir ao que ajustamos desde o início. Mesmo que você seja minha amiga, é também minha parceira e cúmplice. E eu contratei os seus favores, isso é inegável. E quanto a isso, o assunto está encerrado. Entendeu?

— Tudo bem, Henry. Mas... diga-me uma coisa.

— Dizer o quê?

— Você já pensou que não será nada difícil para a sua loirinha ligar os pontos e descobrir que é você quem está por trás do escândalo... que afetará o pai dela? — Isa não quer deixar esse quesito sem ser abordado. Ela, na verdade já desconfia que ele irá fugir desta resposta e de lhe contar suas reais intenções. Todavia, opta por se fazer de tola e não parecer muito invasiva, sem, no entanto, dispensar a tentativa de fazê-lo segredar o que lhe passa na mente.

— Eu já pensei em tudo. Não se preocupe, Isa. Essa parte é comigo, você não tem nada a ver. Faça apenas o que lhe cabe, está bem? — é objetivo, sucinto e terrivelmente protocolar, evidenciando que não quer realmente mencionar a figura intocável de Lavínia.

— Ok! Não vá soltar os cachorros em cima de mim também. Estou do seu lado, esqueceu? Quero morrer sem me tornar a sua próxima vítima, por favor! Deus me livre de ter você como um inimigo! — declara e solta uma gargalhada sonora e extravagante, deixando claro que se diverte um pouco com as obsessões de Henry.

Ele é levado a rir, pois ama a gargalhada dela e a considera muito engraçada, sobretudo quando se lembra dos seios siliconados sacodindo-se diante do riso abundante, junto com os movimentos involuntários do corpo ainda jovial.

Despedem-se, assim que Henry fala que tornará a ligar para ela em breve. Ele volta, portanto, à sua solitária reflexão, repassando todos os mínimos detalhes, sem querer que nada lhe escape aos sentidos e, consequentemente, ao seu controle.

[...]

Quando Manu resolve aparecer na república, ela o faz já passando da meia-noite. Felizmente não se esqueceu de sua chave, desta vez. Então, não precisou tocar à campainha ou bater ao portão para entrar. Todavia, assim que abre a porta da residência, fica branca como cera, por conta da aparição que lhe surge, em meio à penumbra da sala.

— Ai! Caralho! Que susto! — profere, em tom exasperado, mais para si mesma, ao passo que tenta conciliar o fôlego e os nervos, com a mão sobre o peito, que sobe e desce, pela escassez de ar. A visão-surpresa que lhe pasmou foi a de Vicky deitada no sofá, aparentemente assistindo à TV, que é única fonte de iluminação para o recinto, neste momento, com o controle remoto em suas mãos, zapeando, vez ou outra, os canais. Seus cabelos cacheados estão soltos, emoldurando suas faces bem feitas, nas quais se pode ver a expressão de raiva, mesclada à tristeza. Traja uma blusa de malha algodão de cor branca e verde-claro nas extremidades, e uma saia jeans azul, bem como as chinelas, que estão postas, lado a lado, no piso. Ela desvia os olhos da tela e os fixa, de soslaio, em Manu, evidenciando, displicentemente, a razão de estar transtornada.

A ruiva não consegue abrir a boca, que se encontra numa secura absurda, por isso, vai para a cozinha à procura de água. E, enquanto abre a geladeira, alcança o copo e o enche com o precioso líquido, ela vai pensando em voltar à sala e puxar qualquer conversa com a outra. Com efeito, ela experimenta a vontade estranha de ser gentil, amiga e compreensiva. Pensa até em pedir desculpas sinceras por tê-la tratado com tamanha ousadia e agressividade. Talvez tenha exagerado, por isso que ficou sentindo a moléstia, que a fez ficar em ânsias de choradeira boba. Deseja ainda que voltem a se tratar de modo educado e amistoso. Manu está realmente disposta a tentar algo novo, pretende ser nada além de uma adequada amiga, pois sente que deve conformar-se, por fim, e dar um arremate simples à agonia das duas, sufocando e enterrando a atração que as invade e que deve ser mantida sob domínio racional. Deste modo, torna à sala, decidida e confiante. No entanto, o que meramente encontra é o espaço vazio e escuro. Vicky foi-se abrigar no quarto e nem lhe ofereceu a mínima chance de emitir um simples “oi”.

Frustrada, Manu vê-se com a opção única de ir dormir e atrasar o que se propôs a fazer para outro momento.

No dia seguinte, terça-feira, Vicky aproveita o intervalo das aulas para afastar-se um pouco da movimentação acadêmica e estudantil, em especial de Manu, que desde cedo tem agido de forma bastante contraditória. De fato, a ruiva fez questão de lhe servir de companhia, para vir à faculdade, e se pôs a falar amenidades à toa, como se elas estivessem de bem, como se nada tivesse acontecido e permanecessem na linha boas colegas.

“O tempo amanheceu nebuloso e frio, assim como minha alma”. Este é o pensamento de Vicky, que está sozinha, recostada ao rebaixado muro, que fica próximo ao canteiro de flores, um minijardim, nos arredores da faculdade. Sente o vento gelado e a sensação de desânimo, o que não é novidade, nem para ela mesma. Apesar disso, Vicky sabe que há mesmo alguma coisa errada no comportamento inesperado de Manu. Não entende o que é, só sabe que, ontem à noite, a ruiva chegou muito tarde da noite e que, provavelmente, esteve com a sua atual namorada, fazendo as coisas que ela gostaria de estar fazendo com Manu.

Vicky persiste em suas reflexões funestas e, ao mesmo tempo, escuta os movimentos de alguém se aproximando dela, pelas costas. Ao se virar, assustada, encontra os olhos cor de caramelo de Fábio sobre si.

— Prima! Eu estava passando e te vi aqui... sozinha. Há algum problema? Quer conversar? — olha-a com um ar de sincera preocupação. Fábio compreende, ao ver seu rosto depressivo, que ela se encontra abatida e precisando de ânimo. Sintoma que havia notado anteriormente, durante as visitas na casa dos pais dela.

— Fábio... Não. Eu estou bem. Só vim ficar aqui para contemplar as flores e o céu... Eu gosto de apreciar a natureza. — Ela hesita, desvia os grandes e negros olhos, querendo escondê-los de uma possível análise. Esta enrolação filosófica liberada por Vicky, porém, quase faz o rapaz cair na gargalhada, achando traços de plena conversa fiada.

— Vicky, nós somos primos e podemos até ser amigos próximos e confidentes... se você quiser. Eu sei que é sempre bom ter em quem confiar... ainda mais quando é da família. Não esqueça que nós somos parte da mesma família. — Fábio anuncia, enquanto estica os braços e alcança as mãos vacilantes da morena, sustentando-as, afim de reforçar sua fala.

A declaração entusiasmada de Fábio, provoca em Vicky uma tremenda angústia, além de não se sentir à vontade em ter suas mãos efusivamente capturadas, ela acaba enxergando malícia em cada gesto do seu primo e, de fato, crê que ele a esteja paquerando, o que a move a agir rápido em tentar escapar dali.

— Eu preciso voltar para a sala de aula. O intervalo já deve estar no fim... e eu não quero me atrasar. — puxa suas mãos das dele e tenciona afastar-se depressa.

Percebendo sua atitude de fuga, ele é mais ligeiro e a prende pelo antebraço. Pensa bem antes de falar o que acha que ela necessita ouvir.

− Vicky... Não vá assim! Você me entendeu errado... Não estou com más intenções com você, eu... eu... — perde um pouco a coragem, não por si mesmo, mas por ela, pois teme que ela se assuste ainda mais, com o que quer confessar-lhe honestamente.

Vicky fica olhando-o sem entender nada e ainda acreditando estar sendo alvo de paquera indecente e, agora, com ares de falsa meiguice.

Súbito, Fábio puxa-a ainda mais, no intuito de que fique próxima o suficiente para que ele fale baixo e ela escute, sem problemas.

— Eu sou gay! Entendeu agora?

Vicky pisca duas vezes e, ainda assim, seu cérebro não funciona, pois, calada e boquiaberta, permanece, por uns segundos.

— O quê? Você é... — esboça, ainda meio aturdida. A última palavra morre, a vergonha toma lugar. Ela fica mal consigo por ter, de modo ignorante, nutrido censuráveis ideias sobre seu primo.

— Gay. Isso mesmo. Bom, agora você já sabe que eu não tô querendo te foder, podemos conversar mais e sem maus entendidos... Ok? — Vicky tem a sensação de que seu primo se tornou outro ser humano, ao ouvi-lo falar sem acanhamento algum. Ela se lembra das palavras de Manu, quando fez acusações de que Fábio estava em busca de comer a prima gostosinha e disponível para isso. Agora este pensamento lhe parece até engraçado e ela não resiste, termina por mostrar um riso sutil, pelos cantos dos lábios, sobretudo ao imaginar o que ela diria se soubesse que Fábio é gay.

— Mas... você é gay tipo assim... de verdade? — Dessa vez, o rapaz de olhos não controla o riso alto e faz a morena prender o ar e arregalar os olhos, por conta do pequeno susto, em razão da sua alegria extravagante, cheia de sarcasmo.

— Eu sei! Sou tão macho quanto qualquer garoto que você já conheceu, não é? Mas, sim... Da fruta que você rejeita, eu gosto até demais. — Vicky estanca e fica olhando para ele, apreensiva. Mais uma vez precisa forçar o cérebro a trabalhar para constatar se escuta bem o que ele diz.

— Fábio... o que você está dizendo? Eu não... — ofega, transpira, fica muito nervosa. Entretanto, antes de conseguir defender-se, desmentindo a insinuação feita por ele, eis que surge Manu em seu campo de visão. A ruiva vem aproximando-se deles, com a já conhecida expressão de quem solta fogo pelas ventas.

— Vicky! O que é que você tá fazendo aí? Será que não percebeu que o intervalo acabou e que as aulas já recomeçaram? Ou agora vai dar uma de aluna irresponsável com o seu curso também? — dirige-se diretamente para a morena, desconsiderando, de propósito, Fábio, e sendo agressiva em suas interrogações.

— Não, ela não vai agora... Nós estamos conversando algo importante. Pode ir você, ruivinha, porque a Vicky vai depois, não é prima? — A própria Vicky não acredita, ao ouvi-lo responder à Manu, com a maior simplicidade, em seu lugar.

O nervosismo de Vicky triplica, ainda mais por sentir a ira de Manu exalar por seus poros.

— Olha aqui, garoto, meu nome não é ruivinha e eu estou falando com a minha amiga e não com você... Não se meta comigo porque eu não te dei essa liberdade! — Manu insulta-o, sentindo vontade dar um soco no meio da cara dele, mas se controla. Depois, ela volta a olhar para a morena. — Então, Vicky, você vem comigo ou vai ficar aí... com esse atrevido?

É a vez de Fábio lançar sobre Vicky um olhar sugestivo, transmitindo-lhe a clara mensagem de que quer que ela fique, que eles precisam continuar a sua conversa. Vicky entende perfeitamente o que ele lhe diz, através dos olhos, e se sente compelida a consentir.

— Manu, por favor, vá na frente. Logo eu vou também. É que eu e o Fábio estamos conversando sobre um assunto de família. É algo importante mesmo. — Apesar da voz de Vicky ter saído baixinha e meio frouxa, tem a capacidade de fazer a ruiva ficar estupefata.

— Vai preferir ficar aqui... com ele? Ah! Quer saber, Vicky... Eu tentei ser legal. Eu juro que tentei! Mas você é ridícula mesmo. Então, faz o seguinte... Dane-se! Vai pro inferno! — Manu cospe as palavras no rosto da morena e sai, quase correndo. De fato, a ruiva planejou que elas tivessem uma manhã comum e tranquila e, após o término do período letivo, ela a convidaria para um diálogo significativo, no qual elas iriam selar seu acordo de boa e simples amizade, e nada mais que isso. Manu também estava decidida a, finalmente, assumir o seu atual namoro com a Dayse, numa tentativa de fazer isso funcionar, por ter percebido o quão elas possuem de química no sexo, de afinidades em certos gostos e formas de ver o mundo, o que poderia ser um início de relação limpa, justa e centrada. Contudo, agora a cabeça da ruiva torna a ficar confusa, pois, ao ver a Vicky com o primo dela, o maldito ciúme a dominou outra vez e ela notou que sua paixão pela morena continua sendo-lhe um tormento, um sofrimento com o qual terá que aprender a lidar. Mas, a despeito de tudo, pretende deixar as coisas como estão, por enquanto. Ou seja, continuará com Dayse, neste envolvimento impreciso, e manterá a morena somente como amiga, mesmo que isso lhe custe vê-la, para cima e para baixo, na faculdade, com o tal primo atrevido. Assim, em sua mente, uma coisa está certa: nunca mais voltará a ser mais que uma amiga para Vicky.

Enquanto Manu segue rumo à sala de aula, tomando decisões, Vicky a vê indo para longe dela e sente o coração ser dilacerado.

Fábio, observador, nota também isso.

— Não se preocupe... Um pouco de ciúme é sempre bom, apimenta a relação e ajuda a manter o fogo aceso. — prognostica, deixando Vicky em estado de choque, pelo seu excesso de malícia.

Fábio, porém, não quer mais agir como um ingênuo, está cansado de fingir não ver o que lhe é óbvio, especialmente, depois desta explosão da ruiva.

— Como você conseguiu descobrir que eu... que eu sou... — Mais uma vez, Vicky sente dificuldade em falar.

— Lésbica? — Ele ri, com naturalidade, voltando a falar: — Se tem uma coisa que eu aprendi nesta vida é que os iguais, de um modo ou de outro, sempre se reconhecem.

— E desde quando você percebeu isso? Eu sou tão óbvia assim? — Vicky fica pensando que, se ele notou, outras pessoas irão notar também.

— Não, Vicky... Não fique preocupada. Você não é óbvia. Eu é que sou um ótimo observador. Nada passa por mim sem que eu analise bem. — tranquiliza-a e nota quando ela volta a olhar na direção em que a ruiva havia seguido, mostrando uma carinha amuada. — Vocês se gostam... Isso, sim, é gritante. O que há de errado entre vocês, Vicky? Por que esse clima de guerra entre duas garotas tão lindas? Vocês poderiam estar curtindo um lance legal, sem conflitos. Fale comigo, prima. Confie em mim. — Fábio deixa evidente sua vontade de ajudá-la.

Pela primeira vez na vida, Vicky sente-se acolhida, compreendida e com aspirações de falar, de soltar suas amarguras, suas dores. Afinal, Fábio é seu primo, é parte de sua família.

— Ah... Fábio. Eu nem sei como começar a explicar... É tão complicado.

No entanto, Vicky explica tudo, tudinho, sem deixar de mencionar nada. Experimenta um alívio na alma, como nunca havia sentido. E Fábio mostra-se um perfeito ouvinte, somente analisa cada frase e cada expressão liberada pela sua prima. Quando, enfim, ela lhe repassa o seu drama, ele respira fundo.

— Bom, eu também ainda não sou assumido. Sou obrigado a passar por hétero... ao menos por enquanto, e só na frente da nossa família. Não quero que se metam na minha vida. Só devo explicação para a minha mãe, com o resto eu não me importo. — é firme, honesto.

— Fábio, a tia Goreth sabe que você é gay? — pergunta Vicky, sentindo-se confusa, porque sempre achou a tia Goreth uma senhora boa, mas extremamente religiosa e preconceituosa.

— Não, ainda não, mas vai saber... em breve, porque, logo eu me formo, no meu curso de engenharia civil. Vou ganhar meu próprio dinheiro e vou ser independente. Se ela me ama, vai ter que me aceitar, caso contrário... fico sem falar com ela pelo tempo que for preciso, até que me aceite. — Os olhos de Fábio exibem um brilho determinado, corajoso, que deixam Vicky admirada. Ela nunca viu alguém mostrar tanta determinação para seguir com seus princípios como agora vê no primo.

— Ah, como eu gostaria de ser como você. Você é forte e decidido... Eu sou uma fraca, uma covarde! — Vicky confessa, com lágrimas querendo vasar de seus grandes olhos escuros.

Fábio fica compadecido ao perceber que sua prima necessita de ajuda urgente. Ele reflete por mais uns instantes, olhando diretamente para o feminino rosto contraído e toma uma decisão.

— Seque suas lágrimas, prima. Na minha frente, você nunca mais vai chorar, porque eu não vou permitir. Eu vou te ajudar. Essa ruiva voltará a ser sua. Pode acreditar. — anuncia, voltando a pegar as duas mãos, agora trêmulas, de Vicky e as apertando, de modo a reforçar o que acaba de dizer.

Vicky realmente para de chorar, não pelo pedido dele, mas por causa da sua declaração. Ela fica pasmada e sem saber o que pensar. Em seu coração, uma fagulha começa a se entusiasmar. O vento começa a levar as nuvens carregadas e o céu, como a confabular com os presságios de Fábio, expõe seu lindo azul, claro e limpo, anunciando que uma nova etapa de vida será iniciada para ela.

[...]

Notas finais
E aí? O que acharam, hein? Espero que tenham apreciado tudo, pois me senti muito inspirada, ao escrever este capítulo e seria maravilhoso compartilhar da alegria de vê-lo exposto, transcrito. Continuo à espera de comentários, amados leitores. Beijos e até mais.