[HIATUS] Mudanças impuras
37 Como o diabo gosta
Notas iniciais
— Cara, eu tava quase desistindo de te esperar e indo embora... Qual é? Você não cumpre com seus compromissos no horário não? — Rafa libera, assim, que vê Fábio entrar pela porta meio enferrujada do banheiro masculino, que está desativado para uso dos estudantes, em geral. Ele põe o celular que está em sua mão e que lhe serviu para observar a hora, dentro da mochila e volta a olhar, de modo impaciente, para Fábio. De fato, Rafael havia chegado na hora combinada e ficou esperando o outro por quase vinte minutos, por motivos que ele faz questão de não pensar muito a respeito.
Mais cedo, quando adentrou pelo estreito espaço, Rafa achou o local bem escolhido, pois ali, naquele cubículo um tanto sujo e pouco clareado, eles teriam menos chances de serem flagrados, durante a comercialização dos pacotinhos, pois, a iluminação está precária e, se não fosse pelo enorme vitrô basculante, de material envidraçado, que fica na parte superior do banheiro, o recinto estaria menos iluminado ainda. Agora está de braços cruzados, recostado à pia. Seus belos olhos castanhos mostram agitação e impaciência, mas também um pouco de nervosismo. Ele bate um pé, de modo inquietante, sobre o piso meio sujo. Veste uma camisa polo azul, calças jeans e tênis cinza-escuro. Sua mochila está sobre a pia, assim como os pequenos pacotes, contendo as substâncias ilegais.
Fábio sente excitação ao vê-lo inquieto assim, acha-o lindo e sexy. Sua vontade é a de pular as preliminares e agarrar o garoto, já que, no seu íntimo, ele capta a vibração gay camuflada de menino marrento. E, para ele, os que se fingem de héretos terminam sendo os melhores durante o sexo.
— Olha, amigo.... Peço desculpas a você pelo atraso. Eu estava numa missão beneficente, ou melhor, estava servindo de consultor sentimental pra minha prima... Ela é lésbica não-assumida e está com problemas com a garota que ela gosta. A pobrezinha sofre tanto por não ter coragem de se assumir. — Fábio semicerra os olhos, com um ar meio descarado. De modo proposital, revela os problemas da sua prima, querendo transmitir a ideia de que convive naturalmente no meio gay. Ademais, ele pretende ir testando as reações do garoto machão ante este tipo de assunto íntimo e inconveniente.
— Que seja. Pra mim, isso não interessa. — Rafa desvia os olhos, respira fundo e volta a olhar para Fábio. — Eu trouxe a mercadoria.... E você? Trouxe o dinheiro?
— Claro que sim... Eu sou um cara de palavra. Sempre cumpro com o que falo... mesmo atrasado. Ainda mais quando se refere a algo que me interessa muito. — lança ao garoto um olhar fixo, fazendo com que suas palavras adquiram um caráter malicioso. Em seguida, ele retira do bolsa da sua pasta-mochila, a quantia de dinheiro que haviam acertado, entregando-a para ele.
Rafael experimenta uma sensação de frenesi involuntário, quando os dedos de ambos se roçam uns nos outros, no momento da troca do dinheiro pela mercadoria. Ele prende o ar, desvia os olhos outra vez e tenta controlar suas reações. Não quer que Fábio perceba sua homossexualidade, sobretudo porque isso é um segredo seu, algo que guarda a sete chaves e pouquíssimas são as pessoas que sabem. Entre estas pessoas está o Dico, seu primo, que nunca fala a respeito, e sua mãe, que o rejeitou instantaneamente, quando descobriu, dizendo que ele deveria se matar ou buscar uma religião para curar esta doença demoníaca. Rafael, então, viu-se cruelmente renegado pela mulher que lhe deu a vida e que representava tudo para ele, em razão da extrema fé que a senhora tem nos preceitos bíblicos, acreditando ser um pecado imenso o envolvimento amoroso entre pessoas do mesmo sexo. O mais triste é que a sua mãe é a única parente viva e próxima que ele possui, pois seu pai faleceu de um infarto fulminante, que o afligiu durante o expediente, no escritório onde trabalhava como gerente de negócios, numa empresa de produtos farmacêuticos. O inusitado lado positivo é que o senhor, antes de morrer, havia feito um seguro de vida, pondo como beneficiária, em caso de morte, a sua esposa. Logo, a renda familiar tornou-se a pensão por morte que a mãe de Rafael passou a receber mensalmente. Portanto, seria bem complicado para ele admitir-se abertamente como um garoto gay e, por isso, prefere agir como um delituoso, heterossexual, no intuito de camuflar a sua real orientação.
— Bom... Acho que agora eu vou indo. Você já tem o que precisa para animar a festinha dos seus amigos... e eu não quero que nos vejam juntos. — Rafa fala, enquanto põe sua mochila sobre os ombros e faz menção de sair do banheiro.
Fábio é rápido, segura-o pelo antebraço.
— Espera! Não sejamos mal-educados... Nós nem nos apresentamos ainda. Tem algum problema eu saber o seu nome? — articula Fábio, de modo suave e firme.
— Não... Quer dizer, claro que não tem problema... Meu nome é Rafael, mas todos me chamam de Rafa. — responde, sem querer olhar diretamente nos olhos de Fábio. Seu coração está um pouco acelerado. Ele se sente meio constrangido, pois não está acostumado a ser tão educado com quase ninguém, ainda mais estando na situação em que se encontra, ou seja, bem próximo do seu interlocutor e fechado, com ele, dentro de um banheiro comunitário em desuso. No entanto, algo no modo de se comportar e falar de Fábio o intimida e o faz agir de maneira atípica, como se o forçasse a ser gentil.
— Rafa... Taí, gostei deste nome, combina perfeitamente com você. Valeu! Até mais, Rafa. — dizendo isto em tom misterioso, Fábio solta o braço do garoto e segue para a porta, indicando que vai sair.
— Ei! Eu disse meu nome pra você... Está pretendendo sair sem me dar o seu? Quem é que está sendo o mal-educado agora? — Rafa solta, sentindo alguma curiosidade quanto aos gestos dúbios dele.
Com o rosto virado para o outro lado, Fábio libera um sorriso de satisfação, pois obteve a reação exata que gostaria. Assim, ele volta e se aproxima muito do garoto, que fica afetado, mas disfarça o incômodo e tenta sustentar o olhar dele, para se mostrar destemido, impassível.
— Ah, é mesmo! Me desculpe. Eu só não achei que você quisesse saber o meu nome. Mas... ok! Eu me chamo Fábio. Muito prazer. — anuncia lascivamente.
Rafa, na verdade, está um pouco acochado entre Fábio e a pia. Ele pode até sentir o cheiro do perfume amadeirado dele e sua mente fica um tanto perturbada, por conta do aroma que lhe parece agradável. Ele não evita de observá-lo, de achá-lo bonito, sedutor e perigoso ao seu propósito de se manter hétero, por isso, não consegue sustentar o olhar fixo de Fábio e o desvia.
— Legal. — Não é capaz de pensar em nada para falar, além de “legal”.
Fábio nota a agonia do garoto. Ele passa a língua pelos lábios, mordendo-os de leve e sorri, discretamente, com vontade de beijá-lo, mas se segura.
— Olha, eu vim morar nesta cidade há pouco tempo. Transferi o meu curso de engenharia civil... e eu não conheço quase ninguém aqui. Você gostaria de... — Ele não conclui a frase e fica olhando para Rafa, pensando em como convidá-lo para ser seu amigo.
— Quer que eu te ajude a se enturmar? Tá a fim de conhecer uns lugares legais e umas gatas bem gostosas? Pois você está com sorte... Tá falando com o cara certo. Em dois tempos te faço conhecer os melhores pontos desta cidade e as garotas mais bonitas também. — Rafa desanda a articular sem parar, pois está nervoso e precisa relaxar, falando de coisas que o deixam tranquilo. Ele quer estabelecer-se na sua área de segurança, ou melhor, em assuntos como baladas e mulheres.
Eles conversam um pouco sobre isso. Na verdade, Fábio fica apenas escutando e achando irônico que Rafa queira passar-se como um cara notório, bem-quisto e mulherengo, apesar de lhe parecer óbvia a sua postura meio antissocial e, sobretudo, a sua condição sexual. Entretanto, a conversa desenvolve-se bem, ao ponto de Rafa e Fábio combinarem um novo encontro, desta vez para irem às melhores baladas noturnas, às quais o garoto tanto se gaba de participar, em presença de mulheres lindas. Os dois belos rapazes iniciam aqui a sua amizade. E antes de se despedirem outra vez, fica acertado que Fábio irá buscar Rafa em sua república, no carro que é da sua mãe, mas que é dirigido sempre e exclusivamente por ele, já que ela nunca quis aprender a guiá-lo, optando ter o filho como o seu chofer particular, quando necessitasse. Portanto, para todos os efeitos, o carro é dele e não de sua mãe. Rafa, por sua vez, acha bom, justifica-se dizendo que possui somente uma motocicleta, que lhe custou uma nota alta, mas que seria ruim para os dois se locomoverem pela cidade, sendo melhor andarem no carro, já que existe esta opção. Estabelecem, assim, a hora, o lugar e algumas condições para a saída. Rafa quer que Fábio aceite que ele o leve onde bem entender, que confie na sua estratégia de popularidade e de sedução de garotas. Fábio apenas consente com tudo e diz que não há problemas em ser levado para onde ele escolher.
Quando chega a noite, desta vez cumprindo com a hora acertada, Fábio estaciona o carro na frente da república de Rafael. Ele pega seu celular e liga para o garoto, informando-o de que já se encontra à sua espera. Em poucos minutos, Rafa aparece e entra no carro. Fábio suspira encantado com a imagem que vê, pois acha o bad-boy mais charmoso que antes. Ele está lindo e jovial, trajando uma blusa roxa, em tom escuro, por baixo de uma jaqueta de couro, uma calça jeans e um tênis cinza-escuro.
Rafa fica em estado de euforia reprimida, assim que põe os olhos em Fábio, achando-o atraente e cheiroso. Observa que ele veste uma camisa azul, com um xadrez sutil, uma bela calça jeans e sapatênis marrons. Está deslumbrante, por isso que é obrigado a respirar fundo para disfarçar o nervosismo diante da presença máscula e estilosa de Fábio.
— Então... Tá preparado pra curtir essa noite como o diabo gosta? — questiona Rafa, assim que senta no banco do passageiro, sorri alegremente tentando exibir naturalidade. Ele quer dar a entender que irão aos lugares mais badalados e que poderão conhecer as moças mais belas da cidade, inclusive algumas que frequentam a mesma faculdade.
— Sou todo seu. Leve-me para onde quiser... basta apenas me orientar no caminho. Eu não conheço muito bem as estradas desta cidade. — responde Fábio, com voz suave e bem humorada, fazendo o coração do outro descompassar involuntariamente.
Dessa forma, eles se encaminham a algumas casas noturnas, conhecidas por Rafa. Mas não vão à boate em que Lavínia está trabalhando como atendente. A razão para isto é que Rafa sujou-se com o dono de lá, que é mesmo um amigo seu. Ele quis fazer o seu pequeno tráfico entre os funcionários do estabelecimento e o senhor Jean Claude acabou descobrindo que o menino-negociador não estava somente vendendo suas drogas entre os frequentadores, o que o irritou muito, pois não tolerou tamanha audácia. Jean Claude nunca se importou que ele comercializasse o seu bagulho para quem quisesse comprar, no entanto, impôs a condição de que ele não oferecesse o produto aos seus funcionários, pois isso poderia afetar drasticamente o rendimento do trabalho deles. Rafa, então, sabe que deve ir pedir perdão pelo vacilo e pretende fazer isto depois, não hoje, pois hoje ele quer aproveitar ao máximo a companhia do seu mais atual amigo e quer ser bastante útil em sua tarefa de lhe mostrar o que há de bom nesta cidade, para a qual ele veio morar recentemente.
Fábio controla-se o quanto pode, não deixando transparecer sua vontade de agarrar Rafa.
Depois de andarem por vários locais festivos, agora eles dançam numa pista luminosa, repleta de gente buscando o prazer dos movimentos corpóreos, ao som de uma maravilhosa batida eletrônica. Trata-se de um remix da música It’s A Sin, da banda Pet Shop Boys. Estão acompanhados, cada qual, com duas lindas garotas, que dançam sensualmente diante deles. Todos já estão um pouco alterados, por conta das misturas de bebidas alcoólicas e Fábio não mais consegue ser tão bom em disfarçar o olhar faminto, que lança hora em vez, para Rafa. O garoto machão também já não contém a atração que o invade e o incomoda. Ele simplesmente deixa a bela jovem, que o está tentando beijar, afastando-a educadamente, indo achegar-se a Fábio, desconsiderando também a menina com quem ele está dançando.
— Tá a fim de ir pra outro lugar? Vamos sair daqui! Isso tá ficando entediante demais, você não acha? — fala alto e bem próximo ao ouvido de Fábio que, por muito pouco não o beija ali mesmo, em pleno local público.
— Eu já disse... Vou pra onde você quiser me levar. Vamos! — Fábio responde, com voz rouca e levemente alcoolizada.
Dessa forma, para completa frustração das belas jovens, os rapazes as abandonam, na pista de dança, deixando-as solitárias e boquiabertas.
Minutos depois, é mais de uma hora da madrugada e eles permanecem dentro do automóvel, que está parado nas proximidades da boate, da qual acabaram de sair. Os vidros das janelas estão levantados e, por conta de serem revestidos de material fumê, não podem ser vistos por quem passa por eles.
— Então, Rafa? Para onde iremos agora? — Fábio pergunta mexendo-se em sua poltrona e indo ficar perto do garoto, olhando-o diretamente.
— Eu nem sei mais se quero te levar a qualquer lugar... — O garoto solta, com voz meio entediada, querendo afastar dele o seu olhar.
— Por quê? É por minha causa? Eu fiz algo errado? — Fábio fica, por uns segundos, sem entender o que ele quer dizer. E se achega mais.
— Olha, Fábio... eu não sou tão bobo quanto você tá pensando. No começo, eu achei que fosse só impressão... Mas agora eu sei por que você está querendo tanto a minha companhia e... eu acho melhor a gente parar por aqui... porque eu não curto esse tipo de lance. — Rafa diz recostando-se mais no banco, a fim de se distanciar o quanto pode dele, virando a face corada para o outro lado.
— Então você já deve ter percebido que eu tô interessado em você... e não é como amigo. — Fábio fica olhando para a garganta lisa de Rafa de modo devorador.
Mesmo sem lhe olhar diretamente, Rafa sente a pulsação acelerar rápido.
— Eu já te disse que não curto esse tipo de lance. — insiste, voz fraca e nervosa.
— Rafa, eu também não sou um cara tolo. Eu sei quando sou correspondido, mesmo que seja com um simples olhar... E eu sei que você gosta sim. — Ao dizer a última frase, Fábio age de forma atrevida, esfrega com nariz no pescoço dele, cheirando e dando leves beijos.
Rafa fica sem saber o que fazer com a ousadia absurda de Fábio e, mais ainda, com a excitação que agora o domina, gradativamente. Ele nunca foi a vítima das investidas amorosas e sim o caçador, mesmo em sua adolescência, quando se descobriu gay, pois foi através de muita coragem que ele procurou um colega do ginasial e deixou claro que estava gostando dele. George foi seu primeiro amor e a primeira transa com homens. Mas eles não chegaram a ser namorados ou qualquer coisa assim, apenas transavam, nas raras vezes em que sua mãe permitia que ele viesse dormir em sua casa. Ademais, na escola, George o tratava como um lixo, desrespeitando-o na frente dos outros colegas, dizendo-lhe grosserias sobre o fato de ele ser filho de uma mulher considerada uma bruxa, por ser uma religiosa extremada, sempre com a bíblia em mãos, disposta a evangelizar todos ao seu redor. Porém, quando o seu colega de escola e transa esporádica foi embora para viver em outro estado, com a família dele, Rafael sofreu muito. No entanto, com o passar do tempo, suas relações sexuais com homens foram, cada vez mais, escasseando-se, até que ele decidiu que seria heterossexual, sobretudo, quando sua mãe o insultou de modo grotesco e profundo, fazendo-o ter vergonha de si mesmo. Isso embora ele tenha o apoio moral do seu primo, Dico, que sempre o aconselha a não fugir da sua verdadeira condição sexual, mas Rafa não consegue seguir o que seu primo diz, pois seu medo de ser rejeitado, onde quer que vá, fala mais alto. Sente-se revoltado com tudo e com todos. Às vezes tem vontade de explodir o mundo, que o atormenta com seus preconceitos.
— Fábio... Para com isso, cara! Você está enganado... Eu não sou gay... Eu não sou! — Rafa altera a voz e sente o cérebro ficar confuso entre o desejo de permitir que Fábio continue com as carícias e o de afastá-lo, de uma vez. Mostra-se muito aflito, tenta interromper os gestos ousados de Fábio, que somente para de acariciá-lo, mas permanece rente ao seu rosto.
— Ah... Rafa, deixa rolar o que nós dois queremos. Ninguém precisa saber. Será o nosso segredo. Eu sei que você também está a fim. Eu estou vendo claramente... Eu sinto o mesmo desejo que você está sentindo. Eu sei que você quer! — Fábio declara, olhando no fundo dos seus olhos.
Rafa escuta e fica tentando achar a melhor atitude a escolher, pois teme confiar em Fábio e sair prejudicado.
— Fábio... — Ele só pronuncia o nome de quem o aflige, sem saber como reagir ante esta situação.
Observando a irresolução dele, Fábio decide voltar a ser impetuoso. Ele põe as mãos sobre seu rosto e o beija na boca. Rafa corresponde, apesar de ordenar ao seu corpo que se mantenha impassível. Ele não resiste a tamanha tentação, deixa que Fábio o invada com a língua à procura da sua para se unirem, num beijo forte e revelador.
— Ok! Eu admito que... sinto atração por homens... Mas... — confessa, assim que Fábio deixa-o respirar, dando a entender que já está começando a desistir de lutar contra o seu desejo.
— Mas o quê, Rafa? Por favor, olha como nós estamos. Precisamos ir a um lugar reservado, onde possamos... dar um jeito nisso. — Fábio anuncia, com voz rouca e cheia de vontade. Ele sabe que seu membro está semi-hirto e quando escorrega, de propósito, a mão pelo corpo de Rafa percebe o volume também crescendo, dentro da calça.
— O... O que você tá falando? Pra onde quer ir? — Rafa nem consegue raciocinar direito, principalmente porque Fábio continua arrancando-lhe beijos, entre as falas.
— Eu sei de um motel super discreto... Ninguém vai nos ver. Pode ficar tranquilo. — dá mais um beijo intenso em Rafa e, sem esperar pela resposta, põe-se a ligar o carro e a guiá-lo para o tal motel super discreto.
A partir daí, nenhum dos dois emite uma única palavra. Fábio, por medo de que o garoto dê um piti, mude de ideia e exija ser levado de volta, e Rafa porque não quer encarar o que está fazendo agora como parte de algo real, e sim como uma espécie de fantasia, que será esquecida, assim que retornar à sua rotina normal.
Ao adentrarem pelo miúdo quarto do motel de beira de estrada, Rafa fica parado no meio do recinto, olhando para os lados e se sentindo um pouco constrangido. Há anos que ele não tem relações sexuais com homens. Nem se lembra exatamente como deve portar-se. E todos os envolvimentos casuais que teve, em seu passado, aconteceram em residências, ou seja, em quartos de casas de família, com a desculpa de estudar e ter que pernoitar na moradia de um colega. Nunca se imaginou envolvido com um gay experiente, em um motel “pouca coisa”, pequeno e onde muitos antes haviam estado, somente para transar. Todavia, a adrenalina subitamente o invade e nada mais quer raciocinar sobre o que vai ocorrer entre ele e Fábio, neste reles motel.
Fábio, que é mais alto cinco centímetros, abraça-o por trás e morde lascivamente sua orelha, causando um imediato gemido por parte de Rafa que, depois, vira o rosto em sua direção para receber novos beijos molhados e, desta vez, sem interrupções para conversas ou qualquer tipo de dúvida. Fábio põe-no de frente para si e vai comandando as carícias. Entretanto, o garoto não fica mais na postura de simples entrega, passa a reagir vigorosamente, intensificando o beijo, enquanto procura tirar a camisa de Fábio. Este, por seu lado, em questão de segundos, já desnuda Rafa da cintura para cima.
Permanecem com os beijos fogosos, ao passo que vão retirando as calças um do outro e, cada qual, o seu calçado. Eles riem ao sentirem dificuldade em retirar os calçados, por estarem um pouco toldados pela bebida e não quererem cessar os beijos e as carícias para empreender tal ato com calma. Estão eufóricos e muito excitados. Em instantes, ficam apenas de cuecas.
— Eu... preciso confessar uma coisa. — diz Rafa, quando tem uma oportunidade de ter sua boca livre.
— Quer confessar o quê? Não vá me dizer que gosta de sexo selvagem. — Fábio brinca, sem deixar de sugar-lhe o pescoço, região dele que adorou.
— Faz muito tempo... que eu não transo com homem. Eu posso não te agradar tanto assim... Não crie expectativas. — Rafa revela e se surpreende com o sorriso prazeroso que Fábio libera.
— Tudo bem, Rafa... Deixa comigo. Eu vou refrescar a sua memória... Vou fazer isso ser especial para nós dois. — Fábio cochicha baixinho no ouvido dele causando-lhe um frisson.
A face de Rafa fica enrubescida e ele se deixa conduzir à cama, deitando-se e esperando que Fábio o acompanhe. Contudo, o rapaz mais experiente tem outros planos, por enquanto. De fato, Fábio ainda não tem certeza se Rafa é ativo ou passivo, ou ainda o tipo versátil, mas não pretende perguntar diretamente, pois acha mais interessante fazer deliciosos testes para descobrir. Ainda em pé, ele despe a sua cueca e expõe o seu membro rígido, contendo, em sua ponta, um fluido meio esbranquiçado, referente ao pré-gozo, deixando evidente todo o seu desejo. Ele se ajoelha ao lado das pernas de Rafa que, por sua vez, envergonha-se um pouco e desvia os olhos, sentindo o ar lhe faltar e se obrigando a abrir a boca para buscar fôlego, tudo efeito do nervosismo. Fábio ri, malicioso, e em seguida vai retirando a cueca dele. Enquanto beija seu tórax juvenil, vai igualmente depositando lambidas e chupões por toda esta extensão e lhe fazendo gemer baixinho. Mas, quando o membro de Rafa também é exibido, Fábio apressa-se em explorar este órgão rosado, que como o seu, está muito hirto, plenamente excitado. Ele faz algo que Rafa não estava esperando. Presenteia-lhe com um sexo oral. Fábio quer experimentar o sabor do garoto e não se faz de tímido, abocanhando o membro de Rafa fazendo-o soltar um gemido mais alto. A sucção quase provoca uma ejaculação precoce nele, que faz mesmo um imenso esforço para não gozar antes do tempo.
Fábio começa a deslizar os dedos pelas nádegas macias de Rafa, que está ensimesmado em seu prazer, nada esboça de oposição Quando encontra o orifício apertado, no meio destas belas nádegas, inicia uma penetração, aos poucos, com um dedo pela entrada de Rafa e gosta quando ele não recusa sua mão, que trabalha concomitante ao sexo oral, e obtém a sua apetecida resposta.
— Fábio... se você... continuar com isso, eu vou gozar. — Rafa, assim, deixa claro que quer que o outro pare com o sexo oral e com os movimentos do seus dedos atrevidos.
— Mas... se você gozasse, eu poderia te animar de novo, ou não? — Enquanto profere estas palavras, Fábio monta-se sobre Rafa e já tem um preservativo em sua mão.
— Talvez... mas eu acho melhor não confiar nisso. Eu já disse que estou sem prática... com homens. Ei, como esta camisinha veio parar na sua mão? — espanta-se um pouco ao ver Fábio com o preservativo.
— Eu apanhei... da minha calça aqui, enquanto te chupava. — Fábio fala, de forma pervertida, apontando para o canto, no piso, próximo à cama.
— Ah... — Rafa fica sem graça e sem voz, mas sente a excitação crescer, junto com as palavras e os gestos libidinosos dele.
— Pega. Coloca em mim. — Fábio ordena, de modo rouco, sedutor.
— Uhum. — Rafa obedece, mas continua monossilábico. Ele põe, meio sem jeito, a camisinha em Fábio e espera o que virá, sentindo o sangue ferver em suas veias.
Fábio ajeita-se ainda mais. Põe as pernas de Rafa por cima de seus ombros e o acomoda ao seu corpo. No entanto, antes de penetrá-lo, beija-o outra vez e resolve falar algo que acha importante.
— Você sabe que vai doer no começo e que depois vai passar, não é? — sorri, pelos cantos dos belos lábios.
— Uhum... Eu sei... Fábio, acaba logo com isso... Para de enrolar! — Por conta da ansiedade, Rafa termina pedindo para ser penetrado, sem mais delongas.
Fábio abre ainda mais o sorriso e vai forçando seu membro pela entrada dele, pouco a pouco e de modo persistente, até invadi-lo por inteiro. Rafa quase rasga o lençol da cama, com suas unhas cravadas nele, devido à dor que sente. Ele fecha os olhos, respira com dificuldade e ofega muito.
— Ei! Calma. Vai passar.... Eu já tô dentro. Agora tenta relaxar. — Fábio é direto e se anima ao ver que Rafa sorri para ele, talvez ainda de nervoso.
— Eu sei! — abre os olhos, fixa-os em Fábio e volta a sorrir.
— Tá rindo de quê, hein? — Fábio promove outra estocada, lenta e forte.
— Você é bonito... E sexy pra caramba! Mas, Fábio... Cala essa boca e me pega pra valer agora. — Rafa solta, com voz atrevida e sensual também.
Ele é atendido prontamente, pois Fábio penetra-o de forma mais enérgica e profunda. Rafa passa a emitir sons, não mais de dor, e sim de prazer. Com efeito, Rafa fica tão feliz por relembrar como é fazer sexo com um homem que chega a imaginar, por uns instantes, que está sonhando com o que lhe acontece agora, que de fato não se trata de algo real.
Ambos gemem, arquejam e suam os belos corpos jovens, ao passo que se conectam nesta movimentação prazerosa, onde as bocas se buscam com voracidade, querendo intensificar o sexo gostoso e se perdem pelas curvas dos pescoços, trilhando um caminho de chupões e leves mordidas. O tempo transcorre, sem que Fábio tenha descanso e, ao contrário disso, segue estocando com seu membro completamente hirto pela entrada de Rafa, que sente quando o deleite máximo se aproxima, movendo-se mais para aumentar a fricção em sua pequena abertura, em busca de mais prazer, para facilitar o processo de ejaculação. Assim, ele jorra o esperma pegajoso, ao passo que libera um clamor pela boca aberta, melando suas barrigas, ainda coladas. Fábio permanece à procura do ápice de seu prazer, que demora só mais um pouco. Ele se move freneticamente por cima do corpo, agora letárgico, de Rafa e sente atuar em si pequenas descargas elétricas, ciente de que o gozo está vindo. De repente, este gozo vem mesmo e articula algo incompreensível, em pleno êxtase, enquanto se joga sobre Rafa, relaxando finalmente, recuperando o fôlego perdido. Sai de Rafa, pende o corpo para o lado, olhando-o com expressão alegre, brincalhona.
— Agora é a sua vez. — Rafa diz, fazendo Fábio levantar as sobrancelhas, sem saber do que o garoto está falando.
— Minha vez de quê? — Fábio comprime os olhos e espera a resposta, ao tempo em que puxa Rafa para um abraço e desliza sua mão pelos cabelos curtos e lisos dele.
— De me dizer por que está rindo. — Rafa levanta o rosto para ficar rente ao de Fábio.
— Bem... eu confesso que pensei que seria mais difícil conquistar você... — Fábio começa a revelar o que pensou sobre sua pequena caçada ao bad-boy, que imediatamente fica tenso. — Achei que demoraria alguns dias mais para te arrancar uns beijos... e talvez uns meses para te fazer se entregar a mim.
Subitamente Rafa fecha o cenho, empurra-o, levanta-se, começando a catar suas roupas, apressadamente, e arremessa as de Fábio sobre ele, com raiva em seus gestos.
— Vai.... Levanta aí. Vista suas roupas agora! Eu quero ir embora! — Rafa mostra sua personalidade orgulhosa e melindrosa, neste exato momento, deixando Fábio pasmado, por conta desta repentina e violenta mudança de postura.
— Ei! Fica calmo, Rafa... O que foi? Por que está assim... de repente? — inquire e flagra um riso azedo por parte dele.
— Você ainda pergunta? Que idiota é você que não se toca quando fala uma asneira do tamanho do mundo? Quer dizer que você agora me vê como uma puta fácil, não é? — Com estas palavras grosseiras de Rafa é que Fábio percebe que abriu a boca mais do que deveria.
— Rafa... Me desculpa, cara. Eu não quis te ofender assim... eu não tive essa intenção. — Fábio tenta justificar-se. Ele compreende que não deveria ter-se expressado como se expressou, acabando por ultrajá-lo. Sem saber ainda como reverter o incômodo instalado, vai à suíte, retira o preservativo, volta e começa a se vestir, olhando sempre para Rafa, buscando um contato visual qualquer. Mas Rafa está fechado, não permite nova aproximação.
— Você vai me levar de volta pra minha república e sumir da minha vida... Esqueça o que houve aqui! E se você disser pra alguém que nós... fizemos isso, eu te mato, entendeu? — está mesmo furioso e magoado.
— Rafa... Cara, não faz assim. Eu peço perdão. Não me castigue demais. Nós podemos nos entender, com calma. — tenta novamente uma reconciliação.
— Cala a boca! Anda! Vamos logo... Eu quero ir embora! — Rafa esbraveja e, já vestido, sai do quarto indo esperar Fábio na parte de fora do cômodo, recostado ao carro.
Fábio não vê outra opção a não ser quitar o valor no motel para levar o garoto marrento para casa.
No caminho de volta, nenhum dos dois abre a boca, ficam num silêncio mortal e, quando Fábio estaciona o carro em frente à república de Rafa, este abre a porta do automóvel e salta para fora, indo para longe dele, sem olhar para trás.
— Poxa, Rafa! Não vai nem se despedir de mim? Caramba! — Fábio queixa-se, vendo-o abrir a porta da república e entrar, sem se voltar jamais. “Que droga! Voltamos à estaca zero!”. Fábio, religa o carro e segue seu caminho para casa.
[...]
Fale com o autor