[HIATUS] Mudanças impuras

53 À noite, os drinks e ao desejo, a brasa ardente


Notas iniciais
Olá, meus queridos leitores! Como estão conduzindo suas vidas neste início de ano? Torço que esteja tudo bem. Bom... Como podem ver, este é o primeiro capítulo novo de 2016. Obá!!! Tomara que o apreciem. Ele é inteiramente recheado com as figuras formosas de Rafael (o nosso lindo bad boy) e Fábio. Boa leitura. OBS.: Agradeço a minha beta querida, Estrela de Rubi, autora do magnífico Yaoi "Vítima do Amor" (Que está prestes a sair da condição de HIATUS. OMG!!! Que ansiedade! Hahahahah... Força, amiga!)

Quando Fábio aproxima o automóvel do local que foi indicado por Rafa, não consegue refrear o sorriso que brota espontaneamente em sua face, enquanto aprecia a fachada da casa noturna.

— Se vai ficar de gracinha, com esse sorriso babaca na cara, então é melhor a gente ir pra outro lugar. — sentencia o bad boy, cruzando os braços e fechando o cenho.

— Caramba, Rafa... Isso é impressionante, eu nem abri a boca e você já tá aborrecido. — Fábio desvia seus belos olhos amarelados da edificação estilosa e os lança ao carrancudo garoto sentado ao seu lado. — Ok! Eu tô sorrindo, sim, mas não é de gozação nem de crítica, eu apenas me surpreendi, não imaginei que você iria me trazer num clube LGBT.

Rafa suspira pesado, descruza os braços e rompe a tromba, porém, continua meio tenso, encabulado. Ele detesta sentir-se assim.

— Bem... Eu admito que tinha curiosidade de conhecer uma boate gay, de saber o tipo de som que rola, se é muito diferente das outras casas noturnas... Foi só por isso que eu quis vir. Tem algum problema pra você? — pergunta, ainda tentando controlar a incômoda sensação de vergonha.

— Não, de jeito nenhum... Mas é sério? Você nunca esteve numa boate gay? — É a vez de Fábio questionar, ao passo que já busca um local nos arredores do clube para estacionar o carro.

— Não, nunca... Por quê? Você já esteve? — Rafa olha-o de viés, parecendo atento à resposta que o outro dará.

Fábio estaciona o Corsa e retira o cinto de segurança, gesto que é copiado por Rafa.

— Já. Na cidade onde eu morava antes tinha um clube assim e eu gostava de ir lá quando queria... — De repente, ele hesita, mas disfarça a gafe cometida sustentando o sorriso no rosto. — Quando queria me divertir, sabe, porque o som é mesmo bem legal, tipo dançante, eletrônico...

— Fábio, se você não quer me contar o que você fazia na boate gay da sua antiga cidade tá tudo certo, mas não precisa ficar desconversando e me tratando como um retardado, ok? — replica o bad boy, abrindo a porta, saindo do carro e fechando-a com alguma brusquidão. Fábio faz o mesmo, depois se aproxima de Rafa e, embora também lhe desagrade sentir o chuvisco e o vento gélido batendo em seu rosto, impede-o de andar segurando-o pelo braço.

— Escuta... Eu vou te dizer o que eu fazia. — anuncia observando o garoto voltar a lhe olhar nos olhos, outra vez atento. — Não é nada de mais... Eu frequentava aquela boate quando me sentia carente, quando queria arranjar sexo rápido e fácil. Isso aconteceu numa época em que eu estava aceitando a minha homossexualidade... Viu? Não é um grande mistério, é? E muitos caras costumam fazer isso.

— E por que você ficou enrolando e não disse antes? — Rafa inquire, mostrando uma postura displicente, como a de quem não se importa, embora na verdade esteja de algum modo incomodado.

— Porque nós ainda estamos nos conhecendo, Rafa, acho que ainda tô tentando te conquistar, então eu fiquei com receio de você confundir as coisas, de pensar que eu não tenho critérios, que saio com qualquer um, que sou um tipo de depravado. — afirma honestamente.

— Ah! Quer me convencer de que não é mesmo? — Rafa fala, desta vez em tom mais leve, ao passo que estreita os olhos sobre o outro.

Fábio sorri admirando a face bonita do garoto marrento, compreende que ele aprovou a sua sinceridade.

— Só um pouquinho, vai. — brinca e passa o braço por cima dos ombros dele.

Eles voltam a andar na direção da entrada do clube.

— Um pouquinho? Uhum... sei... — Rafa também termina sorrindo.

Eles entram e logo o bad-boy se mostra um tanto fascinado, enquanto seus olhos passeiam pelo ambiente. Não crê na quantidade de homossexuais, lésbicas, travestis e afins concentrados num único espaço. Observa que o local em si mesmo não se diferencia das boates que ele conhece, é razoavelmente amplo, possui um design ultra moderno. Há poltronas com pés metálicos nos cantos das paredes, um salão de dança no centro, bombardeado por feixes de luzes multicoloridas piscando insistentemente para animar o público, enquanto o ritmo eletrônico se faz ouvir em toda a parte através de caixas sonoras acopladas a painéis enormes, de onde surgem vídeos musicais variados. Atenta-se à canção que está tocando e gosta dela, sente a batida não tão agitada, mas não menos envolvente. É “Bullet Train”, de Stephen Swartz. Porém, comprova que não se encontra em uma casa norturna comum, principalmente, ao notar os olhares insinuantes que muitos indivíduos lançam sobre si e sobre Fábio, mais ainda quando eles decidem ir ao bar, já com as comandas de consumo a postos, e ele termina sendo alvo da mão boba de algum atrevido. Rafa detém o passo e olha para trás assim que sente uma mão bater em cheio no seu traseiro e os dedos apertarem as suas nádegas com força.

— Rafa, tá parado aí por quê? Vem! — Fábio, que seguia na frente guiando o caminho, também estanca e observa o garoto. Ele está olhando para trás e sua cara é de irritação. — O que houve?

— É que... Grrr... Esquece! Não houve nada... Vamos! — desiste de tentar identificar quem fez aquilo em meio a rostos completamente estranhos e, a seu ver, todos suspeitos. Ele anda apressado e passa na frente de Fábio, que ergue a sobrancelha, desconfiado, mas se conforma e igualmente torna a caminhar.

No bar, eles pedem drinks e se sentam no banco alto de assento redondo, em tom azul neon. Após alguns minutos conversando sobre os detalhes observados no clube, Fábio decide retirar a dúvida.

— Rafa... agora há pouco, alguém mexeu contigo, não foi? Por isso que você parou e ficou olhando pra trás? — toma mais um gole da sua bebida olhando-o de modo direto.

O bad-boy também verte o líquido alcoolizado na boca.

— É... Eu não consegui ver quem foi, só sei que algum safado sem noção passou a mão na minha bunda, acredita nisso? — confessa finalmente.

Fábio acaba rindo e dando de ombros.

— Claro que eu acredito... Nós estamos numa boate gay, um lugar repleto de pessoas loucas para soltarem as suas fantasias, as suas taras... Então você não pode querer vir aqui desfilar o seu belo traseiro e sair ileso. — comenta, espontâneo.

— E você tá dizendo isso por experiência própria? Já andou apalpando muitos traseiros... tão belos quanto o meu? — alfineta.

O sorriso de Fábio se alarga.

— Ciúme?

— Eu com ciúme de você? Nossa! Que piada engraçada, Fábio, vou passar mal de tanto rir. — força um riso irônico, que termina saindo amarelo.

— Puxa! Não seria tão cruel comigo se soubesse que o seu traseiro está me fazendo esquecer todos os outros que eu já apalpei. Além disso, qual é o problema em eu achar que você está com um pouquinho de ciúme de mim? Eu sei que você me acha bonito e sexy... Isso foi você mesmo quem falou. — olha-o atrevidamente.

Involuntariamente, Rafa devolve a Fábio o mesmo olhar minucioso. Observa os sapatênis elegantes, o jeans escuro sob as coxas grossas, a camisa azul-clara de mangas longas, dobradas até os cotovelos, meio aderida à pele, evidenciando os músculos trabalhados, o tórax ligeiramente protuberante.

— Eu não me lembro de ter falado nada disso. — desvia o rosto, chateado consigo mesmo por não conter o rubor que o toma e passa a fingir que está mais interessado em deleitar-se com o seu drink.

Fábio move-se no assento alto para ficar mais perto dele.

— Pois falou, no dia que fomos ao motel... Quer que eu te lembre em que momento exato você disse isso? — desce o braço, alcança-lhe a perna, põe a mão sobre ela e aperta a região próxima ao joelho de modo sugestivo.

Ao sentir a pressão nessa parte sensível do seu corpo, Rafa assusta-se e, além de quase se engasgar, também quase deixa a taça cair, especialmente porque flashes do sexo que fizeram naquele reles motelzinho surge em sua mente com nitidez.

— Fábio! — censura-o por causa do gesto íntimo, depressa retira a mão dele da sua coxa e lança olhos apreensivos ao redor de si. — Dá pra se controlar ou tá difícil, seu babaca?

A despeito do tom raivoso dele, Fábio não reprime o entusiasmo.

— Me explica que graça tem a gente vir numa boate gay e não perder um pouco o controle? — Ele se levanta, toma o restante da bebida do seu copo e olha para o bad-boy. — Vem! Levanta, Rafa! Vamos dançar... Pode ser que isso te ajude a relaxar.

Por seu lado, o garoto igualmente entorna pela garganta tudo o que ainda há em sua taça e se ergue da banqueta, mas faz algo que, por fim, provoca irritação em Fábio. Ele abre o zíper que fica na lateral da sua jaqueja, expõe o bolso, mete a mão e tira dele dois cigarros de maconha e um isqueiro simples.

— O quê? Rafa, o que você tá pensando? Por que trouxe essa porcaria com você? — Fábio toma os cigarros da mão do garoto, sem cerimônia alguma.

— Ué, não foi você quem acabou de dizer que eu preciso relaxar? — ironiza. — Me dá! — exige pondo a mão com a palma voltada para cima em seu rumo.

— Você falou que não era viciado! — Fábio afronta-o, querendo obter uma confirmação.

— E eu não sou, seu bobão! — afirma, categórico, porém, vendo-lhe a expressão desconfiada, respira fundo e decide argumentar. — O fato de eu garantir uma grana com isso, não faz de mim automaticamente um viciado, tá legal? Eu só fumo uma vez na vida, apenas pra relaxar mesmo!

Fábio analisa-o por novos segundos e lhe devolve os pequenos cilindros.

— Ok! Toma aqui... Desculpa se interpretei mal, não sei o que deu em mim, só não gostei da ideia ruim que passou na minha cabeça. — admite, honesto.

No entanto, Rafa sabe perfeitamente por que Fábio agiu desse modo intransigente, pois não são poucos os casos em que os traficantes aderem ao vício e é somente em razão disso que o garoto não fica com raiva. Tudo o que faz é acender o cigarro, devolver o isqueiro ao bolso e lhe olhar através da fumaça, que se alastra no ar, junto com o odor característico da cannabis.

— Pega, esse outro é pra você... pra relaxar também. — Com simulada ingenuidade, introduz o cigarro no bolso dianteiro do seu jeans, fazendo os dedos buliçosos se moverem perto da sua virilha.

Um imediato frisson invade Fábio, ele desfaz a expressão séria e sorri de lado, comprimindo os olhos diretamente sobre o garoto.

— Você é um menino mau, Rafa, muito mau. Por isso, mais tarde, eu vou te dar a lição que você merece... Mas agora... — puxa-o pelo braço e o leva consigo até a pista tremeluzente, de onde a música parece mais alta, a ponto de fazê-los sentirem seus torsos pulsarem no ritmo eletrônico. — Vamos dançar!!! — grita, entusiasmado, e inicia os movimentos dançantes.

Primeiramente, Rafa conserva-se parado, fumando e o observando. Admira a sua desenvoltura corporal, nunca viu um homem dançar tão bem e ser tão charmoso assim. Contudo, não demora para ser contagiado pelo seu ânimo e pelo som que está tocando. A canção “Try”, da Pink, é o ritmo delicioso que lhe invade os ouvidos e certamente ficará guardada em sua memória por muito tempo, sobretudo porque, com ela, experimenta o relaxamento bem-vindo. Dá novos tragos no fumo, arrisca uns passos, mesmo não sendo muito habilidoso para dançar.

Fábio empolga-se mais, achega-se a centímetros de Rafa e, impulsivo, beija-o na boca. A seguir, afasta-se temendo uma reação adversa, porém, o bad-boy apenas lança os olhos ao redor, constata que todos estão alheios, entregues às suas próprias diversões, enquanto a voz feminina repercute, harmônica, pelo salão. Com um surpreendente sorriso largo e atrevido, o garoto o repuxa pela camisa e cola seus lábios ao dele novamente. Depressa as línguas se encaixam e se sugam, competindo espaço nas bocas sequiosas, dançando mais que seus corpos atiçados e menos que seus corações acelerados.

“Você já se perguntou o que ele está fazendo? Sim...

Como tudo virou mentiras?

Às vezes acho que é melhor... nunca perguntar por quê

Onde há desejo, haverá uma chama

Onde há uma chama, alguém está sujeito a se queimar

Mas só porque queima não significa que você vai morrer

Você tem que se levantar e tentar e tentar e tentar

Você tem que se levantar e tentar e tentar e tentar

Você tem que se levantar e tentar e tentar e tentar...

Engraçado como o coração pode ser iludido

Mais do que apenas algumas vezes

Por que nos apaixonamos tão fácil?

Mesmo quando isso não é certo

Onde há desejo, haverá uma chama

Onde há uma chama alguém está sujeito a se queimar

Mas só porque queima não significa que você vai morrer

Você tem que se levantar e tentar e tentar e tentar... “

Rafa e Fábio são possuídos por uma sincronia de emoções, pela mesma profunda e maravilhosa sensação de liberdade. Deste modo, quando transcorrem uns bons instantes e a nova canção que vem para embalá-los ordena-os a aproveitarem a noite como se fossem morrer jovens, eles já estão totalmente enlevados pela atmosfera festiva, sentem-se de fato livres para expressar a sua homossexualidade sem dúvidas e, enfim, largam-se de vez ao regozijo e à Die Young, da Kesha:

“Ouço seu coração bater ao ritmo dos tambores

Oh, que pena que você trouxe alguém com você

Então, enquanto você estiver em meus braços

Vamos aproveitar a noite ao máximo

Como se fossemos morrer jovens

Vamos morrer jovens

Vamos morrer jovens (...)

Corações jovens, descontrolados

Correndo até não nos restar mais tempo

Crianças selvagens, bonitas

Vivendo ao extremo, do jeito que deveríamos

Não se importe com quem está observando

Quando estivermos detonando

Essa mágica que temos ninguém pode tocar

Procurando alguma encrenca hoje à noite

Pegue minha mão e lhe mostrarei o lado selvagem

Como se fosse a última noite de nossas vidas

Vamos continuar dançando até morrermos

Ouço seu coração bater, acompanhando a bateria

Oh, que pena que você trouxe alguém com você

Então, enquanto você estiver em meus braços

Vamos aproveitar a noite ao máximo

Como se fossemos morrer jovens

Vamos morrer jovens

Vamos morrer jovens

Vamos aproveitar a noite ao máximo

Como se fossemos morrer jovens... “

Passados outros minutos, decidem trocar a pista de dança pelo do recanto do bar. Pedem novos drinks. As conversas avançam rapidamente porque ambos sentem vontade de saber mais um sobre o outro. Fábio sacia a curiosidade de Rafa dizendo que está feliz com o seu curso de engenharia civil, pretende firmar-se nesta área de trabalho, garantir uma boa estabilidade financeira. Reitera a informação que, no momento, mora num apartamento miúdo, que divide somente com a mãe, que não sabe que ele é gay, e ele não faz ideia de qual será a reação dela quando descobrir. De todo modo, não irá revelar por enquanto, até que seus planos para o futuro estejam devidamente encaminhados. Por seu lado, Rafa divulga que é o líder da república onde vive com mais cinco estudantes, confessa que não está tão certo em relação ao seu curso de química, muito menos ao que fará para estabelecer-se profissionalmente. Sobre as questões mais complexas, como o pequeno comércio de drogas e a relação horrível que tem com a mãe, mostra-se esquivo, porém, Fábio o estimula a falar e consegue que ele se abra um pouco mais. Então Rafa admite que entre ele e a sua mãe existe uma mágoa profunda, que não irá mais confiar nela de novo e se ela se decepcionou quando soube da sua homossexualidade, ele se sentiu pior, pois se sentiu traído e rejeitado por quem antes via como seu único porto seguro, após a morte do pai. Ele assume ainda que entrou na vida ilegal por vê-la como uma forma imediata de ganhar dinheiro para poder arcar com os seus gastos pessoais e estudantis. Não tem intenção de ficar neste caminho errado por muito tempo, mas se contradiz ao dizer que, às vezes, gosta de se imaginar morando numa mansão de luxo, como ocorre com o Leo – Leonardo –, seu amigo e fornecedor.

Assim, entre bate-papos reveladores, abraços e beijos afoitos, tudo parece indicar que a noite transcorrerá bem. Todavia, num certo momento, Rafa anuncia que irá ao banheiro.

— Espera, Rafa, eu vou com você. — Fábio depressa se oferece. O detalhe é que é a terceira vez que ele se prontifica a ir junto e tal gesto começa a deixar o bad-boy agastado.

— Por quê? Tá apertado de novo também? — inquire, desconfiado.

— É... eu tô. — Ao terminar de falar, ele mesmo entende que não soube ser bom mentiroso, pois nota a postura incrédula do garoto.

— Ah... Vai à merda, Fábio! Eu não preciso de guarda-costa não! — ralha, orgulhoso.

Fábio prende-o pelo antebraço e o arrosta sinceramente.

— Ok! Eu não tô apertado, só queria te acompanhar mesmo, mas se você prefere ir sozinho, vá, e eu vou te esperar aqui no balcão. Apenas fique atento, está bem? Esse clube tá cheio de caras que gostam de fazer mais do que beijar em público. — alerta.

— Fica tranquilo, papai, porque eu já tô bem crescidinho, sei me cuidar. — O garoto marrento ironiza.

Fábio respira resignadamente, solta-o e o vê afastar-se, seguindo ao destino anunciado.

Embora sinta o chão distante de si, com o álcool e as substâncias do cigarro de maconha preenchendo-lhe as veias e fazendo efeito, Rafa tenta manter-se firme em seus movimentos. Ele ri consigo mesmo ao notar que não se lembra da vez em que se permitiu curtir a noite sem, de fato, se preocupar com nada. No geral, quando vai às baladas, visa mais à venda dos entorpecentes do que se divertir ou ter cuidado em não dar pistas da sua homossexualidade para ninguém. Contudo, está contente por abrir uma exceção e se largar um pouco, simplesmente viver o momento.

Ainda está refletindo sobre isso quando entra no banheiro e põe-se em alerta. Primeiramente, repara na presença de dois sujeitos estranhos. Um deles é um travesti, que está retocando o rosto já abundantemente maquiado em frente ao grande e retangular espelho, que ocupa quase toda a parede lateral, tendo abaixo um conjunto de pias e torneiras. O bad-boy passa pela transformista e é obrigado a prender o riso, pois acha-a uma figura cômica usando salto plataforma altíssimo, meia-calça arrastão preta, minissaia prateada, camisa rosa-pink de tecido meio translúcido, colada à pele. Adereços como pulseiras, colares, brincos e peruca loira completam o visual, a seu ver, alegórico. Avista também o outro sujeito, um homem trajando vestes de couro preto, ao estilo dos frequentadores de eventos sadomasoquistas, ostentando uma barba aparada e concentrada ao queixo, recostado na parede que fica em frente ao espelho.

Rafa acha por bem desviar os olhos ao observar que o homem de queixo barbado descruza os braços e já o encara de modo lascivo. Dirige-se ao mictório, abre o jeans e o desce o suficiente, trazendo a cueca e, só quando começa a urinar, nota-o a centímetros de si sustentando o olhar descarado.

— Tá a fim de uma trepada boa e sem compromisso? — sussurra o convite ao seu ouvido.

Involuntariamente, Rafa lembra-se do que Fábio disse sobre a época em que ia à boate da sua antiga cidade em busca de sexo rápido e fácil. Isso faz com que o incômodo normal cresça em dobro e se transforme em evidente raiva. O mais depressa possível, reergue a cueca e as calças.

— Não! Não tô!!! — esbraveja, dá uma cotovelada nele empurrando-o e anda à pia para lavar as mãos, com imensa vontade de sair dali.

O homem fica surpreso ao ser tratado com tamanha hostilidade, mas a seguir mostra os dentes num sorriso despudorado.

— Nossa, quanta testosterona num só rapaz! Adoro! Olha, vamos nos divertir um pouco... Vamos! Hum? — insiste.

O bad-boy fecha a cara e volta a fitá-lo com indiferença, somente movendo-se para sair e buscando impor o mínimo de civilidade, até porque não está plenamente em condições para brigar.

No entanto, o homem não se dá por vencido.

— Eu só quero sexo, fofinho bravo, nem precisa me dizer o seu nome, podemos fazer ali... — aponta para uma das divisórias sanitárias com porta. — Vai ser jogo rápido, eu garanto que você vai gostar.

Tão-só neste momento é que Rafa percebe, através da seguinte porta entreaberta, que há outros dois homens lá dentro e eles estão transando, sem ligar para quem os possa ver. Os olhos do bad-boy se arregalam vislumbrando o sexo explícito, sente-se ao mesmo tempo constrangido, enojado e fascinado. E a situação vai ficando bem tensa, pois cada vez que ele se desvia para sair, o homem barbudo avança e o atalha.

— Tô falando de sexo gostoso e limpo... Você vai gostar! — repete e retira do bolso um preservativo.

— Sai do meu caminho ou quebro a sua cara feia, seu asqueroso!!!! — Rafa explode, nitidamente agitado, como um bicho selvagem acuado, sobretudo porque começa a crer que terá mesmo que lutar fisicamente para conseguir retirar-se do banheiro.

— Para com isso, Ronie! O garoto já disse que não quer. Não seja um viado escroto, imoral, baixo... Deixa ele passar logo senão quem vai se divertir com você sou eu! — O travesti, que estava quieto, parte em defesa do jovem, apresentando uma impressionante voz grossa e cheia de autoridade.

— Como se já não tivesse feito isso, não é, Tallita Tudd? — retruca o homem, dando a entender que ele e o travesti se conhecem muito bem e que não é tão intimidador como quer parecer que é. A seguir, ele suspira fundo e sai da frente de Rafa. — Tudo bem, vai na paz, garoto, e me perdoe se abusei um pouco... É que eu fico louco com tipos machões novinhos como você. — justifica com um sorriso desprovido de vergonha.

Rafa nada diz, somente passa por ele, fazendo questão de empurrá-lo novamente, deixa o recinto bufando e praguejando, mas também sentindo alívio.

Já o barbudo lança olhos mordazes sobre o travesti.

— Obrigado por ser uma traveca despeitada, invejosa e empata-foda! — ejeta com sarcasmo e volta a recostar-se à parede e cruzar os braços, a fim de esperar outra possível conquista sexual para a noite.

Rafa mete-se ao meio de novos desconhecidos para retornar à companhia de Fábio, que o espera no bar. Quando está perto, coloca no rosto a sua melhor expressão, pois não quer que o outro desconfie da situação tosca pela qual acabou de passar. Porém, a sua melhor expressão torna-se a pior, pois seus olhos se deparam com uma cena difícil de acreditar, repulsiva.

[...]

Minutos anteriores...

Assim que Fábio perde Rafa de vista, torna a sentar-se no banco alto, pôe-se a distrair-se rodando o copo, às vezes, levando-o à boca e olhando na direção do toalete. Ri achando interessante que não tenha passado pela mente do bad-boy, em tempo algum, que ele se tinha disposto a lhe acompanhar com outra intenção além de lhe servir de segurança, o que pode denotar que não está entre as suas fantasias sexuais transar num ambiente onde haja o risco de ter olhos estranhos lhe assistindo.

Súbito, detém sua linha de pensamento ao notar que um homem de pele muito clara, bem-vestido, com cabelos grisalhos, aparentando ter idade em torno de cinquenta anos, senta-se ao seu lado, no assento em que Rafa estava. Todavia, Fábio não dá qualquer importância ao fato.

— Pode me fazer aquele drink especial de novo, Fred? — O homem fala com o barman de modo amistoso e pessoal, dando a entender que é um frequentador assíduo do local.

— Opa! Claro... É pra já, Boris. — responde, também chamando-o pelo nome. Depressa o homem é atendido e sorri, satisfeito.

— Hummm...! Muito bom! Você é o melhor, Fred, o melhor. — elogia tomando uns goles da mistura alcóolica.

— Ah, não é pra tanto, mas eu fico feliz que goste. — diz o outro, contente por ter seu ego amaciado.

— Meu elogio é sincero e, para que você não tenha dúvidas do quanto eu aprecio os seus drinks perfeitos, vou lhe dar um agrado. — anuncia em tom resoluto. A seguir, retira do bolso da sua calça de marca cara, que combina com a camisa e os sapatos igualmente onerosos, bem como com o seu relógio caríssimo, uma pomposa carteira escura, da qual saca umas notas de dinheiro e as entrega para o outro, que esboça surpresa.

— Puxa! Assim você me deixa sem jeito me dando essa gorjeta tão alta.

— Apenas aceite, você fez por merecer. — arremata.

— Sendo assim... Obrigado! — O barman, por fim, sorri agradecido e aceita a gorjeta dada para, logo a seguir, tornar aos seus afazeres, visto que o seu atendimento é solicitado por outro cliente.

Não demora para Fábio, que involuntariamente presenciou o diálogo deles, perceber que os olhos do homem grisalho estão cravados sobre si, mas opta por fazer-se de tolo, desconsiderar esta observação. No entanto, o homem, ao contrário, resolve que apenas olhar não é o bastante.

— Eu estou observando você há horas, rapaz, e pude perceber que você foi abençoado pela natureza. Seu porte físico modelado não é só obra de malhação, não é? Ter uma genética boa assim é um privilégio para poucos... — declara, move-se no banco e o olha de frente. — Devo confessar que faz tempo que não me sinto tão rapidamente... Como se diz? Ah, é... Fascinado.

— Bom... Pois, se está mesmo me observando há horas, deve ter percebido também que eu estou acompanhado. — Fábio expõe simplesmente, sem entonação de sarcasmo ou grosseria.

— É, eu vi sim, você está com um garoto, bem bonitinho, por sinal, e, pelo modo como vocês se olham, eu diria que estão apaixonados... Que romântico! Mas não é amor que eu procuro, meu jovem, na verdade, tal como Giacomo Casanova, apenas “procuro um momento que dure uma vida”. — cita o escritor aventureiro italiano, toma outro gole da bebida, mantendo na face uma expressão desdenhosa, de galanteador sabichão. — Por isso vou ousar lhe propor algo tentador.

— Amigo, na boa, eu não tô a fim, ok? — responde Fábio, igualmente ingerindo uns goles do seu drink, ainda imperturbável, tranquilo.

— Deixe pra dizer que está ou não a fim depois de me ouvir, está bem? — pede e finge que não vê Fábio suspirar, enfastiado. — Vou ser direto, como gosto de ser. Veja bem, eu sou um homem de recursos e, como toda pessoa rica, tenho os meus caprichos, gosto de usufruir do que o dinheiro é capaz de comprar e sou generoso, por isso quem me dá o que eu quero sempre é muito bem gratificado. — faz questão de frisar o “gratificado” — E o que eu quero agora? Quero sair daqui e ir para a minha cobertura fazer uma festinha particular na minha piscina, ter você como meu convidado especial... Será divertido e prazeroso, eu garanto. Mas você pode trazer o seu namorado junto, se quiser que ele venha, ou pode inventar algo, mandá-lo para casa em segurança, eu pago o táxi. Pra mim, tanto faz, porque... — Ele põe a mão no braço de Fábio, apalpa-lhe os músculos, e segue falando em tom erótico: — O que eu mais quero neste momento é saber se você é todo grande, bem feito e gostoso como parece que é.

Apesar de já ter sido alvo de muitas cantadas atrevidas, Fábio fica meio estático, ainda processando as palavras do homem e se pasmando com a sua ousadia em tocá-lo no braço, ficar sorrindo e lhe olhando de modo explicitamente malicioso. No entanto, quando decide que é hora de dar-lhe um bom chega pra lá, de repente uma voz raivosa rompe atrás de si e o antepara:

— Então era isso o que você fazia na boate da sua antiga cidade? Chegava lá com um cara e no fim da noite ficava de paquera com outro??? — alterado e enciumado, Rafa ejeta a acusação olhando diretamente para Fábio.

— O quê? Rafa, não é nada disso! — brusco, Fábio afasta a mão do homem de si, ergue-se da banqueta e se põe frente ao bad-boy. — Você tá entendendo tudo errado, me deixa explicar...

— Eu tô entendendo errado? E o que eu acabei de ver? Você e esse.. esse Matusalém aí estavam quase se beijando!!! — rebate, confuso, irado.

— Hei! Calma aí, garoto! — O homem grisalho também se levanta do banco alto e se dirige a Rafa. — Eu e o seu namorado estávamos apenas conversando, aliás, eu estava propondo a ele algo interessante... Então por que você não fica quietinho e escuta? Pode ser que você também participe e ainda saia lucrando...

— Não, ele não vai escutar nada, quem vai escutar agora é você! — Fábio volta-se de novo para o homem e o encara firmemente. — Olha aqui, amigo, não leva a mal não, mas eu não tô interessado na sua proposta nem no seu dinheiro... por isso é melhor você ir atrás de alguém que realmente queira.

— Por que está recusando um convite tão vantajoso? — inquire e, na sequência, lança em Rafa um olhar depreciativo, como se ele fosse um calo no seu pé. — O problema é o garoto? Mas eu já disse que, se você quiser, ele pode ir junto...

— Ir junto? Ir junto pra onde, hein, seu porco gagá? Pro asilo dos velhos pervertidos de onde você saiu? Pois saiba eu não vou nem amarrado!!! — Rafa berra em tom de evidente escárnio e desprezo.

Assim, os planos do homem quanto a ter uma noite de prazer ao lado de um belo e robusto jovem, mesmo tendo que pagar e convencer também o namoradinho dele a participar, vão por terra no instante em que nota o olhar possesso do garoto.

— Modere a sua língua, seu filhote de pit bull da favela! A tua mãe não te ensinou a ser gente não? — O homem, ultrajado, abandona a pose galante e também começa a agredir verbalmente.

Mais irritado ainda, Rafa desvia-se de Fábio, que já se punha na sua frente outra vez, e fica diante do homem grisalho.

— Ela me ensinou sim... Quer ver? — Sem pensar duas vezes, toma a taça que está na mão dele, arremessa o líquido em sua face e depois joga a própria taça acertando-o na região do tronco. O delicado objeto de vidro se estilhaça e alguns cacos ficam grudados na veste de tecido fino, enquanto o líquido escorre e se une a eles.

— Olha o que você fez? Sabe quanto custa uma camisa dessas??? Agora você vai pagar por isso, moleque!!! — explode e igualmente toma uma atitude hostil, impensada. Ele ergue o punho fechado e consegue atingir o rosto do garoto, que tomba para trás e cai, sentindo dor, sobretudo porque sua pele sofre uma laceração, pois na mão que o agrediu há um anel de prata com um brasão quatrangular em relevo que, acidentalmente, terminou servindo de pequena navalha.

A partir daí, tudo é muito rápido. Fábio, que ainda tentava manter-se razoavelmente pacífico, ao ver Rafa caído no piso, com um filete de sangue a escorrer de algum ponto próximo ao olho esquerdo, perde a compostura de vez e voa ao colarinho do homem, que nem bem recebe o primeiro soco violentíssimo, já se apavora e começa a gritar pedindo socorro, mas Fábio, desenfreado, dá outro e mais um.

— Chega!!! — ordena o barman, que havia pulado o balcão quando percebeu que a briga estava indo longe demais. Ele prende o braço de Fábio e o encara, querendo trazê-lo à razão. — Você já teve o seu troco!!! Olhe pra ele!!!

Desse modo, Fábio, por fim, dá-se conta do sangue esguichando do nariz do homem, enquanto ele implora, geme e lacrimeja de dor. Observa a própria mão ensanguentada, inspira e expira com alguma dificuldade. Vê também ao redor de si algumas pessoas olhando-o com expressões de pasmo. Entretanto, somente larga o homem aos cuidados do barman, vira-se e encontra Rafa, que já está em pé a pouca distância de si. Nota que ele se mostra igualmente boquiaberto, porém, destoando dos demais, há em seus lábios um inoportuno traço risonho e em seus olhos juvenis, um brilho mais acentuado. Ignorando esta minúcia, Fábio anda até ele.

— Vamos embora! — determina, curto e grosso, e continua caminhando.

Rafa nada diz, apenas lança um último olhar para trás e o segue.

Novos instantes depois, Fábio dirige em silêncio e parece muito sério, ao contrário de Rafa, que já não consegue prender as risadas, que começam sutis, crescem e, ao fim de uns instantes, se transformam em gargalhadas.

Súbito, o veículo é manobrado para o acostamento e freado numa velocidade incrível.

— Do que você tá rindo? Me diz! O que é tão engraçado? — Fábio questiona, bravo, olhando-o com recriminação. — Não há graça nenhuma no que houve... Foi errado, errado demais! Por sua causa, eu quase matei aquele homem, porque você desconfiou de mim, fez aquela confusão desnecessária e ainda provocou o sujeito jogando a taça nele... porque você é inconsequente, precipitado, imaturo! Não precisava ter sido assim, você não precisava sair machucado nem ele, as coisas poderiam ter acabado na paz, sem briga ou bate-boca... eu teria dado o fora nele de modo civilizado e depois nós continuaríamos a nossa noite sem parecermos dois delinquentes que saem agrediando os outros por qualquer motivo... Deu pra entender por que isso não é engraçado, Rafa?

— Não me culpe por você ter virado o Hulk! — O garoto marrento esbraveja, desta vez sem rir. — Eu não pedi pra você me defender, seu imbecil... e não pedi pra você quebrar o nariz daquele porco nojento!

— É, você não pediu, eu sei que fui eu que perdi o controle e exagerei na dose, mas você, ao contrário de mim, parece que gostou do que viu... Rafa, será que você não compreende que nós todos erramos por nos deixarmos levar pelos ânimos acirrados porque violência não resolve as coisas?

— Não, eu não vejo assim não! O que eu vejo é que a violência, às vezes, é sim uma ótima solução, pois tem gente que só aprende de verdade na base da porrada... Fábio, você pode até acreditar que aquele velho depravado iria aceitar de boa o seu “fora civilizado”, o que eu duvido muito... mas isso não importa, o que vale é que a lição que ele aprendeu hoje, com a surra merecida que levou, não vai esquecer nunca mais. Eu aposto que, de agora em diante, ele vai pensar duas vezes antes de dar em cima do namorado de outro cara! — Apesar de sua voz sair meio engorolada, Rafa contrapõe com firmeza.

Fábio, então, contempla-o erguendo as grossas sobrancelhas e as cerrando por cima de olhos que se tornam depressa mais atentos.

— Namorado? — A pergunta escapa em tom de quase censura.

— Errr... Bom... Tô dizendo isso porque ele achou que você era meu namorado... apenas por isso! — exclama, remexe-se no banco, ajusta a jaqueja, passa a mão no cabelo, cruza os braços, fica com a expressão de menino emburrado e arisco, tal como quando chegaram à boate, com a diferença que agora está com o organismo alterado e as emoções em ebulição.

De repente, os dois ficam calados. Entretanto, o silêncio das vozes dá lugar aos sons de suas próprias respirações ruidosas, porque ambos têm a adrenalina correndo solta em suas veias, e às tentativas de normalizá-las.

Suspirando pesado novamente, Fábio observa, através das vidraças fechadas, que a garoa lá fora persiste, o vento e a friagem também. Nota ainda que há bem poucos carros seguindo pela via um tanto escura. Depois, olha de viés para Rafa.

— Como tá o seu olho? Doendo muito? — impõe serenidade à voz.

— Ele não me acertou no olho, foi perto dele. — explica em tom de meio resmungo, põe a mão no rosto, num ponto acima da bochecha esquerda, e faz uma careta de dor, mas depressa troca-a pela simulada apatia. — Eu tô legal... Isso não foi nada.

Fábio acende a luz interna do veículo, retira o cinto e gira o tronco na sua direção.

— Chega mais perto, deixa eu ver. — faz sinal com a mão.

— Tá... mas eu já disse que não foi nada. — Rafa também tira o cinto e aproxima seu rosto ao dele, que espalma as laterais da sua cabeça e passa a analisar a região machucada.

— É, o corte é menor do que eu imaginei, acho que não vai nem precisar de ponto... só que isso aqui depois vai ficar mais roxo ainda. — toca com o dedo ao redor da ferida onde a pele está levemente arroxeada.

Nesse meio-tempo, os olhos de Rafa são naturalmente atraídos e aprisionados à imagem que tem diante de si, ao queixo bem traçado, tal como à boca, que parece estar sempre disposta a sorrir, mesmo agora que está sério, ao nariz que se conforma perfeitamente à fisionomia máscula e, em especial, aos olhos, que são profundos e dotados de uma coloração extremamente bonita, uma mistura oscilante entre o amarelo e o verde.

— Fábio. — chama baixinho, sem ter noção de que suas pupilas estão nitidamente maiores.

— Hum... Diz. — incentiva-o, mantendo as mãos envoltas entre o seu maxilar e a sua nuca.

— Eu quero que você seja. — Rafa declara, com voz que soa abstrata, vagarosa.

— Que eu seja o quê? — Fábio detém a análise do corte e entrefecha os olhos sobre ele.

— Meu namorado... — explica, desvia o olhar e, quando torna a fixá-lo, apresenta um sorriso travesso. — Se você ainda quiser também.

— Ah, caramba! Você não tá falando isso agora só porque tá chapadão, não é?

— Posso tá meio bêbado, mas eu não tô chapadão, só fumei um baseado, o outro eu te dei... — começa a se defender. Mas Fábio não o deixa terminar porque, dominado por impulso, cola seus lábios aos dele, que corresponde o beijo afoito no mesmo instante em que fecha os olhos, abre mais a boca e a move para encaixá-la melhor, largando-se à deliciosa e instantânea sensação que o gesto íntimo oferece.

— Rafa... tá a fim de continuar essa conversa num lugar mais... aconchegante? — sugere, ao fim de uns minutos, e troca a boca do garoto por sua garganta, roçando a barba rala perto da sua orelha, fazendo a pele se arrepiar.

— Aconchegante, né? Hum... Deixa ver se eu adivinho que lugar é esse... — franze a testa simulando uma cara séria e reflexiva, mas acaba rindo ao sentir a mordida não tão leve na região acima da sua clavícula. — Ai! Então, me larga, seu canibal... e dirige!

É a vez de Fábio não se conter e rir abertamente, tomado de pré-excitação. Sem perder tempo e sem pronunciar mais nada, solta-o e no instante seguinte põe o veículo em movimento de novo. Felizmente não é obrigado a rodar muito para encontrar um motel à margem da estrada.

Mal eles adentram o quarto escolhido, retomam os beijos molhados, agora mais intensos, mais provocantes. Enquanto as vestes vão sendo retiradas, andam desajeitadamente rumo à cama, com as respirações falhando e se recompondo, mas sempre mantendo os corpos em contato, cheios de vontade, ansiedade, fome de pele, de toques, de novos estímulos. Rafa segura-se ao pescoço largo de Fábio para lhe arrancar outro beijo fogoso ao mesmo tempo em que este desliza as mãos pelo tórax juvenil desnudo, acaricia seus mamilos, desce, desabotoa, abre e força o jeans a sair por suas pernas. Quase num piscar de olhos, o garoto se encontra nu de costas, com as mãos e os joelhos apoiados à beirada da cama. Fábio, igualmente despido, está em pé, atrás de si, porém, recurvado, lambendo, mordiscando e sugando, do começo ao fim, a coluna vertebral dele, que já solta gemidinhos incontidos. Em sua mão, há uma embalagem parecida com um preservativo, mas se trata de um lubrificante, que Fábio abre e umedece os dedos com o líquido gelatinoso.

— Olha como eu tô bonzinho hoje... dessa vez vim preparado pra te causar menos dor — cochicha ao seu ouvido num tom meio sádico, como se afirmasse justo o contrário, ao passo que o invade com um dedo desavergonhado.

— Ah... Pior que sempre dói... — protesta, ofegante, vira o rosto para lhe olhar por entre os cabelos curtos, com alguns fios suados e colados à testa. — Mas... quando a dor passa...

— Quando a dor passa...? — instiga-o, curioso, encurvando-se mais e aproveitando a boca entreaberta para enfiar dentro dela a sua língua, que é sugada no ato, num beijo um tanto contorcido, mas não menos profundo.

— É... só prazer... — diz, com voz quase sumida, liberando um sopro morno que esquenta os lábios do seu amante.

Essa confissão de Rafa, vinda espontaneamente, provoca um frenesi enorme em Fábio, que ligeiro troca a invasão dos dedos pela do seu membro totalmente hirto, gotejante e devidamente revestido com o preservativo. Estoca-o vigorosamente e se excita muito ao sentir o corpo do garoto ficar retesado, eriçado, enquanto lhe escapam ofegos lamuriosos pela boca, principalmente quando consegue alcançar o seu membro rígido, mesmo sem cessar as estocadas por trás, e lhe oferecer uma boa masturbação, ato que exige esforço, concentração e habilidade. Contudo, decide mudar a posição. Por isso, retira-se dele e o põe deitado na cama, de frente para si. Mantendo o ritmo acelerado, ergue uma de suas pernas, acomada-se ao meio e abaixo delas a fim de penetrá-lo novamente.

Rafa está muitíssimo excitado. Tal emoção se intensifica ao ver o abdómen sarado de Fábio, pingando suor, exalando masculinidade e vigor, especialmente quando se torce para a frente e consegue visualizar o falo erétil dele, grande e carnoso, sumindo e aparecendo pela sua entrada, sovando-o de maneira incansável. Levanta a vista e se depara outra vez com o olhar marcante de Fábio, que lhe sorri de modo meio sacana fazendo-o ruborizar e, consequentemente, ter vontade de cobrir o rosto ou presenteá-lo com uma bofetada. Porém, a necessidade de provar do sabor da sua boca é maior que tudo, em razão disso, ávido, rodea com os braços os ombros alheios, agarra-o firme puxando-o para si, junta seus lábios semiabertos aos dele num beijo recheado de arquejos ritmados. Termina gozando, assim que Fábio pressiona-o um pouco mais forte, por experimentar um fogo culminante queimando suas entranhas.

Quando, num instante depois, o clímax também chega para Fábio, ele cai ao seu lado na cama, inteiramente suado, quase sem fôlego.

Os dois permanecem mudos por uns minutos, esbaforidos, muito cientes da presença um do outro, mirando os pontos luminosos de Led no teto com forro de gesso pintado de branco, tentando normalizar a respiração.

— O que você disse sobre querer que eu seja seu namorado... é verdade? — Fábio corta o silêncio, mas o suspense é instalado, pois Rafa fica quieto, não responde. — Rafa? — insiste, virando a cabeça e lhe olhando.

— Cara, na boa, esquece isso, tá? Eu não tava muito bem da cabeça naquela hora, tava muito chapado mesmo. — O garoto divulga, com uma impressionante frieza na voz, porém, ao olhar para o lado e encontrar o olhar fuzilante de Fábio, ele não se aguenta e ri, buliçoso, enquanto gira o corpo, ergue-se o suficiente e monta sobre ele, apoiando-se nos cotovelos, um de cada lado de seu rosto. — Tô brincando, seu idiota! É verdade, eu quero, eu quero sim!

Então Fábio desfranze a testa, mas a princípio não entra totalmente no clima divertido, apenas se mostra aliviado, libera o ar e um sorriso discreto, ao passo que contorna seu tronco, abraça-o com um braço e ergue o outro para colocar a mão em seu rosto. Passeia os dedos ao redor do pequeno corte, nota que o ferimento encontra-se revestido pelo sangue escuro e ressecado, e o arroxeado está de fato mais vivo. A seguir, olha-o nos olhos de modo firme e reflexivo.

— No instante em que nos conhecemos, ou melhor, quando tropeçamos um no outro e nos olhamos, eu percebi que você era um garoto difícil de suportar. Não demorou pra você confirmar a primeira impressão e mostrar o quanto é rebelde, brigão, mal-humorado, teimoso, orgulhoso, às vezes bem infantil e irritante... — começa a expor e logo Rafa apresenta algum incômodo. —... não tem paciência com nada, é precipitado, genioso, inquieto e se deixa levar fácil pelo ciúme. Além do mais, é ambicioso e inconsequente, prova disso é estar metido num troço sério, ilegal e perigoso.

— Quando foi que eu te falei que era perfeito, hein, Fábio? E quem é você pra apontar os meus defeitos? — questiona entredentes, amuado, já tentando sair de cima dele. — Por falar nisso, você mesmo assumiu que já sabia que eu não era nenhum santo quando resolveu correr atrás de mim... Então eu não tô entendento qual é a tua de ficar, justo agora, jogando os meus defeitos na minha cara. Anda, me solta!

Mas Fábio não o solta, ao contrário, troca as posições, coloca-o abaixo de si e o mantém firmemente preso, enquanto procura seu olhar novamente.

— Ei, calma! Eu não tô fazendo isso pra te irritar ou te magoar. Não se trata disso. Quero apenas que você compreenda que eu realmente estou entrando nessa relação de olhos bem abertos... Eu vejo você, Rafa! Sei que não é perfeito, como eu também não sou, e eu acho importante esclarecermos isso desde o começo.

— Oh... que excelente! Quer deixar claro que enxerga mil defeitos em mim e, mesmo assim, quer iniciar um relacionamento? — ironiza.

— Sim. Sabe por quê? Porque eu também enxergo muitas qualidades, qualidades que talvez nem você tenha ainda se dado conta que tem, como ser divertido, esperto, cheio de energia, ousado, criativo... fascinante e tímido, do tipo que cora fácil, mesmo que não queira que ninguém note isso... — Fábio aproxima seu rosto do avermelhado dele vendo-o respirar com força, enquanto, aos poucos, assimila o que escuta, para de se debater e relaxa os músculos. — Mas... o que mais me faz achar que vale a pena ficar do seu lado, Rafa, é acreditar que você é um garoto que, no fundo, é bom, que tem muito potencial e que só precisa encontrar um caminho certo pra seguir.

É a vez do bad-boy exibir uma cara reflexiva.

— Não sei não, Fábio... Não confie tanto na sua avaliação, pode ser que eu não tenha esse pontencial todo que você imagina ou... nunca consiga encontrar um caminho certo e...

Fábio, repentinamente, beija-o na boca, cortando o seu discurso pessimista.

— Então eu vou apostar as minhas fichas em você e espero sair ganhando, porque eu não gosto de perder. — declara olhando-o minuciosamente oferendo-lhe um sorriso franco e positivo. — Ok... Já falamos demais sobre você... Por hora, chega! — torna a querer beijá-lo, mas desta vez só lhe acerta o canto da boca, pois Rafa vira o rosto.

— Por quê? Agora vamos falar de você? — sugere, erguendo as sobrancelhas e o encarando. — Vamos lá, Fábio, é a sua vez... Me diz quais são os seus defeitos e as suas qualidades.

— E por que você não me diz? Eu me abri sobre o que penso de você, então é justo que você faça o mesmo comigo. — anuncia, espontâneo.

— Não, já que você se mostrou ser tão detalhista para me classificar, quero ver se se mantém assim falando de si mesmo. Vamos... desembucha! — desafia.

— Uhum... Se quer assim, então ok! Bem... Começando pelas qualidades, sou observador, inteligente, estudioso, curioso, bonito, simpático, charmoso, muito bom no sexo... — sorri ao ver Rafa revirar os olhos. — ... sou gentil, educado e, quando tô apaixonado, sou pateticamente carente e romântico...

— Desde quando ser grudento e meloso é qualidade? — Rafa pergunta em tom de gozação. — E já que começou a falar dos defeitos, entre eles ser um babaca sem modéstia, continue.

Fábio não se irrita em absoluto com a ofensa, ao invés disso, ri com gosto, descontraído.

— Ok! Vamos aos defeitos... Assim como você, eu sou teimoso, às vezes, precipitado, inconsequente e, em relação ao ciúme, eu admito que esse é sim um dos meus defeitos, mas que eu tento não permitir que me domine... porque eu sei que, em parte, eu me tornei mais ciumento por culpa de algo que me aconteceu... — De repente, sua expressão ganha certo traço de amargura e seu olhar mostra-se longínquo. — Porque eu já me envolvi de verdade antes, me apaixonei, confiei, me entreguei... e fui traído.

Rafa olha-o atentamente e, súbito, uma curiosidade o toma.

— Você ainda sofre por isso?

— Uhm… sei... Tá querendo saber se eu ainda sinto alguma coisa por ele, não é? Não, Rafa, eu não sinto mais nada. Aliás, eu sinto sim, não por ele, mas por mim mesmo. — solta-o, ergue-se para se sentar na cama, parecendo algo irritado. — É bobagem, eu sei, mas toda vez que eu me lembro do que houve, ainda sinto raiva por ter demorado tanto a descobrir a traição, por não ter desconfiado de nada, por ter sido um idiota, ingênuo. Por outro lado... — suspira, olha-o de esguelha e libera um sorriso débil. — ... com certeza isso tem a ver com outro defeito meu. Eu tenho essa necessidade enorme, absurda, de confiar... eu simplesmente não sei estar num relacionamente sem me jogar de cabeça, sem me entregar por inteiro, sem estar loucamente apaixonado, porque eu sou mesmo terrivelmente passional.

Rafa igualmente se senta na cama, ao seu lado.

— Nossa! Quer dizer que, além de ser um tremendo bobão convencido, você também é chato, pegajoso e ciumento? Grrr... Ok, que seja o que tiver que ser... vou encarar isso como um teste para a minha paciência curta. — suspira, resignado. — Mas, olha, Fábio, no momento, só consigo enxergar um defeito em você... e eu devo confessar que ele tá me incomodando de verdade. — arrosta-o, porém, hesita, promove um clima de expectativa.

— E eu vou ter que adivinhar ou você vai falar logo? — ergue as grossas sobrancelhas e o olha de viés, intrigado.

O bad-boy faz sinal com a mão para que ele se aproxime, como se o que tivesse a dizer precisasse ser cochixado. Fábio obedece.

— É que... você tá fedendo pra caralho! — denuncia e ri, travesso, rompendo a atmosfera expectante.

Fábio, tal como ele, ri, passa um braço por cima dos seus ombros e o puxa para si.

— Ué, você também tá. Na verdade, nós dois estamos impregnados de suor, sangue e porra. — assevera, enquanto cheira o seu pescoço. — Precisamos urgentemente tirar essa inhaca forte do corpo. Então, vem... Vamos tomar uma ducha.

— Ahhh... Não! Vai você primeiro, Fábio, depois eu vou... Enquanto isso, eu fico aqui e aproveito pra tirar um cochilo. — boceja, ensonado e zonzo, e tenta tirar o braço do outro de cima de si a fim de tornar a se deitar.

Porém, Fábio não cede.

— De jeito nenhum. Se eu te deixar aqui, você vai dormir... e quero você bem acordado para a nossa segunda rodada. — divulga, com voz maliciosa.

— Segunda rodada? Sinta-se feliz por eu te informar que você já me esgotou na primeira... Por isso, esquece, eu não vou fazer de novo! — protesta e esperneia inutilmente, ao mesmo tempo que é arrastado para fora da cama e forçado a andar rumo à suíte.

— Claro que vai, porque agora você é meu namorado e eu tenho os meus direitos! — assevera, mas o seu tom autoritário sai tão falso que ele próprio não se contém e termina rindo pelos cantos dos lábios.

Entram na suíte, colocam-se abaixo do chuveiro. Os pingos d’água começam a cair e a molhá-los. Rafa sente a ferida em seu rosto arder um pouco, mas quando Fábio passa as mãos ensaboadas por seu corpo, gesto atencioso que naturalmente ele imita, logo passa a amar o banho. Percebe, no entanto, que está com a mesma sensação que teve no dia em que eles foram ao outro motel, a de estar sonhando, pois tal momento de intimidade parece-lhe, de fato, algo surreal, ainda mais porque, por anos, manteve-se conformado, decidido a varrer sua homossexualidade para debaixo do tapete, em não se permitir alimentar ilusões amorosas com um homem, muito menos concordar com o início de um namoro. Assim, seu cérebro ainda não consegue captar o que significa verdadeiramente esse compromisso. A única coisa que entende é que já o deseja, ou melhor, quer estar com Fábio tantas quantas vezes forem possíveis, para viver ao máximo cada nova experiência.

— Sendo assim, também vou começar a cobrar os meus direitos... ou você acha que eu não tô de olho nesse seu traseiro gostoso? — afirma sorrindo de modo endiabrado, enquanto esfrega as costas dele e desce a mão para lhe apertar uma nádega.

Fábio olha para trás com as sobrancelhas erguidas e parece avaliar o que ouve, enquanto oculta o sorriso.

— Veja bem, Rafa... essa é uma questão bastante complicada... — vira-se, fica de frente e o abraça, deixando a água tirar o sabão de seus corpos. — Teremos que negociar isso com calma, ok?

— O quê? Mas comigo não teve negociação nenhuma pra você meter esse monstro no meu rabo! — reclama, estridente, e Fábio solta uma gargalhada tão gostosa que ele termina rindo também.

— Tá certo! Se acalme porque eu prometo que vou deixar você enfiar o seu pintinho bonitinho em mim, só que não hoje, ok? — anuncia, ainda sorrindo, sem deixar de observar as caras e bocas que o garoto faz.

— Pintinho bonitinho? Não chama ele assim! Meu pau pode até não ser um troço desproporcional como o seu, mas... — começa a replicar, porém, a nova gargalhada de Fábio tira-lhe a concentração e igualmente o impede de impor seriedade ao seu discurso. — Para de rir, seu babaca! — Ele mesmo não se aguenta, acaba seguindo-o nas risadas.

Desse modo, eles seguem conversando, na verdade rindo e discutindo.

Passados uns minutos, o garoto se conforma com a promessa de Fábio. Contudo, a verdade é que o próprio Rafa não chega a demonstrar real interesse, porque, de fato, não está a fim, ao menos não neste momento, pois ele nunca foi o ativo durante o sexo, seria a sua primeira vez. Logo, prefere que ocorra quando estiver mais seguro de si. De qualquer forma, o clima de sedução permanece envolvendo-os, visto que, a todo momento, intercalam as conversas com beijos, abraços e outras demonstrações carinhosas. Por isso, embora tenha dito que não se entregaria novamente, a promessa de Rafa é quebrada e ele acaba sucumbindo mais um vez, antes de deixarem o motel.

Ao chegar à frente da república de Rafa para deixá-lo, Fábio nota que não há movimentação. O céu está mais escuro, a chuva está mais fina e o vento frio, mais forte.

Rafa destranca a porta do Corsa para sair, porém, Fábio, por brincadeira, puxa-o de volta tencionando roubar-lhe um beijo.

— Para, Fábio! Me solta, seu ogro grudento! — Rafa reclama e, para mostrar a sua fúria de fingimento, alcança sua mão e lhe dá uma mordida.

— Ai! Essa doeu! — queixa-se, fazendo manha.

— Que bom! Era pra doer mesmo. — assevera o bad-boy, vitorioso.

Eles continuam sorrindo e se olhando, distraídos, com Rafa agora em pé à frente da lateral do veículo, que está com a porta do passageiro aberta, de onde ele pode ver e interagir com Fábio, que permance no seu interior, sentado ao volante.

Súbito, porém, um ruído se faz ouvir atrás de Rafa. Tanto ele como Fábio escutam e olham para a fachada da república.

— Você ouviu isso? — pergunta, desconfiado.

— É, ouvi. Deve ter sido o vento, só isso. — tranquiliza-o e resolve sair também do carro. Dá a volta e se recosta, ficando à dianteira do bad-boy. — São mais de quatro da manhã, Rafa, não tem ninguém na rua, nem um ser vivo... Vem aqui se despedir de mim direito. — chama.

— Cê tá maluco, né? Eu tô na frente da minha república... Se manda daqui, Fábio! — emiti a ordem em tom baixo, mas firme.

— Tá! Não estressa, eu tô aqui quietinho na minha, não vou fazer nada de mais. — ergue os braços, mostrando-se inofensivo. Depois, olha-o gentilmente. — Só quero te dizer que, apesar dos contratempos, a noite foi maravilhosa e eu tô feliz demais. Eu espero que nós possamos ter muitas e muitas noites juntos, Rafa... Então, boa noite, e a gente se fala durante a semana pra marcar algo, ok?

Rafa olha para trás de novo, conferindo ao redor. A seguir, sorri e dá um passo, achegando-se mais a Fábio. Quando está bem perto tencionando, enfim, oferecer a ele a despedida que tanto deseja, ou melhor, o beijo de boa noite, que, no caso, seria de bom dia, eis que surge um pouco mais acima, na esquina da rua larga, um carro. Dentro deles há vários jovens e o som alto, com uma batida elétrica misturando Funk e Pop americano, deixa claro que a farra para eles também está sendo bastante animada. O automóvel diminue a velocidade e estaciona na frente da república vizinha à de Rafa, na qual Dico, seu primo, mora e também é o líder.

Fábio e o garoto trocam olhares, resignados.

— Tchau, Fábio! — arremata, buscando normalizar a respiração que se alterou por causa do susto, dá meia-volta, torna a seguir para a entrada da casa, enfia a chave na porta. Porém, antes de abri-la, lança um último olhar para trás, vê Fábio entrar no carro, ligá-lo e partir. Novo barulho chama a sua atenção, ele adentra à residência, acende a luz da sala, olhando para todos os lados. Porém, como não vê nada, pensa que pode ter sido o vento promovendo estes sons estranhos e se convence que tudo está completamente normal.

[...]

Notas finais
Então, gostaram? Oh, se a resposta for sim, fico muitíssimo feliz. Estou sem tempo para deixar uma nota longa, cheia de palavras, deste modo, somente pedirei que me favoreçam com algum comentário e que saibam que estou relutando contra mim mesma para seguir em busca de um bom arremate para esta narrativa. Fiquem bem. Beijos e até loguinho!