Notas iniciais
Preparei um jantar naquela noite para todos os que estavam no casarão.
Todos os que presenciaram o show que foi aquela manhã.
Com certeza, a palavra já tinha sido espalhada aos quatro cantos que Logan, meu noivo, e Rachel, minha madrinha, haviam dormido juntos, graças a todas as minhas tentativas de aproximar todos os convidados o máximo possível.
De todas as minhas estratégias, jogos e interações, eu havia esquecido o que era mais fácil e eficaz em unir pessoas:
Fofoca.
Então, naquela noite, eu precisava reunir toda a minha habilidade teatral para fazer com que todos naquele jantar acreditassem.
Acreditassem quando eu dissesse que o casamento estava de pé.
Quando afirmasse que eu e Logan estávamos resolvidos.
Quando professasse meu amor eterno por ele.
Porque uma vez que todos acreditassem, eles não saberiam o que os atingiriam dali a dois dias.
No fundo, o que eu mais queria, era acabar com aquela farsa de uma vez. Juntar minhas coisas. Ir embora. Me atolar de trabalho.
E xingar todos os homens pelo resto da minha vida.
Ou pelo menos, durante o resto do meu sofrimento.
Porém o material ainda não estava pronto.
E como minha quase futura sogra me doutrinara:
Se for fazer um evento, que seja grandioso, ou então desista.
Eles não teriam um casamento grandioso.
Mas acho que meu "evento" não ficaria por baixo.
E finalmente eu deixaria a senhora Montgomery orgulhosa.
•
Eu tinha passado todo o dia evitando Logan e qualquer pessoa.
Não foi fácil e eu fiquei extremamente desgastada.
Ainda foi uma surpresa que ninguém tenha reparado o quanto meu rosto estava inchado enquanto eu caminhava pelos corredores.
Jenny havia conseguido um amigo que mexia com computador para dar uma checada nas atividades de Logan nas redes sociais, eu consegui entrar em contato com alguns amigos dele e as coisas que eu havia descoberto...
Eu não conseguia nem mesmo me lembrar de todos os nomes que havia encontrado.
Eram tantas garotas. Foram tantas traições. De diferentes formas.
Algumas eram casos de uma noite. Outras eram online. Outras duraram meses.
E embora eu soubesse que não era culpa delas, muito menos minha, eu não conseguia parar de me comparar com cada uma.
Tentando descobrir qual "falha" minha elas conseguiam preencher.
No que elas eram melhores do que eu.
O que ele tanto procurava que eu não era capaz de dar.
Eu já conseguia prever alguns parentes fazendo a pergunta de um milhão de dólares:
O que você fez de errado?
Lembrei de Rachel que deveria ter chegado em casa àquela altura.
Rachel era o tipo de garota que eu consideraria perfeita.
Ela era bonita, amigável, sensível, vinha de uma família decente.
E mesmo depois de todas as vezes que Logan pareceu decepcioná-la, ela estava lá para ele. Então, tudo o que ele fez foi ferrá-la ainda mais.
A melhor amiga dele. Que esteve ao seu lado por anos.
O que eu, que o conhecia há relativamente pouco tempo, deveria significar para ele?
As minhas provas e descobertas respondiam:
Nada.
Eu não significava nada. E poderia arriscar dizer que nunca signifiquei.
Quando voltei a pôr minha cabeça no lugar, procurei por minha mãe.
Ela sempre dizia que quando eu era pequena já mostrava sinais de uma pessoa responsável.
Treinava meus trabalhos e seminários no espelho que, mesmo se caísse um raio na minha sala de aula, nada me abalaria.
Ela não sabia, mas não era só o treino que me deixava confiante para ir na frente da sala cheia de gente branca cheia de julgamentos, alinhar meus ombros e falar com propriedade.
Era também a preparação psicológica.
Sempre na véspera de uma apresentação importante, minha mãe vinha para o meu quarto, dormir ao meu lado depois de ressaltar cada uma das minhas qualidades e o motivo de eu ser única.
Fazia um tempo que isso não acontecia.
Eu morava do outro lado da cidade e virava noites no laboratório, mas mesmo assim, quando eu precisava, se eu ficasse bem quieta e deitasse na cama, seria capaz de ouvir sua voz atrás das memórias.
Na noite do dia seguinte à minha decisão de acabar com tudo, tive o privilégio de tê-la pessoalmente de novo.
E foi por isso que ela foi a primeira a saber da minha decisão.
Ela não poderia me preparar se não soubesse para onde eu estava indo.
E, como sempre, minha mãe não me censurou, não me julgou, nem falou da questão financeira — o que eu estava esperando que fizesse, já que ela e meu velho tinham exigido participar das despesas.
Apenas me abraçou e me deixou chorar em sua blusa.
Fazia um bom tempo que eu não chorava daquela maneira. Os soluços tão fortes que faziam meu peito doer. A respiração difícil e entrecortada.
Minha mãe disse que eu merecia mais.
Disse que eu era incrível e acharia a pessoa certa para mim em breve.
Disse que me amava e que estaria comigo não importava aonde eu fosse.
E nós adormecemos.
Meu alarme de ansiedade natural me acordou antes do amanhecer e eu levantei com cuidado da cama para não acordar minha mãe que dormia pacificamente.
Eu tinha trabalho para fazer e estava preparada.
Tinha de estar.
•
Aquela foi a primeira vez que hiperventilei por nervosismo em toda a minha vida.
E eu esperava que fosse a última.
Hiperventilei desde que reuni tudo o que precisava até o momento tão esperado.
A pior coisa de tomar uma decisão drástica era que quanto mais próximo está o momento, mais dúvidas ridículas começam a aparecer.
Eu havia sido traída e enganada.
Não havia justificativa.
Certamente algum dia eu viria a perdoar Rachel por não me contar e até mesmo Logan por ser um desgraçado, mas aquele momento não sairia comigo sendo branda ou cristã.
Eu precisava da raiva.
E precisava hiperventilar.
Talvez assim eu esgotasse a fonte do meu corpo e não sobrasse nada para as lágrimas que, com certeza, viriam novamente.
Eu estava cansada de chorar, cansada de me sentir fraca.
Com sorte, a maior parte de tudo aquilo acabaria naquele dia.
Era meados de tarde.
Poucas horas antes, Mary Ann havia me entregado a chave do chalé onde Rachel e Benjamim ficaram e me avisou que ele estava num hotel.
Ela tentou conversar comigo sobre Rachel, mas eu não tinha tempo para aquilo naquele momento.
Precisava de foco.
Minha amiga estreitou os olhos, provavelmente sacando alguma coisa em meu rosto como só ela conseguia fazer, mas não insistiu.
Todos os convidados estavam presentes, mas ninguém pareceu notar que a equipe que estava ali eram os próprios cidadãos da ilha que tomavam conta do casarão e não a equipe de decoração do casamento.
Eu havia pedido para que eles começassem a limpeza porque a celebração que teria dali a uma semana fora cancelada, mas pedi que só mexessem no que já estava pronto depois que eu me pronunciasse.
E eles foram compreensivos.
Eu estava andando pelo jardim, refinando meu "discurso" quando vi uma figura um pouco desnorteada se aproximar.
— Oi, Jane. — Benjamim me cumprimentou tentando conter seu nervosismo.
Éramos dois.
— Oi, Benjamim, como você está?
— Hm, confuso, eu acho. Viu a Rachel...hoje?
Arqueei uma sobrancelha.
Ele não sabia?
— Rachel voltou para casa, Ben. — O vinco em sua testa cresceu e eu acrescentei: — Ontem.
Ele arregalou os olhos e eu fiquei com pena.
Era quase como se fossemos imagens refletidas um do outro.
— Como assim, casa? — ele perguntou lentamente. — Passei no chalé antes de vir para cá e estava vazio.
Suspirei, virando meu anel de noivado no dedo, mas com a vontade de atirá-lo longe.
— Ela foi para a casa dela de verdade. Pegou o avião com uma amiga ontem de manhã pelo que entendi.
Benjamim estava sem cor e sem palavras.
Sua boca se abriu e se fechou algumas vezes.
Até que ele disse:
— Você já sabe sobre...
Assenti com a cabeça:
— Descobri por acaso, nós duas tivemos um encontro vergonhoso na frente de bastante gente, mas ela me deixou a par de todos os detalhes numa carta. Inclusive a parte do namoro nem tão de mentira assim.
Ben pareceu genuinamente envergonhado, mas não tinha porquê.
Era estranho vê-lo sem Rachel ao lado ou por perto.
Além de seus olhos não terem mais o brilho costumeiro, ele parecia cansado e saber em que se guiar, como se Rachel fosse a bússola que fizesse aquele trabalho.
— Por que me chamar? Não sou um convidado oficial, só o acompanhante...dela.
— Eu sei, mas acho que posso dizer que entendo o que você está sentindo, confie em mim. Creio que você vai gostar do que tenho a dizer e mostrar.
•
6 Meses Antes
Logan estava ansioso.
O convite de madrinha tinha demorado para ficar pronto mais do que os convites gerais, e se o rastreamento estivesse correto, ele chegaria para Rachel naquela manhã.
Para dizer a verdade, até eu estava ficando ansiosa. Dava para perceber que aquele momento era uma grande coisa para ele.
Então quando soube da entrega, Logan explicou que ligaria primeiro para o pai de Rachel pois disse que naquela época do ano ela estava trabalhando para o pai e certamente usaria aquilo como desculpa para não aceitar o convite.
Eu estava animada.
A presença de Rachel parecia mesmo uma grande coisa para Logan e eu fiquei muito feliz por ele.
Também me sentia feliz porque Mary Ann havia confirmado presença e eu teria a oportunidade de dar um abraço apertado em uma das minhas amigas mais queridas.
Conseguia entender a euforia que Logan sentia.
Quando ambas as ligações acabaram, eu fui até Logan:
— E então?
Um sorriso preenchia sua boca de um canto a outro.
— Tudo certo. Rachel será a nossa Madrinha.
Eu me joguei em seus braços, apertando-o.
— Viu só? Tudo deu certo, não precisava ficar à beira de ter um treco por isso.
Logan afastou o rosto para fazer uma careta para mim.
— Não fiquei à beira de ter um treco. — ele retrucou.
— Claro que não. — sorri para ele.
— Você também parece feliz.
Quase não consegui conter um gritinho de animação e quebrei o abraço para nos sentarmos no sofá.
— Mary Ann confirmou que vai poder ir para o casamento com o Paul. Ele vai estar praticamente de férias, sem treino por alguns dias.
— Mary Ann? — Logan perguntou confuso.
Ele era péssimo com nomes e dizia que eu tinha amigos demais para gravar o nome de todos.
— Amor...— fiz um beicinho. — A minha amiga de infância. Loirinha, baixinha...
Logan estalou os dedos.
— Ah sim, a que deve dar um trabalho danado para o jogador de basquete namorado dela.
Foi a minha vez de fazer uma cara feia.
— Para, eles estão juntos há anos. E são lindos juntos. Não quero nenhuma piadinha maldosa quando a gente se encontrar novamente.
Logan passou o braço por meus ombros, me puxando mais para perto dele.
— Foi só uma brincadeira, para ver se quebrava o gelo. Sua amiga definitivamente não estava indo muito com minha cara. Certeza que ela deve ter falo algo de mim.
— Claro que não.
Ali estava.
Aquilo era uma mentira.
Não era como se Mary Ann tivesse falado mal de Logan, mas ela também não havia falado bem.
Simplesmente ficou na dela.
O que queria dizer muita coisa.
Minha amiga era tão romântica quanto eu. Todos os meus namorados sérios que ela chegou a conhecer — exceto um cafajeste pau mandado dos amigos — tinham potencial de virar meus futuros maridos.
Ela juntava nossos nomes, fazia bizarras de filhos com a junção de nossos rostos e me mandava qual deveria ser o lugar da nossa lua-de-mel.
Mary estava até animada para conhecer Logan quando ela e Paul vieram me visitar, mas depois do encontro que foi um onde o silêncio foi um dos mais dolorosos que já presenciei, ela não havia feito absolutamente nada.
Apenas disse que Logan parecia legal — que com certeza acabaria gostando da companhia dele quando passassem mais tempos juntos.
Disse que estava feliz por eu estar feliz junto com ele.
E que esperava que desse tudo certo.
Está bem que quando contei sobre o casamento, ela vibrou — lê-se surtou — junto comigo por uns bons cinco minutos.
E então no final da ligação, ela disse que faria de tudo para estar lá naquele momento importante e pediu para que eu avaliasse bem se seria o momento certo, afinal, eu estava praticamente no auge da minha carreira e prestes a montar meu próprio laboratório — o que, caso eu seguisse a ideia do casamento, teria que esperar mais um pouco para acontecer.
Lembro que fiquei chateada por alguns minutos e quando mencionei a possibilidade de colocar o casamento mais para frente, Logan simplesmente assumiu o time de "Sua melhor amiga me odeia e eu não estou feliz com isso".
Mas parando para analisar direito, Mary Ann, como sempre, estava certa e continuava sensata.
Devido aos dois artigos de sucesso que eu havia publicado alguns meses antes — e que até tinham aparecido na revista de Logan — aquele era o momento perfeito para eu aproveitar alguns patrocínios e a publicidade para divulgar o meu laboratório.
Mas eu também já estava com 27 anos. Dois dos meus irmãos já estavam casados e com filhos. O caçula ainda estava dentro do prazo de "ajeitar" a vida. Eu era a mais velha e me consideravam extremamente atrasada.
Meus pais nem tanto – já que eles mesmo me incentivaram a ir atrás de uma vida profissional primeiro —, mas o restante da família, que não era pequena, era um tanto opressor.
E eu queria aquilo.
O casamento. O marido. Os filhos. A família. E minha carreira.
Por que todo mundo agia como se eu precisasse escolher um dos dois lados?
Eu tinha encontrado o homem que amava. Iria me casar com ele.
Minha carreira esperaria uns seis meses para eu voltar com força total, ainda mais feliz e realizada, certo?
Certo?
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