Notas iniciais
Querida Jane,
Provavelmente, no momento em que você estiver lendo essa carta eu já terei voltado ou estarei bem próxima de voltar para casa.
Confie em mim quando digo que odeio a mim mesma por não ter emocional — ou talvez coragem — para dizer tudo isto cara a cara, mas peço que leia até o final e, então, se quiser, jogue essa carta no lixo, queime-a...
Enfim, saiba que você se tornou muito especial para mim e que eu odeio o caminho que tudo isso tomou... Fui a pior madrinha da história, contudo, se não puder ter ao menos sua amizade de volta, espero que, um dia, mereça seu perdão.
Agora, indo para o que eu tenho a dizer, acho melhor começar do começo...
Não lembrava da vez que tinha me sentido tão miserável.
Eu nunca fui fã de Elvis Presley, mas todavia nunca tinha odiado tanto ouvi-lo cantando quanto naquele momento.
Não ajudava também que todo indivíduo que entrava na lanchonete me olhava como se eu fosse um alienígena.
E talvez, naquele momento, eu fosse.
Toda desgrenhada, com cara de choro, com um moletom enorme e lançando olhares desafiadores demais para qualquer um que pensasse em se aproximar para perguntar o que aconteceu.
Fui traída.
Isso foi o que aconteceu.
Talvez significava alguma coisa o fato de que ainda não estava escrito aquilo na minha testa.
Traída.
Duas vezes. Por uma pessoa que eu estava começando a considerar uma das minhas melhores amigas e...pelo meu noivo.
Tinha certeza que ficaria traumatizada para sempre sobre qualquer filme que mostrasse traições em véspera de casamento.
E eu sabia que tinha vários, mas sempre pensei que era coisa de filme.
Quem seria um desgraçado o suficiente para trair alguém a pouco mais de uma semana para a cerimônia?
Aparentemente, meu noivo.
E a minha Madrinha.
Passei a mão pelo rosto me perguntando como eu pude ser tão burra, como não pude ter notado os sinais.
Porque certamente havia sinais.
Porém, na verdade, não havia. Pelo menos, não da parte de Rachel.
Eu era uma pessoa que analisava as coisas e, para ser honesta, tinha notado algo quando jantamos todos juntos pela primeira vez, mas, dias depois, tudo o que eu conseguia captar era como a relação dela com Ben ficava consolidada.
Torci por eles, caramba. Desde antes mesmo de vê-los pessoalmente.
Não vi a punhalada pelas costas acontecer.
Burra.
Do outro lado do balcão, vi um rosto familiar ajeitando um avental na cintura e um boné surrado na cabeça.
Era Ronan, amigo de Rachel.
Nunca fiz nada mais humilhante do que balbuciar para o garçom na minha frente que estava me mudando para uma mesa reclusa, que, por alguma dádiva divina, tinha acabado de ficar vazia, e sair correndo para lá antes que eu fosse reconhecida.
Depois de sentar de costas e esperar alguns segundos preventivos, olhei casualmente por cima do ombro.
Ronan parecia procurar onde tinha sido a comoção que ele certamente tinha percebido pelo canto do olho e por um momento pensei que tivesse virado a cabeça bem na minha direção, mas então ele voltou a reparar em algo no avental.
Me ajeitei apropriadamente na cadeira soltando a respiração, aliviada.
Ou ele não tinha me visto ou não tinha me reconhecido.
Qualquer uma das opções servia.
Tudo o que eu não precisava era de um amigo fiel tentando defender a amiga infiel.
Eu estava prestes a chamar o garçom novamente para pedir alguma coisa, antes que me expulsassem dali, quando a garota, que tinha uns 16 anos e estava na caixa registradora na hora em que cheguei, parou ao meu lado com uma taça enorme de sorvete na mão.
— Eu não pedi nada ainda.
Ela deu de ombros, apoiando a taça sobre a mesa e enfiando a mão nos bolsos do casaco.
— É por conta da casa. Todos nós passamos por momentos péssimos.
Forcei um sorriso — que no meu estado deveria ter ficado parecido com uma careta sofrida — para ela.
— Se tiver em perigo ou com medo de alguma coisa, pode nos avisar, está bem? E se precisar fugir de tudo por algumas horas, fique o tempo que precisar.
— Muito obrigada.
— Eu que agradeço. — ela murmurou já voltando para o balcão.
Eu franzi a testa por um instante, mas então dei de ombros.
Já tinha até mandado um beijo para o porteiro pelo interfone por costume, quem eu era para julgar?
•
O sorvete fez com que minha fonte de lágrimas parecesse secar definitivamente, mas eu sabia que não era uma solução a longo prazo.
A cena em que eu descobri o que tinha acontecido dias antes entre Logan e Rachel e o momento em que ela aparecia para dar explicações — ou melhor, nenhuma explicação — se repetiam em minha mente.
Então uma pergunta me ocorreu:
Como Benjamim deveria estar naquele momento?
Quer dizer, ele tinha que ter sido uma vítima tanto quanto eu, certo?
Não era possível que eu estivesse cercada de mentirosos e dissimulados...
Enfiei a mão no bolso do casaco e meus dedos encontraram a ponta de um pequeno envelope que eu havia esquecido que estava ali.
Principalmente porque eu estava com medo do que poderia estar escrito dentro dele.
•
A lanchonete não era o lugar para aquilo. Eu estava sem minha carteira e não iria forçar a amizade com a garota da caixa registradora.
Então depois de agradecer infinitamente a ela e me despedir — com cuidado para não entrar no campo de visão do amigo de Rachel — , me direcionei para a saída segurando o envelope ainda no bolso.
O sol estava no céu justamente naquele dia terrível, mas o vento frio ainda era constante.
Caminhei até um dos bosques, procurando um outro lugar recluso para me esconder.
Não que tivesse alguém para ir atrás de mim — já que deixei todos avisados de eu iria "arejar a cabeça" —, mas eu não precisava dar um show para os desconhecidos que passavam.
Quando encontrei o banco perfeito, me joguei de qualquer jeito, pegando a carta.
Comecei a ler e quando cheguei ao final não tinha derramado uma lágrima sequer.
Não estava arrasada.
Estava furiosa e decidida.
Não haveria mais casamento.
•
6 Meses Antes
Estávamos noivos há um ano.
Um ano desde que Logan fez o pedido.
Um ano desde que estávamos oficialmente morando juntos num apartamento no centro da cidade.
O apartamento era bem simples, mas estrategicamente localizado perto da revista que ele comandava com o sócio e o laboratório em que eu trabalhava.
Também não doía que era bem barato — e com isso acumulamos algumas economias — já que resolvemos começar a planejar o casamento um tanto em cima da hora.
Eu disse que não precisava que fosse nada além de uma cerimônia simples, numa capela do agrado de ambas famílias, com um clima aconchegante e mágico.
Logan disse que eu merecia o melhor e que deveria ser o dia mais incrível das nossas vidas. Parte de mim desconfiava que esse melhor talvez não fosse só para mim, mas também para que a mãe dele pudesse ostentar um pouco.
Contudo, não era um problema. Eu moveria céus e terra por minha mãe também.
De todas as opções que analisamos, cada uma era mais grandiosa do que a outra.
Mas acabou que alugar uma parte de uma das ilhas mais cobiçadas dos últimos tempos para casamentos de famosos e magnatas ganhou a disputa.
Eu já tinha ouvido falar de alugar casarões, mansões e buffet, mas alugar alguma uma parcela de uma ilha era algo que nem minha mente sonhadora tinha se permitido imaginar.
Nós dividiríamos os custos, embora minha porcentagem fosse um pouco maior do que a de Logan porque eu consegui convencê-lo de que, como eu recebia mais, eu comprometeria mais do meu dinheiro.
Em compensação, meu noivo deixou que eu decidisse tudo do jeito que eu imaginasse que seria melhor. Ou, pelo menos, tudo o que a mãe dele não acabasse votando contra.
A única coisa que Logan pediu foi que eu não reservasse o papel de madrinha para ninguém.
— Prometi para Rachel que esse papel seria dela. Nos conhecemos desde o ensino médio, ela é minha melhor amiga.
Para ser honesta, foi uma benção Logan tirar a responsabilidade de escolher alguém para o lugar de madrinha das minhas costas. Minha irmã odiava posições de destaque e fazê-la ocupar a opção de dama de companhia já foi um suplício. Ter de escolher uma entre minhas amigas para ser madrinha seria o mesmo que declarar uma guerra civil.
Mesmo assim, eu resolvi encher o saco dele.
— Você é um melhor amigo de merda. — disse dando um risinho e ele olhou para mim com uma expressão feia enquanto estávamos sentados na mesa da cozinha observando nossa lista de convidados. — Estamos juntos há quase dois anos e você nunca, que eu me lembre, mencionou a garota. Eu que não iria querer um melhor amigo desses.
Logan me cutucou nas costelas:
— Para. Rachel significa muito para mim, é só que... — ele respirou fundo. — A última vez que nos vimos não foi nos bons termos, éramos muito próximos e quando eu disse que iria para outro estado um dia depois da formatura...foi um baque para ela.
Coloquei uma mão sobre o coração, dramática.
— Meu Deus, você é mesmo o pior melhor amigo que existe.
Meu noivo deu de ombros, mas eu conseguia perceber que o assunto o abalava. Eu sabia muito bem como era me afastar de pessoas que significavam muito para mim por causa de circunstâncias da vida.
A imagem de Mary Ann, minha amiga de infância, apareceu na minha mente. A pessoa que me conhecia melhor no mundo.
Apesar de não ter perdido totalmente o contato com ela como Logan e Rachel, fazia anos que eu não a via. Ou mesmo tinha uma conversa longa com ela.
Foi uma das primeiras pessoas de quem eu coloquei o nome na lista e estava torcendo para que ela pudesse comparecer.
Tentando aliviar o clima, eu empurrei de leve Logan com o ombro:
— Está bem, mas primeiro você vai ter que me mostrar uma foto dela e compensar todos os dias que não me falou sobre ela agora, nesse exato momento. Não vou ter uma completa desconhecida no meu casamento.
— Como se você conhecesse os idiotas dos amigos de golfe do meu pai. — Logan argumentou e eu fiz uma careta.
— Sua mãe me coagiu a colocá-los na lista e olha que eu ainda consegui fazer ela diminuir os nomes pela metade.
Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso com o fato de alguém ter conseguido dobrar a senhora Montgomery.
— Como você fez esse milagre?
— Acontece que sua mãe me mostrou um dos pontos fracos dela. Disse que ela pagaria do próprio bolso cada cabeça que passasse do "limite de desconhecidos" que eu havia imposto.
Logan jogou a cabeça para trás, daquele jeito que me deixava louca para enchê-lo de beijos, e gargalhou:
— Nenhuma outra mulher serviria para casar comigo se não fosse você.
Foi a minha vez de cutucá-lo.
— Então o que me rendeu esse anel enorme foi minha habilidade de enfrentar e aguentar sua mãe? Estou comovida.
Ele se inclinou mordiscando a ponta da minha orelha e senti minha pele arrepiar.
— Isso e outras coisinhas a mais. — ele sussurrou e minha pele esquentou.
— Ah é? Mais tarde vou querer saber que outras "coisinhas" foram essas.
— Mais tarde... e por que não agora? — Seu tom ainda era provocante, mas eu pisquei para encontrar meu foco novamente.
— Porque agora, senhor Logan, — Encostei meu indicador em seu peito afastando-o milimetricamente. — Você irá me mostrar quem haverá de ser a madrinha do nosso casamento.
✥✥✥
Fale com o autor