HERÓIS NUNCA MORREM? TALVEZ

5 CAPÍTULO V – MATE OU MORRA: UMA CORRIDA CONTRA O TEMPO


— Eu sonhei por esse dia nos últimos anos, minha doce Annabeth. – A voz suave de Afrodite era calmante, mas eu não tenho tempo para isso.

— Olá, Afrodite. – A saudei da melhor maneira que pude.

— Olá, a que devo a honra de ser chamada pela incrível e controlada filha de Atena? – Essa ia ser uma conversa realmente longa, preciso encurtá-la ao máximo.

— Vamos direto ao ponto – eu disse, tentando me sentar, mas fracassando lindamente. – David, Percy e eu fomos atacados por Antero, na verdade eu ataquei Percy pensando que era Antero, em seguida Antero me atacou, eu não sei o que ele fez, mas meu corpo está começando a adormecer. David levou Percy para o piso superior, ele está muito ferido. Preciso que ajude ele.

— Se queria um médico deveria ter rezado por Asclépio. – disse a deusa, zombando da minha cara.

— Eu não tenho nada a oferecer a ele. – Eu disse apertando os olhos, a dor atrás da minha cabeça está ficando insuportável, mas meu corpo lateja.

— E você pensa que tem algo que eu possa querer? – Ela me estudou, e se soltando um suspiro se agachou ao meu lado, passando os dedos onde Antero havia me apunhalado. – Eu sinto muito, não há nada que eu possa fazer por você. Tem veneno de basilísco. É o fim para vo...

— Não estou pedindo para me salvar – Eu a cortei – Quero que salve Percy, é tudo o que me importa. Eu o apunhalei com minha Thyella, não há veneno nela. E em troca, ofereço meu corpo, o corpo de uma filha de Atena como sacrifício.

— Não seja idiota. – A deusa se levantou do meu lado. – O que eu iria fazer com o seu corpo quando ele estivesse apodrecendo pelo veneno?

Ela estava certa, eu não tinha nada a oferecer...

Ela olhou para mim e seu rosto suavizou.

— Você realmente o ama, não é? – Ela e perguntou.

— Eu não teria rezado para você se não o amasse.

Ela me observou pelo que pareceu uma eternidade. E então ela disse:

— D’accord, chérie, je vais vous aider. — Não tenho ideia do que isso quer dizer em inglês, mas pela cara dela deve ser algo bom. – Primeiramente, esse é o seu fim, eu não posso fazer mais nada por você. Irei ajudar seu namorado. Tive problemas com Antero no passado e eu adoraria ver você o prendendo, então... Você tem uma hora.

— O quê? – Ela estava ficando louca?

— Você só tem seu corpo meio dormente, não seus ouvidos, então você me ouviu. Você tem uma hora para trazer Antero de volta, esse é o tempo que o veneno vai levar para paralisar seu corpo. Não se preocupe com Percy Jackson, ele está sendo cuidado por um filho de Apolo. Ele irá ficar bem. Agora, eu paralisei a ação do veneno em seu corpo. Você deve encontrar Antero antes que o prazo termine. Talvez você consiga dizer adeus para seu querido amado.

— Ahn, tudo bem, obrig...

— Não perca tempo me agradecendo – ela me cortou – agora feche os olhos.

Apertei os olhos o máximo que pude. Quando o clarão acabou minha dor se foi com ele. Levantei-me e olhei para onde Antero havia me apunhalado. Não havia mais nada. Nem uma cicatriz.

Tudo bem, Afrodite tinha me salvado. NÃO, ela salvou Percy. Vamos você tem que acabar com isso e dizer adeus a ele.

***

O Hotel estava estranhamente vazio após a confusão na pista. Nada de atendentes, ou clientes. Apenas fumaça e o neon vermelho. Cadeiras estavam espalhadas, mesas reviradas. Um verdadeiro caos.

Um pouco mais a frente eu vi David.

— Hey, Annabeth, levei Percy para cima. O que aconteceu com você?

— Nada de mais. Precisamos encontrar Antero. – Eu disse, observando suas roupas. Ele sorriu.

— Claro, vamos lá.

Eu empunhei Thyella e David levava sua katana de osso de dragão. Seguimos pelos corredores até uma espécie de salão de jantar. Ouvimos algumas vozes e me virei na direção do barulho.

Percy estava se apoiando na parede, tentado se firmar. Eu ia até ele mas David me parou.

— Não, Annabeth, é uma ilusão. Eu deixei Percy na cama. Ele estava muito ferido para caminhar.

— A-a-Annie. Por favor... – A voz dele estava me rasgando por dentro de tão frágil.

Virando-me para David o vi estudar Percy por um momento antes de falar.

— Nos devemos matá-lo, antes que ele nos mate. – Sua voz era tão dura quanto sua expressão.

— Tudo bem – eu disse – eu faço isso.

Ficando de frente para o suposto Percy eu me preparei para apunhalar. Ele estava cambaleando em minha direção.

— AGORA – Gritou David.

Com um giro rápido acertei seu coração, então David caiu no chão, ofegando.

— O que você está fazendo? – Ele disse – Está ficando louca?

— Ora, Antero, vamos parar de fingir. – Eu cuspi as palavras – Você deveria ser um melhor observador antes de tentar imitar as pessoas.

— O-o que você quer dizer??

— A-annabe... – Gemeu Percy, antes de cair no chão.

Não perdi tempo, corri para ficar ao seu lado.

— Percy, fale comigo, por favor – implorei segurando seu rosto.

— David – sua voz era um sussurro frágil – ele foi atacado. Tinha outro David.

Oh, por Atena, Antero apunhalou David. Se for assim ele também está envenenado. Não há nada que eu possa fazer no momento. Preciso manter Percy a salvo.

— Ora, ora – Disse Antero, se levantando – Você é bem esperta, até mesmo para uma filha daquela insuportável da Atena.

Ele tirou a adaga de onde eu o havia apunhalado e jogou ao chão. Eu sabia que não seria o suficiente, preciso apunhalá-lo com sua própria arma, a com o veneno de basilísco. Mas tenho que ganhar tempo.

— Não é preciso ser inteligente para ver a diferença entre suas cópias malditas e os verdadeiros. David é canhoto, enquanto você empunhou sua katana com a mão direita, além disso, Percy foi ferido, David o carregou pela escadaria. Você está extremamente limpo para quem levou um ferido por um caminho tão longo.

Ele me observou e riu, aplaudindo.

— Bravo, bravo, filha de Atena – ele disse fixando o olhar em mim – mas me diga uma coisa, se você é tão boa observadora, como conseguiu atacar seu próprio namorado?

Bastardo maldito. Não posso ataca-lo. Não tenho nenhuma... CONTRACORRENTE. É isso, a espada de Percy. Vasculhei seus bolsos rapidamente e achei a caneta. Preciso de um plano.

— Você sabe muito bem que isso não é verdade – Eu disse, acomodando Percy no chão e me levantando – Você me enganou se fazendo passar por Thalia, uma farsa muito ruim também. Eu ia atacar você, mas então Percy surgiu na minha frente. Você é mais habilidoso do que eu quero admitir, mas em que mundo uma caçadora se separaria das outras? Ainda mais sendo a líder. Você pode ser habilidoso, mas não pode enganar alguém que conhece seus amigos, você não passa da escória do Olimpo.

— Sim, cria de Atena, eu sou a escória, o esquecido pelos deuses, aquele que não é bom o bastante para conseguir uma cadeira no Olimpo, mas também não pode ter a vida mortal que tanto deseja. Mas me diga, como uma escória como eu foi bom o bastante para fazer você se sacrificar para que Afrodite salvasse Percy? Ele sabe disso? Sabe que você só tem mais meia hora de vida e que está aqui, pois foi idiota o suficiente para apunhalá-lo? Ele sabe que só não está morto, pois Afrodite é uma pamonha e não pode ver um romance?

— A-annie – Percy segurou minha calça – do que ele está falando?

Olhei para Percy, eu sei que isso vai machucá-lo, sei disso, mas eu não podia deixá-lo para morrer.

— Percy, e vou te explicar tudo, mas não agora, você precisa descansar e seus machucados não estão sangrando, você está com dor, pois foram atingidos alguns órgãos internos. Calma. Você vai sair dessa.

Olhando para Antero eu senti minha raiva aumentar, meu tempo estava acabando, eu deveria ter somente mais alguns minutos antes que minha vida fosse levada. De repente, por trás de Antero vejo Apolo. Droga, lutar contra um deus já seria difícil, se ele se juntar a ele estamos perdidos. Olhei para Apolo, suplicando, e ele deu um aceno curto com a cabeça, quase imperceptível, acho que eu até mesmo imaginei isso. Com os olhos de volta em Antero eu tentei distraí-lo, porém uma pontada em meu estômago me fez estremecer e cair de joelhos.

— ANNABETH... – Percy chegou ao meu lado, se arrastando.

— Eu estou bem, Percy, fique quieto, não se mova.

O veneno está fazendo efeito.

— Annabeth, por favor, me diga que você não fez um acordo com Afrodite, não por mim.

— É claro que eu fiz, você acha que eu iria deixar você morrer? – eu disse, segurando meu estômago.

Ainda com os olhos em Antero senti Percy se levantando e ficando na minha frente.

— Você não vai machuca-la mais. – Disse Percy.

— Não seja idiota, saia da frente, seu Cabeça de Alga. – Eu o empurrei. Nesse momento Apolo acenou para mim e olhou para minha mão onde eu segurava a caneta. Eu entendi o que ele queria. Esforçando-me para ficar de pé comecei a sentir a dormência, mas eu não irei deixar isso me parar. Mirei bem em direção a Antero e lancei, ele desviou, assim como eu queria, então Apolo lançou-se para frente e agarrou a caneta, destampando-a. O susto de Antero só não foi maior do que quando Apolo o atingiu cortando-lhe o braço.

— Seu pirralho delinquente. – Rugiu Antero – Eu estou te ajudando a livrar dessas crianças e você me trai?

— Eu nunca pedi a sua ajuda – Bramou Apolo – Eu queria ser um humano para estar longe de tudo isso. Eu não queria que ninguém morresse, nem a ajuda de um idiota como você. Se eu não posso ser humano para ficar longe de tudo isso, eu prefiro voltar a ser deus, e dar o último desejo da filha de Atena.

Ele vai voltar? Ele vai deixar Rachel ser humana?

— Você desistiu da vida humana? – Perguntei.

Sem olhar para mim ele acenou e continuou.

— Eu adoro ser humano, mas sempre fui um deus bom, sempre ajudei quem precisava, a melhor parte de ser humano é poder fazer sacrifícios pelos que gostam de nós. – Ele olhou para Percy. – Ela está se sacrificando por você, filho do mar, cuide da sua vida a partir de agora. – Virando-se para Antero ele disse – Isso acaba aqui, Antero. Você deve partir agora, terá sua punição quando eu voltar ao meu estado original, ou podemos resolver isso agora. É a sua decisão.

— Okay, eu irei – disse Antero – mas você está longe de poder acabar comigo, nem quando for um deus. Você nunca viu meu rosto. E nunca verá...

Ele desapareceu na fumaça. Não com um clarão, como os outros deuses, mas apenas fumaça.

Minhas pernas estavam ficando mais dormentes, eu sei que meu tempo está acabando, preciso falar com Percy.

— Percy...

Ele já estava ao meu lado no momento em que cai.

— Annie, me diga que você vai ficar bem, por favor – ele disse, agarrando minha blusa.

— Suponho que não há muito mais o que fazer – Disse Apolo se aproximando – Quando encontrei meu filho apunhalado no quarto no andar de cima ele me disse que Antero a havia atacado. Se bem me lembro, há veneno de basilísco na arma dele. Pelo que eu ouvi ela fez um acordo com Afrodite, mas deixe que eu te diga, nem um deus pode com o veneno do basilísco, nem seus filhos, nem mesmo eu, Afrodite só o salvou por que era o último desejo de Annabeth, e ela sabe que essa menina o ama. Não foi um sacrifício. Ela irá morrer de todo jeito.

Lágrimas se empurravam para fora em meus olhos, malditas lágrimas, a dormência havia chegado à minha cintura.

— Eu irei com vocês para o Olimpo, me submeterei a Zeus novamente e sua amiga ficará livre para viver como Oráculo. – Olhando para mim ele disse – Você tem cinco minutos antes que o veneno tome conta do seu corpo. – Se agachando ele tocou meu cabelo – Eu aprecio sua bravura e o jeito com o qual protegeu aqueles que ama. Falarei com Hades para interceder por ti. Sei que mais de uma vez você ajudou o Olimpo, além de ser a responsável pela sua reconstrução. Vá em paz, filha de Atena.

Eu acenei com a cabeça.

— Vou deixar vocês sozinhos.

Então Apolo partiu. Eu não conseguia mais sentir quase nada do meu corpo. Agarrei-me à camiseta de Percy e olhei em seus olhos.

— Annie, por favor, você não pode morrer. – Ele estava chorando – O que eu vou fazer sem você?

— Percy – eu sussurrei – você vai fazer o que deve fazer, você vai continuar. Você tem que dizer ao meu pai. Por favor, não chore.

— Não chorar? Você esteve comigo pelos últimos oito anos – Ele disse, me abraçando – Você se arrastou para um lugar no meu coração e tomou conta de cada pedaço de mim. Como eu não iria chorar quando você vai morrer e eu nunca mais poderei te sentir?

Eu queria ficar, eu queria dar tudo a ele, mas eu sei que tenho que dizer tudo agora, é nossa última chance.

— Eu te amo, Perseus Jackson. — Ele ficou tenso enquanto me abraçava, eu sei que eu só falei uma vez que amava ele e ele não parecia ter escutado, pois estávamos em queda para o Tártaro.

— Eu também te amo, muito, eu não consigo, não sem você, Annie.

— Mas você precisa. Eu estarei bem. Preciso que você fique bem, por mim.

— Eu não sei se eu vou conseguir, mas eu vou tentar, por você, eu vou...

A voz de Percy estava ficando mais distante, cada vez mais suave, eu não sentia mais dor, eu nem o ouvia mais, mesmo que ele estivesse gritando e me sacudindo.

Eu só via uma luz, forte, antes de ser agarrada pela escuridão.

Enfim, heróis nunca morrem, eu não devo ter sido uma heroína no final...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!