HASHIREEEEEEEEEEEEE!!!

7 Capítulo 7 - Sentimento estranho batendo à porta.


Notas iniciais
Não faça isso comigo, coração... Pare de sambar dentro do meu peito, por favor!

"Casa-se com o dia, à noite. Cobre-se o dia, o véu noturno”.

A garota abriu os olhos por conta de um tremendo susto e de repente se viu em uma sala escura, onde mal podia enxergar um palmo à sua frente, sem ter dificuldade.

“O dia acorrenta a noite, e a benquerença, à noite contempla”.

Sentiu seu corpo pesado como chumbo. Ela tentou se deslocar dali para buscar por respostas de onde diabos era aquele lugar, mas seus movimentos, condensados, restringiam-na.

Previu logo que, não importava o quanto fosse leiga sobre o que se tratava aquilo, ela imaginava ser algo ruim e extremamente difícil de desvendar.

Parou. O momento era de reflexão, principalmente para fins de se situar. Para onde queria que olhasse só via o breu. O ar era tão denso quanto seus movimentos. Quem a enfiou naquele lugar? Quem foi o desgraçado?

Ouvira mais uma vez a voz feminina que a desacordou, murmurando.

“A noite atrai benquerença e presenteia o solo do dia, até que o véu noturno acorrenta o dia”.

Se antes estava escuro, sua visão, agora, tornou-se um pouco mais toldada. Ergueu os braços com dificuldade. Se a visão não ajudava, o tato poderia ajudar. Pôs-se em caminhada na câmara escura, onde nada conseguiu tocar. Onde está a dona daquela voz? Por que novamente repetia, pouco a pouco, aquele enigma em forma de obscenidade, que manchava sua mente, vida e liberdade; e não tinha nem coragem de encara-la de frente?

— APAREÇA! O QUE ESTÁ TENTANDO FAZER COMIGO?!

Lin perguntou com brado. Seu tom sisudo realçava o quão ela sentia-se aflita em estar ali.

— É você quem me entregou a joia não é? RESPONDA-ME!

Sentiu um vazio recôndito. Seguido deste vazio, um sentimento de depravação parecia contaminar cada centímetro de sua sanidade. Uma atrição, expandida de dentro para fora do corpo, a deixou inquieta.

Queria que ela caísse em delícia noturna.

Em meio à tamanha negrura, Lin perdeu de vez a visão. Finalmente não enxergara nada à sua volta. Quase se convencendo em aceitar o que aquela escuridão a sujeitava: o elemento que a salvaria; as trevas ela tinha que devotar. Era o sentimento mais insólito que ela podia ter na vida.

Uma mão amordaçou sua boca. Seu senso de sobrevivência quase a fez criar alarde, e outras mãos e braços começaram a envolver por todo o corpo; entretanto, entregou-se. O canto dos olhos lacrimejou.

Aquela escuridão seria o clarão de farol da sua nova vida.

Qual o significado disso? Sentia-se aprazível, como se o que a penetrasse fosse à verdade universal, a aceitação de algo irrefutável, o fulgor de Deus abrindo caminho na estrada obstruída de sua flama.

Até que o rosto de um demônio surgiu, em meio à escuridão, com olhos bem rubros e dentes bem afiados, abrindo uma bocarra malévola enorme e... Abocanhou-a sem precedentes.

Lin acordou esbaforida do pesadelo.

Mesmo depois de acordar, a sensação de mobilização e movimentos condensados, do sonho, continuava a mesma. Os olhos arregalados refletiam ansiedade, com auxílio da sudorese exagerada que começava a umedecer sua roupa.

Ficou por quase cinco minutos olhando para o teto, sem conseguir desafixar o olhar de lá.

Quando percebeu que...

Havia algo quentinho, bem peludo e macio... acima de seus peitões. Posicionou um pouco a cabeça, para poder ver melhor o que era, e avistou um focinho.

O danadinho havia deixado o focinho enfiado nos seios de Myung Lin.

Como tudo foi muito rápido, ela se assustou com a presença do peludo sobre seu busto, e o arremessou tão forte que ele bateu no teto do quarto. Se não fosse pela maciez do pêlo do bichinho, amortecendo o seu impacto, podia ter certeza que teria virado patê naquele instante.

O animal bateu no teto com os braços e pernas esticados e caiu sobre a fangonesa da mesma forma.


Que bicho é esse? Já que havia feito para si aquela pergunta, por que não se perguntar de novo: de que raio aquele bicho surgiu? A única resposta que conseguia ter era: este bicho é muito vulgar!

— O QUE DIABOS É VOCÊ?! — Fez uma pausa amistosa quando notou que... — É um...

— Um guaxinim ou... — Levantou a cabecinha, atordoado. — tanuki, como preferir. — Uma faísca de raiva ativou os olhos dele. — COMO VOCÊ PÔDE TER FEITO ISSO COMIGO, IDIOTA?!

— O quê...? — Lin fez expressão de “quem porra é você na fila do pão?!”, quando se deu conta de... — VOCÊ FALA?!

— Mas é lógico, sua lerda!

— Me respeite, seu animal folgado! Se alguém nos visse desse jeito, acharia que eu estava praticando zoofilia com você! Seu tarado! — Rosnou.

— Que absurdo! Eu cuidei de você, esse tempo todo, e o que recebo em troca: PORRADA! Você devia ser detida por maus tratos aos animais!

— Ora seu...

Os olhos de Lin flamejaram, entretanto, ela se atentou a algo...

— Eu reconheço essa voz... — O olhou com estranheza. — Não me diga que...

— Sim, Lin. Sou eu... Rikki. — Sentou-se sobre as pernas de Lin e depois cruzou os braços a observando. — E você permaneceu adormecida assim já se faz dois dias.

— Não importa o quanto eu dormi... Por que você está nessa forma, Rikki?!

— É uma longa história. Primeiro, me conte como você se sente agora.

— Hum... bem... — Ela desviou o olhar, refletindo. — Sinto-me um pouco cansada, ainda, e também um pouco de dor de cabeça, mas bem. Onde estamos? — Perguntou.

— Estamos em um quarto de hotel, ainda em Vucinicci.

— E o que ainda fazemos esperando aqui?! Você não havia me dito que conhece alguém que pode calar a matraca da tal joia da catástrofe? Vamos até ela, já!

A garota se tornou eufórica, não parecendo nem ter dormido por dois dias seguidos. Rikki coçou da nuca à testa com suas duas patinhas. Respirou fundo e olhou nos olhos dela.

— Nós iremos até lá, mas não agora. Você precisa de um pouco mais de descanso. Agora... deixe-me verificar seu ombro.

Ele subiu pelas costas dela e a verificou no ombro esquerdo; local onde nyú-de-tou havia ferido. Retirou, com delicadeza, o esparadrapo, que continha um pouco de gaze, e constatou que o machucado havia sarado. Tocou a superfície do local, para averiguar se ela sentia algum tipo de dor, e ela respondeu que não. Tudo certo.

— Agora Rikki...

Lin o fitou com serenidade difundida a uma circunspeção curiosa. Esperava total satisfação de seu novo companheiro. Lembrou-se de que este ser chamado Okita Rikki, prorrompeu-se na vida dela de uma maneira totalmente suspicaz. Tudo bem ele, aparentemente, ser uma figurinha hospitaleira, mas de bons samaritanos o inferno já estava cheio.

Ele a olhou sentindo o ar interrogativo o cobrar.

— Certo Lin. Estou devendo essa a você.

— Mas é claro. Agora... desembucha!

— Você já sabe o meu nome. Chamo-me Okita Rikki. Tenho 22 anos e vim de Hinokoku, de um pequeno vilarejo chamado Misako, próximo às redondezas da floresta de Aizu. Deve se perguntar o que estou fazendo aqui em Tristácia, certo? Pois bem, eu decidi vir até este continente, principalmente aqui, em Casavecchia, porque estou de férias prolongadas... — Fez uma pausa avoada, mas logo recobrou o raciocínio. — Aproveitei que me deram este descanso e vim assistir a alguns jogos do campeonato casavecchiano de futebol. Minha história parece simples, não parece?

— Sim, Rikki. Parece até à minha. — Sucinta.

— Acontece que, Lin... e-!

— Acontece que, aqui estou, diante de um guaxinim que possui emprego, se encontra de férias MERECIDAS e que gosta de futebol. Um... Guaxinim... nim... nim... — O olhou como se estivesse prestes a vomitar — Um guaxinim com uma vida melhor do que a de muitos por aí, principalmente à minha!

— E qual que é a do preconceito com a vida dos guaxinins?

Lin apenas o divisou, ressabiada. O olhar de peixe morto que ela projetou, relativamente, avessa ao suposto fanfarrão, fez com que o espírito dele tremesse como uma pessoa pelada no meio do nada de Eurártica. O silêncio pairado pela espera da fangonesa, por respostas, parecia àquele precedente de um esporro redondamente escandaloso. Tudo bem que não havia muito tempo desde que eles se conheciam, mas até a última vez em que a moça se encontrava lúcida, antes de entrar no blecaute, ele era humano. Pensou ele, então, que era normal ela ter essa desconfiança berrante. Suspirou profundamente, fazendo um barulhinho engraçado de chaleira escapar de suas pequenas narinas. Tudo graças ao receio sentido, por ela espreitar qualquer deslize dele, prestes a jogá-lo pela janela, caso ele escorregasse no quiabo ao dizer algo de teor vagabundo demais para ela acreditar.

— Lin, a verdade é que esta é minha verdadeira forma. Aquela a que você viu ontem é apenas uma das transformações que eu consigo fazer. Acontece que, antes mesmo de você ter essa coisa, que podemos chamar de joia da catástrofe, presente na sua vida, ela passou pela minha vida também. Tudo aqui em Casavecchia. Eu a achei no chão em algum lugar por aí e, como é uma pedra muito bonita, acreditei ter conseguido algo muito valioso. Então pensei: nossa isso deve valer a mansão do Kaká em Milania, ou devo conseguir comprar cinco delas! Na verdade, você sabe o que eu consegui? A única coisa que consegui, ao pegar essa pedra desgraçada, foi uma maldição. Sabe como fui amaldiçoado, Lin-sama? Desde três meses atrás eu não consigo voltar ao normal. Eu não consigo deixar aquela forma humana — forma a qual eu atuava ao pegar a pedra — e só estou assim, agora, porque fico neste estado por apenas dois dias a cada mês. Geralmente são os dois últimos dias do mês, pelo que percebo. E eu também comecei a ser perseguido pelos demônios assim como você. O que me fez livre desta filha de uma égua agora, é que uma mulher me pareceu muito interessada em ficar com ela; parecia tão interessada que me ajudou a desgrudar da joia. E isso faz pouco tempo, acredite se quiser.

Rikki fez uma pausa após tanto clamor sofrido.

Sei que pode não acreditar muito sobre tanukis como nós... a final nós temos sempre que viver escondidos. Nunca há tanukis dando sopa por aí, na frente de um humano, senão os muito bem disfarçados. Somos espíritos da natureza e temos de viver até debaixo dos arbustos, topo das árvores ou também nos lugares onde você menos pode esperar. Há tanukis se escondendo até debaixo de pedras! Vai saber se não esbarrou com mais alguns semelhantes meus por aqui, quiçá na sua vida inteira? E fazemos isso por sobrevivência. Enfim...

— Eu posso mesmo confiar em você, Rikki? Eu quero muito, mas muito mesmo acreditar no que diz... só que tenho medo, e meu medo faria eu nunca mais acreditar em você caso esteja sendo insincero comigo.

— Seria um tanto desconfortável pra você não acreditar em mim. Eu não saberia mais o que dizer a você, além desta verdade. Fica ao seu critério, Lin-sama. Posso respeitá-la e sair por aquela porta, se quiser.

— R-Rikki...!

A bolha de concentração que envolvia os dois naquele momento, de repente, fora estourada por uma agulha, quando alguém bateu à porta daquele quarto. Lin ficou um pouco apreensiva. Podia muito acreditar que fosse alguma camareira, dispondo serviços do hotel. Era o mais certo a se acreditar. Mas se tratando daquela vida cheia de privilégios requintados a bel gosto do capeta, a camareira poderia ser o próprio diabo vindo levar as almas dos dois.

O tanuki começou a farejar o ar e após as batidas ouviu-se uma voz por detrás dela.

Rikki reconheceu aquela voz e pulou do colo de Lin. Correu até a porta e a abriu sem medo. Se ele fazia isso, ufa, era porque estava tudo bem. A fangonesa perdeu três quilos só por causa de dez segundos de preocupação com quem vinha. Agora, ela podia recuperar o peso enchendo a cara com os quitutes do hotel; lógico que, contatando uma camareira que não fosse Lúcifer.

— Entre já, Makoto-han! — Pediu Rikki, com pressa.

— Mas é claro bichano! — E a figura, desconhecida para Lin, entrou.

— Bichano é você, kuroneko!

A jovem entrou em transe. Alguém pareceu ter jogado um cobertor elétrico bem no meio da sua fuça. O máximo que conseguira fazer, para que não desse muita pinta — de que ela estava o encarando como uma maníaca psicopata — fora inclinar a cabeça para baixo, para desviá-lo um pouquinho. Sofridamente, pois só conseguira por alguns centímetros miseráveis.

“O que é isso que estou sentindo...? Disfarce melhor um pouco, sua infeliz!”

O peito da garota pauleirava feito percussão de samba. Sentiu o estômago ser espremido levemente por duas mãos.

— Yo! Eu me chamo Kamizaki Makoto! Você deve ser a tão falada Myung Lin... — O rapaz chegou perto dela, reverenciando-a ao alocar seu tronco para frente, sorrindo. Um sorriso que faria ela despencar ao chão caso estivesse de pé — Yoroshiku onegaishimasu!

— Hai, ni hao ma?...

“JIUMUNG A! EU QUERO SAIR DAQUI DE UMA VEZ POR TODAS! AIYÔ

Notas finais
Kuroneko = Gato preto. Yo! = Oi! Hai, ni hao ma? = Oi, tudo bem? Yoroshiku onegaishimasu! = Prazer em conhecer você! Jiumung a! = Socorro!