HASHIREEEEEEEEEEEEE!!!

8 Capítulo 8 - O chifrudo que traz a mensagem da morte.


Notas iniciais
Não tenho sossego nem pra tomar um maldito banho. Nem dói mais... ~

I

— Rikki... o que ele quis dizer com ‘você deve ser a tão falada Myung Lin’?

Rikki e o tal rapaz chamado Kamizaki Makoto se entreolharam por alguns segundos. Uma célula de desdém puxou o canto dos lábios de Rikki, formando um sorrisinho atípico. Makoto apenas fechou os olhos, também sorrindo, mas não da mesma forma que o tanuki. O sorriso de Makoto era apenas... simplório.

— É esta aí mesmo, Makoto-han. Apesar de debilitada, por causa da festinha de dois dias atrás... ela parece bem saudável para que...

— Tenho de concordar. O Obscurus — os olhos da fangonesa inflaram iguais a um baiacu em perigo, quando ela ouviu o que o rapaz acabara de dizer — pede um capilé alto por gente novinha assim, “cheia de saúde”.

— O QUE VOCÊS PRETENDEM FAZER COMIGO?! —Lin crocitou entrando em desespero.

— Vender seus órgãos, claro. Você tem muito poder, certeza que dará um bom objeto de es-...!

Os olhos dela marejaram. Até momentos atrás ela estava confiando totalmente no tanuki, e depois ele vinha com um papo bandido desses de vender seus órgãos? Formariam eles uma dupla de caçadores de recompensas? Arfou bastante e fechou seus olhos, descansando-os daqueles dois infelizes. O Thrash Metal começou a ecoar na mente dela, fazendo sua cabeça latejar. Em meio ao solo de guitarra, com escalas pentatônicas caliginosas e milhares de notas rasgando seus pensamentos acelerados, ela começou a ouvir, lá no fundo, gritos equalizados por seu nome repetidas vezes. No instante em que ouviu um último ‘LIN-SAMA’, o corpo começou a ser chacoalhado para frente e para trás, e foi quando abriu seus vitrais, vendo Rikki ulular igual a uma hiena e logo atrás o tal amigo caindo em gargalhada, mas se lamentando da suposta pegadinha.

— Nós só estávamos brincando com você, sua medrosa! É óbvio que não faríamos tal coisa! — Respondeu o tanuki.

Um silêncio sepulcral engoliu o quarto em que eles estavam.

A garota estatelada apenas moveu a cabeça para avistar primeiro Rikki e depois fitar Makoto. Jogou-se na cama e soltou um ar pesado em resposta ao show de surpresa desses idiotas.

— Aiyã! Não façam mais isso, por favor... não sabem o quanto tenho andado de mãos dadas com o temor, desde que cheguei a este país!

Lin limpou os olhos que continham lágrimas padecidas e sua voz estava embargada. Ela tinha um sério motivo para estar apavorada, ou podíamos dizer que havia uma série de motivos para seu estado de espírito encontrar-se desse jeito: abalado e pisoteado; entretanto, hoje, pelo que ela constatou, existia um móbil que se destacava dos demais.

— Perdoe-nos por isso, Lin-sama. — O pequeno Rikki assentiu sentando-se à frente dela.

— É... desculpaaê, Myung-san. Não levamos em conta que a chapa tá quente pro teu lado. Só queríamos descontrair um pouco... — Disse Makoto.

O rapaz, de silhueta peculiar, pelo menos agradava os olhos da fangonesa. Ele era meio-gato. Sim, um híbrido. Misto de humano com gato preto vira-lata. O fundo branco das orelhas, de pêlo negro, contrastava-se com o cabelo, também negro, arrepiado e grande, com duas mechas caídas pelos dorsos do rosto até o queixo. Olhos bonitos, de um tom azul quase beirando ao cinza. Não terminavam aí as características felinas dele. É óbvio que não podia faltar à cauda, de tamanho médio, pêlos negros e felpudos, e os caninos ganhando visão para fora dos lábios. Estava vestindo um blusão social de manga comprida, azul marinho, calças skinny, pretas e um par de botas de camurça da mesma cor da calça; também uma corrente fina de bolso de algum metal barato.

Lin pensou que ele poderia ter lá algo em torno de 1,80 de altura, ou beirando isso.

— Mas por que você está aqui, Makoto? — Ela perguntou.

Cada vez mais que os segundos passavam o bastão para frente, nossa fangonesa ganhava pesos e mais pesos de curiosidades perfumadas de dúvidas, e quando esta começava a cismar com algo, não ligava para quantas vidas ela pudesse ter: perderia todas só para saciar sua sede por respostas. Claro que, a partir de agora, ela esperava respostas tão sinceras quanto às de uma criança ao responder que uma pessoa é feia, ou gorda ou... afirmando ter ouvido gemidos vindos do quarto de seu pai, sendo que o mesmo estava se matando de trabalhar naquele momento enquanto sua esposa estava em casa.

— Ele está aqui porque, obviamente, o chamei. Kuroneko veio comigo em viagem, mas nos separamos quando eu queria ficar em Milania e ele, visitar Venetifa. — Respondeu o tanuki.

— Deixou de visitar Venetifa por algum motivo em especial? Lá foi um dos primeiros lugares que decidi unanimemente visitar, porque é tão lindo...

A fangonesa respondeu se recusando a acreditar na escolha dele.

— Se ele tivesse ido comigo até Venetifa, essa merda toda não estaria acontecendo com ele agora. Talvez ele nunca tivesse cruzado com esse bagulho aí e estaria limpinho, limpinho da Silva! — Makoto respondeu calmo.

— Me recuso a ir naquele esgoto a céu aberto. Só piso lá se houver um descarrego para esta desgraça. — Rikki cruzou os braços.

Lin e Makoto dardejaram o olhar no mesmo instante em que ouviram o disparate. Tudo bem que, “cada um é dono de sua opinião”, mas até se surgissem boatos da existência de uma galinha com dentes seria menos absurdo que esta opinião do tanuki.

Rikki sentiu que o olhar de nojo da fangonesa para ele era tão intenso quanto o nojo que tinha das águas de Venetifa; contudo, parecia que a repulsa dela era mais genuína que a dele, afinal...

“Venetifa não é fedorenta como o preconceito inútil de Rikki”. Pensou a garota.

— Enfim... Makoto está aqui porque, como estou sem poderes hoje, e me parece que eles voltarão apenas após 00h, é ele quem irá executar o feitiço de calar a pedra. É por isso que o chamei de volta.

O cenho direito de Lin flutuou vagarosamente e se houvesse como ultrapassar as nuvens, ele o faria. Ela conjecturou um pouco. Levou à mão ao queixo, repetindo um velho hábito. Makoto sabia o feitiço; Rikki também, pelo que já havia visto certo? Ambos aprenderam tal feitiço, este era o fato da vez. Agora... como e quando eles aprenderam? O que estes dois eram, afinal de contas? Como uma boa curiosa, não podia faltar à coceira na língua e na mente e acredite: ela não se conteria a perguntar, e eles teriam de se acostumar com a ideia de que o interrogatório estava armado e pronto para começar. Lin era capaz de começar o bombardeio de perguntas e só terminar no próximo crepúsculo. E lá foi ela!

— Então está na hora de começarem a me contar sobre a origem desse cursinho técnico em feitiçaria e selamento que vocês se graduaram. A verdade é que, para saberem sobre como selar um objeto demoníaco desses, eu tenho certeza de que VOCÊS DOIS não são qualquer um. O que me dizem a respeito?

— Simples: a pessoa a qual nós encontraremos, assim que possível, é a pessoa que nos ensinou. Ela é uma amiga em comum entre mim e o Kuroneko. O primeiro a aprender o feitiço foi ele, que ao saber que eu estava passando por esta situação, foi até ela para descobrir e aprender como isso funcionava. No entanto, Marília-sama queria vir até a mim para poder resolver o problema de uma vez por todas.

Falou Rikki, e Makoto reiterou:

— Só que... nosso pacêro aqui, esse Okitanuki do caralho, não queria envolver a Solar-chan nesse barato, já que estava correndo muito perigo devido aos demônios aparecerem um atrás do outro. Foi quando eu decidi ir até lá pra pegar a manha das mandingas e voltei o mais rápido que pude. Mas quando eu voltei, me parece que brotou uma mulézinha metendo o louco no cara, e pediu o crack pra ele.

Os dois viram Lin ter uma rebelião de pensamentos infelizes, só para desvendar que maldição era ‘crack’.

...

...

...

— Porra, Makoto! Dá para você parar de falar dessa forma e explicar a situação com mais clareza a ela?! — Rikki foi incisivo no pedido de seriedade.

— Ok. Resumindo: manifestou-se uma silhueta efeminada, condizente de que podia adotar a joia da catástrofe; recebeu-a em sua posse e extinguiu sua efígie da visiva de Okita Rikki. — Fez uma breve pausa — melhor assim, compadre?

— Você me dá nojo, Makoto... — O tanuki levou seu focinho à palma da mão direita.

Observando a relação que os dois tinham, Lin acabou sorrindo, e não se contendo começou a rir por causa das graças feitas pelo híbrido. Ela imaginou que, apesar de tudo, o rapaz só queria aliviar a tensão por que ela estava passando. Algo na aura dele fazia com que ela acreditasse que ele era uma boa pessoa, e o mesmo valia para o tanuki, embora este soasse um pouco mais suspeito, de acordo com a forma em que surgiu e começou a fazer parte de suas desventuras.

— Lin-sama... no fim das contas, ele me ensinou a versão do feitiço e eu aprendi. — Disse o tanuki.

— Entendi... agora quero que me diga uma coisa, Okitanuki...— Lin respondeu.

— Até você me chamando assim... — Rikki a fitou, não sabendo o porquê de sentir vontade de mordê-la com força. — Pois diga. O que quer saber? — Perguntou.

— Como foi que você me encontrou, e por que veio até a mim? Por que está se dispondo a me ajudar? E por que quer me levar até essa sua amiga, se antes você não queria ir até ela, graças ao medo de que ela se machucasse no meio do perigo e a consideração de mantê-la segura? — O olhou séria, e depois olhou para Makoto.

Rikki devolveu o mesmo olhar austero para a fangonesa.

— Para responder sua primeira pergunta: conseguir encontrar você foi fácil, graças à maldição que ainda carrego. Por causa dela, eu sinto a presença da joia em qualquer lugar. Agora, não me pergunte o porquê, não saberei responder isso a você. Para mim, ainda é uma incógnita. Mas, é claro que quanto mais longe ela estiver de mim, mais fraca fica sua presença, todavia, há um detalhe que me perturba: posso estar o mais longe possível que for da joia, que sua presença não deixa de existir. Entende? Ela não some do radar. Se torna uma presença mínima, como uma fagulha, um átomo, sei lá; mas, não deixa de existir, a não ser que seja calada com o feitiço! Agora... para responder a próxima pergunta: estou disposto a lhe ajudar porque, quando senti que a pedra trocou de dono, algo tornou minha mente inquieta e senti que este novo dono precisasse de ajuda. É que... — Ele fez uma pausa melancólica — Lin-sama... não quero que o mesmo que aconteceu comigo continue a acontecer com você. Eu confesso que fiquei em dúvida quando notei que houve a mudança de posse; que não queria mais me meter com essa coisa; que queria fugir para sempre disso. Aff... cá estou, certo? É porque não posso deixar que as coisas continuem desta forma. Não me perdoaria nunca, jamais, se eu virasse as costas para alguém que está precisando da minha ajuda, e se posso ajudar, é claro que irei ajudar! Agora, para a terceira pergunta...

O tanuki abaixou a cabeça, lamuriando com o motivo que estava prestes a dar a ela.

— Marília disse que se desta vez eu não a levasse até lá, que era para eu nunca mais pensar que ela existe. Ela é sentimental demais, então se sentiu deixada de lado quando eu não quis a envolver nesta história. Disse que se fosse para ser assim, que era melhor eu nem pensar em querer pisar lá, onde ela mora. E um dos motivos de eu estar neste continente é que além de ter vindo para Casavecchia por causa do futebol, em meus planos nesta Tristatrip, está ir até Ispaníshia visitá-la. Afinal, nós nos conhecemos há dez anos e nunca nos vimos pessoalmente.

— E essa sua amiga é alguma feiticeira de renome, certo?

— Sim, ela é.

— A amizade de vocês me parece ser linda e pura.

— Digamos que ela significa mais para mim e para o Kuroneko que muitas amizades de convívio.

— Eu vou confiar mesmo em vocês, então... Por favor... Deem-me motivos pra que eu não cave a minha cova de uma vez.

— Não vai se decepcionar com a gente. Posso garantir isso, Lin-sama.

— Agora vamos tentar pensar dentro da casinha, meus queridos... — Makoto fungou bem fundo ao olhar o pé da cama de madeira maciça em tom de marrom tortilla.

— O que sugere Makoto? — Lin perguntou.

— Venho pensando e vou começar a falar pelo mais óbvio possível: você e Rikki podem ter algo em comum, acredito. Pensem comigo... Existem milhares de pessoas à nossa volta e bilhões pelo mundo inteiro, confirmam?

Confirmaram, apenas mexendo a cabeça com gesto de sim.

— Mas me parece que o catiço só gosta de sacanear um grupo seleto de pessoas, e uma pessoa por vez. Tanto que começou pelo Rikki e agora tirou você pra Cristo, Myung-san. E não podemos duvidar... claro... Que antes de tocar o foda-se na vida do Rikki e na sua, dá pra imaginar quanta desgraça essa coisa fez na vida de incontáveis pessoas mais?

— Então você está querendo dizer que essa maldita pedra é uma parasita de pessoas, cujas vidas, auras e espíritos possuem peculiaridades? — Rikki perguntou.

— Exatamente.

— Então vamos pensar que apenas pessoas com algum tipo de poder oculto, ou quem exerce habilidades sobrenaturais são aptos para a consideração da jóia... — Lin olhou para as próprias pernas, enquanto divagava.

— É exatamente isso que penso, mesmo não podendo afirmar com total propriedade. — Makoto respondeu. — Lembrando que: nem toda pessoa com poderes despertos, precisamente, se enquadrará no azar, que por sinal... É um azar do caralho, mermão...

— Precisamos, de fato, de fontes e dados sobre essa coisa. Nunca ouvi falar de algo tão ridículo quanto isso. — A fangonesa espremeu a roupa de cama com mãos aflitas. — Deve haver alguma Biblioteca Antiga aqui em Casavecchia.

— E minhas viagens não param por aqui. Posso continuar?

— Deve!

— Agora é sobre essa coisa de “grito”. Por que essa merda faz esse escândalo todo? O que seriam esses gritos que atraem demônios? O que geram esses gritos? Será que se trata de algum feitiço ou técnica demoníaca, pra que os demônios sejam alertados sobre o item?

— Se tratando de algo que possui tamanho poder... Acredito que seja um item de pura energia maligna comprimida. Eu só não faço à mínima ideia de como é a origem e a intenção exata de sua existência. Os gritos, obviamente... Devem ser pra atender ao terrorismo, que podemos dizer que é a ideia mais rasa e óbvia, como apenas a ponta do iceberg a amostra. O fato é que os demônios querem por suas mãos na joia pra se fortalecerem. Quem não iria querer algo assim, com tanta facilidade e prática? E o que vem em consequência pelas buscas gananciosas por poder...?

Lin ergueu o rosto e sorriu de nervoso.

— Todo dia um show de horrores diferente, a quem eles tentam rapelar à joia, claro. — Respondeu Makoto.

— Não posso simplesmente largar essa coisa pra lá assim!

— Vai mesmo assumir o B.O, Myung-san? — Perguntou Makoto.

— O B.O já está assumido, Makoto. Eu acho que sou uma das únicas pessoas que podem descobrir que merda está se passando, sem contar que... Imagina o que acontecerá se um demônio desses puser suas mãos na joia da catástrofe? O mundo correrá um perigo iminente, se eu deixar isso acontecer. Mas o que está por detrás disso é o que me deixa seriamente preocupada...

— Se tratando de demônios, nós não podemos esperar perigo mínimo. — Rikki se pronunciou. — Eles querem vir tudo pertencer ao nada. Querem se alimentar de emoções ruins e toda energia “comestível” até onde puderem...

— Isso desde os tempos em que os deuses dragões enfrentavam as tropas de Shabranigdo. Ele sempre quis apodrecer tudo nessa dimensão só pra que seu quintal ganhasse uma extensão maior. Mas foi impedido e selado por Ceiphied, o Rei Dragão, em sete partes que agora estão adorme-... — Lin fez uma pausa, respirou fundo e voltou a se concentrar. — Correção: ele fora selado em sete partes, porém, só seis delas estão adormecidas agora, graças ao que aconteceu há oito anos, devido a parte selada que se encontrava nos olhos do Clérigo Vermelho, Rezo, ter despertado. Dizem que o selo enfraqueceu e ele conseguiu conduzir a mente de Rezo, que era um homem muito bondoso, e fez com que ele se corrompesse pra que pudesse tomar o controle do seu corpo. Foi assim que ele despertou e quase espalhou caos e desordem pelo mundo...

— Se não fosse a... — Rikki coçou a nuca e a barriga.

— Tal Lina Inverse.

— Ouvi boatos muito bizarros sobre ela. — Makoto se apoiou na parede, acostando-se com o ombro esquerdo.

— Ela já explodiu um vilarejo inteirinho só porque tentou matar um dragão negro, que sempre fazia bagunça lá, e causava muita destruição e espanto a cada rasante que dava sobre. Contrataram-na pra elimina-lo, mas, no fim das contas, ela destruiu tudo com um Dragão Escravo.

— E não sobrou telha alguma inteira. A nanica com aparência dócil foi responsável pela perda de moradia de centenas de pessoas... AYÃN! — Lin emendou.

— Olha quem está chamando ela de nanica. — O tanuki escarniou.

— Pelo menos eu não preciso me transformar pra ser mais alta que outras pessoas, não é Okitanuki?! — Ela rebateu carrancuda, metendo a mão na pelanca do pescoço de Rikki e puxando para o alto, o comendo com os olhos.

— OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOHOHOOOOOOOOOOOOOO, TURN DOWN FOR WHAT! TOMA, SEU TROUXA!!!

Makoto ovacionou o ato da fangonesa.

— Agora... coloque a joia da catástrofe sobre a cama, Myung-san... Acho que é uma boa hora pra usar o feitiço nela, antes que...

— Aqui está. — Lin fez os botões do inventário dimensional cintilarem diante de si. Após isso, a bolsinha simplória que guarda a joia apareceu, em meio a um pequeno e rápido brilho rosa.

Eles ficaram olhando para a joia da catástrofe por quase um minuto inteiro. Meio que uma sintonia inconsciente aconteceu naquele momento; o mesmo pensamento surgiu nas mentes dos três: como aquela coisa tão minúscula podia ser o câncer para o mundo? Um minério tão delicado e estonteante, dono de um perigo inimaginável. Fixando o olhar dentro de sua densa cor da morte, eles se perdiam no início de uma crença inebriante, a de que surgia uma impressão muito melancólica e fúnebre, aspergindo uma dor transcendental de sofrimento anacrônico de gerações e mais gerações passadas. Olhar para aquele pedaço de desgraça por muito tempo fazia-os temer começar a sentir um mal estar inexplicável. Instintivamente, cortaram o magnetismo com a joia. Apenas Makoto continuou a manter o olhar para ela, por mais alguns segundos à frente. Fechou os olhos para começar a recitar o encantamento, e arqueou as mãos ao redor do minério.

"Cale-te de teus plangores, alma calamitosa. Ponha-te no teu lugar e trancafia-te. Coloco-te aqui; mantenha-te ao epicentro, campa de teu silenciar momentâneo. Não haverás mais sismos; a corrente viajante do sul açaimara-te, quando fincaste tua outra extremidade ao norte. Visitais ao NADA, conquanto, não farais parte deste... alma despida de luz própria!"

Executado.

A joia da catástrofe ganhou uma camada extra de mordaça, para que não criasse mais alarde que pudesse os colocar em perigo. Makoto limpou o pequeno véu de suor que havia se formado na sua testa, e secou a mão na colcha macia da cama. Lin suspirou e deu a ele um olhar amável de gratidão, por todo o valor daquele ato de consideração cheio de ternura a uma estranha. O rosto dela ganhou um tom de rubor bem delicado e no mesmo instante ela sentiu a temperatura de seu corpo subir a ponto de beirar uma febre. Quando se deu conta de que estava olhando nos olhos do híbrido, ela se esforçava muito — embora que em vão na tentativa — para desviar os olhos dele. Repetiu à tentativa três vezes, até sorrir como um bichinho feliz.

Liú Fan-Ling, sua tia, era a única pessoa no mundo que seria capaz de se dispor a ajudá-la. Nem de seus familiares mais próximos tinham acatamento por ela, e agora aqueles dois estavam ali por ela, parecendo não pensarem duas vezes por isso.

X-xie xie, Makoto… Você não sabe o quanto sou grata pelo seu gesto...

— Não é nada, Myung-san. Tá ligada? Não posso deixar você nessa sarjeta sinistra.

— E também... Tenho de agradecer a você, Rikki. Cuidou de mim enquanto estava apagada, e fez o mesmo que o seu amigo, que já posso considerar meu também. — Ela olhou o pequeno com o mesmo olhar caloroso, enquanto acariciou sua pequena cabeça, bagunçando todo o pêlo. — Eu preciso me levantar e me mexer um pouco. Nós temos de sair o quanto antes, porque precisamos procurar pela Biblioteca Antiga mais próxima.

— Será mesmo uma boa ideia, nós sairmos agora? — Rikki questionou.

— E por que não? Lin perguntou.

— Eu não sei... Por mais que a pedra esteja silenciada agora, sinto que nós correremos certo perigo, ainda.

— Mas os demônios só conseguem nos rastrear graças ao escarcéu que essa putinha faz, não é? — Makoto perguntou.

— E é por isso que não estou me preocupando tanto assim. Permitam-me tomar um banho agora? Acho que finalmente consegui atingir a redenção da tranquilidade...

— Fique à vontade, ué. — O pequeno guaxinim assentiu.

II

Ela entrou pela porta do banheiro.

Ao fechá-la, foi como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir por um momento. Era o seu ensejo de se desligar, de ter um efêmero anestésico do porre exasperado que a vida estava lhe acometendo, obrigando-a a deglutir aquela bebida forte e de gosto ruim.

Lembrou-se dos primeiros dias de seu roteiro até estar ali. Os dias vívidos que ela já percorreu, inicialmente, e não foram tão atemorizantes quanto às acres lembranças mais remotas. A saudade de poder comer algo gostoso, sem que a preocupação tornasse o gosto da comida amarescente demais, batia com força, — isso fazia com que ela desse valor a vida três vezes mais que antes já dava. O cômodo de uma vida comum, de aprendizados e conquistas, e problemas totalmente infinitésimos, se comparados aos perigos que a pervertiam absurdamente agora, a deixara mal acostumada, pensava. Ou pensar dessa forma era um absurdo? Talvez sim, porque o normal seria pensar que a ideia de ter hordas e mais hordas de demônios na porra do seu encalço não era uma filhadaputagem qualquer; era algo extracurricular, fora das jurisdições naturais da vida ordinária.

A fangonesa olhou seu reflexo no espelho, e toda aquela merda lhe presenteou com desgraçadas olheiras inconvenientes.

MALDITOS DEMÔNIOS!

O próximo passo para o desgosto seria vir seu rosto começar a ficar chupado.

Quando ela começou a se despir, além das roupas que caíam sobre o porcelanato perolado do chão do banheiro, teve uma ligeira impressão de que pesos extras estavam dentro das suas vestes e rachariam o chão brutalmente com a queda. Ficou nua por completo e começou a analisar seu corpinho bonitinho, porque... pelo menos isso ainda estava íntegro e, por enquanto, incólume e sem arranhões. Examinou cada milímetro de seu corpo só para constar se não ganharia outra decepção.

Fim da análise.

Passeou até entrar pela porta do blindex fumê, e a fechou cautelosamente. Abriu lentamente o registro do chuveiro e sentiu o solvente universal mais sagrado começar a lavar sua alma, principiando pelo físico. O tinir da água tocando o chão e o cheiro suave, mais a agradável temperatura da água, fazia tremer seu corpo por pura satisfação da coisa mais simples e valiosa, a que ela podia se agarrar. Um banho tranquilo ela merecia, pensou com a certeza de uma vencedora invicta. Soltou um suspiro pesado, descarregando todo o miasma fantasmagórico que habitava suas vias respiratórias, pulmões e cavidades internas; tudo por causa do espírito obsessor da tormenta que a molestava desesperadamente, e após isso, sentiu-se mais leve e deixou a cascata tocar-lhe o rosto, ficando assim por aproximadamente cinco minutos. Sua mente estava com ausência de pensamentos, parecendo que ela havia adentrado um local com exiguidade de som e de atmosfera. O breu dos olhos fechados lhe causava essa sensação majestosa.

Purificada parcialmente.

Apanhou o sabonete que estava logo à sua frente, de cor rosa salmão e um cheiro extremamente gostoso de manacá, e o deslizou suavemente pelas extensões de seu corpo, ensaboando-se. O êxtase provocado pelo momento formava uma aura imaginária bem calorosa, que ela gostaria de sentir por toda sua eternidade. Ela vogava o sabonete como se estivesse conduzindo um carro por uma estrada a esmo, apreciando cada curva macia ao volante, passando pelos seios e suas ilhargas (axilas, costelas, ancas e virilhas), e tocou também sua região mais íntima do corpo.

Se antes ela estava sorrindo por conta da excitação causada pelo iniciar do banho, agora ela se pôs a sorrir mais ainda, como naqueles comerciais de pasta de dente.

Quando de repente seu corpo se arrepiou completamente.

Um arrepio além do normal.

Horripilante.

Terrificante.

De repente o ar abundante e fácil de respirar, ficou pesaroso.

A gravidade a fez pelejar por um alívio que parecia inalcançável e impossível, maculando todo o estado de graça de segundos atrás. E o que estava trazendo aquela degradação ridícula de sua alegria de pobre? A resposta ela já tinha: um demônio, ou mais precisamente...

Correu para abrir a porta e trespassar por ela, e lá estava ele, terminando de atravessar a parede após ter assumido uma forma espectral: era Niú-De-Tóu, solidificou! E Rikki e Makoto estavam tão aflitos quanto ela. Todos estavam com pupilas mióticas, espaventadas, e o corpo britando de ansiedade por causa do visitante das trevas.

— Entrar sem bater e sem ter sido convidado é uma falta de educação que todos os demônios carregam de berço, não é, Niú?

Lin sibilou.

— Não sei se você estava mesmo esperando que fosse ser diferente desta vez, Lin-sama.

Rikki inquiriu.

— É que eu sou uma pessoa esperançosa, acima de tudo.

— Ok. E você, meu camarada. Vai pelo menos dar tempo à Myung-san de vestir uma roupa? — Makoto salientou.

— Fique à vontade para se vestir, desgraçada. É a última vez que eu serei bonzinho com você.

— E eu posso trocar esse seu ato de bondade por outro? — Ela começou a fuçar o inventário direcional. — Eu fico do jeito que estou, mas daí você volta pela parede por que acabou de atravessar e... vai embora. — Sorriu.

Lin estava toda peladona e cheia de resíduos de sabonete e espuma pelo corpo.

— Não quero saber, sua atrevida. E desta vez eu não vim aqui apenas para levar à joia da catástrofe. Eu vim matar você.

— Só por causa do que eu fiz contigo noutro dia?! Você não sabe nem brincar! AYÃN!

Notas finais
Xie xie = obrigado.