H E A R T
1 Capítulo 1. All That Jazz
Notas iniciais
Já deixei meus recados lá no disclaimer, acho. Então... Espero que gostem!
Capítulo 1. All That Jazz
Último Dia de Aulas, 2019. Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Roxanne Weasley colocava mais uma camada de batom cor de rosa, admirando a si mesma no espelho de seu dormitório na Lufa-Lufa. Seu malão já estava arrumado, praticamente lotado com todas as suas roupas, e ela tinha encolhido a própria vassoura para guardá-la em sua bolsa. Usar magia para guardar coisas era uma de suas especialidades.
Depois de acabar a maquiagem, vestiu o cardigã bege que separara e ajeitou o cabelo negro e ondulado uma última vez antes de levar malão e bolsa para fora do quarto. Era a última a sair e provavelmente estava atrasada, já que dormira demais. Como sempre.
Passou pela sala comunal praticamente vazia, acenando para alguns conhecidos, antes de sair para o corredor. Seu irmão a esperava encostado na parede, o malão dele jogado ao lado. Ele mexia no celular, provavelmente jogando algum daqueles RPGs que tanto amava. Ao ouvir os barris que davam entrada ao salão comunal da Lufa-Lufa se abrirem, ele ergueu o olhar e, ao ver a irmã gêmea sair, revirou os olhos.
— Finalmente, Roxy! Pensei que eu iria criar raízes aqui.
Roxy sorriu sarcasticamente e estava prestes a dar uma resposta quando sentiu o celular no bolso do cardigã vibrar. Abençoada fosse a pessoa que finalmente conseguira criar celulares em que a magia não interferisse no funcionamento.
Princesa
Já embarcou? (10:53)
O sorriso da garota passou de atrevido para fofo em meros segundos, o que não passou despercebido pelo olhar atento de Fred Weasley II.
— É ele, não é? — indagou, tentando ver a mensagem por cima do ombro da irmã. Roxy revirou os olhos e deixou-o ver a resposta que digitava. — Por que o nome dele no seu celular é ‘Princesa’?
— Por causa daquele dia na Toca, onde ele ficou o dia inteiro gritando com quem tentasse tocar no cabelo dele. — ela replicou, rindo — Eu o chamei de princesa e ele fez uns trejeitos engraçados agindo como princesa, então troquei o contato dele.
Roxy Weasley
Saindo da sala comunal da LL (10:53)
Te vejo em King’s Cross? (10:53)
Princesa
Ss, claro (10:54)
— Você realmente precisa contar a ele, Roxy. — Fred avisou, encaixando seu braço no da irmã assim que ela guardou o celular. Os dois começaram a andar, puxando seus malões enquanto percorriam corredores e subiam escadas rumo ao Salão Principal.
— E então o quê? Ele vai se casar, Freddie. — ela replicou, dando de ombros. — Está tudo bem em sermos só amigos. Ele nunca me notaria mesmo.
Fred fez um muxoxo inconformado, como quem diz que aquela conversa ainda não terminara, e os dois trocaram de assunto. Precisavam planejar suas férias, afinal.
— Mamãe estava querendo visitar uns amigos no México, lá para o final de Julho. Ela me disse da última vez que ligou.
— Oh, ótimo. Vou precisar comprar um biquíni novo. Meus peitos crescem muito depressa, é terrível. — ela revirou os olhos, ao que Fred riu.
— E você perdeu o banquete de final de ano. — ele comentou, ao que Roxy deu de ombros.
— A Naty falou que pegou comida para mim. E a Grifinória ganhou a Copa das Casas, como sempre é desde que James Sirius entrou no time.
— Sim, mas esse ano a Corvinal ganhou a Taça das Casas. Já é uma mudança. — o rapaz de cabelos escuros acrescentou, também dando de ombros. Os dois irmãos finalmente chegaram até o Salão Principal e então seguiram para fora da escola, pegando o caminho principal que os levaria até a estação de Hogsmeade.
— É praticamente impossível furar a defesa daquela criança. Ele é uma parede. — Roxy reclamou, bufando. — Até nos jogos amadores d' Toca, ele é incrível.
— Verdade. E é por isso que a Grifinória vai ganhar a Copa das Casas enquanto o James estiver aqui. — Fred concordou com um sorriso animado. — E o resto do time também é muito talentoso, só para deixar bem claro.
— Você só diz isso porque faz parte do time. Mas o time da Lufa-Lufa é muito superior em habilidade. A gente só precisa de um goleiro decente para ganhar.
E os dois foram discutindo o Quadribol da escola o caminho inteiro e ainda o faziam quando entraram no Expresso de Hogwarts. Automaticamente foram até a cabine no final do corredor, Fred tendo soltado o braço da irmã para proteger o bolso externo de sua jaqueta com uma mão.
— O Brandon se recusou a ficar na árvore do Hagrid de novo? — Roxy perguntou quando os dois adentraram a cabine. Fred assentiu, tirando o pequeno tronquilho de dentro do bolso.
— Ele gosta demais de mim, por algum motivo. — o animalzinho deu-lhe língua, ao que o Weasley riu e revidou antes de ambos virarem para as duas pessoas que já ocupavam a cabine. Roxy alegremente já havia se sentado ao lado da garota negra, que lhe passara uma sacola de papel com comida surrupiada do café da manhã.
— Muito obrigada, Naty! Não sei o que eu faria sem você! — ela agradeceu à garota, que riu e assentiu. À sua frente, Fred sentava-se ao lado de um rapaz de cabelos escuros. Ele olhava para a janela, parecia perdido em pensamentos. A pele de metade do seu rosto reluzia em um tom vívido de azul, deixando a cena mais cômica que preocupante.
— O que deu no Niko hoje? — o gêmeo perguntou à garota, que deu de ombros.
— Deve ter sido a última pegadinha do Heart. Ele foi um dos atingidos por essa tinta azul estranha, talvez esteja planejando sua vingança.
A atenção de Roxy foi desviada da comida junto com a do rapaz que se chamava Niko.
— O Heart? Ninguém sabe se é uma garota ou um garoto, não é? — ela perguntou, tentando usar um tom inocente de voz.
— Sim, mas todos assumem que é um cara. — a amiga respondeu.
— Tem que ser um cara. — Niko replicou — Uma garota seria boazinha demais para isso.
— Como é? — Roxy ergueu as sobrancelhas, uma torrada a meio caminho da boca. — Nikolaj Krum, o que você disse?
— Eu disse — ele encarou a lufana, os olhos negros parecendo arder com a perspectiva da vingança — que uma garota não seria capaz de fazer todas essas pegadinhas.
— Pois eu discordo. — falaram Roxy e Fred ao mesmo tempo, ao que Naty assentiu.
— Isso é machista demais da sua parte, Niko. — ela disse, cruzando os braços.
— É a verdade, ué. — ele deu de ombros. As orelhas de Roxanne subitamente atingiram o vermelho perigoso de quando ela perdia a paciência e a outra lufana na cabine tirou a sacola de comida de perto da amiga com uma olhar tenso.
— Garotas podem tra... — e foi interrompida pelo próprio celular, que vibrara mais uma vez.
Princesa
Hey, n sei se vou conseguir chegar a tempo (11:04)
Tive um imprevisto aqui (11:04)
O trem já saiu? (11:05)
Roxy Weasley
Aaaah :(( (11:05)
Saiu sim (11:05)
Eu to com sdds (11:05)
Princesa
Eu sei, eu tbm to (11:05)
Desculpa mesmo (11:06)
Como posso te recompensar? (11:06)
A expressão chateada de Roxanne foi o suficiente para Fred e Naty compreenderem. Niko apenas soltou um resmungo ininteligível e voltou a encarar a janela. Naquele momento o trem começou a andar.
— Ele não vai para a estação, não é? — a garota perguntou, ao que Roxy assentiu com um sorriso triste.
— O chame para ir a essa boate que a Domi nos convidou. — o gêmeo sugeriu.
— Ele vai levar a noiva junto. — a outra replicou.
— Não vai, não. Você sabe que ela detesta essas festas que a Domi vai.
Roxy Weasley
A Domi chamou a mim e ao Freddie pra ir pra uma boate hj (11:09)
Vamos? (11:09)
Princesa
Estarei perdoado se for? (11:09)
Roxy Weasley
Talvez (11:09)
Princesa
Beleza, eu vou (11:10)
Encontro vcs na sua casa? (11:10)
Roxy Weasley
Ss. Minha casa às 21h (11:10)
E ah, arrume um terno estilo anos 20 (11:11)
Princesa
Pq? (11:11)
Roxy Weasley
Pq nós vamos dançar jazz (11:11)
Roxy guardou o celular depois disso, novamente animada.
— Você foi salvo do meu discurso por um triz, Niko. — ela soltou, sorrindo. — Mas nós vamos ver se você ainda mantém essa opinião.
Fred riu, sendo o único a entender a ameaça contida nas palavras da irmã. Os três começaram a discorrer sobre seus planos para as férias com alguns comentários de Niko. Ele continuava encarando a paisagem que já começava a se modificar, tendo posto um dos lados de seus fones de ouvido. Roxy sabia qual o motivo de ele não usar os dois fones: ele queria ouvir a voz risonha de Nathalia Thomas, sua melhor amiga, falar das férias que passaria com os pais no Brasil. Com um sorriso foi que notou a troca de olhares entre os dois, decidindo que precisaria fazer algo com isso no ano letivo que viria. Seu último em Hogwarts. E, consequentemente, o último ano letivo em que Heart atuaria. Era o seu ato final, e ela estava decidida a torná-lo memorável.
— O que você está planejando, Roxy Heart? — sussurrou-lhe Fred, ao perceber o olhar maquiavélico da irmã. Um sorriso de lado foi a única resposta que ele teve.
***
A curva do sorriso dele inevitavelmente arrancava suspiros dela. Os cabelos bagunçados pareciam macios. A vontade que ela tinha de tocá-los era quase impossível de combater. Seus olhos claros eram carinhosos e seus braços a ergueram do chão, mesmo com todo o seu peso extra: em um abraço apertado logo que ele a viu.
Ninguém ousava comentar nada a respeito, mas Roxy era gorda. As coxas grossas e os seios robustos, juntamente com a camada de gordura em sua barriga e os braços e pernas um pouco mais flácidos que o normal, contribuiriam para que ela não realmente gostasse do que via no espelho. Mas ela gostava. Oh, adorava cada centímetro de si mesma. Sabia que não era o tipo ideal da maioria dos homens, mas deixara de se importar fazia anos. E é claro que não competiria com as primas de sangue veela ou as felizardas que nasceram com o gene ruivo da família Weasley, mas entendia que as belezas eram diferentes. E ela era sim bonita. Se sentiria bonita com ou sem o homem abraçando-a, mas era inevitável sentir-se valorizada quando aquele a quem ama te chama de linda e fica embasbacado ante a sua presença.
Os dois aparatariam de braços dados. Chegariam ao pub, tomariam alguns drinques trouxas, dançariam a noite inteira ao som do melhor jazz dos anos 20. Juntos, as respirações se misturando com a proximidade. E então chegaria o momento em que nenhum dos dois gostaria de continuar com aqueles joguinhos de incertezas e eles finalmente se beijariam. Como se não existisse mais ninguém na vida dele. Como se ela fosse aquela com quem ele passaria o resto dos dias.
Se o mundo fosse feito das coisas que se passam na cabeça de Roxanne Weasley, tudo seria um musical. E ela teria o cara que cobiçava, é claro. Mas não foi isso que aconteceu realmente, por mais decepcionante que seja. Foi apenas uma noite divertida com os amigos/primos e o amor não correspondido. Como todas as vezes que aquele grupo, que incluía a ex-grifinória Molly Weasley II, saía junto.
***
1º de Setembro de 2019. Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
— Senhorita Weasley, sente-se. — Minerva McGonnagall pediu, assim que Roxy adentrou o escritório da diretora. Ela puxou uma das cadeiras em frente à mesa em que a diretora de Hogwarts estava sentada para obedecer à ordem, um sorriso displicente no rosto. A mulher suspirou e pôs sobre a mesa duas embalagens coloridas das Gemialidades Weasley. — Pode me explicar isso?
— Bom, meu pai tem uma loja bastante famosa. — ela deu de ombros, ainda sorrindo.
— Tem seu nome nessas embalagens, senhorita Weasley. E, se não estou enganada, são as embalagens do Pântano Instantâneo e dos Fogos Instantâneos Weasley que foram soltos no salão comunal da Sonserina nesta manhã. — a diretora afirmou, ajeitando os óculos de armação quadrada. Roxy continuou sorrindo, lembrando das caras de pânico daqueles enjoados. A sala comunal virara um pandemônio de pessoas tentando se livrar dos fogos apenas para afundarem no pântano, enquanto Roxanne apreciava o espetáculo discretamente encostada a uma parede, comendo um pudim e rindo.
— Sim, eu soltei tudo aquilo. Admito, diretora, que foi divertido. — Minerva ergueu uma sobrancelha, e Roxy poderia jurar ter visto o princípio de um sorriso naquele rosto enrugado.
— Por que, senhorita Weasley? E justo no primeiro dia de aula? Estava começando a pensar que nem a senhorita nem seu irmão haviam herdado o DNA travesso de seu pai...
— Mas foi justamente por isso, diretora Minerva. — ela explicou, dando de ombros mais uma vez. Tinha conversado aquilo com Fred algumas semanas atrás, quando os dois começavam a arrumar as coisas para voltar a Hogwarts. Sendo Roxanne a Heart, o legado de seu pai e tio continuaria. Mas como ninguém sabia disso, deveria ser necessária uma brincadeira em que ela publicamente declarasse culpa. E ela teve certeza de que um dos monitores da Sonserina a vira saindo do salão comunal e abandonando as embalagens bem à vista, apenas com aquele objetivo. E, é claro, tinha sido divertidíssimo ver a expressão chocada de Nikolaj Krum quando o monitor gritou que Roxanne Weasley era a culpada daquela bagunça logo no primeiro dia de aulas.
— Oh, sim. Vejo agora que a senhorita possui o mesmo brilho maléfico e curioso nos olhos. — a bruxa mais velha comentou, encarando os olhos castanhos de Roxy — Mas devo perguntar: como conseguiu entrar no salão comunal da Sonserina?
— Um mágico nunca revela seus segredos, não é mesmo? — foi a resposta dela, rindo enquanto recordava o quão fácil tinha sido subornar seu caro primo Albus, o segundo sonserino da família Weasley-Potter, com um belo pacote de doces, galeões e brindes da Gemialidades.
— Muito bem. — a diretora de Hogwarts levantou-se — Sua detenção começará amanhã depois das oito da noite, quando deverá ajudar a limpar a biblioteca de Hogwarts e a restaurar os livros. Sem magia.
Roxy também ergueu-se rapidamente da cadeira, seu sorriso desaparecendo.
— Eu vou fazer isso sozinha? Todos os livros?!
— Não, é claro. Outros alunos estão com esta mesma detenção. Todos serão liberados assim que Madame Pince disser que ajudaram o suficiente. — ela replicou — Ou se ela se cansar de vocês, é claro. Você pode sair agora, senhorita Weasley.
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