Hölle
13 Forelsket
Notas iniciais
Imagino qual é a primeira impressão que um desconhecido tem da casa, todos os detalhes decadentes pronunciados e nenhuma memória para suavizar a feiura. Dana para no jardim da frente, contemplando no que se meteu. Ele segura um braço contra o corpo, os efeitos da caminhada fria aparecendo em seu rosto corado e nas pálpebras caídas. A longa caminhada lhe devolveu um pouco de sobriedade e, por consequência, a leve estranheza em nossas relações, contudo, Dana não pediu que eu o levasse para sua própria casa, nem questionou a jaqueta.
— Você cresceu nessa casa. – Não é uma pergunta. – Eu posso entrar?
— Você não precisa de permissão.
O assoalho protesta sob nossos pés. Cada passo é tão barulhento, a casa reclama da presença de Dana e Bellona escuta. Meus dedos mal fecham a porta atrás de nós, ela aparece no topo das escadas.
— Cameron?
— Eu.
Dana me olha de esguelha, uma mão indo instintivamente puxar o cabelo em sua nuca. Sua expressão não esconde nada do medo ou surpresa, os lábios pálidos compressos em uma linha. Vejo Bellona pelosolhos de um desconhecido: uma mulher fantasmagórica e ensanguentada.
— Eu trouxe um amigo. – Nem Dana é imune ao sorriso de Bellona. Ele baixa os olhos, claramente envergonhado pela sua reação inicial.
— Eu suponho que ele vá dormir no seu quarto.
— Sim. Eu não durmo.
— Claro, claro. Eu sou Bellona, mãe do Cameron – Ela desce as escadas sem se mover. Dana engole em seco antes de responder, sua voz tão baixa que me faz duvidar dele ter dito algo.
— O nome dele é Dana. Ele não é muito bom com apresentações.
— Ah, me desculpe, Dana. Pode ficar à vontade.
É a primeira vez que a escuto dizer que é minha mãe. Dana assente e de repente o chão é a coisa mais interessante que ele já viu. Seguro seu pulso e o levo comigo, por alguns segundos os olhos de Bellona se detêm em minhas mãos antes dela ceder passagem na escada. Passamos por ela nos degraus e ela me fita com uma expressão complicada. Se ela conhece Dana, pelo menos de vista, já deve ter deduzido o resto da situação.
Dana se deixa ser guiado na escuridão, as mãos irrequietas finalmente se fechando em punhos. Abro a porta do meu quarto, pânico invadindo minha mente ao lembrar o que estava fazendo antes de Seheiah aparecer e se esvaindo com igual rapidez quando me ocorre que, diferente de mim, Dana não enxergaria os detalhes no escuro. Solto seu pulso e, para minha surpresa, ele segura o meu.
— Quem... o que... aonde – Dana começa várias vezes, sacudindo meu braço levemente a cada pensamento interrompido — Sua mãe. E essa é a sua casa.
— É.
— Eu posso deitar na cama?
— Pode.
Dana se senta na cama, mecanicamente retira os sapatos e a jaqueta e os coloca no chão em uma pilha organizada. Ele me olha por alguns segundos, se deita e vira para o outro lado.
— Boa noite.
— Boa noite.
As palavras carregam um ar de finalidade.
Sento-me no chão entre as pilhas de papel. A silhueta de Dana nunca esteve tão delineada – e ele sabe. Seu braço se move para cobrir a lacuna entre a calça e a blusa, ele cruza as pernas, descruza, coloca a outra mão por cima do braço. Por fim, suspira e se vira para me encarar.
— A sua mãe parece legal.
Não sei o que responder. Poderia estar escrito em sua testa que ele quer saber o que aconteceu com ela.
— É.
Com todas minhas respostas monossilábicas, quase parece que eu e Dana trocamos de papéis. Ele é o garoto que quer saber e interagir, enquanto eu mantenho uma distância cautelosa. Bom, não tão cautelosa assim. Ele cobre a cabeça com o travesseiro, e consigo ouvir estalos no ar. É claro na mudança de atmosfera que eu e Dana estamos lembrando o mesmo. É uma tensão nova, constrangedora, como se algum de nós estivesse esperando algo. Prendo a respiração e Dana fica tão imóvel que é impossível que ele esteja respirando.
Oito
Nove
Dez segundos se passam e Dana decide que ele não quer esperar. Abruptamente ele se senta na cama.
— Eu odeio isso. Você acha que eu só estou falando e fazendo...isso porque eu estou bêbado, mas eu sempre, não sei, eu sempre... O que eu quero dizer é que eu nunca tive uma pessoa próxima assim, com a qual eu fique confortável pra simplesmente sentar em silêncio ou jogar conversa fora. Eu sei que a Eleonora se preocupa comigo, e você deve nos achar estranhos, é que as vezes eu sinto que é melhor ela não saber, porque quando ela sabe ela se preocupa e eu não quero ser um fardo, eu sei que eu sou um fardo. Você sabe que ela é namorada do Amatore, mas você não tem ideia do que ele fez por nós e-
— Eu não quero ouvir. Eu não quero ouvir uma palavra sobre ele. — Não digo com raiva, apenas falo como se fosse um fato, “O céu é azul, eu odeio meu pai”, mas mesmo assim, Dana congela, seu rosto empalidecendo diante da interrupção.
— Me desculpa, tá. Eu vou cortar o que eu ia dizer pela metade, você não precisa saber tudo, de qualquer forma, eu não quero que as coisas fiquem estranhas. Você é a única pessoa que eu posso confiar, e você nem é uma pessoa. Me assusta que você possa desaparecer a qualquer momento e me deixar sozinho, como essa semana. Eu havia esquecido como é não ter ninguém.
— Você tem a Elisheva, a Eleonora.
Dana bate os punhos cerrados contra seus joelhos.
— NÃO É A MESMA COISA.
— Você sabe o que precisa acontecer pra que eu desapareça. Isso nunca vai mudar. Eu só fui embora porque eu precisava de espaço.
— Então você vai voltar?
Dana encara o chão. Não sei se ele está lembrando que, antes de partir, eu cheguei bem perto de quebrar seu pescoço em um lapso de raiva.
— Se você quiser.
— … Sempre.
Ele murmura. Seus movimentos são tão lentos que penso ter imaginado, até ele estar sentado sobre os joelhos, suas mãos cruzadas sobre o colo. Rubor se espalha em seu rosto como se ele tivesse dito algo além de 'sempre', e eu entendo. Nós somos covardes e tudo o que podemos fazer é esperar que o outro escute o que não é dito. Minha mandíbula estala. Quero avançar e quero ficar imóvel e quero segurá-lo em meus braços e mil coisas se passam por minha cabeça porque isso não pode ser real.
Estendo a mão para afastar uma mecha de seu cabelo e ele, com o rosto abaixado em submissão, me observa sob seus cílios claros. Depois da primeira vez não é tão surpreendente. Dana segura meu rosto entre suas mãos. Seus lábios são suaves, passeiam por minha mandíbula, bochechas e sobrancelha antes de se assentarem no canto de minha boca.
Ele se acomoda em meu colo, suas coxas cingindo meus quadris. O peso é um lembrete de que isso é real, eu não estou imaginando — por via das dúvidas, aperto a carne sob meus dedos. Se não fosse Dana, eu diria que o som é um gemido, mas é Dana e a breve noção me faz entrar em curto circuito, então penso no som como uma exclamação de surpresa.
Meus dentes arranham a pele delicada de sua mandíbula, pescoço e os ombros expostos.
Sua pele se arrepia visivelmente sob meu toque. Ele murmura em uma voz ofegante.
— Eu sempre me perguntei como seria seeu falasse pra você.
— É? — Pergunto, cravando os dentes em sua clavícula.
— Argh.
— Eu odeio que me toquem, eu odeio que olhem pra mim, então porque, quando é você, eu não sinto vontade de arrancar minha própria pele fora?
Dana me encara sob seus cílios claros, considerando uma resposta. Para testar sua própria teoria, ele segura minha mão contra seu pescoço.
— Eu… fiquei com medo na última vez. Eu realmente fiquei, mas depois, quando você foi embora, eu só queria que você voltasse e terminasse o serviço. Acho que você não é tão ruim quanto pensa no seu trabalho.
Suas palavras estremecem o véu entre nossas consciências. Eu sinto o quão é repulsivo quando Eleonora faz menção de chegar perto; a bile em minha garganta quando Hiezabel me abraça contra minha vontade; a ânsia ao entrar em um carro com Amatore; e o ímpeto de arranhar pele até alcançar o osso quando ele me toca.
As cenas se apresentam vividamente diante de meus olhos, ofuscam o próprio Dana; em um instante o estou vendo deitado ao meu lado e no outro há um peso esmagador em minha cintura e mil agulhas perfurando meu couro cabeludo.
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