Hálito de Fogo

3 O eremita, a donzela e o dragão


A noite era fria, eu continuava a caminhar pela mesma estrada e a Lua já não era mais visível. Logo o Sol iria nascer e eu não tinha chegado a lugar algum. Não sabia bem o que queria encontrar, uma cabana, um grupo, uma vila ou uma cidade, quem sabe?

Ao longo do caminho vi algumas árvores com marcas de garras e algumas outras caídas. O caminho que tinha seguido era infestado de cavernas e montanhas, os lugares preferidos de dragões. Foi quando topei com uma bifurcação. O caminho da esquerda terminava no topo de uma montanha iluminada por uma espécie de chama que ora acendia e ora apagava, mais alta que as outras ao seu redor e o da direita ia até uma pequena vila. Decidi tomar o caminho da direita. Eu tentaria conseguir algum trabalho na vila e depois de reunir um pouco de ouro, iria seguir meu caminho.

A vila era protegida por muros altos e grossos, mas o portão estava aberto e nenhum guarda o protegia. Ao adentrá-la, percebi logo de cara como as pessoas andavam de um lado para o outro desesperadamente. Não se via crianças nas ruas, as pessoas conversavam aos sussurros e me encaravam como se eu estivesse contaminado com uma doença contagiosa. Era possível ver um casarão cinco vezes maior que as casas a sua volta, provavelmente onde o conde da vila morava.

Ao caminhar um pouco encontrei um homem magro e com uma longa barba, sentado em um banco de madeira em frente a uma cabana pequena, que sorriu para mim, então me senti mais a vontade de fazer algumas perguntas a ele.

— Prazer, sou Cadmo – dizia enquanto me abaixava e estendia minha mão para cumprimentá-lo.

— O prazer é todo meu. Sou Jorge, um pobre eremita. – Ele estendeu a mão e me cumprimentou – O que um jovem como você faz por aqui? Nunca vi seu rosto nesta vila antes.

— Eu só estou de passagem. Você poderia me dizer o que aconteceu por aqui que faz com que todos corram de um lado para o outro desesperadamente?

— Toda a vila está em sofrimento, pois existe um enorme dragão cujo hálito venenoso pode matar a todos e cuja pele não pode ser perfurada por quase nenhuma lança e nem por espada. – Ele olhou para o alto da montanha.

— Como assim por quase nenhuma? – Disse, ressaltando a palavra “quase”.

— Vejo que você é um garoto atento. – Ele dizia enquanto sorria. – Mas sinto em te contar que apenas um Coração Flamejante pode convocar esta arma. – Ele olhava as próprias mãos sujas, cheias de bolhas e queimadas.

— Coração Flamejante? O senhor quer dizer alguém corajoso? – Aquele senhor realmente era misterioso, parecia querer dizer muitas coisas e coisa nenhuma ao mesmo tempo.

— Não se preocupe com isso, não temos mais tempo para encontrar alguém digno da arma. – Uma expressão triste tomou o rosto de Jorge.

— Então me conte mais sobre esse dragão. – Disse enquanto me sentava ao seu lado e pegava um pedaço de pão de minha mochila, que fechei rapidamente para esconder o ovo. Cortei o pão ao meio e dei metade a Jorge — Servido?

— Todos os meses o dragão exige o sacrifício de uma menina, porém todas as meninas da cidade já foram enviadas ao dragão, agora só resta à filha do rei, Sabra, que será sacrificada amanhã ou dada em casamento ao campeão que matar o dragão. – Ele estendeu a mão e pegou o pão.

— Mas você não disse que apenas uma arma pode matar o dragão? Então ela não espera ter chance de sobreviver, não é? – Pensava em como a garota estava se sentindo, sabendo que logo pela manhã morreria.

Jorge se levantou e ficou em silêncio por um tempo. Então ele se aproximou de mim e me olhou nos olhos.

— Ela espera alguém muito idiota para enfrentar o dragão. – Jorge pousou a mão sobre meu peito, em cima de meu coração. – Ou alguém muito valente. – Ele sorriu e abriu a porta de sua cabana. – Vamos, entre, você precisa descansar.

Sorri para ele e entrei na cabana. Ele ajeitou uma cama para eu poder me deitar. Dei uma olhada rápida pela casa e vi dentro de uma sala pequena e escura uma espada que emitia uma forte luz, senti um aperto no coração.

— O que é aquilo, Jorge? – Perguntei apontando para a espada.

— Oh! Nada demais! – Ele correu a fechou a porta rapidamente. – Bobagens minhas. Agora pode se deitar, sua cama esta pronta.

O que teria guardado naquela sala que teria o deixado tão desesperado? Não queria insistir demais porque ele já me fazia à gentileza de me deixar dormir por ali. Coloquei meu arco, minha aljava e minha bolsa ao lado da cama e deitei, rapidamente peguei no sono.

— Ei acorde!

Dei um pulo da cama e percebi que estava no mesmo lugar do ultimo sonho. Era frio e ventava muito. Só podia ver a cama na qual tinha me deitado, mas logo vi a silhueta da mesma garota que tinha visto da última vez. Ela se aproximava de mim com meu capuz cobrindo seu rosto e eu só podia ver seus olhos azuis, muito claros.

— Você deve salvá-la! – A garota dizia se aproximando.

— Quem é você? – Disse, passando a mão nas costas e não sentindo meu arco ali.

— Você deve salvá-la! – Ela repetiu a frase ignorando minha pergunta.

— Salvar quem?

— Sabra!

— Sabra? Mas eu não posso! Jorge disse que apenas uma arma pode vencer o dragão e não há mais tempo para isso!

— Você sabe qual é a arma! Tem que saber!

Eu não estava entendendo o que ela queria dizer. Como poderia saber qual era a arma, se tinha acabado de descobrir sobre o dragão? Foi quando me toquei.

— A espada de Jorge! Não é? – Passei a mão pelo corpo, tentando me esquentar. Foi quando ouvi um rugido, seguido por uma labareda de fogo azul que tinha sido lançada aos céus, que fez com que a tempestade parasse.

— Não há tempo! Mas você tem que salvá-la! – A garota bateu palmas duas vezes e então tudo ficou escuro.

Acordei na cabana de Jorge. Ele dormia em sua cama e roncava alto. Caminhei em direção à sala em que a espada estava, abri a porta com o máximo de cuidado possível, para não fazer barulho, o que não adiantou muito, pois a porta fez um barulho muito alto. Porém, pelo que parecia, Jorge dormia como um dragão que acabara de almoçar uma manada de búfalos.

Ao entrar na sala e ver a espada, senti um aperto no coração. Era como se uma parte de mim quisesse sair correndo o mais rápido possível, mas eu tive que continuar. O brilho daquela espada chamava minha atenção, era como se meus olhos quisessem ficar ali para sempre, admirando ela e minhas mãos quisessem agarrá-la para nunca mais soltar. A cada passo que dava, o aperto em meu coração crescia junto ao desejo de tê-la em minhas mãos.

Finalmente, quando a toquei, senti minhas mãos ardendo, como se a espada estivesse rompendo em chamas. Segurei a espada por um tempo até que minhas mãos se acostumassem com sua temperatura. Quando a dor passou, percebi que a espada era muito pesada, sendo quase impossível de manejar. Ao olhar melhor para sua lâmina podia ver alguns desenhos sobre ela, e, de alguma forma, podia entendê-los: “Ascalon”.

De repente a voz da garota de olhos claros tomou minha mente: “Sabra”. Eu tinha que salvar Sabra, mas, e se eu não fosse digno de usar a espada? Não importava, eu tinha que tentar. Caminhei devagar até minha cama, peguei minha mochila e saí da cabana o mais silenciosamente possível. Avistei a montanha e concluí que ela era alta demais. Demoraria muito tempo para chegar até o topo a pé e provavelmente Sabra já estava a caminho. Foi quando avistei um homem bebendo água na beira de um rio que tinha deixado seu cavalo amarrado em uma árvore. Saquei a espada, cortei a corda e montei no cavalo. Ele não teve nem tempo de reclamar, pois comecei a galopar rapidamente enquanto pedia desculpas.

A montanha tinha um terreno difícil de ser cavalgado, muitas vezes o cavalo quase escorregava. Estava na metade do caminho quando o cavalo empinou o focinho ao encontrar os guardas do conde, me derrubando e correndo. Os dois guardas apontaram suas armas para mim. Levantei minha espada em sinal de rendição e me aproximei, e, quando estava próximo o suficiente, desferi um golpe no rosto de um. Porém o outro, com uma força brutal, me acertou as costas, criando um corte um pouco acima do ombro que manuseava a espada. Girei-a com dificuldade, mas consegui acertar a perna do guarda, deixando-o caído. Quanto mais andava, mais guardas apareciam, cada um deles me acertando golpes em diferentes parte do corpo. Quando um acertou meu olho machucado, senti uma dor enorme e perdi o controle, jogando-o montanha baixo. Enquanto via-o cair, olhei para meu corpo. As feridas ardiam, meu ombro latejava, minha mão direita já não aguentava mais carregar a espada, então a guardei na bainha e peguei minha mochila. Tirei o ovo de dentro e fiquei o admirando, a espera de algum sinal, então ouvi um sussurro em meu ouvido “Continue”. Guardei-o na mochila e continuei a subir a montanha. Parecia que não havia mais guardas, mas o remorso de ter derrubado um deles da montanha me corroia por dentro. E se ele tivesse uma família? Esposa, filhos, netos ou qualquer um que dependesse dele? Estava prestes a descer a montanha para ver se ele realmente tinha morrido quando finalmente encontrei Sabra.

Ela aparentava ter a minha idade, 16 anos e tinha longos cabelos loiros, uma pele muito clara e olhos cor de mel. Caminhava lentamente de cabeça baixa e estava acompanhada de 10 guardas e de um homem que aparentava ser o conde.

— Senhores! Esperem! – Tentei correr, porém a dor era enorme e ao me aproximar os guardas ergueram suas espadas. – Eu vim ajudar!

— Ninguém pode me ajudar... – Sabra disse com calma e ternura.

— Vá embora, garoto! Muitos homens mais fortes que você já tentaram vencer o dragão, mas nenhum deles conseguiu – Disse o conde. – Se é a mão da minha filha que você quer, desista, não há escapatória.

— A mão da sua filha? Não quero a mão da sua filha, quero matar o dragão! – Disse dando alguns passos à frente.

— Garoto, vá e não volte! – Um dos guardas disse com raiva. – Você é jovem e fraco, tem muito o que viver e aprender ainda, não há como vencer o dragão!

— Por favor... – Sabra deu alguns passos a frente, passou a mão em meu rosto e deu um sorriso fraco. – Eu sei que você só quer ajudar, mas quase nada fere esse dragão, vá embora, por favor.

— Exato, quase nada. – Sequei a lagrima que descia no rosto de Sabra, e caminhei em direção aos guardas. – Eu quero tentar. – Eles saíram do caminho e com um pouco de resistência me deixaram passar.

— Garoto idiota! Valente, mas idiota. – O conde gritava. – Esqueçam, deixe que ele morra.

— Boa sorte! – Gritou Sabra ao fundo.

Ao chegar ao topo da montanha, percebi a idiotice que estava fazendo. Um Dragão Imperial com quase 20 metro de comprimento dormia. Suas asas eram majestosas e, de tempos em tempos, ele respirava fazendo uma ventania capaz de derrubar um homem adulto descuidado e lançava uma pequena chama que era o que iluminava o topo da montanha pela noite. Saquei a espada, que resolvi chamar de Ascalon por causa de seus desenhos. Ela continuava pesada, mas não queimava mais minha pele. Agora meu objetivo era acordar o dragão. Tentei lançar algumas pedras sobre ele, mas nada o acordava. Assobiei o mais alto que pude, porém ele não acordou, então dei o grito mais alto que já dei em toda minha vida e... nada.

— Dragão idiota... – Me sentei e guardei Ascalon. – É... Acho que não podemos fazer nada, Ascalon...

No momento que terminei a frase o dragão se levantou e começou a rugir. Parecia estar sentindo uma espécie de dor. Saquei rapidamente Ascalon, mas ele era muito mais rápido. Girou a cauda e acertou em cheio meu peito, me fazendo perder o ar e me jogando contra uma das paredes de pedra da montanha. Ao me levantar não sabia se estava vivo ou morto, mas, ao ver o dragão, percebi que estava vivo. Porém não por muito tempo. Ele lançou suas chamas sobre mim, e, com sorte, escapei rolando. Como queria que Bane estivesse ali. Ele saberia exatamente o que fazer. Daria algumas ordens e dentro de pouco tempo o dragão iria para o saco, mas ele não estava e eu tinha que me virar.

— Garoto tolo, pensa que pode me matar? – Uma voz grossa e imponente gritou.

— Quem disse isso?! – Perguntei assustado, não havia mais ninguém ali além de mim.

— Eu, é claro, o dragão! Pobre coitado, bati tão forte que você não consegue nem mais pensar? – O dragão estava falando comigo? Como eu podia entendê-lo? Será que realmente eu tinha levado uma pancada tão forte que estava delirando? – Vamos verme, levante e lute, mostre ser digno desta espada maldita que você carrega.

— O que você sabe sobre Ascalon? – Ao dizer a palavra, o dragão rugiu.

— Não repita este nome! – Ele pousou próximo a mim.

— Ascalon! Ascalon! Ascalon! Ascalon! Ascalon! Ascalon! – Comecei a gritar. – Vou repetir o nome dela enquanto você não me contar o que sabe.

— Pare! Como um verme como você ousa tentar mandar em um dragão? – Ele tentou me abocanhar, mas fui mais rápido e desviei. – Pare de gritar esta maldita palavra. – Quanto mais eu gritava “Ascalon” mais o dragão se abaixava e se contorcia. — Certo eu conto. – Parei de gritar. – Esta espada é chamada Vulnus entre os dragões, ela é um dos muitos Gladios.

— Gladios? O que são Gladios? – Olhava para a espada, ela não parecia tão pesada agora, era como se eu e ela tivéssemos nos tornados amigos.

— Gladios são objetos que podem interferir definitivamente na vida de um dragão. – O dragão olhou para suas asas, era possível se ver uma cicatriz próxima às costas.

— Me conte mais! – Apontei a espada para o dragão.

— Já chega! Não irei me render às ordens de um humano.

Desta vez não tive tempo de gritar e meu braço esquerdo foi atingido por um lança chamas. Aquela dor era insuportável, mas eu tinha que lutar. Sabra precisava de minha ajuda. Levantei-me e corri em direção ao dragão. Ele tentou pisar em mim com sua pata dianteira direita, mas desferi um golpe em sua pata que o fez rugir de dor. Corri até sua cauda e me agarrei nela, e então ele começou a chacoalhá-la para me fazer cair. Porém finquei a espada antes que isso ocorresse. Comecei a escalar suas costas, fincando a espada cada vez que me movia e em pouco tempo ele estava sangrando muito, quase sem forças. Mas o dragão tinha uma carta na manga. No momento em que estava em sua cabeça, ele me lançou muito alto para cima com uma força brutal.

A queda era algo terrível. Era como se a minha vida passasse diante de meus olhos. Quem se importaria se eu morresse? Bane? Helena? Jorge? Minha mãe? Eu nunca a conheci. Bane sempre me disse que ela morreu no momento que me entregou a ele, quando eu ainda era um bebê. Aos meus 10 anos eu prometi a mim mesmo que descobriria a história de minha mãe e agora, seis anos depois, eu estava prestes a morrer e nem havia começado a procurar...

Mas aquilo não ficaria assim! De jeito nenhum! O mesmo ódio que tomou meu corpo quando lutei com Bane possuiu-me de novo, senti todas as feridas se fecharem e cicatrizarem. Pude ver Ascalon romper em chamas e seus desenhos ganharem um fogo azulado por volta, o dragão me aguardava de boca aberta abaixo de mim, então vi suas cicatrizes próxima à asa direita, girei Ascalon então me preparei.

— Ascaloooooooooooooooooooooon! – Estiquei meu corpo e o inclinei em um ângulo diferente, assim mudando minha direção e rasgando a cicatriz no meio, cortando o dragão desde as costas até a barriga, não sabia se ele urrava mais de dor pelo corte ou pelo grito.

Então algo diferente aconteceu. Ao invés do dragão queimar e se tornar cinzas como eles sempre faziam, ele começou a endurecer cada vez mais, até o ponto de virar pedra. Quando ele finalmente se petrificou totalmente, avistei Sabra, os guardas e o conde que, pelas expressões, assistiram a luta toda, e então meu mundo começou a rodar. O ódio tinha passado, Ascalon não tinha mais chamas e então eu caí.