Hálito de Fogo

8 O Ás da Realeza


Notas iniciais
Eu sei, sou uma lesma, deveria postar os capítulos em um espaço de tempo menor, mas quem disse que eu consigo? Então, perdão pra quem ficou esperando o capítulo, vou tentar ser mais rápido dessa vez. P.S: Por mais que eu demore pra escrever, nem que sejam 2 anos pra um capítulo, não, eu não desisti nem vou desistir ou parar de escrever Hálito de Fogo.

Ao longo da estrada todos ficamos em silêncio tentando ouvir qualquer ruído que aparentasse ser o rei das selvas, porém não conseguimos ouvir nada, então Sabra pegou o livro dos anjos e começou a lê-lo.

– Quem sabe isso daqui não nos ajude? O segundo anjo fala apenas de um homem e seus doze desafios, não diz nada sobre seguir um leão. – Sabra folheou o livro.

– O que seria esse amontoado de folhas? E por que está cheio de rabiscos? – Helena perguntou a Sabra.

– É um livro e esses rabiscos são palavras. – Sabra deu um sorriso malicioso. – Então, você não sabe ler?

– Não... – Helena respondeu com um tom de voz um tanto quanto envergonhado.

– Era de se esperar que alguém que vive no meio da floresta, longe de todo e qualquer tipo de conhecimento.

– Sabra... – Eu a chamei em um tom de voz baixo. Ela se virou e então eu dei as costas para ela. – Não vamos mais abrir esse tal livro e vamos continuar andando.

– Não, Cadmo. Eu não quis te ofender, eu só... – Ela tentou segurar meu pulso e me virar para ela, mas eu continuei andando.

– Eu disse para continuarmos andando. – Mesmo eu sabendo que ela não quis me ofender, ela havia dito aquilo só para fazer Helena se sentir mal e acabou fazendo eu me sentir mal também. Bane sempre havia nos ensinado tudo que sabia, então por que ele não nos ensinou a ler?

Devido ao acontecido, continuamos andando em silêncio, apenas ouvindo de tempo em tempo os suspiros uns dos outros, mas nada ficava em silêncio por muito tempo comigo por perto.

De repente um reboliço começou dentro de minha bolsa. Era possível ouvir estalos vindos de dentro dela, parecia que algo estava quebrando.

– O ovo... – Pensei em voz alta, tirei a mochila das costas e a abri pegando o ovo. Minhas mãos estavam tremulas, meu coração acelerado e minha mente a mil por hora. Toda aquela ansiedade que eu havia passado nos últimos dias tomou conta de mim, eu parecia estar prestes a duelar com um dragão, minhas mãos começaram a se incendiar, elas acendiam e apagavam incessantemente.

Helena e Sabra trocavam olhares entre si, Sabra parecia assustada e Helena brava. Foi quando eu percebi que eu tinha um sorriso em meus lábios. Mesmo aquele sendo um momento tenso e perigoso, eu não conseguia me conter, estava aguardando por aquilo há muito tempo.

– Mas que droga é essa, Cadmo? – Helena perguntou olhando para o ovo que era quebrado de dentro para fora.

– Um ovo de dragão. – Ela me metralhou com seu olhar fulminante. – É o ovo daquele dragão que estava no prédio. Eu me senti culpado por ter feito a mãe dele morrer e depois do que ouvi o que ela disse, me senti na obrigação de cuidar dele.

– Espera, você está me dizendo que ouviu um dragão falar? Ela escuta leões, você dragões e eu vou escutar o que? – Ela revirou os olhos. – Vocês dois são loucos.

– Agora não é hora de brigar – Sabra murmurou, revirando os olhos. – Cadmo, tenha cuidado, ele pode tentar te atacar quando sair.

Respirei fundo. O topo do ovo estava quase todo aberto e faltava pouco para minha mão caber ali dentro. Foi quando, de repente, um lança chamas branco estourou o ovo por completo. Cobri o rosto com um braço para proteger meu rosto dos estilhaços das cascas que vieram em minha direção e das chamas que foram lançadas, mas, por algum motivo estranho, eu apenas senti as chamas passando pelo braço, como se alguém passasse a mão por ele. Nada me queimou.

Quando olhei para a palma de minha mão novamente havia um dragão, mas não um dragão comum.

– Um dragão rei... – Helena deu alguns passos à frente. – Cadmo, olhe a cabeça dele. – Ela apontou para o dragão, que era duas vezes maior que a minha mão, tinha uma pele cor de prata e olhos cor de safira. Seus chifres, para os quais Helena apontava, pareciam ser feitos de diamante com a parte grudada ao corpo envolta por ouro. Isso representava que ele era um dragão rei.

– O que seria um dragão rei? – Sabra perguntou, enquanto se aproximava para tentar olhar o pequeno dragão que nos encarava e bufava fazendo sair fumaça de suas narinas.

– Existem vários tipos de dragões. Dragões de nevasca, assim como a mãe deste dragão, dragões imperiais, como o que eu venci para te salvar, dragões toupeira, que vivem em baixo da terra e assim a lista se estende. – Quando disse que venci o dragão imperial para salvar Sabra, Helena me encarou com uma cara surpresa e fez um sinal positivo com a mão e sorriu, como quem diz “Bom trabalho”. Toda vez que eu fazia algo certo, desde pequena, Helena fazia esse gesto. – Mas existem os três tipos mais fortes de dragões, os mais cruéis e impiedosos. Em terceiro lugar está o dragão imperial. Sua pele é quase impenetrável. Em segundo lugar temos o dragão celestial, que só foi visto algumas vezes pelo nosso grupo e quem tentou enfrenta-lo quase não ficou vivo para contar como foi a luta, pois seu fogo azul queima tudo e todos. E, por último, temos este majestoso dragão que tenho em minhas mãos, o dragão rei. Ele é chamado assim por dois motivos: o primeiro são seus chifres feitos de algum material precioso. Quanto mais raro o material, mais poderoso é o dragão. E o dourado na parte que une os chifres ao corpo que lembram uma coroa. O segundo motivo é que não importa qual dragão, todos se abaixam perante o dragão rei. Se ele pousar em um território pertencente a outro dragão, não haverá nenhuma disputa. O outro apenas irá levantar voo e deixar o dragão rei em paz, pois ele traz consigo todas as habilidades dos outros dragões. Ele tem a pele de um dragão imperial, as chamas de um dragão celestial, a capacidade de suportar o frio como um dragão nevasca e assim prossegue, com todas as outras habilidades. – Sabra parecia aflita e enquanto eu falava, ela encarava o dragão em minhas mãos, parecendo que queria matá-lo antes que fizesse alguma coisa.

– Mas ele tem uma habilidade que nenhum outro dragão tem – Helena disse e suspirou em seguida. – Só pode ser morto por outro dragão rei. Não importa o que você faça, ele só vai se tornar pó quando outro dragão rei matá-lo.

– Mas então o que nós vamos fazer? Nós precisamos tentar fazer alguma coisa antes que ele cresça, ele deve estar mais fraco agora. – Sabra, com muito esforço, pegou uma pedra do chão e tentou acertar o pequeno dragão.

– Não! – Helena colocou sua mão sobre a cabeça do dragão e o protegeu da pedra, porém a pedra caiu de um jeito que abriu um corte na mão de Helena. – Mas que droga! – Sangue escorria do corte aberto e as duas gritavam entre si. O pequeno dragão estava encolhido observando tudo, não fazia ideia do que estava acontecendo. Ele murmurava alguma coisa que eu podia entender como um pedido para que Sabra parasse de gritar com Helena. De repetente Sabra em meio a um momento de fúria avançou sobre Helena, mas antes que ela pudesse reagir dando algum golpe, o dragão pulou entre as duas separando-as e lançou chamas para o alto, fazendo com que Sabra recuasse. O pequeno dragão bateu asas e pousou sobre o ombro de Helena.

– Parece que ele gostou de você. – Sabra disse para Helena que estava com uma cara de espanto tentando esticar o pescoço para longe do dragão que roçava sua cabeça.

– Mas ele era o meu dragão, eu cuidei do ovo, ele devia gostar de mim... – Helena me encarava com uma expressão de “Alguém tire isso de cima de mim”. – Não temos outra escolha, o dragão fica sob seus cuidados. – Helena suspirou e fez um sinal positivo com a cabeça.

Continuamos andando por muito tempo, até encontrarmos uma trilha onde havia uma placa com as tais letras do livro de Sabra.

– Sabra, leia, por favor. – Não consegui olhar Sabra nos olhos pelo o que ela disse mais cedo, então pedi cabisbaixo.

– “Midgard: A cidade do aço”. – Sabra leu em voz alta.

– Bem, como nós não vamos encontrar o leão hoje e já está escurecendo, acho que devíamos entrar na cidade, nos hospedar em uma estalagem e sairmos em busca dele pela manhã. – Helena disse e nós fizemos um gesto positivo com a cabeça, concordando com o que ela havia dito. – Ainda bem que eu trouxe isso comigo. – Ela tirou de seu bolso um punhado de moedas de ouro.

– Certo, então vamos rápido antes que anoiteça completamente.

Demos alguns passos na trilha e então ouvimos algum animal rosnar. Pensamos que fosse o leão, mas de dentro das árvores um enorme lobo branco saltou, nos encarou e continuou a correr antes que eu pudesse sacar Ascalon. Logo atrás dele uma garota de pele morena, cabelos negros, grandes maçãs e uma cara furiosa apareceu.

– Koba di Luna! Eu mandei você voltar aqui! Se seu tio te encontrar assim nós duas estaremos mortas. – Seu rosto lembrava o de um hamster. Ela passou correndo sem nem olhar para nós.

– Alguma de vocês entendeu o que aconteceu aqui? – Perguntei a Sabra e Helena.

– Não... – As duas responderam simultaneamente e então resolvemos seguir caminho.

Pouco antes de entrarmos na cidade concordamos que seria melhor colocar o pequeno dragão dentro da mochila. Depois de muita insistência conseguimos colocá-lo.

Nós ainda não havíamos chegado, mas mesmo assim era possível se ver a majestosa cidade que íamos adentrar. Midgard era enorme. Nós estávamos em cima de uma pequena montanha, quase tudo de dentro da cidade era visível dali. Os muros que rodeavam a cidade protegiam uma área enorme e tinham um formato de uma cruz igual a que Helena carregava em seu pescoço e a capa do livro de Sabra. Mais ao centro havia um espaço em formato circular enorme onde parecia ser uma praça e ao longo da cidade havia várias casas de diferentes formatos e tamanhos e também torres , já na parte mais distante da cruz um castelo colossal se erguia, onde luzes cintilavam e guardas que de longe pareciam ser formigas rodeavam e montavam guarda.

Quando finalmente chegamos, demos de cara com um enorme portão de aço com um formato retangular e com mais ou menos 7 metros de altura, que era guardado por dois soldados, um homem e uma mulher.

– Quem são vocês e o que querem em Midgard? Se forem andarilhos em busca de esmola, sumam da minha frente antes que eu transforme vocês em pedacinhos. Caso sejam compradores de aço, bem-vindos a Midgard, a cidade do aço. – A mulher que trajava uma armadura de aço deu um passo a frente abrindo os braços em um sinal de boas vindas.

– Eu sou Cadmo, esta é Helena e esta é Sabra, nós viemos nos hospedar em alguma estalagem.

– O que crianças como vocês fazem andando por uma floresta sozinhos, sem um adulto? – A guarda perguntou desconfiada.

– Por favor, apenas nos deixe entrar. – Helena colocou a mão em seu bolso, pegou algumas moedas de ouro e disfarçadamente colocou sobre a mão da guarda.

– Certo, vocês podem entrar, mas cuidado. Caso façam algo errado, eu mesma cuidarei de vocês. – A guarda bateu palmas em um certo ritmo e então os portões começaram a se abrir.

– O que é isso, Helena? Como os portões se abriram apenas com um bater de palmas? Mágica? – Perguntei enquanto passávamos pelo portão.

– Não, cabeção. – Ela me acertou um tapa na cabeça. – São apenas bobinas puxadas por alguns... – Ela apontou para cerca de 30 homens que rodavam um circulo envolto por uma corrente de aço que fazia com que o portão se levantasse. – Vários homens puxando correntes.

Para se precisar de tantos homens para levantar apenas um portão ele devia ser muito pesado, então confirmei isso quando todos os homens saltaram para o lado e soltaram a corrente, deixando o portão descer e fazendo um som muito alto.

Andamos um pouco pela cidade até encontrarmos uma boa hospedagem, barata e que aceitasse três adolescentes sem nenhum adulto. Ela ficava próxima à praça a qual tínhamos visto, não era a melhor pousada que poderíamos encontrar sobre todas as terras de Teran, mas para aquele momento era perfeita.

A Lua já estava no céu e eu, Sabra e Helena estávamos dividindo as camas. Havia um beliche e uma cama de solteiro. Helena e Sabra queriam dormir na cama de solteiro, então, para acabar com a briga, eu felizmente tive que dormir ali.

Tomamos banho no banheiro da estalagem e descemos para jantar no primeiro andar. Dorothy, a mulher de longos cabelos castanhos, um pouco cheinha e baixinha que nos atendeu quando chegamos entregou os pratos de comida com o mesmo sorriso de antes.

Quando terminamos de comer, estávamos subindo as escadas para voltar para o quarto, mas então não ouvimos apenas um rugido de dragão, mas muito mais que um. Comecei a ouvir gritos do lado de fora da estalagem e então disse a Helena e Sabra para subirem, mas claro que elas não me ouviram e resolveram ir junto a mim.

Dorothy já tinha corrido para o lado de fora e uma multidão corria em direção ao centro da praça, deixando o circulo central vazio. Foi quando percebi que não eram gritos de medo e sim de alegria. As crianças corriam e gritavam, estavam entusiasmadas com algo. Todos estavam olhando para o alto e então quando ergui minha cabeça pude ver sete dragões fazendo piruetas no ar, mas eles não estavam sozinhos. Sete homens estavam montados sobre os dragões. Então eles pousaram em meio ao circulo e a multidão delirou quando os dragões lançaram suas chamas para cima.

Com muito esforço me aproximei do circulo, ficando cara a cara com os dragões e os sete homens. Helena e Sabra me alcançaram e me perguntaram o que iríamos fazer.

– Bem, eles não parecem dragões selvagens, então talvez não seja necessário usar Ascalon... – Quando disse Ascalon, mesmo em um tom de voz baixo, os dragões urraram de dor fazendo com que os homens montados sobre eles caíssem e que a multidão se calasse com medo.

– Ei, ei, ei, garotos. O que aconteceu com vocês? Calma! – Um dos homens disse erguendo a mão e acariciando um dos dragões. Quando olhei melhor vi quais eram as raças dos dragões. Haviam três dragões imperiais, três dragões celestiais e o dragão o qual foi acariciado era um dragão rei. Seus chifres eram feitos de um ônix negro, o mesmo tom de sua pele e seus olhos eram cor de enxofre.

– Eu peço desculpas, senhor, eu não queria assustar seus dragões. – Eu disse dando um passo a frente, então o homem que acariciou o dragão virou-se repentinamente apontando uma espada para minha garganta.

– Mais um passo e você morre. O que você fez para os dragões ficarem desse jeito? – Ele perguntou tocando minha garganta com a ponta da lâmina.

– Ele não fez nada, meu amigo é um pouco idiota e tem alguns delírios às vezes. – Helena deu um passo a frente, tentou me puxar pelo braço, mas então outro dos sete homens a puxou pelo braço e a arremessou no chão apontando uma espada para sua garganta também fazendo com que ela gritasse.

Foi quando eu pude ouvir um vidro se partindo e vi algo incandescente voando em nossa direção. O pequeno dragão rei que havia saído do ovo surgiu e soltou uma labareda de fogo para o alto, fazendo com que todos recuassem, homens e dragões, então ele se aproximou de Helena e lambeu calmamente o rosto dela. Por um milagre, Helena sorriu de volta para o dragão em um gesto de agradecimento.

Todos os outros sete dragões estavam abaixados, como soldados se abaixam perante um rei, mas desta vez eram dragões se abaixando perante um dragão rei Até mesmo o da mesma raça, porque aparentemente nosso pequeno dragão era superior a ele.

– Vejam só, temos outra treinadora de dragão por aqui. Eu sou Ravel Everstar, este é meu companheiro Zhoa. – Ele se aproximou de seu dragão que estava abaixado e acariciou sua cabeça. Ravel era um homem alto, de olhos puxados, cabelos lisos e negros e aparentava ter entre 40 e 50 anos, um pouco mais velho do que um cavaleiro comum, o que não era nada demais, porque um cavaleiro comum não montaria em um dragão. – E estes sãos meus homens, Pietro. – Um homem de pele morena, olhos escuros, cabelos negros e lisos acenou com a cabeça. – Barton. – Um homem gordinho, careca e com uma longa barba grisalha ergueu sua espada em um gesto de cumprimento. – Wolfric. – Este tinha cabelo ruivo e longo, que descia até a altura das costas. – Ramon. – Posso parecer maldoso o descrevendo, mas ele tinha um cabelo que lembrava um ninho de rato e seu rosto era semelhante a um rato. – Heitor. – Ele trajava uma capa preta que escondia seu rosto, mas eu pode ouvir um “Olá” vindo dele. – E, por último, Philip. – Era o mais novo de todos, aparentava ter cerca de 18 ou 19 anos, era alto, loiro e de olhos azuis. Tinha um sorriso cativamente e estava abraçado com uma garota que aparentemente era sua namorada. – E todos nós unidos somos os Ases dos Ares.

– Eu sou Cadmo Agápio, estás são Helena Aldebaran e Sabra Promissio.

– É um prazer imenso conhecer vocês, principalmente a senhorita Helena. – Todos os sete fizeram uma reverencia em direção a Helena. – Não é comum ver outros treinadores de dragões, ainda mais tão jovens e ainda por cima mulheres. – Ravel andou em direção ao pequeno dragão, se abaixou e ficou a cerca de um metro do dragão. – Vejo que temos um dragão rei por aqui. Qual nome dele?

– Bem, pra falar a verdade este dragão não tem nem um dia de vida, então não faço ideia de seu nome... – Helena parecia um pouco envergonhada por não ter dado um nome para o seu dragão.

– Ora, ora, então é uma novata. Não se preocupe, lhe direi tudo que sei sobre dragões e de como treiná-los. Vocês devem estar hospedados em algum lugar pela cidade, poderemos conversar melhor lá sobre esse assunto, caso desejem.- Ravel não tirava os olhos do dragão e de Helena, mantinha um olhar intercalado entre os dois.

– Claro que sim, nós estamos em uma estalagem aqui por perto, para aquele lado. – Helena esticou o dedo indicador em direção à estalagem.

Quando chegamos, Dorothy surtou ao ver os Ases dos Ares. Ela correu para juntar algumas mesas e pediu para que nos sentássemos.

Contei para eles resumidamente sobre como eu encontrei o ovo de dragão e de como ele protegeu Helena, então eu pude ver um pequeno sorriso estampado na boca de todos.

– Eu vou ser direto e explicar o que aconteceu com vocês. – Ravel olhava para o pequeno dragão que dormia em cima da mesa, deitado em frente à Helena. – Nem todos os dragões são ruins. Alguns deles se tornam ameaças quando são incomodados, mas se bem tratados, podem até lutar ao nosso lado, como foi o nosso caso e o da senhorita. Pelo o que vocês me contaram, Helena salvou o dragão de um golpe e ele se sente grato por isso, pois pensa que Helena salvou sua vida porque não sabe que aquela pedra não iria matá-lo, apenas feri-lo. Eu já havia visto casos de todos os tipos de dragões criando elos com mortais, mas essa é apenas a segunda vez que vejo um dragão rei se aliando a uma mortal.

– Por que é tão difícil um dragão rei se juntar a um mortal? – Helena perguntou, olhando para o machucado que a pedra havia feito em sua mão.

– Porque um dragão só cria um elo com um mortal quando ele salva sua vida e dificilmente um dragão rei precisa da ajuda de um mortal para sobreviver. No caso do seu dragão ele não sabia que não morreria com a pedra, foi um golpe de sorte.

– E o seu caso com Zhoa? – Perguntei a ele, pois já que um dragão rei não precisava de um humano para defendê-lo, Ravel devia ter uma boa história pra contar.

– Esta é uma história interessante. – Ravel pigarreou, tomou um gole de água e então começou a contar. – Quinze anos atrás, um ano depois da invasão dos dragões, aqui nesta mesma cidade estava acontecendo um ataque. Eu era um dos membros da cavalaria do rei e corria de um lado para o outro derrubando o máximo de dragões que conseguia e espalhando seu pó para que demorassem a se erguer. Enquanto corria de um lado para o outro, vi três crianças em frente a uma casa sendo cercadas por um dragão rei, mas em frente a elas havia outro dragão rei. Ele tinha pele escura como a noite e, mesmo eu achando que estava louco, podia jurar que o dragão lutava com o outro para salvar a vida dos três indefesos. Seu peito sangrava e seu rosto era mordido, mas mesmo assim ele se mantinha em pé lutando, foi quando o outro dragão se preparou para dar o golpe final. Ele estufou o peito para lançar suas chamas, mas eu intervi chamando sua atenção e assim salvando o outro dragão. Comecei a correr do dragão em meio à cidade, mas fui encurralado nos altos muros de Midgard. O dragão rei de novo preparava suas chamas, e, daquela vez, era pra ser o meu fim, mas então algo pousou na minha frente e eu só pude ver uma labareda de chamas engolir o dragão que me atacava. Foi assim que eu conheci Zhoa, o demônio das chamas negras. – Ravel terminou a história com um sorriso estampado no rosto.

– Eu já sei o nome que vou dar para o dragão. – Helena colocou a mão sobre o pequeno dragão e o chacoalhou lentamente. – Ei, pequeno, acorde. – O pequeno dragão acordou e esfregou sua cabeça na mão de Helena, como um filho que pede caricia a sua mãe. – Eu me sinto uma louca por estar prestes a falar com um dragão, mas o que você acha do nome Nero? – O dragãozinho parecia feliz com o nome, pois começou a correr pela mesa e eu pude ouvir algo similar a uma risada de uma criança, mas em uma versão grossa e amedrontadora, pois vinha da voz de um dragão.

– Pelo o que eu pude entender o que ele disse, ele adorou o nome. – Sorri para Helena, que respondeu com um sorriso de volta, acariciando o dragão. Pouco tempo atrás se alguém me dissesse que Helena teria um elo com um dragão e sorriria ao acariciar um, eu zombaria da pessoa e diria que ela devia ser presa por insanidade. – Mas por que Nero?

– Qual nome melhor para um ser que lança chamas do que o nome de um homem que colocou fogo em uma cidade inteira? – Helena sorria. – Lembra-se da história de Bane? Nero, o grande homem que incendiou Roma.

– Você poderia chama-lo de Lúcifer, caso quisesse... – Sabra tinha uma expressão triste e desconfortável ao dizer aquilo, então sorri para ela e sussurrei em seu ouvido:

– Esqueça isso por um tempo.

– Espere, você pode falar com dragões? – Pietro, um dos homens de Ravel perguntou. Agora em um lugar mais iluminado eu podia ver todos os homens de Ravel. Todos eles carregavam em seu pescoço um pingente dourado no formato de um dragão.

– Bem, eu posso. – Não pretendia contar nada para eles sobre os Cavaleiros da Ressurreição, então precisava desviar o assunto. – Mas são poucas coisas, aprendi... – Lembrei-me do livro de Sabra. – Lendo.

– Helena, agora eu devo te advertir sobre algumas coisas. – Ravel se sentou em frente à Helena e lançou um olhar sério para ela. – Um dragão rei cresce mais rápido do que qualquer outro tipo de dragão. Em cerca de sete sóis ele já atingira a fase adulta, então recomendo que você o deixe em um lugar aberto durante a noite, porque eles costumam crescer mais enquanto a Lua está no céu.

Helena concordou com a cabeça, mas antes que pudéssemos agradecer ouvimos um rugido vindo do lado de fora da estalagem. Um não, vários.

– Os dragões avistaram alguma coisa, vamos rapazes. Vocês três, fiquem aqui dentro. – Ravel disse enquanto corria junto a todos os outros seis.

Claro que não obedeci à ordem fui para fora junto com eles.Vi todos colocando seus capacetes, que tinham chifres e lembravam a cabeça de um dragão.

No céu era possível se ver um dragão da montanha. Não era nada preocupante, pois um dragão da montanha não tinha um poder de fogo muito grande em seu hálito, mas sua pele era grossa e resistente como as pedras de uma montanha Porém, nada é invulnerável como um dragão imperial.

Os Ases dos Ares montaram em seus dragões, eu saquei Ascalon, mas eu não tive tempo de fazer nada. Antes que eu pudesse gritar “Alae” e levantar voo o dragão da montanha já estava cercado. Toda uma multidão a minha volta gritava “Ases dos ares” repetidamente e uma onda de aplausos ocupou meus ouvidos.

Então Ravel gritou algo e todos os sete lançaram suas chamas sobre o dragão. Aparentemente por ter uma camada grossa de rochas seu corpo o dragão não sofreu dano nenhum, mas então Pietro e Philip correram pelo corpo de seus dragões e saltaram sobre o dragão da montanha fincando suas espadas em seu corpo que aparentemente depois de receber uma rajada de chamas se amoleceu. Em alguns segundos o dragão caia do céu quase abatido.

A multidão saiu das ruas e eu percebi que podia mostrar que também sabia fazer alguma coisa. Corri em direção ao dragão caído que cambaleava de um lado para o outro, me concentrei e lembrei-me da luta com Ládon.

O dragão já estava fraco e eu não tinha porque ter medo. Era só respirar fundo e deixar a coragem fluir pelo meu corpo. O dragão se virou para mim, fechei meus olhos por alguns centésimos de segundo e quando os abri meu corpo rompia em chamas.

Aquilo iria atrair muitos olhares, mas os Ases dos Ares apenas iriam deter o dragão por algum tempo, e com Ascalon eu podia detê-lo definitivamente.

Foi quando toda a coragem se esvaiu de meu corpo.

– Finalmente encontramos você, Cavaleiro da Ressurreição. – O dragão da montanha disse.

Ao ouvir aquelas palavras às chamas que estavam envoltas em meu corpo sumiram. Como ele podia saber que eu era o cavaleiro? O dragão imperial de Sabra não havia se pronunciado sobre aquilo, apenas sabia sobre os Gládios. Ládon também não havia dito nada. Então por que aquele dragão sabia?

Por ter me distraído o dragão teve tempo de lançar sua calda sobre mim, mas por sorte Helena estava ao meu lado e pulou sobre mim, nos empurrando em direção ao chão.

– Ei garoto valentão, mostre ser digno dos feitos que me contou. Não fique parado moscando – Ela disse, enquanto me ajuda a levantar.

Os Ases dos Ares já haviam pousado, mas todos estavam estatelados, aparentemente por meu corpo ter rompido em chamas.

Respirei fundo novamente, meu coração pulsava coragem novamente. Eu resolveria depois o problema de ser descoberto. Naquele momento a única coisa que eu precisava me concentrar era em vencer o dragão.

– Helena, faça com que Nero e os outros dragões voem para longe daqui. – Incrivelmente sem questionar minha ordem, Helena gritou para que Nero voasse para longe e disse a ele que levasse os outros dragões juntos a ele. Aparentemente Nero era o rei entre os dragões dali. – Não me importa como você sabe o que eu sou, esse é o seu fim, dragão inútil.

– Não me importaria de morrer aqui. Agora Krios já sabe quem você é Nós, dragões, não precisamos estar frente a frente para nos comunicarmos, mas sinto em lhe informar que eu levarei o oitavo Cavaleiro para casa como um prêmio.

– É o que veremos. – Olhei para trás e vi que todos os dragões estavam longe o suficiente para não ouvir minha voz. – ASCALON!

Meu corpo rompeu em uma quantidade de chamas maior que o normal e eu podia sentir o medo vindo do dragão a minha frente e de todas as pessoas a minha volta. Apenas Helena e Sabra não aparentavam ter medo algum de mim.

O dragão fraquejou ao me ouvir gritar o nome da espada, então corri em sua direção, ele tentou me abocanhar, mas já estava lento demais pelos golpes que havia recebido, então com a lâmina da espada virada para cima finquei Ascalon de baixo para cima na mandíbula do dragão, fazendo com que ele se tornasse pedra e então desaparecesse.

Todos a minha volta ficaram em silêncio por um tempo, ao olhar para Helena pude ver uma expressão surpresa em seu rosto, então ela começou a bater palmas e toda a multidão começou junto.

Sabra e Helena vieram me abraçar junto com o cumprimento dos Ases dos Ares, que já estavam juntos com seus dragões novamente. Então eu pude ver homens sobre cavalos galoparem em minha direção, todos que estavam em seu caminho saíram.

– Se prepare Cadmo, está prestes a conhecer o rei. – Heitor me disse.

– Ora ora, posso ver que meus nobres cavaleiros fizeram um excelente trabalho como sempre. – Quando o rei desceu do cavalo todos a sua volta se ajoelharam em gesto de reverência.

O rei era um homem alto, de ombros largos, cabelos vermelhos como sangue e olhos verdes. Logo atrás vinha uma garota de cabelos ao mesmo tom de seu pai. Seu rosto e seus lábios eram finos e delicados, olhos verdes também. Ela trazia uma expressão serena em seu rosto e um colar preto com o símbolo de um pássaro em seu pescoço, que pude ver quando ela se aproximou.

– E vejo que aqui temos nosso novo herói. Levante-se e diga seu nome, meu bom jovem – Disse o rei.

– Eu sou... Eu sou... – O nervosismo tomava conta de mim, as palavras não saíam da minha boca, então a garota a garota que vinha junto ao rei riu baixo enquanto em me embolava todo e eu acabei rindo junto e me acalmando. – Eu sou Cadmo Agápio, meu bom rei.

– Eu sou Odin Gallard, rei de Midgard, conjugue de Frigga Gallard, filho de Borr Gallard e pai de Kaila Gallard. – A menina deu um passo a frente e fez um gesto de cumprimento. – Vejo o bom trabalho que você realizou aqui Deixe-me parabenizá-lo convidando-o para o meu castelo. – O rei abriu os braços juntamente a um enorme sorriso em direção ao enorme castelo.

Após passarmos na estalagem buscar nossas coisas fomos levados ao castelo do rei, que pagou todas as despesas da estalagem. O castelo era tão colossal por dentro como era por fora, e era possível ver vários quadros retratando lutas entre homens e dragões, e em grandes partes deles apareciam os Ases dos Ares.

Eu, Helena e Sabra fomos colocados em quartos separados, meu quarto era algo enorme, maior do que a tenda a qual eu compartilhei por toda minha vida com outras pessoas. Ajeitei-me, tomei banho, troquei de roupa e fui me deitar.

Passei muito tempo para conseguir dormir, fiquei pensando no que aquele dragão havia dito. “Agora Krios já sabe quem você é”. Quando finalmente peguei no sono, voltei ao mesmo lugar o qual o mundo dos sonhos me levava.

O lugar estava coberto de neve e ventava muito, eu estava com Ascalon em minhas mãos e a garota de sempre estava perto de mim.

– Você precisa fugir! – Ela disse.

– Eu não vou fazer nada se você não me disser quem é você e o que quer! – Gritei começando a correr atrás dela, mas ela era muito mais rápida que eu.

– Você não entende! Agora que eles sabem, você não pode ficar aí. Você vai ser pego! – Ela continuava a correr.

– Por que só aquele dragão foi descobrir quem eu sou? – Aquela duvida corria minha cabeça ainda e eu sabia que só ela naquele momento poderia respondê-la.

– Os dois outros dragões não se importam com a tirania que os Cavaleiros do Apocalipse querem instaurar. Para eles, apenas viver suas vidas já bastava. Mas este último dragão é um servo de Krios. – Pela primeira vez ela havia respondido uma pergunta minha, mas mesmo depois de correr muito eu não havia conseguido alcançá-la.

Já que correr não adiantava, eu teria que alcançá-la de outra maneira.

– Alae! – Voei mais rapidamente com a ajuda do vento e finalmente alcancei a garota. – Agora me diga quem é você. – Tirei o capuz que cobria sua cabeça e então pude ver seu rosto. A garota tinha cabelos negros ondulados, o rosto muito similar ao meu, mas em uma versão mais feminina, doce, de olhos azuis claros e gélidos. – Quem é você?

– Vejo que o meu herói aprendeu como utilizar seus poderes novos, mas ainda não é forte o bastante para enfrentar Krios. Agora fuja, fuja e se fortaleça. – Ela sorriu,deslizou a mão sobre meu rosto, beijou minha testa e bateu palmas e então eu acordei em meio a madrugada em minha cama.

– Meu herói? – Por mais incrível que parecesse, eu achava que havia encontrado Eleanor Agápio, minha mãe.