Gênio Infame, Dama Mordaz
19 Você é você!
No qual nosso herói e nossa heroína desperdiçam papel. E não poupam palavras também.
Difícil acreditar que essa saia justa está mesmo acontecendo. Eu pensei que depois de ontem, nunca mais teria que colocar os olhos em Howard Stark. Estava disposta a lutar contra o sentimento que o gênio infame despertou em mim e esquecê-lo a todo custo. Achei que com a distância seria menos complicado até. O que os olhos não veem, o coração não sente, certo?
Então, justo quando eu pretendia começar um dia novo, pronta para sair e bater perna à procura do próximo emprego, ele apareceu feito uma assombração. Bem na minha porta, bem na minha frente e praticamente invadiu o meu quarto.
Desconfio que estava fugindo de alguém no corredor, mas quem seria? Talvez da Sra. Fry, já que ela não permite visitantes do sexo masculino depois da recepção.
Ainda estou tentando decidir como me sinto sobre a surpreendente aparição diante de mim, quando Howard me confronta com uma expressão nenhum pouco satisfeita e muito irritante.
— O que diabos significa isso, Maria?
Olho para o envelope que ele atirou na penteadeira ao meu lado e reconheço o envelope amarelado um segundo depois.
Confusa com a tempestade em copo d’água que ele parece disposto a fazer, endireito a postura, ergo o queixo com a petulância que sei que o irrita bastante e respondo o óbvio:
— Isso, senhor, é a minha carta de demissão.
— Isso, senhorita, eu já percebi. — Ele tem o atrevimento de imitar meu tom de voz. Uma péssima imitação, aliás! — Embora eu não tenha lido uma palavra do que você escreveu nela, Jarvis me contou a novidade assim que acordei. Caso não tenha deduzido ainda, eu fiquei bem... perplexo. Tanto que precisei vir até aqui para te perguntar uma coisa que não sai da minha cabeça desde então. Por quê?
Pisco, um pouco desnorteada. Não esperava que Howard fosse ficar assim tão possesso.
— Não importa por que, eu já tomei a minha decisão e...
— Por quê? — ele me interrompe, exalando insistência, o olhar cravado em mim com uma ferocidade que me perturba. — Por que você não quer mais trabalhar para mim, Maria?
Engulo em seco e decido dar uma resposta lacônica e nem por isso menos verdadeira:
— Porque eu não posso.
Para meu desespero, Howard não se contenta com ela e se mostra muito obstinado quando dá um passo à frente repetindo:
— Por quê?
Olho o quarto em volta sem focar em nada específico, sentindo-me encurralada e um tanto nervosa demais com a proximidade dele.
— Porque... Ora, porque você...
Howard expira com força e abre os braços. Tão perto.
— Porque eu...?
— Porque você é você! — disparo.
Meu ex-patrão me encara com ar surpreso. Depois, arqueia as malditas sobrancelhas e articula com um incômodo tom de deboche:
— Muito eloquente, Maria. Só que como esse é um fato imutável, não faz sentido como justificativa. Por isso, eu me recuso a aceitar o seu pedido de demissão.
Ele o quê?!
— Não cabe a você decidir nada.
Howard dá mais um passo na minha direção. Meu coração acelera numa resposta patética, assim como disparou ao vê-lo na soleira da porta há poucos minutos. Maldição...
De repente, entendo por que Howard chegou tão perto. Foi só para pegar o envelope de volta. Ele o ergue na altura do peito e rasga em vários pedacinhos que se espalham no chão, enquanto mantém um olhar desafiador cravado no meu petrificado.
— O que estava dizendo?
Fuzilo o infeliz com o olhar e, já que é guerra que ele quer, anuncio com toda a calma dissimulada que consigo reunir:
— Eu estava dizendo que farei outra carta.
E sem esperar nenhum segundo a mais, puxo a cadeira em frente à penteadeira e despenco nela.
— Quanta consideração! — ele rebate num tom irônico, enquanto eu pego um bloco de notas e uma caneta dentro da gaveta. — Você pretende entregar essa pessoalmente? Como disse ao Jarvis que faria com aquela ontem?
Trinco os dentes.
— Por Deus, eu esqueci de entregar! E não podia voltar só para te dar a maldita carta em mãos!
Começo datando a carta e depois pulo para o primeiro parágrafo oficial.
— Por que não? — Howard pergunta, enquanto eu luto para ignorar o calor que irradia do seu corpo tão próximo da cadeira.
— Não é óbvio?
Respiro fundo, colocando mais força na pobre caneta, escrevendo num ritmo frenético para terminá-la logo.
— Se fosse óbvio, eu não estaria perguntando.
Ah, mas era só o que me faltava! Howard anseia por uma confissão com todas as letras! Em outros tempos, eu me esquivaria, mas estou no meu limite e acabo falando sem nem pensar direito:
— Se eu voltasse, não tinha certeza se teria forças para ir embora de novo! Satisfeito?
Só quando termino o desabafo impróprio e cheio de margem para concluir a fraqueza implícita, percebo o que exatamente confessei a ele. Justo a ele.
O silêncio sepulcral que paira no ar à nossa volta, não deixa dúvidas de que Howard entendeu muito bem o que isso significa. Eu quis ficar com ele na noite passada, quis muito, de verdade. Quis tanto que fiquei apavorada com a ideia de não conseguir resistir e ceder ao desejo feroz que aqueles beijos plantaram em mim.
Meu rosto se aquece e, como se minha situação já não fosse complicada e humilhante o suficiente, sinto uma pressão na cadeira quando Howard apoia uma mão nela e se curva na direção do meu ouvido.
— Muito satisfeito, raio de sol — sussurra com a voz rouca, arrepiando minha pele com o hálito suave.
Movida por um instinto irresistível, fecho os olhos e inclino o pescoço, dando-lhe maior acesso, esperando por mais palavras doces, por mais dessa sensação maravilhosa que faz meu corpo inteiro pinicar, por mais dele.
— Uma resposta honesta e bem interessante, eu diria. — Os lábios macios quase encostam na minha orelha. A caneta cai da minha mão, pois não tenho capacidade para segurá-la no momento. — Aquece o meu coração ouvi-la falando assim, sabia? E outras partes também...
— Argh!
Abro os olhos e dou uma boa cotovelada nas costelas de Howard. O libertino que só está tentando me seduzir, claro! Para variar! Não sei como pude esquecer isso por um momento e fraquejar desse jeito patético!
Pego de surpresa, Howard se afasta encolhido e com uma careta de dor. Com espírito renovado e orgulhosa por ter resistido à investida, volto a escrever a carta enquanto ele recomeça com a ladainha:
— Eu aceito a sua explicação, mas mesmo assim fico muito chateado! Você ia deixar o emprego sem nem ao menos se despedir de mim?!
— Mas eu me despedi, oras! Eu fui até o laboratório para isso. E falei “Adeus, Howard", caso não se lembre.
— Depois de me beijar! Três vezes! E dar a entender que nos veríamos hoje!
Abro a boca a fim de lhe dar uma resposta à altura, porém torno a fechá-la ao me perceber que ele tem certa razão, acho que não fui tão clara quanto pensei.
É com humildade, e também com firmeza, que digo:
— Lamento que tenha entendido tudo errado. Aquilo foi a minha despedida.
— Minha nossa, Maria... — A voz dele fica rouca de novo. — Se aquilo foi uma despedida, imagine se você tivesse ficado.
Esforço-me para manter o foco na escrita, embora seja muito difícil com o calor que surge na minha nuca. Não tenho coragem de me virar para Howard, mas uma parte de mim sabe que isso foi uma resposta do meu corpo ao olhar dele.
Endireito a postura e decido responder com uma alfinetada:
— Bom, se eu tivesse ficado, certamente você não teria vindo atrás de mim. Nem hoje nem nunca. Não haveria motivos para tal coisa, haveria?
Silêncio.
— O que quer dizer?
O tom da réplica soa tão intrigado que Howard quase me convence de que não sabe do que eu estou falando. Quase.
Dou um ponto final no texto e me levanto, estendendo o papel para ele sem dar qualquer passo desnecessário em sua direção.
— Aqui está. Uma carta novinha em folha. Espero que não tenha nenhuma dificuldade de leitura agora.
Com um olhar semicerrado, ele praticamente arranca o papel das minhas mãos. E exalando uma postura altiva para me provocar, põe-se a ler:
— Prezado Sr. Stark. Eu, Maria Collins Carbonell, mais conhecida como a Dama Mordaz Desalmada...
— Não é isso que está escrito aí.
Cruzo os braços, lançando-lhe um olhar fulminante.
— Comunico o fim da prestação de meus serviços de arrumadeira por iniciativa própria e blá blá blá...
Howard interrompe a leitura e rasga a carta.
Ele. Rasga. A. Carta.
De novo! Os pedacinhos se espalhando entre nós. De novo!
— O que quer dizer? — ele insiste na pergunta de antes, deixando-me surpresa.
Muito bem. Talvez Howard Stark não seja tão inteligente quando espalha aos sete ventos ser. Ou só está bancando o sonso para me afrontar mesmo. Seja como for, se ele quer os pingos nos is, eu posso fazer isso.
— O que mantém o seu interesse por mim tão vívido é o meu não. Depois que conseguisse o que queria ontem, você ia me descartar, Howard. Talvez até mesmo me despedisse hoje para evitar o constrangimento de me ver pela mansão.
O gênio infame pisca algumas vezes, parecendo... Surpreso? Ofendido? Impossível!
— É isso que você acha que eu faria? — pergunta, num tom mais baixo.
— Claro! Você faz isso com todas as mulheres. Usa, se diverte e depois joga fora. Estou errada?
Ele abre a boca, acho que pronto para negar, mas desiste na sequência e pensa um pouco. Quando volta a abri-la, o que sai dos seus lábios é uma afirmação no mínimo curiosa:
— Eu não faria isso com você.
Uma afirmação mentirosa que me leva a rir com descrença ao mesmo tempo em que um aperto incômodo surge no meu peito. Dói perceber que eu sou exatamente isso para ele, apenas uma conquista. Dói tanto que não consigo olhar nos olhos dele agora, então volto à penteadeira e começo mais uma carta.
Para minha surpresa, Howard repete o absurdo entredentes:
— Eu não faria isso com você.
Decido entrar no jogo e disparo:
— Muito bem. E por que comigo ia ser diferente?
— Porque você...
Ele claramente não encontra argumentos para sustentar a mentira deslavada. Então, limito-me a provocá-lo, imitando o tom insolente que ele usou antes:
— Porque eu...?
Howard se aproxima com rapidez e afana o bloco de notas para si. Levanto de imediato e me vejo obrigada a encará-lo de novo. Um sorriso sardônico estica seus lábios e então, tudo que ele diz, com muita desfaçatez, é:
— Porque você é você.
Solto um riso sem o menor humor, inclinando a cabeça com incredulidade, e coloco as mãos na cintura.
— Sério? Usando minhas palavras contra mim?
Tento recuperar o bloco de papel, mas Howard é mais rápido e afasta a mão no último segundo.
— Usando ao seu favor, sua tonta.
Meu sangue ferve enquanto repito indignada:
— Tonta?! Ora seu... — Parto para cima dele, disposta a arrancar o papel de suas mãos custe o que custar. — Cafajeste metido a besta! Devolve isso aqui!
Para minha total humilhação, Howard desvia a mão com maestria mais uma vez, escondendo o bloco atrás de si. Não desisto e sigo no intento de recuperar porque agora é uma questão de honra! E é assim que, de repente, estamos colados um no outro, engalfinhados, numa disputa infantil.
— Tonta e surda, pelo visto. Você não ouviu nada do que eu disse na biblioteca ontem? Não ouviu quando eu disse que te quero?!
Desequilibro-me um pouco quando piso no pé dele sem querer, justo quando estava quase, quase conseguindo arrancar o bloco de papel de sua mão. Então, a outra mão dele segura a minha cintura com força, os dedos espalhando uma onda de calor através do tecido. Em seguida, Howard me envolve com o braço inteiro, circundando meu corpo de um jeito que... me deixa tonta mesmo.
Por algum milagre divino, consigo reencontrar minha própria voz e retrucar:
— Claro que ouvi! E o que tem de novidade nisso? Você me quer como deseja qualquer mulher! Como quer todas elas!
— Você não entendeu nada...
Desisto de resgatar meu bloquinho de notas por ora e lanço a Howard um olhar indignado.
— Está me chamando de burra?
Howard arqueia as sobrancelhas. Os olhos castanhos muito próximos de mim.
— Suas palavras, não minhas.
— Libertino! Patife!
Ele sorri. Ele sorri, pelo amor de Deus!
— Covarde — diz em retribuição, deixando-me em choque, boquiaberta, mais furiosa. — Você queria ter ficado ontem, queria tanto, mas preferiu fugir feito a coelhinha assustada que é.
Meu sangue ferve de novo. Trinco os dentes.
— Não me chame de coelhinha assustada! Você sabe que eu odeio!
O sangue borbulha. Entra em combustão. Só não sei se devido à raiva ou à proximidade indecente entre nós dois. Só sei que está ficando difícil respirar.
— Além de tudo é cega, claro! Agora tudo faz sentido...
Nada faz sentido. E odeio me sentir perdida assim.
— Maldita hora que coloquei os pés na sua casa — digo, com desgosto.
Ele sorri de um jeito enviesado.
— Bendita hora que coloquei os olhos nos seus tornozelos.
— Argh! — Bato no ombro dele, mas o infeliz não se move um centímetro nem sequer demonstra dor. — Você é um homem terrível, Howard Stark! Terrível!
Ele estreita o olhar, um olhar que só intensifica o calor que me consome por dentro. Maldito desejo inconveniente!
— E você é uma mulher terrível, Maria Carbonell — ele paga na mesma moeda, entretanto o tom é um pouco mais brando, o olhar cravado no meu de um jeito... caloroso? — Terrível mesmo. E ainda assim, e-eu... — Howard dá de ombros. — Eu estou apaixonado por você.
O mundo para de girar e o tempo fica em suspenso. Pisco algumas vezes sem saber se entendi direito. Minha respiração fica presa em algum lugar entre os pulmões e o nariz.
— O que... d-disse?
Howard sorri, o cantinho do lábio se esticando de um jeito torto e encantador, um sorriso que dessa vez não me irrita.
— Eu estou apaixonado por você, sua tonta. Não consegui evitar. Juro pelo meu cérebro, meu flamingo e meu carro voador que é a mais pura verdade, não um desejo passageiro.
A maneira confiante como diz essas coisas e o brilho que vejo dardejando nos seus olhos me deixam sem reação. Mesmo assim, sinto muito bem quando meu coração erra uma batida em resposta e depois acelera de um jeito insano.
De repente, como se não tivesse acabado de declarar o que declarou, Howard fica pensativo.
— Isso nunca me aconteceu antes, então... É, acho que você merece um crédito.
Confusa, reajo dessa vez:
— Um crédito?
— Dois créditos, na verdade! — apressa-se em corrigir, o sorriso retornando e mexendo com cada parte de mim de novo. — Por ter conseguido a proeza de me deixar de joelhos e por ter duvidado disso até o fim. Claro, um homem como eu apaixonado? Faz algum sentido você ter distorcido tudo ontem. Mas deu para entender agora? Que o conquistador foi conquistado?
Engulo em seco. Uma estranha emoção me dominando.
— Ele foi? — murmuro feito uma idiota.
— Ah, foi... Eu tentei seduzir você, e no fim acabei seduzido. É como chamamos na Stark Pictures, um plot twist.
Tenho certeza que esse é um termo bem popularizado e comum ao cinema, aos livros, às radionovelas, e que Howard sabe muito bem disso. Não digo nada para contrariá-lo, no entanto. Surpreendentemente, não quero mais irritá-lo com pequenas coisas. Não agora, pelo menos.
Ao invés disso, meu olhar recai em sua boca. O sinal universal para um beijo. Só que Howard não percebe e continua tagarelando:
— Ah! E você está apaixonada por mim! Ficou bem óbvio ontem, lamento informá-la. Sem dúvida não quer estar, sem dúvida daria um braço para não estar, mas está mesmo assim. Como é teimosa feito uma mula, aposto que vai continuar negando e negando e negando de pé junto até que..
Não aguento mais. Puxo Howard pelo colarinho ao mesmo tempo em que fico na ponta dos pés, fecho os olhos e faço a matraca se fechar pressionando meus lábios com ardor nos dele. Por um longo e delicioso momento. É simplesmente... magnífico. Como se tudo dentro de mim ganhasse mais vida e cor.
Estou feliz. Com o último homem na face da Terra que imaginei ser possível ser feliz.
Afasto o rosto só um pouquinho, para espiar a reação dele. Um riso baixo me escapa diante do semblante embasbacado.
— Ou você pode fazer isso! O que foi bem melhor, raio de sol...
A expressão de Howard ganha um sorriso malicioso. Ele larga o bloco de notas de qualquer jeito no chão e, com a mão livre agora, percorre minhas costas, colando-me mais ao seu corpo, fazendo cada parte de mim sentir o calor de cada parte dele.
— Eu não vou negar o óbvio — esclareço, meio sem fôlego. — Sim, eu... Eu estou apaixonada por você, Howard. — Meu coração dispara ainda mais. — E se o que você sente por mim é mesmo de verdade, então eu não quero mudar como me sinto. — Sorrio, é inevitável. — Eu também quero você, seu patife irritante.
Howard me encara com um olhar profundo. Um olhar cheio de um fogo intenso que, de alguma forma contraditória, arrepia minha pele inteira.
— É verdade, prometo. Te dou minha palavra.
Não é a primeira vez que ele faz isso. Me dá sua palavra. Porém, dessa vez, é muito mais fácil acreditar nele. Porque sua voz não soou apenas rouca e perigosamente sensual, soou sincera. A voz de um homem em quem decido confiar.
— Ótimo.
Segura, e de repente me sentindo mais ousada, volto a reduzir a distância entre nós e planto um beijo quente na boca de Howard, abrindo espaço com a língua, envolvendo seus lábios com um atrevimento doce e constante que parece enlouquecê-lo.
Sinto isso porque Howard corresponde com o mesmo vigor, a mesma paixão urgente, a mesma respiração entrecortada contra a minha pele em chamas. Sinto isso pela maneira firme como ele enterra uma mão no meu cabelo e aperta minhas costas com a outra, mantendo-me tão cativa em seus braços, tão misturada ao seu corpo, que acabo sentindo outra coisa também. O desejo dele por mim. Crescente e implacável.
— Maria... — murmura, beijando meu queixo, o pescoço, o vão da clavícula, parecendo à beira de um colapso.
Eu já desconfiava que era uma pergunta, mas quando Howard busca meu rosto com as mãos e me encara com olhos ardentes, sei que ele está esperando a resposta. Ansiosamente. Dolorosamente.
E eu, que acreditei que nunca mais me entregaria a outro homem, que achava impossível confiar meu coração de novo e me apaixonar, que desconhecia um desejo tão grande como esse, vejo-me balançando a cabeça e dizendo...
— Sim.
E era só o que Howard precisava ouvir pois, um segundo depois, o semblante muda de maneira drástica, vertendo-se em puro alívio. Então, ele me pega no colo com uma rapidez ágil e praticamente corre até a cama enquanto comemora:
— Ah, graças a Deus!
Um riso fácil escapa da minha garganta quando meu corpo afunda no colchão. Apoio-me nos cotovelos e, ainda rindo, alfineto:
— Eu jurava que você fosse ateu.
— Hoje não! Hoje eu acredito até em unicórnios e duendes!
Dou risada de novo, e o som deve mexer de algum jeito peculiar com Howard porque o olhar penetrante que domina seu rosto parece me deixar nua no mesmo instante.
Em pé diante de mim, ele tira... Não, ele arranca os sapatos e as meias de qualquer jeito. E quando faço menção de me sentar para tirar os meus também, Howard se antecipa e fica de joelhos ao mesmo tempo em que diz com certa afobação:
— Não! Eu faço isso, raio de sol! Por favor...
Estranho o pedido por um momento. Porém, em seguida lembro do fascínio que Howard nutre pelos meus tornozelos. Não é exagero dizer que foi a parte do meu corpo que despertou sua paixão em primeiro lugar. E também não nego que a sensação dos seus dedos, agora acariciando a pele delicada da região, me leva a arfar tamanho o calor que provoca.
Intensificando a tortura, depois que me liberta dos sapatos, Howard beija demoradamente cada um dos tornozelos. Com os lábios, com a língua, com os dentes e os lábios de novo. O calor se alastra por toda a parte e se concentra no meu baixo ventre. Estou em chamas.
Engulo em seco e seguro o lençol com força porque simplesmente preciso me agarrar a alguma coisa. Não... É dele que preciso, percebo.
— Howard?
Há um tom de súplica em como o nome dele sai da minha garganta. E como se tivesse entendido exatamente assim, como se soubesse exatamente o que desejo e necessito, Howard se afasta dos meus tornozelos e vem para cima de mim com um brilho selvagem no olhar e um sorrisinho torto muito satisfeito.
Ele se aproxima com os movimentos felinos de um predador elegante, o corpo pesando sobre o meu pouco a pouco, o olhar exalando sedução e promessas de paixão. Até que ele toma a minha boca para si. Com força, fome e, ainda assim, com uma ternura que me atinge em cheio...
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