Gênio Infame, Dama Mordaz
42 Plano Dissimulado
No qual o nosso herói percebe a complexidade de um plano supostamente simples.
Uma coisa é certa: Maria está mesmo com fome.
Embora esteja comendo a lasagna de modo civilizado, é perceptível que ela trava uma luta interna para não cair de boca no prato a qualquer momento e tenta mastigar mais devagar a cada garfada.
Ainda não acredito que essa mulher sem juízo estava em jejum quando nos encontramos mais cedo em frente ao Griffith. Se eu soubesse que Maria não havia tomado o café da manhã, teria feito algo a respeito naquela hora.
Mesmo que ela alegasse o quanto estava atrasada para o trabalho, eu tentaria convencê-la a acabar com o jejum em alguma padaria pelo caminho. Caso ela recusasse a oferta veementemente — coisa que, de certo, faria —, eu levaria algo para ela comer depois que lhe deixasse no consultório então.
Conformo-me com o fato de que, pelo menos agora, o problema está sendo resolvido e volto a atenção para o meu próprio prato.
Enquanto levo o próximo pedaço da deliciosa lasagna à boca, relembro a imagem que vi há pouco no consultório do Dr. Strange.
Não devia me surpreender que o raio de sol interaja com os pacientes do pediatra de vez em quando, talvez até com bastante frequência. Ainda assim, vê-la com aquele bebê... Anthony nos braços foi uma das experiências mais curiosas que já presenciei. Sem dúvida, eu não estava preparado para essa bela imagem que vislumbrei ao entrar em silêncio no consultório. Tampouco, preparado para a forte onda que me inundou por dentro. Foi como um choque. Um choque... sublime!
Acho que nunca poderei admitir isso em voz alta sem me sentir patético, porém, a verdade é que, naquele instante, uma parte de mim imaginou que aquele pequeno ser humano fosse nosso. Mais do que isso, cada parte de mim se alegrou com a possibilidade de Maria e eu encomendarmos o nosso próprio Anthony no futuro.
Cenário esse que me traz de volta ao momento presente, é claro. Precisamente, ao plano de reconquistar Maria sem que ela perceba que estou fazendo isso. Afinal de contas, devo dar um passo de cada vez para não assustá-la. Já foi um parto convencê-la desse simples almoço.
— Um parto...
Acabo rindo do pensamento.
— O que disse?
Pelo visto, pensei alto demais.
O raio de sol me encara de cenho franzido, esperando uma explicação para a expressão que me escapou sem querer.
Rapidamente, indico nossas refeições e contorno o deslize:
— Um prato delicioso, não acha?
Maria me analisa por mais um instante. Aposto que não entende por que eu riria de algo saboroso. No fim, deve deduzir que sou maluco e se limita a concordar:
— Sim.
Lembro de algo que o raio de sol me disse ao finalmente aceitar o convite para esse almoço e não posso deixar passar em branco...
— Ainda acha que essa situação é um sacrifício, coração?
Enquanto corta o próximo pedaço, Maria responde:
— Pela lasagna, não. Está mesmo uma delícia. Já pela companhia... não posso afirmar o mesmo.
Tenho vontade de rebater com um sonoro mentirosa, porém me contenho. Porque preciso me conter e não flertar com Maria nesse momento.
Devo lembrar a mim mesmo de seguir o plano à risca. Parecer indiferente, conformado com o término, merecer sua confiança de novo, envolvê-la aos poucos até que Maria compreenda algo que eu já aceitei há muito tempo: não podemos ficar separados.
Um garçom se aproxima com o nosso vinho. Ou melhor, com o meu vinho, porque ela não se animou quando eu fiz o pedido da garrafa.
— Tem certeza que não aceita uma taça? — pergunto à Maria mesmo assim, enquanto o rapaz me serve. — Nada acompanha uma massa tão bem quanto um vinho encorpado como esse.
A dama mordaz bebe um gole do suco que o garçom lhe trouxe um pouco antes e dispensa a oferta:
— Caso não se lembre, eu ainda preciso trabalhar hoje, Howard, e nada acompanha tão bem uma jornada de trabalho do que a sobriedade absoluta.
Tal resposta soa como um lembrete de que não posso perder mais tempo. Melhor ir direto ao ponto de uma vez. Respiro fundo e disparo a mentira mais deslavada que já pronunciei:
— Eu não estou tentando te reconquistar.
E o que acontece a seguir me faz perceber que talvez eu tenha ido direto e rápido demais ao ponto. Pega desprevenida, Maria meio que engasga com o suco, meio que cospe a bebida pela mesa.
Visivelmente envergonhada, confusa e tossindo um pouco em busca de fôlego, ela aceita o guardanapo que lhe estendo na sequência, embora meu desejo íntimo nesse momento fosse eu mesmo secar seus lábios com ele. Demorada e carinhosamente.
Abafo tal desejo, pigarreio para que a voz soe o mais natural possível e retomo minha lógica:
— Desculpe dizer isso de maneira tão abrupta, mas eu temia que você fosse me interromper, mudar de assunto, enfim... se esquivar como fez mais cedo no carro quando eu anunciei que tinha algo a dizer.
Já razoavelmente recuperada do engasgo e da tosse — aposto que não da vergonha em si —, Maria ergue um dedo em riste e proclama indignada:
— Eu nunca fiz isso!
Recosto-me na cadeira, cruzo os braços, ergo uma sobrancelha e apenas olho para a dissimulada. Quero muito saber por quanto tempo ela vai ter coragem de negar.
Diante do meu ar desafiador, o raio de sol parece colocar a mão na consciência e visitar suas memórias mais recentes. Com certeza, lembra-se que em dado momento da carona que lhe ofereci essa manhã, eu estava pronto para anunciar por que afinal decidi procurá-la. E ela também deve se recordar da maneira drástica como fugiu do assunto antes que eu pudesse completar metade da primeira frase.
— Talvez eu tenha feito — admite, contrariada. — Acontece que...
Agora, sou eu quem ergue o dedo para silenciá-la.
— Não! Eu preciso falar e, dessa vez, você vai ter que me ouvir, raio de sol. Sem interrupções.
Ainda mais contrariada, Maria cruza os braços e olha ao redor como se procurasse a saída mais próxima. Esquece totalmente da lasagna, e eu faço o mesmo.
Por fim, sua curiosidade deve falar mais alto, pois ela não se levanta para deixar o restaurante. Ao invés de fugir pela tangente, volta o olhar para mim com coragem renovada e faz um floreio impaciente com a mão para que eu desembuche logo.
— Como comentei mais cedo, eu tive muito tempo e clareza para refletir durante a viagem. Pensei bastante em você, em mim e, como não poderia deixar de ser, no que aconteceu entre nós. Sim, eu desejei que você estivesse lá. Principalmente enquanto nadava nu no Pacífico. Não vou negar essa parte.
Um leve rubor no rosto de Maria não me passa despercebido. Nem a maneira encabulada como ela disfarça o desconcerto, esfregando a nuca por um momento.
É reconfortante lhe dizer algumas verdades ao mesmo tempo em que semeio meu plano dissimulado. É reconfortante sentir que não estou mentindo totalmente para Maria enquanto articulo as peças desse jogo. Um jogo que tem por objetivo reconquistá-la, justamente o que eu lhe afirmei não ter intenção de fazer há um minuto.
— Mas eu também pensei na nossa última conversa. No significado dela.
Pigarreio um pouco, preciso de coragem para mentir descaradamente como faço a seguir...
— E por mais que tenha sido difícil admitir, eu acabei percebendo que você estava coberta de razão. Quando falou que nós não damos certo juntos, lembra? Que somos... um caos e nos machucamos. Você estava certa.
Maria franze o cenho. Sem dúvida, não era isso que ela esperava ouvir de mim.
Enquanto permanece muda feito uma estátua, continuo com o fio da meada:
— Eu não quero mais te magoar, nem que você me magoe eventualmente, então precisei aceitar que o rompimento foi a melhor solução. Ouso dizer, a única solução para nós.
O olhar da dama mordaz oscila um pouco. Com certeza, não esperava ouvir isso também. Se não fosse loucura, eu diria que ela está desapontada.
Incomodado com a mentira que acabei de despejar, reconforto-me de novo ao lhe dizer algo verdadeiro:
— Por outro lado, eu seria hipócrita se negasse o quanto você foi e ainda é importante para mim. Aliás, sendo mais honesto, Maria, acho que você sempre será.
— Sempre? — ela balbucia.
Não consigo protestar contra interrupção tão suave. Também não consigo deixar de notar que Maria não parece nada desapontada com essa parte da minha confissão. Ao contrário, acho que foi importante para ela ouvir tal coisa de mim.
Um discreto sorriso perpassa seus lábios por um lampejo de segundo e seus olhos escrutinam os meus com uma vulnerabilidade tão doce que... me arrepio inteiro e ouço minha voz confirmar:
— Sempre.
Não sei quanto tempo se passa. Nem por quanto tempo fico preso ao olhar dela. Tampouco por que fiz questão de confirmar tal coisa.
Isso não estava nos meus planos.
Não estava nos meus planos arruinar o plano como sinto que estou fazendo agora.
A meta é convencer Maria de que estou conformado com o fim da nossa relação. Até lhe parecer indiferente e desinteressado em reverter a situação. O plano é convencê-la de uma mentira.
Por outro lado, se ela me der um indício mais sólido de que esse teatro todo é desnecessário, se ela me der um sinal claro de que está inclinada a voltar para mim sem demora, então...
Então que se dane o plano, não é mesmo?
Em busca desse sinal, alcanço uma de suas mãos sobre a mesa e cubro-a com a minha. A princípio, o raio de sol não faz nada. Apenas sustenta o meu olhar, ligeiramente sobressaltada.
Quando resvalo seus dedos, no entanto, tentando entrelaçá-los com cuidado, Maria pisca de modo rápido, como quem desperta de um sonho, e puxa a mão de volta. Para disfarçar o movimento repentino, pega o copo e se demora em beber mais um pouco do suco.
De volta ao plano inicial, é o que me resta.
— O ponto é que eu preciso de você na minha vida — confesso do mesmo modo abrupto como ela se esquivou do meu toque.
A dama mordaz quase engasga de novo.
— Mesmo que não possa ser como antes — esclareço. — Mesmo que eu não possa mais te tocar, te beijar e...
— Já entendi! — ela corta, um tanto afoita.
Expiro com força e concluo o raciocínio:
— Eu não quero abrir mão de te ver com alguma frequência, Maria. De estar com você de alguma maneira, entende? Eu quero sair para dar um passeio despretensioso, almoçar como estamos fazendo agora, conversar sobre qualquer coisa aleatória que pessoas normais e descompromissadas conversem no fim de um dia tedioso.
Maria franze o cenho e me analisa como se um par de antenas tivesse brotado da minha cabeça.
— Howard, o que exatamente você está propondo?
Pelo visto, minha conclusão não foi tão clara assim. Devo ser mais direto.
— É simples, que sejamos amigos.
Não tem nada de simples nessa sentença, eu sei. Talvez por isso mesmo Maria não diga nada nos longos segundos que se passam. Quase ouço as engrenagens de sua mente trabalhando para assimilar o disparate que ouviu, para se convencer de que ouviu corretamente, enquanto a nossa volta o tilintar de copos e talheres se mistura ao burburinho de conversas.
Quando o raio de sol enfim compreende minha proposta, um som espontâneo escapa de sua garganta. Uma risada.
— Amigos? Você e eu?
Sinto-me patético por um instante. Disfarço como posso.
— É. Apenas bons amigos, como dizem por aí.
Maria ri de novo. Mais alto dessa vez. De modo descrente, devo dizer. E irritante. E... delicioso. Uma risada de ninfa!
Foco, Howard! Foco!
Desconfortável, mexo-me um pouco na cadeira e indago de mau humor:
— O que é tão engraçado em ser minha amiga?
A atrevida se esforça para ficar séria e dispara com desfaçatez:
— Talvez o fato de que você não tem amigas.
— Ora, tenho sim! — protesto na mesma hora. — Peggy...
— Peggy é uma exceção. Cite outra.
Penso um pouco. E mais um pouco.
— An...
— Ana é esposa do Sr. Jarvis. Até você tem que mostrar um pouco de decência e não cobiçar a mulher do seu melhor amigo.
Expiro com força e ergo o indicador para deixar algo bem claro:
— As duas são minhas amigas, quer você acredite, quer não. Eu as respeito muito!
Maria cruza os braços e se recosta na cadeira. Balança um pouco a cabeça como se ainda duvidasse. No entanto, acho que ela pensa melhor e acaba aceitando que digo a verdade sobre as duas.
— Muito bem. — Ela arqueia as sobrancelhas com certo desafio. — Então, você quer mesmo que eu seja, vejamos, a sua... terceira amiga nessa extensa lista feminina.
— Por que não? Três é um bom número.
Três é um bom número? Sério que soltei esse argumento tão fraco?
Não tenho tempo de desenvolver algo melhor, pois a dama mordaz é mais rápida:
— E você me respeitaria de verdade, como respeita as duas?
— Absolutamente! — afirmo sem pestanejar, erguendo o queixo com seriedade.
Eu pretendia sustentar essa postura altiva até o fim, porém admito que me sinto meio perturbado quando Maria empurra o seu prato para o lado, inclina-se um pouco sobre a mesa e me escrutina com um olhar de águia.
Por um momento, é como se ela tentasse ver, ou realmente enxergasse, algo sob a minha superfície. Sinto-me nu!
— Sem bancar o galanteador engraçadinho a cada cinco minutos? — ela indaga com ar desconfiado. — Sem nenhum dos seus flertes impróprios a uma relação de pura amizade?
Abro a boca para mentir a fim de tranquilizá-la, porém no último instante... Querem saber? Tudo tem limite.
— Isso eu já não posso prometer.
Decido ser franco mesmo.
Maria assopra o ar e ri sem humor como quem diz “Eu sabia! Te peguei!”
No entanto, não permito que ela saboreie o gostinho da vitória por mais que três segundos.
— Você me conhece, raio de sol. Eu flerto até com uma árvore se o vento balançar as folhas dela com o mínimo de graciosidade. Mas é só você não me levar a sério, e será uma relação de pura amizade.
Não ouso acrescentar “Eu prometo” ao final dessa sentença. Apenas me limito a tomar mais um gole do vinho e observo Maria enquanto ela pensa e me encara com a mesma desconfiança.
Ainda está relutante.
Preciso ser mais convincente. E um pouco mais atrevido.
— Eu sei que sou importante para você — afirmo sem rodeios.
A reação da dama mordaz é imediata. Ela me encara com certo ultraje, com certo rubor nas bochechas, e protesta com uma agressividade defensiva:
— Perdão?!
— Ou pelo menos fui. Está melhor assim? — sugiro com diplomacia. — Então, não sobrou nada? Nenhuma consideração pelos bons momentos que tivemos? Nada do...
Do imenso amor!
Pigarreio para limpar a garganta, enquanto busco algo para dizer no lugar disso. Por fim, encontro:
— Nada do carinho que sentia por mim?
Ela se empertiga feito um animal em alerta e começa a contornar:
— Quem disse que eu...
Não consigo me conter e lhe interrompo:
— Ah, Maria... Por favor! Um pouco de limites, mulher! Sobrou ou não sobrou?
A dama mordaz deve se convencer que é mesmo ridículo e inútil negar certas coisas sobre nós. Por fim, mesmo a contragosto e num tom quase inaudível, acaba reconhecendo:
— Claro que sobrou.
Meu coração erra uma batida.
— Pois então não há motivo para tanta hesitação. — Abro os braços para comemorar e ao mesmo tempo ilustrar a conclusão óbvia. — Você precisa concordar comigo e ponto final.
E tão logo sentencio essa frase, Maria me lança um olhar de desagrado e discordância.
— Ah, preciso?
— Precisa, ora!
— Quem disse?
— Eu disse.
Depois de praticamente lhe rosnar as respostas atravessadas, respiro fundo e busco manter a calma mais uma vez porque sei que é assim, com resiliência, que irei dobrar essa fera mais cedo ou mais tarde.
Quando torno a abrir a boca, falo num tom mais baixo e gentil, porém também incisivo e sem rodeios:
— Você acha que só porque as coisas desandaram entre nós, devemos nos afastar para sempre? Não dirigir a palavra um ao outro nunca mais? Quem sabe mudar de calçada quando ver o outro na rua e fingir que nada aconteceu até viramos dois estranhos por completo? Você conseguiria fazer isso, Maria? Porque eu posso te afirmar que, da minha parte, é impossível.
E... na mosca! É nítido feito água que esses últimos argumentos abalam a barreira que Maria insiste em manter entre nós. Ou insistia.
Enquanto observo sua postura resistente ruir pouco a pouco, reflito sobre minhas palavras. Foi bom dizê-las também. Porque foram verdadeiras. Mesmo se ela não voltar para mim, mesmo se o meu esforço for em vão, não serei capaz de ficar longe de Maria.
Acho que a minha vida se dividiu em antes e depois do dia que ela apareceu na minha sala de estar, engatinhando pelo chão à procura de um suposto brinco, que se revelou ser uma pedra logo depois. Ah... aqueles tornozelos!
— Algo me diz que vou me arrepender por concordar com essa amizade — ela balbucia baixinho. — Que Deus me ajude.
O músculo dentro do meu peito dá um ligeiro salto e tenho certeza que um brilho vitorioso pode ser visto em meus olhos agora. Lanço um sorriso enviesado à Maria e ergo a taça de vinho para lhe propor um brinde.
— É melhor se arrepender de ter feito algo do que se arrepender de não ter feito quando tinha a chance.
Ela retribui o sorriso com sua mordacidade costumeira e dispara de modo sonso:
— Foi com esse argumento raso que você levou muitas mulheres para a cama, suponho.
Seu copo de suco acerta minha taça com mais força do que seria o apropriado. O ruidoso tilintar ainda reverbera pelo restaurante quando Maria bebe o último e generoso gole.
Apesar de parecer que ela falou sem pensar, não posso deixar para lá. Preciso me divertir um pouco.
— Bom, quem eu levei ou ainda levarei para a cama, não deve mais te preocupar, raio de sol — provoco, antes de beber o vinho também. — O importante é que você pode ficar bem tranquila quanto a isso porque, sendo apenas bons amigos, na minha cama você não irá mais parar.
Se olhar matasse, uma lápide com meu nome teria se materializado bem nesse instante.
Maria, no entanto, disfarça a ira rapidamente e, como não poderia ser de outro modo, retruca afiada feito uma navalha:
— Muito obrigada por esclarecer algo tão óbvio, patife. Permita-me retribuir. Eu nunca fui parar na sua cama, você foi parar na minha. E porque eu deixei.
Reflito sobre sua resposta. Faz sentido. Todas as vezes que nos entregamos à arte da nudez e das estripulias prazerosas, foi em seu quarto no Griffith que tudo aconteceu.
— Justo.
Epa! Minto! Nem todas as vezes foram lá. E ao me dar conta disso, simplesmente não posso perder a oportunidade de pontuar:
— Se bem que você foi parar na minha biblioteca. Em cada canto dela, se não me falha a memória.
Quase de imediato, seu rosto ganha uma coloração tão vermelha que o tomate mais maduro do mundo pareceria pálido ao seu lado. Maria arfa indignada, embora eu tenha a nítida impressão de vislumbrar uma chama em seu olhar desnorteado que só posso definir como saudade e o mais primitivo dos desejos.
— Quer mudar de assunto agora, princesa? — proponho, lançando-lhe uma piscadela apenas para deixá-la ainda mais mordida de raiva.
Ela, no entanto, se recompõe até que depressa, usando minha provocação como combustível, e logo rebate:
— Está mais para encerrar o assunto. —Então, limpa a boca com o guardanapo e num instante está de pé. — Se não se importa, eu preciso voltar ao trabalho agora. Não precisa me acompanhar.
Levanto também e, sem pensar direito, digo:
— Que forma sútil de fugir do assunto.
Sem demora, ela se defende:
— Eu não estou fugindo, só não vejo necessidade de alimentar essa conversa por mais tempo. Você me convidou para almoçar, nós almoçamos. Você tinha algo a me dizer, eu ouvi. E, veja só, até concordei. Acontece que eu ainda tenho um trabalho, Howard, já me ausentei demais por hoje e meu senso de responsabilidade está apitando que eu preciso voltar. Como meu mais novo amigo, você devia me compreender, mesmo que desconheça o que é senso de responsabilidade.
Estreito o olhar e, só por garantia, acho melhor colocar os pingos nos is para não restar qualquer sombra de dúvida:
— Tirando o insulto gratuito, você está mesmo dizendo que nós temos um acordo? Você aceita ser minha amiga?
O raio de sol volta a me olhar daquele jeito profundo de novo, analisando meu olhar, meus traços, talvez até o ritmo da minha respiração. Atentamente e sem pressa. Sinto-me meio desconfortável. E curiosamente mais quente.
— Não era o propósito desse almoço? — ela diz, depois da estranha pausa. — Não era o que você queria, afinal?
Engulo em seco, procurando por minha própria voz. Por mil átomos! Que mulher desconcertante!
— Era. Digo... é. — Endireito a postura, camuflando o incômodo nervosismo com uma altivez forçada. — É exatamente o que eu quero.
Maria esboça um discreto sorriso e contorna a mesa, vindo na minha direção. Ela para na minha frente e meus ombros perdem a determinação consideravelmente, enquanto um arrepio perturbador percorre meu corpo inteiro.
— Pois então, alegre-se, Howard Stark. Eu aceito. Tentar, pelo menos. Vamos com calma, tudo bem?
Maria me surpreende ao tocar meu ombro de modo gentil e, principalmente, ao plantar um beijo suave na minha bochecha. Sinto a garganta seca e fantasio um beijo em sua boca. E outros em cada centímetro do seu corpo.
Que Isaac Newton me dê forças... Isso será mais difícil do que eu pensava!
Em algum momento, a tentação em pessoa se afasta, deixando-me com seu perfume suave e uma intensa aceleração no pulso.
Quando Maria Carbonell cruza a porta do restaurante e desaparece do meu alcance de visão, o ombro que tocou e a bochecha que beijou ainda estão ardendo feito brasa.
Despenco na cadeira depois de algum tempo absorto e chamo um garçom fazendo um sinal urgente. Um generoso copo de água gelada me fará muito bem agora.
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