Gênio Infame, Dama Mordaz
21 Imprudência
No qual nosso herói e nossa heroína têm uma conversa séria.
Inquieta, mexo-me nos braços de Howard pelo o que deve ser a milésima vez. Ainda não acredito no que aconteceu entre nós e em como foi bom. Não que bom seja uma palavra justa para definir tudo que senti, mas é a única que me vem à cabeça agora já que meu cérebro virou algum tipo de mingau.
Por outro lado, minha consciência nunca esteve tão em alerta. Isso porque, quando as chamas da paixão pararam de me consumir e o momento íntimo cessou, eu me dei conta de algo que não poderia ter esquecido. Nem Howard, aliás. Não acredito que fomos tão imprudentes...
Mexo-me de novo, as pernas resvalando sem querer nas dele sob o lençol. Howard expira profundamente. Se não está dormindo, está à beira disso. O que é, no mínimo, impressionante. E irritante.
Como ele consegue relaxar depois de ter me tomado para si sem qualquer proteção? Como não está com os nervos à flor da pele como eu? Será que não se deu conta do que fizemos e do que isso pode nos trazer?
Se ele não se deu conta ainda, que Deus o ajude porque eu preciso jogar as cartas na mesa nesse instante.
Decidida, desvencilho-me dele, puxo parte do lençol para me cobrir e disparo sem rodeios:
— Nós precisamos conversar!
Minha voz sai mais afoita e urgente do que eu poderia prever, porém não abala o semblante sereno dele. Parece que aquilo deixa os homens bem relaxados depois.
Lutando contra o sono inoportuno, Howard finalmente abre os olhos e murmura:
— Claramente, você tem algo a dizer. Qual o problema, Maria?
Ele flexiona os braços atrás da cabeça, como um apoio, e me lança um sorriso preguiçoso.
— O problema? Como você pode estar tão calmo?
O sorriso se alarga, e ele dá de ombros.
— Não é calma. Chama-se plenitude.
Não nego que é muito bom ouvi-lo dizer isso e meu peito se aquece na mesma hora. É maravilhoso saber que tenho o poder de fazê-lo se sentir tão bem e fora de órbita assim.
Só que esse momento exige certo foco, e o gênio infame parece enfim perceber isso porque se senta também, cruza os braços e me encara com mais atenção.
Engulo em seco e, por mais que eu lute, não consigo evitar olhar para ele com mais atenção também...
Os cabelos desalinhados por minha culpa, a satisfação estampada em cada traço do rosto, o peito nu praticamente me convidando para um toque despretensioso, bem como os braços que, há poucos minutos, estavam me prendendo com tanto ardor enquanto Howard se afundava no meu corpo repetidas vezes.
Uma palpitação me agita ao lembrar disso, das sensações, do calor abrasador me reduzindo a nada, de cada toque e tudo que provocou em mim.
Continuo descendo o olhar, inclinando a cabeça de leve para o lado, recordando a maciez da pele, a rigidez do abdômen e o discreto caminho de pelos que termina no limite do quadril com o lençol.
Mordo o lábio, desejando que essa barreira inconveniente evapore como num passe de mágica.
Meu rosto arde ao perceber o que estou fazendo e, às pressas, ergo a cabeça. Sou recepcionada com um sorriso torto puramente masculino e muito convencido.
— Você disse que queria conversar.
Tento recuperar a compostura.
— Foi exatamente o que eu disse.
E falho miseravelmente, pois ao invés de ir direto ao assunto, faço um belo desvio, vencendo a distância entre nós só para envolver o rosto de Howard entre as mãos e mergulhar em sua boca com uma urgência implacável. Simplesmente preciso beijá-lo e que se dane qualquer palavra a dizer.
Assim que afasto os lábios dos dele, Howard brinca em tom malicioso, os olhos incandescentes feito duas brasas:
— Só não avisou que seria nessa língua. Ainda bem que sou fluente...
E antes que eu pisque, ele me puxa para si. Para o seu colo. Com um movimento ágil e decidido, estou presa nos seus braços mais uma vez, sendo reivindicada por um novo e profundo beijo.
Meu cérebro se liquefaz mais um pouquinho quando mãos firmes me seguram pela nuca com intensidade. Entretanto, volto a raciocinar logo que sinto algo muito duro e quente pressionando minha coxa, acendendo um alarme na minha consciência.
Engraçado... Há um minuto, Howard estava quase adormecendo. Agora, me parece muito desperto. Não sabia que um homem podia desejar uma mulher assim, num curto intervalo e com essa força.
— Não! — Esquivo-me depressa e pulo da cama, orgulhosa por encontrar foco para resistir à nova onda de desejo que me incendeia por dentro também.
Howard olha para mim. Para cada pedacinho de mim.
Pudera! Ainda estou nua!
Mais que depressa, pego a primeira peça de roupa que encontro no chão — a camisa dele — e me visto. Atrapalhada, desisto dos botões e cruzo os braços para manter a peça fechada de qualquer jeito.
— Nós não podemos fazer isso.
O olhar ardente do homem na minha cama cede lugar a um desolado. E há um tom de frustração em sua voz quando ele questiona:
— Não podemos?
Que Deus me ajude...
Minha vontade é de jogar tudo para o alto mais uma vez. Porém, não posso cometer o mesmo erro duas vezes.
— Não assim, sem tomar uma certa precaução antes — consigo dizer. — Eu não estou arrependida do que fizemos, patife, mas de como fizemos. Você precisa admitir que foi loucura esquecermos de um detalhe tão importante.
Então eu vejo, pela mudança na expressão dele, que Howard finalmente se dá conta do deslize.
— Droga! Eu odeio quando você tem razão... Foi mesmo um ato falho, raio de sol. — ele diz, soando sincero e preocupado também.
Isso deveria me acalmar e encerrar o assunto, porém me ouço reforçando:
— Não pode ser assim da próxima vez. Não podemos ser levianos de novo.
Ele sorri de leve. Talvez animado por eu insinuar que haverá uma próxima vez.
— Eu sei. E não seremos. Prometo.
Ficamos em silêncio.
Cada parte da minha consciência me acusa de ter sido impulsiva e não medido as consequências. Procuro me acalmar, respirando fundo. Ao fazer um rápido cálculo mental, fico um pouco mais calma. Não é o meu período fértil, afinal. Não devo estar grávida. Não posso estar.
Não que a ideia seja abominável, só não estou pronta para sonhar com a maternidade agora e algo me diz que ser pai não é algo que tenha passado pela cabeça de Howard até hoje. Por fim, não sabemos aonde essa história irá nos levar, e um filho surpresa nessas circunstâncias complicaria tudo.
— Foi minha culpa — ele rompe o silêncio, afastando-me desses pensamentos. — Eu sou mais experiente, devia ter preparado esse momento para que fosse perfeito. Mais perfeito, quero dizer. Ao invés disso — Ele encolhe um pouco os ombros. —, me deixei levar pela paixão.
— E eu pela minha — confesso, vestindo de vez a carapuça da irresponsabilidade.
Howard pensa um pouco antes de voltar a se pronunciar:
— Engraçado que, com as outras mulheres, eu sempre me precavi. Com todas elas, meu lado racional esteve sempre no comando.
Algo muito incômodo arde no centro do meu peito ao ouvir tais palavras. Quando dou por mim, estou resmungando entre dentes:
— Não é engraçado e eu não quero saber das outras mulheres.
Howard sorri torto. O demônio!
— O que quero dizer é que, com você, eu esqueci de tudo. Minha cabeça foi para o espaço. — Ele faz uma pausa, o olhar cravado no meu como se pudesse enxergar minha alma de algum jeito. — Eu bati na sua porta desprevenido porque não esperava que você fosse me dar qualquer chance, Maria. Eu vim te confrontar. Com sorte, esperava te convencer a voltar para o emprego. Não podia imaginar que acabaríamos sem roupas, gemendo e arfando nos braços um do outro. Aliás, nem nos meus sonhos mais otimistas e safados, íamos tão longe. Geralmente, eu nunca passava dos tornozelos.
Um arrepio percorre o meu corpo, sinto meu rosto esquentar e meu coração bater depressa.
Por que diabos Howard tem que dizer essas coisas? Relembrar o que fizemos e descobrir que ele sonhou comigo certamente não ajuda em nada.
Agitada por um maldito calor, começo a tagarelar feito uma tonta:
— Não é?! Como foi que isso aconteceu mesmo?! Até ontem eu acreditava que você fosse um sapo! Não, não! Um girino metido a sapo, para ser mais justa e precisa.
Ele estreita o olhar e um sorriso azedo estica o canto de sua boca.
— Muito justa, precisa e gentil. Obrigado pela parte que me toca.
Relaxo um pouco, começando a me divertir com o rumo da conversa. Sinto minhas defesas ruírem uma a uma. Não consigo evitar olhar para ele com um carinho especial quando digo:
— E hoje eu descubro que você é algum tipo de... príncipe? É muito para processar.
Howard arqueia uma sobrancelha de modo apreciativo. Com ar superior, ressalva logo depois:
— Eu prefiro rei.
Uma leve risada me escapa. E só para não perder o hábito, cruzo os braços e decido provocá-lo:
— Um príncipe metido a rei é o que eu vejo daqui.
— Touché.
Sorrio vitoriosa, dando o assunto por encerrado. Então, pego suas roupas pelo chão e as jogo na direção dele.
— Hora de voltar para o seu castelo, Alteza.
Howard me lança um sorriso enviesado, mas aquiesce em concordância.
Desvio o olhar quando ele afasta o lençol de súbito e salta nu da cama porque... porque... Ora! Porque é melhor não ver!
— Vou precisar da minha camisa também, se não se importa — ele diz, torturantes segundos depois.
Volto o olhar para ele e, embora eu devesse ficar aliviada por Howard já ter se vestido, experimento uma inconveniente frustração. Cada parte de mim quer que ele fique. Precisa que ele fique.
O problema é que não pode ser assim. Podemos cair em tentação de novo e, quanto mais tempo Howard passar no Griffith, mais o risco de ser descoberto aqui aumenta.
Absorta por essa reflexão, acabo me esquecendo do pedido dele até que Howard está bem na minha frente. Ele pigarreia e murmura um com licença arrastado antes de abrir a única roupa que esconde minha nudez a fim de pegar a camisa.
Engulo em seco quando um calafrio percorre minha pele. Gostaria de acreditar que é apenas uma reação ao ar fresco do quarto, porém acho que tem muito mais a ver com o olhar que me escrutina pouco a pouco e com as mãos ásperas que deslizam pela minha cintura até se fincarem na base do quadril.
— Parece que você está com frio, minha doce Maria.
Howard olha para os meus seios ao constatar isso, e eu amaldiçoo meu corpo pela reação involuntária e embaraçosa. Cruzo os braços, escondendo-os do melhor jeito que consigo.
É então que ele ergue um olhar na direção do meu que só posso definir como diabólico e muito perigoso.
— Ou seria calor?
Essa não...
Antes que eu encontre alguma resposta perspicaz para acabar com o clima, Howard está colado ao meu corpo, os braços agora me circundando num enlace forte e a boca cometendo uma série de insanidades pelo meu pescoço.
Tenho que me segurar nos ombros dele para não cair, uma vez que minhas pernas perdem boa parte do equilíbrio.
— Patife... — murmuro, meio engasgada, fechando os olhos por puro instinto. — Eu não... a-acho uma boa ideia você me tocar a-agora.
— Eu acho uma excelente ideia...
Tento afastá-lo, mas cada movimento que faço é para mantê-lo exatamente aonde está.
Estremeço quando uma língua muito atrevida passa a brincar com minha orelha, levando meus nervos ao limite. Não sei de onde tiro forças para argumentar:
— Lembra do que... do que prometemos? S-sem imprudências de novo?
Minha voz sai tão baixa e sufocada pelo desejo que não tenho certeza se Howard me ouviu até ele redarguir:
— Você está exagerando, raio de sol.
Ele planta um beijo quente em minha boca. É um verdadeiro milagre que minhas pernas ainda sejam capazes de me manter em pé, pois parecem feitas de gelatina.
— Isso é um carinho sem segundas intenções, garanto. Totalmente inocente. Palavra de Howard Stark...
Suas mãos deslizam mais para baixo e encontram meu traseiro. Ele me aperta contra o seu corpo de maneira libertina, fazendo-me sentir a força do seu desejo inegável.
— Nós não somos coelhos, afinal. Nem gatos no cio. Podemos nos controlar muito bem, parar a qualquer momento e...
A voz do patife soa rouca e meio perdida agora, como se ele não tivesse certeza do próprio argumento.
E por falar em perdida, é exatamente como me sinto ao buscar e tomar sua boca para mim simplesmente porque não consigo mais resistir.
O problema é que, de repente, sou tomada por uma onda de frio fora de hora. Cambaleio para a frente ao me ver sem o apoio de antes. Sem o calor que há pouco me incendiava por cada poro.
Pisco desnorteada e procuro por Howard. Ele se desvencilhou de mim e se afastou uns bons três metros.
— Okay, eu entendo o que você quer dizer! — Andando de um lado para o outro do quarto feito uma barata tonta, ele esfrega as mãos pelo cabelo. — Distância é uma ideia mais inteligente agora! Eu, definitivamente, preciso sair daqui!
Sem ar e com aquela estranha frustração se espalhando dentro de mim, ouço-me perguntando:
— Precisa?
Howard para no centro do quarto. As mãos no quadril. Um alarme dardejando nos olhos castanhos mais escuros do que o habitual.
— Maria.
Droga, claro que ele precisa! É o certo a se fazer agora. Eu não acabei de lhe dizer que não podemos repetir a dose desprevenidos assim?
— Vista-se. Por favor. — Howard me dá as costas. A voz um tanto torturada. — Eu não sou de ferro, mulher...
Célere, encontro minhas roupas pelo chão e me arrumo. Depois, aproximo-me dele com certa cautela, estendendo sua camisa.
— Aqui está.
Howard se volta na minha direção, pega a peça e termina de se vestir como se sua vida dependesse disso.
Ficamos em silêncio, apenas nos olhando, as respirações entrecortadas recuperando-se aos poucos.
— Muito bem, eu vou na frente — anuncio, dando um passo rumo à porta, decidida a ser prática. — Siga-me, patife.
Ele não se move um centímetro sequer e ainda segura minha mão, levando-me a girar de volta. Parece ter algo a dizer, mas demora longos instantes para enfim fazê-lo.
— Eu acho que o mundo não está pronto para um filho de Howard e Maria. Nem você ou eu, vamos ser sinceros. Eu nunca sequer pensei nisso, mas... se aconteceu...
Interrompo-o, colocando um dedo sobre seus lábios.
— Se aconteceu, nós falamos disso quando for a hora. Agora eu preciso te tirar daqui.
Howard assente, pega minha mão com cuidado e dá um beijo na palma. Depois, me olha de um jeito franco e sorri meio tenso.
— Apenas saiba que, apesar de toda a má fama e de uma boa parte dela ser merecida, eu não sou um canalha total. Não fugiria da minha responsabilidade. Você não estaria sozinha.
Meu coração se aquece com uma ternura inesperada.
Não quero estar grávida, não posso estar, não quero prender Howard a uma situação e eu mesma ainda tenho muito a trilhar até pensar em ser mãe um dia. Além disso, é impossível afirmar se o que eu e ele sentimos irá vingar, se daremos certo a longo prazo. Mesmo assim, por um instante, consigo me imaginar acima do peso por nove meses em algum futuro ao lado de Howard.
Sinto minhas bochechas esquentarem ao cogitar tal cenário. Um pequeno Stark vindo ao mundo? Eu tendo um filho ou filha com o último homem que poderia imaginar? Uma penca deles?
Simplesmente me obrigo a colocar os pés no chão de novo, pois é muito cedo para sonhar tão alto. Eu ainda estou assimilando que Howard não é um girino, afinal.
— Significa muito para mim que você diga isso, mas não se preocupe. — Toco o rosto dele com ternura. — Não acho que eu esteja grávida.
E quando o tranquilizo assim não é uma negação irracional para me proteger. De algum jeito, eu sei que é verdade. Porque sinto, como um sexto sentido. Howard não me engravidou hoje.
Mas talvez um dia, isso aconteça.
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