No qual nossa heroína explica interpretação de texto ao nosso herói.

Graças a Deus, nunca estive numa guerra. Todavia, algo me diz que o laboratório de Howard se assemelha muito a um campo de batalha nesse momento.

O caos está espalhado por toda a parte. Na infinidade de aparelhos em funcionamento ao mesmo tempo e na quantidade impressionante de tubos de ensaio sobre o balcão abarrotado de papéis amarfanhados. O caos também está estampado em um desses papéis, arremessado em formato de bolinha e que veio parar aos meus pés assim que a porta do laboratório se abriu. E na própria imagem um tanto desgrenhada do homem que me encara de volta com nítida surpresa.

Apesar de desalinhado como se encontra, há algo de encantador em Howard Stark nesse instante. Algo que me leva a esboçar um sorriso inevitável para ele e — com toda a certeza — corar feito uma mocinha idiota.

Se, há certo tempo atrás, alguém me dissesse que eu seria tão apaixonada por esse traste, eu nunca acreditaria. No entanto, aqui estou eu, pagando minha língua e muito feliz por isso.

— É seguro me aproximar?

Howard não responde. Ainda parece surpreso com a minha presença. Inerte e um tanto chocado, talvez se encaixem melhor.

Apesar de estranhar essa sua postura, desvio da bolinha de papel no chão e dou alguns passos à frente enquanto recomeço:

— O Sr. Jarvis me disse que você está com dor de cabeça.

— Jarvis é um linguarudo intrometido.

Detenho o passo, meio assustada com o resmungo feroz do patife sobre seu mordomo e leal amigo.

— E de mau humor. Vejo que ele estava certo quanto a isso... — Penso um pouco e uma ideia atrevida surge. Sorrio com carinho para Howard. — Diga-me, você se sentirá melhor com um beijo?

Se o gênio infame já estava chocado antes, agora parece ter sido acometido por uma descarga elétrica exorbitante.

— O quê?!

Não era a reação que eu esperava. De fato, tudo que eu esperava era que ele não falasse nada, apenas ficasse bem animado com a sugestão, vencesse a nossa distância rapidamente e me tomasse nos braços com um beijo de tirar o fôlego.

Como os beijos que me deu ao longo da noite.

Droga... Sinto que estou corando de novo, ao mesmo tempo que uma palpitação já familiar acelera meu peito.

E sinto-me meio idiota por me ouvir explicando logo depois num ritmo afoito:

— Eu cheguei mais cedo, ainda tenho alguns minutos antes de iniciar o expediente, poderia muito bem te dar um beijo agora e...

E Howard não faz nada. Não muda de expressão, não me olha com aquele ardor que me faz derreter toda vez, tampouco vem até mim sem pensar duas vezes. Ele permanece exatamente aonde está, feito uma estátua de puro gelo, gerando uma atmosfera desconfortável entre nós.

Não, definitivamente não era isso que eu esperava encontrar essa manhã.

Quando enfim diz alguma coisa, também não é o que eu ansiava ouvir dele...

— Acho que não é uma boa ideia. Obrigado mesmo assim.

Obrigado mesmo assim?

O que diabos aconteceu com o patife? Talvez não esteja apenas com dor de cabeça e mal humorado, e sim muito, muito doente para recusar um beijo sem mais nem menos.

Admito que isso me desconcerta bastante. Disfarço como posso o quanto fico sem graça, direcionando o olhar para uma prateleira ao meu lado. E para o outro lado em seguida. Até que meus olhos se deparam com um frasco cheio de um líquido de cor âmbar numa estante repleta de outros frascos. Mas é apenas esse que detém minha atenção, já que contém uma etiqueta muito peculiar que lhe dá um nome.

É como uma injeção de ânimo. Pego-me segura para sorrir de novo e torno a olhar para Howard.

— O que é “raio de sol"?

Estranhamente desconfortável, parecendo até mesmo um tanto furioso com a minha descoberta, ele desvia dos meus olhos e resmunga afiado feito uma navalha:

— Nada de mais. Só uma fórmula que deu errado e virou algo corrosivo.

Meu sorriso desaparece, murcha feito flor, e sinto uma pontada dolorosa ao não ouvir dele o que esperava ouvir. De novo.

Eu previa algo romântico, uma história interessante e divertida por trás da fórmula que carrega o apelido carinhoso que Howard me deu. Ao invés disso, recebo uma indireta ácida como essas.

Isso mesmo. Não sou nenhuma imbecil, Howard quis me alfinetar de propósito com tal resposta. Só não entendo por que está me destratando assim.

O que eu fiz? Tenho certeza que não fiz nada, ora!

Estou procurando uma maneira de sondar qual o problema dele comigo então, quando Howard expira com certo desânimo e pergunta:

— O que faz aqui, Maria?

Sem o tom agressivo de antes, o que me anima um pouco.

Talvez tenha se arrependido da grosseria gratuita, afinal. Talvez o problema não seja comigo. Talvez não esteja com uma mera dor de cabeça, e sim uma enxaqueca intensa que derreteu o seu bom senso.

— O Sr. Jarvis também mencionou que você não quis tomar o café da manhã — explico-me.

Ele cruza os braços com nítido desdém.

— E isso é da conta dele porque...?

Pisco um tanto desnorteada com a volta do tom ríspido.

E incomodada por Howard fazer pouco caso do Sr. Jarvis com essa questão óbvia, decido responder com algo bem óbvio também:

— Porque ele é seu amigo. Um amigo de verdade que se preocupa com você.

— Foi ele que te mandou vir aqui?

Começo a me irritar de verdade com a sua postura nessa manhã. Parece que Howard quer provocar uma briga comigo e até com o Sr. Jarvis que nem está aqui para se defender.

— Não, eu vim porque me preocupo com você também.

E começo a me questionar se Howard merece essa consideração da minha parte hoje.

— Você se preocupa comigo? Mesmo?

O que é isso na sua voz? Descrença? Sarcasmo?

Em meus braços, a bandeja com o café da manhã parece mais pesada. Quando vim para cá, ela estava leve feito pluma, assim como meu espírito.

Em meu peito, o coração palpita de novo. Dessa vez, por raiva e por me sentir acuada e perdida no meio dessa conversa que toma um rumo cada vez mais esquisito.

Feito uma idiota, olho para a bandeja e ouço-me enumerando apenas para preencher o silêncio aterrador:

— Eu trouxe suco de laranja, torradas, geleia, queijo e...

— Se quer me agradar, uma dose de uísque cairia bem melhor agora.

Endireito a postura e encaro o patife com firmeza. Não sei o que ele pretende com essas demonstrações de falta de educação, mas se quer me tirar do sério precisará se esforçar mais.

Já que ele está se comportando feito um menino malcriado, decido tratá-lo com tal e explico num tom condescendente:

— Não é nada aconselhável misturar álcool e medicamentos. Tem um analgésico aqui na bandeja, mas é melhor você tomá-lo só depois que o seu estômago estiver cheio. Repousar um pouco depois do remédio seria o ideal também, mas se você precisa mesmo trabalhar em tudo isso agora...

Howard expira com força e me interrompe num tom mais alto:

— Eu preciso.

— O quê?

— Eu preciso trabalhar — ele esclarece, arreganhando um sorriso torto e azedo. — Em tudo isso. Agora.

E então, diante da minha inércia, conclui de modo frio e muito formal:

— Pode levar a bandeja, obrigado. Mesmo que eu estivesse com apetite, o que não é o caso, Jarvis esqueceu de te alertar que não é seguro comer em um laboratório. Tenha um bom dia, Carbonell.

Quando ele termina de falar e volta a atenção para uma pilha de anotações, ignorando-me por completo, chego ao meu limite. Seu esforço para me tirar do sério enfim consegue destruir a paciência que eu vinha conseguindo manter até aqui.

Fazendo questão de causar bastante barulho, aproximo-me da sua bancada pisando forte e praticamente largo sobre ela a bandeja com o café da manhã de qualquer maneira. Com isso, o queijo tomba sobre o remédio, as torradas deslizam ruidosamente sobre o prato e gotas do suco de laranja espirram sobre a pilha de papel, levando Howard a recuar um passo.

Ele me olha feio.

Sem me intimidar, ergo o queixo de modo resoluto e vou direto ao ponto:

— Por que você está me dispensando assim?

Ele ri sem humor, como se minha presença o incomodasse ainda mais agora.

— Eu preciso ficar sozinho para me concentrar e trabalhar, só isso.

Não, não é só isso. É outra coisa. Alguma coisa. Mas o quê?!

Olho ao nosso redor e, a fim de provocar qualquer reação nele que me dê alguma dica do que está acontecendo, comento a primeira coisa que me vem à mente:

— Você chama essa bagunça toda de trabalho? Está fazendo algum progresso pelo menos?

Pela expressão com a qual me encara, constato que consegui irritá-lo mais.

— Não se intrometa no meu modo de fazer as coisas, Maria, e eu prometo não dar pitacos na sua forma de arrumar a minha casa — ele despeja de modo amargo, o dedo indicador em riste e o olhar estreito na minha direção.

Eu devia dar meia volta. Devia sair daqui e esperar que Howard caia em si. Porém, não posso. Preciso entender o que houve e preciso de respostas agora.

— Que bicho te mordeu?

— Nenhum — ele se esquiva, entredentes. — Foi como Jarvis fez questão de fofocar, eu estou de mau humor.

Mais uma resposta cheia de azedume que me deixa cada vez mais intrigada.

— Eu esperava te encontrar de ótimo humor hoje... — digo baixinho, apelando para qualquer resquício de romantismo que possa estar escondido sob tanta animosidade.

— Por quê? — Ele ri com deboche. — Só porque eu dormi com você ontem? A convivência comigo te deixou pretensiosa ou o quê? Hoje é um novo dia, Carbonell, não se dê tanta importância.

Um tapa teria doído menos.

Dou um passo para trás e, involuntariamente, encolho-me um pouco, abraçando meu próprio corpo. Meu coração não palpita de raiva, fica apertado.

Um segundo depois, Howard parece se dar conta do peso das palavras sobre mim e chego a ter um vislumbre do homem gentil que me conquistou porque a névoa que cobria seu semblante até agora se dissipa.

Vejo confusão e certo arrependimento em seus olhos, como se ele percebesse que exagerou no tom e me atingiu em cheio.

Ele titubeia por um instante.

— Desculpe, isso foi...

— Grosseiro, cruel e desproporcional? — interrompo-o, rígida por fora e desmoronando por dentro. — Não chega nem perto.

— Eu não quis dizer...

Quis sim — corto-o de novo. — O que houve com você? Trocou as ferraduras hoje e decidiu testar os coices em mim?!

O dedo em riste volta na mesma hora. A postura irritadiça também. O homem que me conquistou é tragado pela névoa mais uma vez.

— Não ouse me comparar a um cavalo.

— Tem razão, é uma grande ofensa aos cavalos! — retruco, sem pestanejar. — Acontece que, por alguma razão, você está querendo me ferir. Claramente! E...

— E você não faz ideia de qual razão seria essa, não é? — dessa vez, é o patife que me interrompe. Com um risinho no final que me incomoda muito. — Que conveniente!

Cerro os punhos ao lado do corpo e esbravejo o que estava entalado até agora:

— Howard Stark! Se você está tentando me dizer alguma coisa, diga de uma vez!

Minha exigência faz efeito no mesmo instante. O patife dá um passo à frente e despeja sem mais rodeios:

— Você é noiva! Pronto, aí está! Eu disse de uma vez! Gostou?

No entanto, o choque me atinge, impedindo-me de assimilar o que ele acabou de dizer.

— O q-que...

— Não se faça de desentendida, você sabe muito bem! — Howard coloca as mãos na cintura e me encara de um jeito desafiador e acusatório. — Você é noiva. Do tal William. Quando ia me contar? Aposto como não ia. Pra quê, se estava tão divertido me fazer de idiota, não é?

E então, de repente, ouço as engrenagens do meu cérebro buscando o encaixe de toda as peças e o mau humor do patife enfim faz sentido.

— Você leu a carta.

— Eu li a carta — ele confirma, mais amargo do que fel.

É com pesar que concluo:

— E entendeu tudo errado.

De novo com o ar de desafio, como se eu tivesse subestimado sua inteligência, ele rebate:

— A carta era bem clara.

— Inacabada e ambígua — argumento, lembrando-me exatamente das frases que usei no começo e de como elas podiam, facilmente, serem interpretadas de modo desastroso por um homem desavisado e possivelmente com ciúme. — Howard, não é nada...

— Você é noiva dele? Sim ou não?

— Não! — respondo meio no susto, abominando a simples ideia de qualquer vínculo com William Mitchell.

Só que então outra coisa me vem ao pensamento e ouço-me ressalvando feito uma pata atrapalhada:

— Quero dizer... sim. Acho que sim. Tecnicamente eu posso ser ainda, mas não é desse jeito que você está pensando. Eu posso explicar! Lembra quando Jimmy veio me ver e nós brigamos? Foi porque ele achou que podia fazer um arranjo no meu nome! O idiota me comprometeu com William, acredita?

— Ah, um casamento arranjado? Que romântico!

Que Deus me ajude...

— Não tem nada de romântico nessa patacoada!

Dou a volta no balcão a fim de me aproximar de Howard, na esperança de abrir seus olhos de uma vez por todas, nem que para isso eu tenha que desenhar a história toda para ele.

— Você não ouviu o que eu acabei de contar? Não percebe do que se trata? Eu não pedi por esse noivado, não quero isso e certamente não vou me casar com aquele energúmeno!

Paro diante dele. Howard fica em silêncio, a respiração entrecortada. Por um momento, ele parece ponderar. Por um momento, parece não ter mais certeza do que me acusou e apenas avalia meus argumentos. E, por um momento, eu tenho esperança de que está convencido da verdade e que vamos deixar essa conversa medonha para trás.

Mas então...

— Na carta você disse que esperava imensamente que...

Reviro os olhos.

— Esqueça a maldita carta, homem!

— Não posso! — o ser mais teimoso da face da Terra explode. — O que ia dizer a ele? Parecia... parecia tão importante! Você terminou de escrevê-la? O que era a segunda coisa que ia dizer ao seu noivo, Maria?

Encho-me de uma paciência que eu nem sabia ser possível concentrar nesse momento só para lhe esclarecer:

— Aquele infeliz não é meu noivo, Howard.

— Você mesma disse que tecnicamente ele ainda é. Ou pode ser. Tanto faz.

O fato de Howard usar minhas palavras contra mim é injusto. Porém, o que me deixa mais possessa e magoada é a triste conclusão a qual chego um segundo depois que ele para de falar. Sinto uma pontada no fundo do peito.

— Você não acredita em mim — dizer isso, torna a dor ainda pior. — Ai, meu Deus. Não importa o que eu diga, você ainda não vai acreditar. Por que acha que eu te enganaria?

— É o que eu fiquei me perguntando a manhã inteira. Talvez para provar algum ponto para você mesma? Talvez como uma vingança de mal gosto por eu ter te cercado de tantas maneiras quando nos conhecemos? Eu não sei! Diga-me você!

O ímpeto que tive antes, de me aproximar, é totalmente o oposto do que sinto agora. Recuo um passo e olho para o homem na minha frente. De repente, Howard Stark me parece um completo estranho. Um estranho desprezível.

— Então você acha que eu fingi? Que eu fingi esse tempo todo que...

Que gosto muito de você? Mais do que sou capaz de entender? Que sinto estar mais do que apaixonada? Que te amo, seu estúpido?!

Meu orgulho, graças a Deus, não me permite fazer tal confissão agora.

— Deixe-me ler a carta, Maria. Se tudo isso for um mal entendido, nós acabamos com ele agora mesmo.

Estreito o olhar, furiosa.

— Como assim se for?

O imbecil ignora meu protesto e agarra-se ainda mais à desconfiança infundada e ofensiva.

— Você já enviou? Está com você?

Desvio do seu olhar. Recuo mais um passo. A vontade de colocar mais distância entre nós se torna uma necessidade.

— Não.

Um instante de silêncio depois, Howard inquere com ar impaciente:

— Não o quê?

Não acredito que você confia tão pouco em mim. Não posso suportar que me conheça tão pouco depois de me desnudar de tantas maneiras. Não dá para aceitar que precise ler a maldita carta para só então, talvez, se convencer que estou falando a verdade.

— Não está mais comigo — digo, sem olhar para ele diretamente. — Eu terminei a carta essa manhã mesmo e postei no correio a caminho daqui.

Ele expira com força. De soslaio, vejo-o esfregar os cabelos enquanto se afasta alguns passos e anda pelo laboratório.

— Estava com bastante pressa de enviar a mensagem, hum?

Ele só pode estar brincando.

— Estava sim — confirmo só para azucriná-lo. — Mas quer saber de uma coisa? — incito, assumindo uma postura defensiva. — Mesmo que a carta ainda estivesse comigo, eu não permitiria que você a lesse.

Soando ultrajado, Howard se volta para mim e questiona:

— Ora, essa! E por que não? Tinha algo lá que eu não podia saber de jeito nenhum?

— Algo que você não merece saber de jeito nenhum — corrijo, fuzilando-o com o olhar. — Pena que eu só percebi isso agora!

Ele pisca em sinal de confusão.

— O que quer dizer?

Dessa vez, sou eu quem ri com deboche.

— Que para alguém que se diz tão inteligente, você é muito, muito burro.

Ele fecha a cara, parecendo um menino birrento e contrariado. Justamente o gás que eu preciso para alfinetar mais um pouco:

— O que foi? Feri o seu ego? Ótimo! Porque você também me feriu!

Dou-lhe as costas, convencida a não perder nenhum minuto a mais do meu precioso tempo tentando entender esse homem!

— Não se atreva a sair assim como se fosse a dona da razão.

Sou obrigada a dar meia volta para lhe apontar o dedo e ressaltar em alto e bom tom:

— Como se fosse, não! Eu tenho razão!

Sigo apressada rumo à saída desse inferno. Destravo o mecanismo que faz a porta metálica deslizar. Respiro fundo o ar que vem do corredor, pois no laboratório não parece haver oxigênio o suficiente para nós dois.

— Nós ainda não terminamos!

— Você disse que queria ficar sozinho. Pois então, fique!

Detenho-me na soleira, no entanto. Porque ainda tenho uma última coisa a dizer. Meu coração bate tão pesado que sinto o som forte retumbando nos ouvidos.

Faço um esforço para olhar o patife quando aviso:

— E se estiver pensando em aparecer no Griffith essa noite de novo, querendo me seduzir e fazer as pazes, é melhor tirar o seu cavalinho da chuva.

Howard cruza os braços com ar de desdém.

— Tire você o seu. Eu não pretendo te procurar de novo. — Com raiva, ele reforça: — Digo... Não vou!

— Ótimo!

Dou-lhe as costas mais uma vez. Pela última vez.

— Esplêndido! — Howard emenda bem alto, enquanto deixo o laboratório para trás.

No bolso do meu uniforme, a carta que escrevi para o estrupício do William parece arder, prestes a queimar.

Eu pretendia postá-la no correio durante meu horário de almoço. Agora, minha vontade é picá-la em mil pedacinhos e incinerar tudo.

Nem William nem Howard merecem o tempo e a tinta que gastei para escrevê-la. Nenhum dos dois merece minha consideração.

Mas apenas por um deles, dói chegar a essa conclusão.

[...]

Cega de raiva e humilhada pela desconfiança do burro infame, caminho tão depressa pela mansão que não vejo alguém que surge de repente na direção oposta de um dos corredores. Sinto o choque quando nos esbarramos em cheio e, por instinto, me apoio nos ombros da pessoa para me equilibrar e segurá-la também.

A pessoa ri da trapalhada toda e meu rosto arde de vergonha ao finalmente ver de quem se trata.

— Srta. Carter! Me perdoe!

Mais do que depressa, afasto-me e me recomponho. Não sem antes ajeitar com alguns tapinhas a elegante blusa que ela veste, pois acho que amassei o tecido enquanto tentava não despencar no chão feito uma fruta madura.

— Não se preocupe, querida, não foi nada — ela me tranquiliza de modo muito gentil, e há um sorriso simpático em seu rosto quando diz isso também. — Srta. Carbonell, correto?

— Isso. Desculpe, eu realmente não te vi... A senhorita chegou há muito tempo? Veio ver o Sr. Stark?

— Não e sim — ela responde.

A confusão deve ficar estampada no meu rosto, pois em seguida ela se explica melhor:

— Eu não cheguei, estou hospedada aqui desde ontem. Vou ficar alguns dias. Mas sim, eu estava indo ver o Howard.

Ela está hospedada aqui?! Oh, não, Maria... Por favor, o que você menos precisa agora é ficar insegura de novo. Mesmo porque nem importa mais se ela e Howard ficarem juntos um dia, importa?

— Sabe se ele está no laboratório?

— Sim, eu vim de lá... — respondo de forma automática. Em seguida, temendo que tenha soado vaga e suspeita, emendo depressa: — Fui levar o café da manhã dele.

Tenho a impressão que a Srta. Carter estreita um pouco o olhar na minha direção por um momento sútil.

— Claro, entendo.

O que eu não entendo é porque ficamos as duas paradas no meio do corredor depois disso. Ela não ia para o laboratório? E eu não estava indo para qualquer outro lugar da mansão bem longe dele?

— O Sr. Stark está com um humor dos diabos hoje — digo do nada, maldição!

Eu pretendia apenas preencher o silêncio com algum comentário despretensioso e seguir meu caminho na sequência. Agora, pergunto-me o quão atrevida a Srta. Carter está me julgando por falar assim do meu patrão.

— Eu não devia ter dito isso. Não é da minha conta.

Minhas bochechas ardem, enquanto a amiga de Howard me encara com curiosidade, porém não com o julgamento que eu esperava. Seu olhar beira à... diversão?

— A senhorita pode ir vê-lo, de qualquer forma — aconselho. —Tenho certeza que o Sr. Stark te tratará bem.

Até porque o problema dele é comigo, não com ela.

— Não me diga que Howard te tratou mal... — Carter estreita o olhar de novo, soando descrente e intrigada. — É estranho, não é do feitio dele fazer isso com as mulheres.

Sinto um nó querendo surgir na garganta. Luto contra ele e desconverso rápido:

— Não foi nada de mais. Srta. Carter, se der licença...

Não tenho tempo de concluir e sair pela tangente porque ela fala por cima de mim:

— Nesse caso, eu prefiro não vê-lo agora. Se está de mau humor, é melhor deixá-lo sozinho.

O que ela espera que eu diga agora?

Sem querer me comprometer, limito-me a assentir com um meneio de cabeça e dou o primeiro passo para me afastar.

— Posso acompanhá-la?

Estanco no lugar e volto a atenção para a Srta. Carter mais uma vez. E, mais uma vez, deve ficar nítido no meu semblante que não entendi o seu ponto, pois ela acrescenta a explicação logo depois:

— O Sr. Jarvis precisou sair, foi acompanhar Ana em uma consulta médica. Eu estou meio entediada, adoraria conversar um pouco e Angie falou tão bem de você que eu fiquei curiosa.

Sinto um leve pânico. O que será que a nossa amiga em comum contou sobre mim?

— Nada comprometedor, não se preocupe. Ela só me disse que vocês são vizinhas no Griffith, que ficaram amigas e que você é uma ótima pessoa — a Srta. Carter esclarece em tom simpático, quase como se tivesse lido meu pensamento. — Prometo não atrapalhar o seu serviço, Srta. Carbonell. Eu só adoraria conhecê-la melhor e que possa me conhecer também. — Ela abre caminho, indicando o corredor à nossa frente. — Podemos?

Hesito diante dela. Não sei se é uma boa ideia ter qualquer aproximação com a melhor amiga de Howard Stark.

Por outro lado, dispensar o convite seria grosseiro e poderia levantar alguma suspeita. Além disso, passar algum tempo com alguém agora pode ser uma oportunidade de me distrair e esquecer, por alguns minutos que sejam, a mágoa que martela dentro de mim pela discussão com o estúpido do Howard.

E tem também o fato de que a Srta. Peggy Carter desperta minha curiosidade. Ela é uma mulher forte e misteriosa, será interessante saber mais ao seu respeito. Quem sabe até consigo descobrir no que exatamente ela trabalha e os detalhes da relação de negócios que mantém com Howard?

Por tudo isso, endireito a postura e me pergunto: por que não?

— Eu vou começar arrumando o seu quarto, se quiser me seguir...

Ela esboça outro sorriso, claramente satisfeita por eu ter aceitado lhe fazer companhia.

— Perfeito! — diz com um inconfundível sotaque inglês.

Notas finais
Sentiram um cheirinho de amizade Peggy & Maria no ar? Sentiram certo! Não vou defender o Howard nesse capítulo, apenas dizer: gentalha, gentalha!!! Desculpem pela demora, pessoinhas! Minha vida tá corrida, mas vou continuar atualizando essa fic que tanto amo ♥ Estou com comentários atrasados para responder, prometo colocar em dia até a próxima atualização, ok? Muito obrigada pelo carinho ♥ Beijokas!