Gênio Infame, Dama Mordaz

52 Circunstâncias Tórridas


No qual a nossa heroína é mordida por algum bicho.



Por um momento, acho que as palavras do patife foram fruto da minha imaginação. Mas logo me convenço de que não posso ter imaginado tal coisa, afinal ele foi claro e direto. Eu não fiquei surda nem maluca. Case comigo foi exatamente o que acabou de escapar dos seus lábios.

Meu Deus.

Não consigo respirar. Não consigo falar. Nem pensar direito porque... Bem, porque Howard ainda está em cima de mim. Dentro de mim. Olhando-me com uma expectativa tangível, aguardando a resposta ao seu... ao seu... Case comigo.

Minha mente rodopia, como se eu tivesse sido lançada em um vórtice de repente. O coração está agitado no centro do peito e meu olhar, sem dúvida muito atordoado, percorre o rosto de Howard como se o visse pela primeira vez.

Sinto-me meio fraca e anestesiada. O peso do patife, antes tão aconchegante, agora me sufoca um pouco.

Pisco os olhos algumas vezes, obrigando-os a manter o foco no rosto dele. Com um esforço, enfim reencontro um fio de voz e consigo romper o silêncio:

— Eu...

Engulo em seco enquanto Howard, ainda mais ansioso, se prepara para ouvir o resto.

Fecho a boca.

Que resto?

Abro a boca de novo.

— Água... E-eu preciso de água!

Howard franze o cenho. E essa é a última expressão que vejo já que, um milésimo depois, empurro-o um pouco (talvez muito) para me desvencilhar e escapar da cama o mais rápido que consigo.

Sinto-me livre e inundada pelo oxigênio que respiro profundamente. Só que também me sinto um tanto vazia e desolada sem o calor do corpo que me envolvia, não sufocava, percebo agora.

Resisto ao desejo instintivo de voltar à cama, para os braços do patife, e pego a primeira coisa que vejo no chão para cobrir a nudez e acalentar o frio repentino. Visto-me com o roupão brega dele.

De costas para a cama, amarro bem a faixa em um nó frontal, percebendo que minhas mãos estão tremendo durante o processo.

Por que, afinal, estou tão abalada e me comportando de maneira tão patética?

Talvez porque da última vez que alguém demonstrou a intenção de se casar comigo não foi sincero, e sim uma mentira declamada por um homem ardiloso que só pretendia me usar e descartar depois.

Por outro lado, eu sei que Howard não é como meu ex-noivo William, que não é um cafajeste, que não está me enganando, eu sei que ele me ama. Eu sei!

Ainda assim, vejo-me sabotada por essa parte meio... traumatizada e assombrada por uma dúvida que sempre esteve aqui nos meus recônditos, sobre a qual eu procurava não pensar e que agora veio à tona com força total.

Será que alguém, algum dia, desejará se casar comigo de verdade?

— Eu peço a sua mão e o que você tem a me dizer é que precisa de água? Magoei.

Não há ressentimento na voz de Howard, apenas confusão genuína e até uma nota de bom humor, o que silencia o fantasma do passado por um momento e me deixa aliviada o bastante para me voltar na direção da cama.

Ele permanece deitado, só que agora está posicionado de lado e usa um dos braços como apoio para o rosto enquanto me observa com mais atenção. Como se também estivesse me vendo pela primeira vez na vida.

— Desculpe — peço sem jeito, amassando a faixa do roupão entre os dedos, sem saber ao certo pelo que exatamente estou me desculpando.

O gênio infame arqueia uma sobrancelha.

— Pela sede repentina, por ter saído da cama como se tivesse levado um choque ou por ainda não ter respondido a minha pergunta?

Respiro fundo, obrigando minha mente e meu coração a se acalmarem. O suficiente para me dar conta de que...

— Não foi uma pergunta.

Howard permanece em silêncio, a testa franzida mais uma vez. O lençol ainda oculta seu corpo da cintura para baixo e deixa o peito nu à mostra. E eu não sei por que reparei em tal detalhe do seu corpo agora. Não é relevante que Howard esteja pecaminosamente lindo...

— Como assim?

Tenho um sobressalto, temendo por um momento ter verbalizado o pensamento lisonjeiro.

Obrigo minhas pernas a me levarem até o aparador que fica na parede oposta à cama. Espalmo a moringa de vidro que repousa sobre o pequeno móvel e, rezando para não derrubar o copo, sirvo-me de um pouco de água.

Bebo um longo gole. E outro. Minha garganta está apertada e a água desce com dificuldade.

O que está acontecendo comigo? Pânico?

Mesmo de costas, sei que a atenção de Howard está voltada para mim. Sinto o seu olhar em minhas costas. Com certeza, ele também está sedento. Para descobrir que bicho me mordeu.

Deixo o copo vazio sobre o aparador e me viro na direção dele devagar.

— Você não perguntou — esclareço com cuidado. — Na verdade, você disse, em um impulso, case comigo.

Talvez eu só esteja querendo ganhar tempo. Porque preciso de algum tempo para processar essa situação. Ou talvez o patife também precise avaliar melhor o que acabou de me propor e nem saiba disso.

Ele pensa por um longo momento. Sem desviar dos meus olhos nem por um instante. Depois, esboça um sorriso de alguém que diz tem razão, leva a mão ao peito de modo quase teatral e...

— Raio de sol, você gostaria de se casar comigo, tornar-se definitivamente minha e me fazer ainda mais seu?

E termina com um floreio de mão.

Meu estômago afunda e o coração dispara com força sob o impacto dessas palavras. Cambaleio um pouco para a frente e busco apoio na cama.

Embora minha vontade seja de me jogar nos braços do patife de novo, sento-me na beirada do colchão, a uma distância relativamente segura dele para conseguir raciocinar direito e admitir o óbvio:

— Claro que gostaria. Muito.

Seu rosto é iluminado por um sorriso que surge primeiro nos olhos, mas que dura pouco na boca. Howard parece absorver melhor a resposta evasiva e desconfiar de algo implícito nela.

— E você vai se casar comigo?

Não posso negar que a ideia aquece meu peito e tudo o que mais desejo é gritar um decidido sim. Um alegre e esplêndido sim!

O problema é que aquela maldita parte de mim ainda está resistente em sonhar tão alto.

— Bom... Depende.

Afinal, e se Howard não tiver certeza do que está propondo? E se o pedido saiu por puro impulso mesmo? E se ele só estiver empolgado demais agora e mudar de ideia mais tarde? E se tudo isso for apenas um sonho muito bom?

— Depende do quê?

Hesito, sem saber ao certo como explicar melhor. Irritada comigo mesma, obrigo-me a dizer a primeira coisa que me vem à mente:

— Você quer se casar comigo, patife?

O quarto mergulha em um silêncio quase sepulcral. Howard fica meio pálido e me encarando como se, de repente, antenas tivessem nascido no topo da minha cabeça.

Sinto que vou me arrepender de ter perguntado isso assim. E me arrependo de fato quando ele ri com ar irreverente e finge choque:

— Está pedindo a minha mão? Que moderna! E meio redundante já que eu perguntei primeiro, lembra? Mas tudo bem, que seja...

Ele muda de posição mais uma vez, sentando-se na cama com as costas apoiadas na cabeceira. Com o movimento, o lençol desliza perigosamente para baixo e por um triz não revela demais.

Perco o fôlego e me obrigo a voltar a atenção apenas para seu rosto novamente. O que me faz perder o fôlego de qualquer modo, pois o gênio infame não está mais rindo. Ele está muito sério, mais bonito do que antes e mais perigoso do que nunca, olhando-me de volta com uma intensidade indecente quando diz:

— Sim, eu aceito com alegria que você faça de mim o que quiser. O que bem entender, feiticeira. Inclusive, seu respeitável marido.

Sinto a garganta seca e as pernas um tanto fracas. Nesse momento, Howard Stark não se parece em nada com um respeitável marido. Está mais para um... insaciável e libertino marido.

Não é uma tarefa fácil resistir, porém reúno força mais uma vez, afasto-me alguns passos da cama e tento soar mais direta:

— Eu não perguntei se aceita, perguntei se você quer. Se quer mesmo casar comigo ou...

Howard arqueia as sobrancelhas e cruza os braços, aguardando que eu complete a frase, visivelmente curioso.

— Ou?

Vacilo um pouco e engulo em seco. Contudo, preciso ter certeza e, agora que comecei, melhor ir até o final. Ergo o queixo e concluo o raciocínio:

— Ou apenas acha que quer?

Pela primeira vez, Howard fica ofendido. Vejo isso nos seus olhos mais estreitos na minha direção e nas narinas dilatadas por uma expiração forte que ele solta instantes depois do que ouviu. Mesmo assim, não retiro a pergunta, não posso viver com essa dúvida, mesmo que ele se ressinta por eu tê-lo questionado assim.

— E por que raios eu apenas acharia que quero me casar com você, Maria?

Sinto certo alívio porque o tom dele, apesar de claramente insatisfeito, está controlado. Ao mesmo tempo... Howard vai mesmo me fazer explicar em detalhes o que estou tentando dizer? Não fui clara o bastante?

Pela expressão implacável cravada em mim, percebo que não há escapatória, então expiro com força também e aceito o desafio:

— Porque você não estava pensando direito quando disse case comigo.

— Ah, não?

— Não — afirmo.

Ele não se dá por satisfeito e rebate um segundo depois:

— E por que está tão convencida disso?

Ora, por quê?

Rio sem humor.

— Porque nós estávamos no meio de... Digo, no final de...

Meu rosto arde com a lembrança.

— No meio ou no final?

Howard está se divertindo com a situação ou é impressão minha?

— Argh! Não importa! Nós estávamos envolvidos e...

— Unidos? — ele sugere com uma naturalidade provocante. — Feito animais no cio?

Suas palavras me chocam. E (maldição) despertam uma inquietação no meu baixo ventre.

De alguma forma maligna, Howard sabe como me sinto nesse exato instante, pois um sorrisinho presunçoso estica o canto de sua boca.

É difícil retomar o raciocínio. Contudo, tento com toda a determinação que consigo reunir:

— O que eu estou dizendo é que era um momento... um momento...

Determinação insuficiente, percebo.

Howard parece ponderar uma forma de me ajudar com as palavras mais uma vez.

Ah, que Deus o proteja! Que ele não abra a boca de novo!

— Um momento íntimo de puro prazer?

Respiro fundo e ignoro o arrepio que a lembrança do tal momento somada à voz provocante do patife descarado provocam em mim.

— Exato — concordo entredentes.

Para constar, é profundamente irritante que ele me interrompa com tais insinuações. Primeiro, porque eu não pedi sua ajuda. Sou perfeitamente capaz de me fazer entender. Se ele ficar quieto e não parecer tão bonito.

Segundo, porque é claro que Howard não pretende apenas ajudar, ele também busca se divertir com o meu embaraço e me desconcertar ainda mais no processo.

Por outro lado, pelo menos demonstra interesse em alimentar a conversa e descobrir aonde eu quero chegar com ela. O que me leva a reformular:

— Você há de concordar comigo que não é comum pedidos de casamento acontecerem em meio a circunstâncias tão tórridas.

Como uma maldição, sinto o rubor tomar conta do meu rosto mais uma vez. Na verdade, meu corpo inteiro arde em chamas nesse momento. Chamas que crescem e se espalham enquanto o patife me encara no mais intenso dos silêncios.

O momento dura uma eternidade até que ele, claramente fingindo choque, questiona:

— Você costuma perguntar às mulheres por aí se elas foram pedidas em casamento assim? Mais precisamente quando se encontravam na cama com seus parceiros? Nuas e embaixo deles?

Ah... Como ele me irrita!

— Howard...

— Talvez em cima deles? Que indiscreta, raio de sol. Francamente...

— Howard Stark! — ralho com a voz trovejante, fechando as mãos com força na lateral do corpo.

O atrevido cruza os braços atrás da cabeça e tem a desfaçatez de me brindar com um sorriso sonso. E belo.

— Sim, minha rainha?

Respiro fundo e, com um dedo em riste, dou um passo à frente.

— Você me entendeu muito bem!

— Ainda não. — Ele também levanta o indicador. — Mas juro que vou morrer tentando.

Nesse momento, tenho a sensação que o chão dá uma leve estremecida sob meus pés descalços. De fato, chego a cambalear um pouquinho. Só que logo percebo que essa falta repentina de equilíbrio nada tem a ver com qualquer abalo sísmico no mundo real. Nenhum terremoto ameaça Nova York, o tremor é dentro de mim mesma.

Juro que vou morrer tentando.

Eu não esperava por essas palavras. Não sei direito o que fazer com o tom de promessa implícito nelas, mas, sem sombra de dúvida, gosto muito de ouvi-las. Elas dissipam minha irritação com o patife, abalam minha estrutura e me fazem... amá-lo ainda mais.

Quero dizer sim. Abro a boca para dizer sim.

— Foi um pedido de casamento impulsivo. Sem reflexão.

É o que sai no lugar porque, apesar de reconhecer o amor dele, uma parte de mim ainda não acredita que Howard queira mesmo se casar comigo. Que qualquer homem queira. Ele deve ter se precipitado, só isso.

Engulo em seco, voltando a sentir aquele frio que me dominou quando eu saltei da cama há pouco.

Howard não dá qualquer sinal de que vai dizer alguma coisa e sua expressão, antes tão irreverente, é uma completa incógnita agora.

Decido ir adiante então:

— As palavras escaparam no calor do momento. Você não pode ter certeza. Não assim, não cem por cento. É isso que eu queria dizer... desde o começo.

E tão logo coloco o que estou sentindo para fora, arrependo-me um pouco. Afinal, e se Howard perceber que realmente foi uma atitude intempestiva? E se ele se der conta de que ponderar melhor sobre o assunto e retirar o pedido por enquanto não é uma má ideia?

Ora essa! E não é isso mesmo que eu quero? Estar certa e conceder a ele mais tempo para pensar sobre esse passo tão sério? É melhor assim, por mais que doa. Melhor não me iludir de novo.

Após um longo e pesado silêncio assimilando o que ouviu, o patife expira meio cansado e diz muito sério:

— Quer saber? Você tem razão.

Sou inundada por uma onda de choque ao ouvir essas palavras. Palavras que não deixam margem para má interpretação.

Eu tenho razão.

O choque dá lugar à decepção porque, no fundo, eu não queria estar certa. Aliás, daria qualquer coisa para estar completamente enganada. Só que não estou. Howard admitiu.

Posso ter ganhado a discussão, porém não me sinto vitoriosa nesse momento. Muito pelo contrário, sinto-me profundamente derrotada. Além de constrangida porque não tenho a mínima ideia do que fazer agora com a confirmação de que ele... não quer se casar comigo. Pelo menos, não tão cedo. Ele precisa pensar melhor, afinal.

E agora? Devo voltar para a cama e simplesmente dormir? Como disfarçar o desconforto e a tristeza ao lado dele?

Vestir minhas roupas e ir embora? Um pouco dramático, eu diria. Além disso, a rua está bem deserta a essa hora. Ele teria que me levar de carro, e o silêncio entre nós dois no caminho até o Griffith seria aterrador.

Fingir que nada aconteceu e que está tudo bem pelo menos até o dia amanhecer? E então sair à francesa antes dele acordar? Que covarde, Maria!

— Você tem razão em parte.

A voz de Howard me arranca das divagações e ergo o olhar para encontrar o dele.

— O quê?

Ele estreita o olhar na minha direção de um jeito... carinhoso, o que me deixa mais confusa.

— Eu te pedi em casamento de forma impulsiva e as palavras escaparam mesmo no calor do momento. Mas só porque o pedido foi pronunciado em meio a circunstâncias tórridas, como você disse, não quer dizer que eu não refleti antes. Não quer dizer que eu não pretendia te pedir em casamento em algum momento entre essa noite e amanhã de manhã, por exemplo. E muito menos que eu não tenho cem por cento de certeza do que quero. Eu tenho mil por cento, Maria. Eu quero você como minha mulher.

Dessa vez, algum abalo sísmico deve estar realmente acontecendo na cidade porque sinto cada fibra do meu corpo estremecer.

— Você q-quer...

Acho que Howard não ouve meu fraco fio de voz, pois fala por cima de mim:

— Eu já queria antes de você chegar essa noite. Quis quando você estava nua comigo nessa cama. Quero agora, com você emburrada e vestida bem aí. E te dou a minha palavra que ainda vou querer o mesmo, com a mesma intensidade, amanhã. E depois de amanhã. E sempre.

Meu Deus. Ele quer.

Sinto o ar me faltar e o coração dar um salto no centro do peito.

O convite para vir aqui essa noite... Howard planejava mesmo me pedir em casamento, não foi uma decisão tomada por mero impulso. Ele quer dar esse passo. Quer de verdade. E é claro que eu quero também, ora essa!

Sinto meus olhos estranhamente marejados. Uma emoção muito forte crescendo e se alastrando dentro de mim, expulsando o fantasma de qualquer trauma do passado, até que um som escapa da minha garganta. Uma risada. Repentina e leve.

Um dos momentos mais marcantes e lindos da minha vida, e eu duvidei? Quase estraguei tudo? Agi feito uma idiota? Qual o meu problema, afinal? Que estúpida! Que boba! Que... absurdo!

Outra risada. Essa me arranca o fôlego. Aí vem outra e não consigo resistir, simplesmente me entrego. Levo a mão à barriga e me curvo um pouco porque chega a doer. Que tonta que eu fui!

— Primeiro, foge da cama. Agora, tem uma crise de riso. O que estou fazendo de errado, Santo Einstein?

Faço um esforço para me controlar diante da expressão contrariada de Howard.

— Oh... Nada!

Howard. Meu noivo.

Uma nova risada ameaça surgir, e eu a sufoco fechando os olhos por um momento.

— Você não fez absolutamente nada de errado. Eu é que fiz. — Sentindo-me segura e amada, desfaço o laço do roupão. — Deixe-me consertar.

O patife cruza os braços e vira o rosto, resmungando baixinho:

— Não pense que será assim tão fácil.

A peça desliza pelos meus ombros com suavidade, resvala no quadril por um breve instante e encontra repouso rente aos meus pés. Sinto meu corpo inteiro se arrepiar, porém não é de frio. Não estou com frio. Na verdade, é justamente o oposto. Além de segura e amada, sinto-me quente e um tanto desavergonhada nesse momento, como se não houvesse nada mais natural no mundo do que isto, do que ficar nua na frente de Howard Stark, como se fôssemos uma coisa só ou, pelo menos, a extensão um do outro.

Ele, devo reconhecer, até tenta manter a pose aborrecida e resistente por algum tempo. Não por muitos segundos, pois acaba olhando para mim de canto e então não consegue mais desviar a atenção.

Como se fosse possível, sinto-me ainda mais despida por seus olhos cravados em mim. Olhos que mais parecem duas brasas e cheios de promessas. Acredito em todas pois todas são verdadeiras, não tenho a mínima dúvida.

— Ok, você venceu! — Howard afasta parte do lençol como um convite, soando meio ansioso e sem fôlego.

Sem pensar duas vezes, junto-me a ele com um sorriso de orelha a orelha. E antes mesmo de sentir o tecido cair sobre mim, enrosco-me ao corpo dele, agarro-o pela nuca e mergulho em sua boca com um beijo que faz meus lábios arderem e os braços dele me envolverem com força. Um beijo voraz correspondido com a mesma avidez, com o mesmo amor. Um beijo que me faz flutuar e esquecer de tudo até que... o patife afasta o rosto e me encara com o cenho franzido.

— Só para ficar claro, isso é um sim? Porque parece um sim.

Oh, certo! Eu ainda não verbalizei, não é mesmo? E o patife merece uma resposta, claro!

Sorrio devagar e deslizo o indicador por sua face, suavizando a ruga de preocupação na testa.

— Não é um, são mil. Se você tem mil por cento de certeza, eu só posso responder mil vezes sim.

Desenho o contorno de sua boca com a ponta do dedo, antes de buscar seus olhos mais uma vez. Há expectativa e doçura neles. E posso apostar como o seu coração está tão acelerado quanto o meu agora.

— Sim, patife, eu aceito mil vezes me tornar a sua Maria Stark e fazer de você um homem de respeito. Sim. Com certeza, sim. Absolutamente sim porque não poderia ser outra resposta. Porque eu te amo tan...

Sua boca pressiona a minha de repente, silenciando-me. Mesmo de olhos fechados, percebo que o patife se move um pouco, como se esticasse o braço na direção da mesinha de cabeceira. Logo ouço a gaveta se abrir e seus dedos revirarem o interior.

Quando enfim encontra o que procurava, Howard afasta o rosto e coloca uma caixinha aveludada entre nós. Meu coração dispara e um ardor me leva a piscar os olhos algumas vezes. Com agilidade, ele abre a caixinha, revelando um anel prateado, cravejado de pedrinhas cristalinas de um brilho intenso. Diamantes, deduzo, embora não tenha muito conhecimento sobre joias.

— Amo você, dama mordaz. Mais do que ontem e menos do que amanhã, pode apostar.

Não preciso apostar. Eu sei. Eu sinto. Howard me ama e eu o amo. Iremos envelhecer juntos e seremos felizes para sempre.

Movida por essas certezas, estendo a mão para ele. Sem demora, o anel se encaixa perfeitamente em meu anelar. Fico admirando o brilho e refletindo sobre o significado da joia.

— É muito lindo.

Sem modéstia, o patife assente:

— Eu sei, tenho bom gosto.

Sorrio, incapaz de discordar, e ele me dá um beijo rápido antes de dizer muito animado:

— Vou escrever um anúncio para o jornal amanhã. Para espalhar a boa nova!

Meio alarmada, sugiro:

— Posso ajudar com as palavras? Só por cautela. Da última vez que você escreveu algo para publicar no jornal, não deu muito certo.

O patife arqueia uma sobrancelha de modo provocante.

— Deu muito certo. Você está na minha cama. Nua, devo lembrá-la.

Por baixo do lençol, belisco seu braço. Howard se encolhe um pouco, sufocando um gemido, enquanto eu esclareço:

— Foi um anúncio escandaloso! Impróprio, inadequado e todos os sinônimos que existirem para aquilo.

Com um ar de vitória, Howard mostra o anel em meu dedo e insiste:

— Nua, exceto por isto.

Abro a boca para retrucar. E fecho em seguida.

Droga. Ele tem razão. Não em parte, e sim totalmente.

Por mais inapropriado que aquele anúncio de emprego tenha sido, eu vim. Movida pela descrença, por indignação, pela necessidade de ver com meus próprios olhos a residência do homem descarado por trás de palavras tão infames.

Eu vim para atirar uma pedra em sua janela, e encontrei o meu lugar aqui. Com ele. Que bela ironia e artimanha do destino...

Quase caio na risada de novo. Em vez disso, repouso a cabeça em seu peito, ouço seus batimentos se acalmaram pouco a pouco e faço um pedido:

— Só me prometa que será um anúncio decente dessa vez.

Howard não responde de pronto. Sob a palma da minha mão, sinto o coração dele dar um salto.

— Não se preocupe, raio de sol. Desse anúncio, você vai gostar.

O tom misterioso acende o alerta mais uma vez e, tomada pela curiosidade, busco seu rosto.

Quero arrancar alguma coisa do patife e chego a abrir a boca, só que ele se aproveita do meu movimento para unir nossos lábios mais uma vez. Devagar e com suavidade, envolve a boca na minha com um beijo cálido. Logo profundo. Um beijo que aquece o corpo e a alma. Impossível de resistir.

Em dado momento, ele se afasta alguns centímetros e questiona com a voz rouca de desejo:

— Está cansada?

Minha resposta é beijá-lo de novo, puxá-lo para cima de mim e envolvê-lo num emaranhado de braços, pernas e muito amor.

Notas finais
Mil perdões pela demora de longos meses, eu pensava na história com muita frequência, mas meu foco sempre era roubado com outras coisas. Não gosto de passar tanto tempo sem escrever e atualizar, espero me organizar melhor daqui para frente para trazer pelo menos um capítulo maroto por mês. Desculpem mesmo, chuchus! Vergonha define ehehehehe Obrigada a todos que não desistiram de mim kkkkkk Beijos e inté o próximo capítulo! Fé em Cher!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.