Gênio Infame, Dama Mordaz
5 Bordas Verdes
Notas iniciais

No qual nossa heroína faz uma descoberta surpreendente sobre os próprios olhos. Graças ao nosso herói.
Como se não bastasse ter sido surpreendida pela desagradável aparição do Sr. Stark na Marsh’s Bakery e ter me visto obrigada a aturá-lo enquanto despejava seus gracejos e sorrisinhos, que deve julgar — erroneamente — muito sedutores, agora me vejo diante de uma situação muito pior. Isso porque o inconveniente playboy decidiu me provocar ainda mais, alegando que encontrou o meu “brinco” e colocando diante de mim aquela maldita pedra que perdi em sua mansão.
Meu primeiro desejo é lhe dizer uma porção de impropérios pela afronta, porém algo me diz que tal postura levantaria suspeitas. Talvez seja a confirmação da minha culpa que ele espera. Então permaneço muda, não que isso me ajude muito...
— Não se preocupe, raio de sol — o atrevido diz com um sussurro, recolhendo a pedra e enfurnando-a no bolso de novo. — Eu vou poupá-la do constrangimento. Não precisa explicar por que levou isso para dentro da minha casa.
Pisco, desnorteada pela maneira direta como ele me acusou. A reação diante da sua insolência vem de um único jeito:
— Ótimo, porque eu não faço a menor ideia do que o senhor está falando.
Defensivo e com negação, claro.
Um sorriso incrédulo e muito cretino surge no rosto dele.
— Engraçado... — murmura, estreitando o olhar, como se alguma coisa em mim tivesse atraído sua atenção de forma muito peculiar.
Irritada e acuada ao mesmo tempo, pergunto:
— O que é engraçado?
O gênio infame me escrutina por mais um longo instante.
— Seus olhos. As bordas ficam mais escuras quando você mente. Um verde mais intenso, sabe?
Ah, essa foi muito boa! Pena que ele não se atentou a um pequeno detalhe.
— Bela tentativa, mas eu não estou mentindo e os meus olhos são azuis.
Para minha surpresa, Stark insiste:
— Não em volta deles.
— São azuis também — afirmo, começando a perder a paciência. Ou o resto de paciência que vinha mantendo até aqui.
— Certamente você tem um espelho na bolsa. Ou só gosta de carregar pedras por aí?
Sentindo-me desafiada, não hesito em revirar a bolsa e logo encontro o espelho ovalar que pertenceu à minha mãe. Deslizo o dedo pela borda dourada, acionando o fecho e ele se abre. Aproximo a superfície espelhada do rosto, depois de lançar um olhar nada amigável para o Sr. Stark. Arregalo bem os olhos esperando enxergar exatamente o que vejo desde que me entendo por gente: olhos azuis, pura e simplesmente azuis em sua totalidade.
Entretanto, para meu espanto...
— Minha nossa! São verdes! — Abro ainda mais os olhos e mexo o espelho buscando um ângulo mais nítido. — As bordas são mesmo verdes. Eu nunca tinha reparado nisso antes...
Um segundo se passa até que ouço a voz aveludada do ser do outro lado da mesa:
— Bom, eu reparei.
Por instinto, pego-me olhando para ele por sobre o espelho. Sem graça e muito, muito contrariada, rompo o contato visual logo depois e guardo o espelho de volta na bolsa. Demoro bastante nessa simples tarefa, enquanto tento compreender por que minhas bochechas ruborizam de novo e, mais uma vez, por causa desse homem desprezível.
Depois de um silêncio longo e estranhamente embaraçoso, ele endireita a postura, como se despertasse de um transe, e retoma a conversa:
— Por que você não quer trabalhar para mim? Algo pessoal? Eu tenho certeza que nunca te vi antes, me lembraria dos seus tornozelos, mas nunca se sabe...
— Não é nada pessoal — nego sem nem pensar. — E o que tem de errado com os meus tornozelos?
— Nada de errado, são perfeitos. — Ele arqueia as sobrancelhas de um jeito insinuante. — E esse é o problema.
Um sentimento de incredulidade me domina ao ouvir a explicação, porém não dura muito, afinal de contas...
— O senhor é um pervertido e nem ao menos disfarça. Francamente!
— Eu prefiro admirador da beleza feminina — faz questão de me corrigir, com o indicador em riste. Bebe um pouco do café antes de mudar o foco da conversa: — Você disse ao Jarvis que eu te lembro uma pessoa. É um absurdo porque não existe ninguém como eu.
— Ah, existem muitos homens como o senhor.
— Olha só. Algo pessoal.
— Não é pe... — interrompo-me, respirando fundo.
— Uma transferência, na verdade — ele arrisca. — Você está me julgando por outra pessoa que conheceu. Alguém que a decepcionou? Muito?
Diante desse argumento, permaneço calada. Em parte, porque seria muita hipocrisia negar. E principalmente porque é um assunto no qual não quero remexer. William Mitchell é um tópico doloroso e enterrado. Além disso, seria humilhante conversar sobre os meus dramas pessoais com um estranho. Ainda mais esse estranho sendo quem é.
— Você precisa do emprego.
Não foi uma pergunta, ainda assim me ouço replicando:
— Eu preciso de qualquer emprego.
— Ótimo! — Howard Stark apoia as costas no espaldar do banco, como alguém que venceu uma discussão e faz um gesto com a mão. — Eu estou contratando.
— Não do emprego que o senhor está oferecendo.
Para meu desespero, ele se mostra tão teimoso quanto eu e usa minhas palavras contra mim:
— Você disse qualquer emprego, isso inclui o que estou oferecendo.
A essa altura, simplesmente explodo:
— Deus do céu! O senhor vai me enlouquecer!
Um sorrisinho enviesado se desenha em seus lábios, adornado pelo bigode ridículo, e o magnata tece de um jeito pretensamente sedutor:
— Raio de sol, você não faz ideia.
Diante disso, rio sem humor e critico seu comportamento impróprio mais uma vez:
— Viu? O senhor está ultrapassando o limite de novo! Deve ser como respirar, aposto!
Percebo que essa conversa já foi longe demais e que o melhor que faço é ir embora. Abro a bolsa, procurando algumas moedas que sejam suficientes para arcar com o meu café.
— Só... aceite o emprego, mulher!
Há uma humildade tão genuína e ao mesmo tempo impaciente em seu tom de voz que, por um momento, hesito. Paro de contar as moedas e volto a atenção para ele mais uma vez. Suas mãos estão levemente erguidas, num sinal de rendição. Com o olhar sério e cravado no meu, ele continua:
— Prometo que vou me comportar. Respeitá-la, tratá-la apenas como uma funcionária, ignorar a sua beleza estonteante e o efeito que causa em mim... — Ele faz uma careta, repreendendo-se ao praguejar: — Droga! É mesmo como respirar.
Nem sei por que perdi o meu tempo!
Com um gesto firme, coloco as moedas sobre a mesa e me levanto, disposta a ir embora de uma vez por todas. Com a expressão fechada e o olhar fuzilante na direção do outro lado da mesa, meneio a cabeça em despedida.
— Não, espere! A senhorita tem a minha palavra e todo o meu oxigênio. — Stark se levanta também. Numa performance quase teatral, repousa a mão direita sobre o coração. — Juro solenemente que serei um perfeito cavalheiro.
Sem pestanejar por um segundo que seja, disparo com um esgar:
— Impossível! Para isso o senhor teria que nascer de novo. Umas mil vezes!
O silêncio paira por todo o lugar, porque todos pararam de conversar justamente enquanto eu despejava tais palavras. Sinto os olhares todos voltados para nossa mesa e a atmosfera pesando de choque e expectativa.
Sem graça, percebo que posso ter ido longe demais e ofendido o Sr. Stark de verdade. Ele me encara com uma expressão indecifrável, tomado por certo assombro, o que reforça essa teoria.
Estou quase engolindo meu orgulho e lhe pedindo desculpas pelo atrevimento, quando ele ri. Ele simplesmente ri! Jogando-se de volta na cadeira logo depois, solta mais uma gargalhada, enxuga os olhos com o dorso da mão.
Não preciso olhar em volta para ter certeza que somos o centro das atenções mais do que nunca. Meu rosto queima de vergonha.
— O que é tão engraçado agora? — questiono, baixinho, com uma nota de ira e outra de confusão.
— Isso! — Retomando o fôlego, ele faz um círculo com a mão e engloba nós dois. — Eu nunca me diverti tanto com uma mulher que me insulta o tempo inteiro.
Sem outra coisa melhor a dizer, endireito a postura e encerro a insana conversa:
— Ora... Pois saiba que o prazer foi todo meu. Passar bem e até nunca mais, Sr. Stark.
Três passos. Dou apenas três passos e sou impedida de continuar a marcha desenfreada até a saída do estabelecimento. Algo me segura. Segura minha mão, atraindo meu olhar e me fazendo estancar ao lado da mesa, bem perto dele. Perto demais para o meu gosto.
Experimento um estranho choque quando vejo os dedos que aprisionam os meus. Uma força gentil me prendendo no lugar. Cativa nesse momento.
Um calor surge onde sua pele encosta na minha, espalhando-se rapidamente e viajando até o centro do meu peito. Meu coração erra uma batida.
Que diabos foi isso?
Abro a boca, mas não consigo dizer nada. O que não faz o menor sentido porque sempre tenho algo a dizer, algo pronto na ponta da língua, sempre!
Bom, não dessa vez, pelo visto.
Sei que o natural seria puxar a mão, me livrar do seu toque o mais rápido possível, porém... não o faço. Não o faço porque a sensação é surpreendentemente boa, o que me deixa mais abismada do que a ousadia dele em me tocar.
Seus olhos, antes fixos no próprio gesto, procuram os meus ao mesmo tempo em que busco os dele. Se não fosse ridículo, eu poderia jurar que o Sr. Stark também sentiu isso. Seja lá o que isso for.
— O aluguel do Griffith não é barato — diz por fim, num tom amigável. — Seus tornozelos são lindos, mas eu reparei que os sapatos estão um pouco gastos. Você precisa do emprego, admita. Aceite a vaga, comece amanhã. Procure o Jarvis, ele te explicará tudo. E o mais importante...
Ele solta a minha mão devagar, como se no fundo não quisesse fazer isso. Um frio inexplicável domina cada parte de mim que antes ardia em resposta ao seu toque atrevido.
— Se a resposta for sim, vá sem pedras na mão dessa vez, Srta. Carbonell.
Stark arqueia uma sobrancelha ao dar essa última alfinetada. Depois, meneia a cabeça, deixando-me livre para enfim ir embora.
E é exatamente o que faço. Não logo em seguida. Demoro alguns instantes, mais do que o normal, para me recompor e seguir rumo à porta. As pernas tomadas por um inconveniente tremor. O coração ainda incerto no seu ritmo.
Sigo pela calçada sem enxergar o caminho de fato. Confusa, convenço-me que só fiquei surpresa pelo Sr. Stark ter segurado minha mão. Tudo o que senti foi fruto dessa surpresa e do estresse da conversa, nada mais.
Também digo a mim mesma que a resposta para sua oferta continua imutável. Nunca, sob hipótese alguma, aceitarei qualquer coisa de homens como Howard Stark.
[...]
Com certa frequência, minha mãe costumava dizer aquele famoso provérbio popular: nunca diga nunca.
Foi impossível não me lembrar dela no fim do dia, quando voltei para o Griffith de mãos abanando e desempregada como saí de manhã. Eu não podia prever que me veria obrigada a mudar de opinião sobre a oferta de trabalho na mansão Stark. Muito menos, tão rápido. Mas aqui estou eu, reconsiderando o meu nunca.
Graças a mais um comentário da Sra. Miriam Fry sobre o aluguel em atraso e uma ameaça de despejo disfarçada de um firme convite para me retirar de bom grado já no dia seguinte, chego ao meu limite e engulo o orgulho em prol da sobrevivência.
Não tem jeito. Infelizmente, terei que reconsiderar a única coisa — pessoa — que pode me salvar nesse momento de necessidade.
Encurralada pelas circunstâncias, informo à Sra. Fry que finalmente consegui um emprego e poderei regularizar minha situação em breve.
— Ainda essa semana! — acrescento, afoita.
O sorriso azedo, porém satisfeito, que ela lança em minha direção impede que eu volte atrás na afirmação um tanto impulsiva.
— Nesse caso, estamos conversadas, Srta. Carbonell. Tenha uma boa noite.
Derrotada, caminho rumo às escadas e logo estou no andar onde fica meu quarto. A primeira providência que tomo, depois de adentrar o recinto e acender as luzes, é despencar sentada na cadeira rente à penteadeira.
Em seguida, abandono a bolsa sobre ela e encaro meu reflexo no espelho com os olhos bem arregalados, inclinando-me para a frente a fim de enxergar melhor. Não resta a menor dúvida.
Ainda não acredito que as bordas são verdes! Como aquele sujeitinho petulante descobriu isso antes de mim é um mistério.
Deixo o enigma para lá e, com cuidado, tiro os sapatos que fizeram bolhas cruéis nos meus pés devido ao tanto que caminhei por aí à procura de trabalho hoje.
É então que meu olhar recai na lixeira embaixo do móvel e noto que o cartão que o Sr. Jarvis me entregou ainda está aqui. Amassado feito uma bolinha parece me encarar com ar de vitória.
— Maldição...
Gemendo de raiva, pego-o de volta e começo a desamassá-lo sobre a penteadeira.
Amanhã bem cedo, ligarei para o mordomo a fim de avisar que mudei de ideia e estou a caminho. Para informar que — infelizmente — o Sr. Stark conseguiu o que queria. Serei a sua nova arrumadeira, afinal.
— Aquele patife — resmungo, contrariada.
Mas será apenas por enquanto, que fique bem claro! Tão logo encontre outro trabalho, não hesitarei em pedir as contas, ir embora e esquecer que um dia conheci um sujeito tão desagradável e ufano quanto Howard Stark.
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