No qual o nosso herói vai atrás da nossa heroína, fala no pretérito e revira o lixo.

Não demoro a encontrar Maria. A porta entreaberta do meu escritório permite que eu vislumbre seu vulto inconfundível lá dentro.

Titubeio perto da soleira. Respiro fundo e empurro a porta devagar, terminando de abri-la por completo de forma que eu possa adentrar o recinto.

Meio distraída com a arrumação da mesa, o raio de sol ergue o olhar por um instante, depois abaixa a cabeça como se nada tivesse visto e então se dá conta de que viu sim e torna a me encarar. De um jeito surpreso. E nada animador, devo dizer.

O que eu esperava? Uma recepção acalorada? Seria ótimo, porém preciso ser realista.

— O que está fazendo aqui, Sr. Stark?

De alguma forma, a agressividade em sua voz e o desprezo como me encara me fazem reagir de forma nada promissora também:

— Até onde me consta, eu moro aqui e não tenho que me explicar.

Nossa, Howard... Esse definitivamente não foi um bom começo para uma tentativa de reconciliação.

Antes que eu tenha chance de apaziguar os ânimos e recomeçar de um jeito mais diplomático, a dama mordaz é mais célere com sua língua afiada:

— Tem toda a razão, perdoe-me. Eu volto outra hora para terminar de arrumar. De preferência, quando o senhor estiver o mais longe possível. Assim, eu não o incomodo com a minha presença, tampouco precisarei aturar a sua.

E vem caminhando na minha direção com passos determinados. Ou melhor na direção da porta atrás de mim, com o espanador tão firme na mão que mais me parece uma arma perigosíssima.

Não duvido que Maria o usaria como tal, se julgasse preciso.

Então, era de se esperar que o instinto natural de sobrevivência fizesse eu me afastar com as mãos para o alto e lhe dar passagem sem pestanejar, certo? Ao invés disso, dou um passo à frente e me coloco bem no meio do seu caminho.

Maria estanca a um metro de mim, visivelmente surpresa. E ainda mais contrariada.

— Você pode ficar — verbalizo, como uma oferta de paz.

Ela me olha sem entender, com certa descrença até, enquanto eu procuro outra coisa para dizer nesse momento, algo para inserir o assunto que interessa, para começar a ajustar nossos ponteiros de fato. Procuro qualquer coisa para falar e simplesmente não encontro uma vírgula.

Eu, Howard Stark, que sempre tenho algo a dizer a qualquer mulher que seja, vejo-me completamente mudo diante desta aqui. Um abobalhado, como Peggy reparou bem.

Quando Maria arqueia as sobrancelhas com nítida impaciência, eu passo por ela e sigo até a mesa, estranhamente embaraçado. A cada passo, tento fazer meu cérebro funcionar de novo, pegar no tranco.

Preciso dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Vamos, Howard, vamos!

Ajudaria se eu tivesse pensado melhor antes de agir por um impulso e ter vindo atrás dela assim. E ajudaria mais ainda se eu não tivesse sido tão estúpido mais cedo. É difícil sequer formular o começo de um pedido de desculpas depois de ter sido tão grosseiro.

Apoio as mãos sobre o móvel e percorro os papéis desorganizados com o olhar.

— Eu jurava que a essa hora encontraria uma carta de demissão na minha mesa.

E tão logo essa frase ganha vida própria, percebo que também não é um bom começo. Minha vontade é engolir de volta palavra por palavra.

Fecho os olhos com força e me xingo em pensamento de coisas nada lisonjeiras.

— É isso que você quer? Que eu vá embora de uma vez?

O ressentimento na voz de Maria é como uma terceira presença no escritório. Uma presença que me atinge em cheio, me faz abrir os olhos, virar em sua direção e quase ter tempo de dizer... Não!

— Pois saiba que é isso que terá.

Mais uma vez, ela é mais rápida do que meu raciocínio. O não ainda está preso em minha garganta quando Maria ergue o queixo de modo desafiador e dispara a falar:

— Hoje não, infelizmente. Mas assim que eu tiver outra ocupação definida, pode ter certeza que haverá uma bela carta de demissão na sua mesa só aguardando por você. Por ora, eu preciso desse maldito emprego. Espero que entenda que é só por isso que ainda estou aqui.

Ela me dá as costas e caminha rumo à porta.

Preciso impedir que ela saia! Preciso dizer alguma coisa para que fique! Preciso pensar em algo agora!

— Sabe o que eu não entendo? Você e Peggy!

Ufa! Consegui! Algo enfim surgiu em meio à névoa densa que nublou minha mente! Não estou tão abobalhado, afinal!

Maria se vira para me encarar. As mãos na cintura. Sem dúvida, consegui atrair sua atenção.

— O que tem nós duas?

Sentindo-me mais seguro e um pouco como eu mesmo de novo, cruzo os braços e ergo as sobrancelhas.

— Viraram amigas? Ontem você não estava morrendo de ciúme dela comigo?

Há um momento de silêncio. Até que a voz gélida de Maria pontua:

— Você disse muito bem, ontem. Hoje é um novo dia, Sr. Stark, não se dê tanta importância.

Dito isso, ela endireita a postura e vejo algo em seus olhos que me perturba até os ossos. Um sofrimento mascarado pelo orgulho claramente ferido.

Ela repetiu as palavras que eu lhe disse mais cedo, de modo frio como eu disse também, e eu entendo perfeitamente que o sofrimento veio dessa lembrança e da dor que causei ao dizer tal coisa.

— Touchè... — murmuro baixinho, reconhecendo que mereço ouvir o troco agora.

Sendo bem sincero, admito que foi uma das piores canalhices que saiu da minha boca até hoje.

E o pior é que uma parte egoísta de mim sabia que dizer aquilo iria ferir Maria. Só que eu estava com tanta raiva e tão cego na hora que, quando ela insinuou que esperava me encontrar de bom humor hoje, simplesmente cuspi as palavras sem pensar duas vezes.

Só por que eu dormi com você ontem? Hoje é um novo dia, Carbonell, não se dê tanta importância.

As palavras cruéis ecoam na minha mente como se eu tivesse acabado de dizê-las a Maria. Sinto-me o pior dos homens por ter sido tão baixo.

Abro a boca, disposto a me desculpar do jeito que for, porém a dama mordaz fala por cima de mim:

— Além disso, seguindo a sua teoria paranoica de que eu fingi interesse por você o tempo todo, meu ciúme ontem não seria parte da farsa também?

Tal pergunta me deixa meio zonzo, mas admito que há certa lógica nela. Se mais cedo eu acusei Maria de ter me enganado, não faz sentido lembrá-la do ciúme em relação à Peggy agora.

Pigarreio para limpar a garganta. Ou apenas para ganhar tempo enquanto busco desanuviar a mente e coragem para admitir que...

— Talvez eu tenha exagerado nas palavras.

Sua voz soa fria e cortante quando retruca:

— Talvez?

Desconfortável, evito o contato visual direto nesse momento.

— Eu te julguei mal. Não queria ter dito aquelas coisas.

— Mas disse — ela dispara no mesmo segundo. — E me magoou muito ouvir cada uma delas.

Torno a olhar para ela.

— Eu sei.

Há tanto dessa mágoa nítida em seus olhos agora que preciso fazer um esforço para continuar sustentando o meu olhar neles.

— Foi doloroso ouvir tanto veneno saindo da sua boca, Howard. E foi injusto.

— Eu sei — repito. — Agora eu sei. E lamento. De verdade, por tudo.

Maria nem precisa me explicar mais nada sobre a carta, está claro para mim que eu interpretei tudo errado mesmo. O pior é que parece ter sido quase de propósito. Como se, inconscientemente, eu buscasse um pretexto para me desentender com ela.

Por que me sabotei dessa forma ainda é um mistério. Afinal, eu subi pelas paredes, literalmente, para passar a noite com Maria. Não faz sentido ter feito de tudo para azedar nossa relação pela manhã.

Procuro retomar o foco no agora e recomeço:

— Você tem que acreditar...

— Que você está arrependido? — ela dispara, acertando em cheio o que eu pretendia dizer. — Que mudou de ideia ao meu respeito de novo? Por que eu acreditaria? Você não confiou em mim quando eu dizia nada mais do que a verdade. O que te faz pensar que tem o direito de me pedir qualquer coisa agora? Você não tem.

Isso, meus amigos, é o que eu chamo de um soco no estômago bem dado.

— Muito bem. — Pigarreio, sem jeito. — Vamos conversar e esclarecer tudo, Maria. Eu tenho certeza que...

— Não — ela me interrompe de modo muito seco. — Eu não quero conversar com você ou olhar para você. Acabou, Howard.

Embora afiada feito uma navalha, percebo que a última coisa que disse causou certa comoção em sua postura firme até aqui. Seus olhos vacilaram e sua voz soou meio embargada.

Por um longo momento, não consigo dizer nada.

— Eu não entendi...

Maria ri sem humor. Olha para cima por alguns instantes e pisca rápido. Está tentando não chorar.

— Você não é um gênio, como faz tanta questão de se gabar? Pense um pouco e junte as peças. “Acabou, Howard” não é uma sentença tão difícil assim de compreender.

Ela me dá as costas. Caminha decidida rumo à saída. É como o segundo soco no estômago. Tão doloroso quanto o primeiro.

— Espere! Maria! — Alcanço-a no limite da porta. — A fórmula!

Seguro-a pelos ombros, fazendo com que se volte na minha direção. Odeio admitir, é vergonhoso, mas me vejo desesperado. Não só para que ela fique e me ouça, mas principalmente porque não quero perdê-la. Não posso ter estragado tudo até um ponto sem retorno. Não posso.

— A fórmula que você viu no laboratório e questionou o que era...

— Oh! Aquela que deu errado e virou algo corrosivo? Sua explicação foi bem clara e conclusiva, dispenso qualquer detalhe adicional.

Maria se desvencilha de mim com um movimento brusco. Não desisto. Levo as mãos ao seu rosto e reduzo mais a distância entre nós para que olhe bem nos meus olhos quando revelo:

— Eu cheguei a ela por causa de você!

A dama mordaz titubeia. Parece surpresa. Não faz menção de me afastar mais uma vez nem de sair porta afora. Apenas para de lutar e me encara meio desnorteada, assimilando o que ouviu.

Nesse momento, tenho um vislumbre da Maria doce e apaixonada. Minha Maria está bem aqui, no fundo dos olhos que me encaram de volta. Tão vulnerável e encantadora que sou acometido por uma súbita e forte vontade de beijá-la. Engulo em seco.

— Ela deu errado sim e virou algo corrosivo sim, mas só porque eu estava pensando em você. — Apoio a testa na sua e fecho os olhos. — Loucamente.

A respiração entrecortada e o hálito fresco em meu rosto atiçam ainda mais o desejo por seu beijo. A necessidade de me unir a ela de qualquer forma, de todas as formas, chega a doer.

— Eu errei a fórmula e dei a ela o nome raio de sol em sua homenagem porque não conseguia te tirar da minha cabeça, Maria. Ainda não consigo. Mas tudo bem porque, honestamente, quem disse que eu quero tirar?

Sinto Maria estremecer junto a mim e, por instinto, aproximo-me até o limite possível, o que deixa meu corpo colado ao seu. Embora não possa vê-la, tenho certeza que também está de olhos fechados agora.

— Prefiro me equivocar com mil fórmulas do que aprender a como não pensar tanto em você.

As mãos, que antes me empurraram, repousam imóveis no meu peito com um toque suave, quase uma carícia. Posiciono uma delas bem na altura do meu coração.

— Ou como aprender a controlar esses batimentos desenfreados.

A mão de Maria continua sobre ele quando volto a envolver seu rosto com as minhas. Minha boca chega a resvalar de leve em seus lábios entreabertos. Um calor irresistível emana deles. Ainda assim, encontro forças para resistir.

Por quê? Sinto que não é certo beijar Maria assim. Acho que estaria me aproveitando da situação, valendo-me de um momento de fraqueza. Por mais que eu precise dela, preciso ainda mais que ela me desculpe primeiro. Preciso ter certeza que dei um passo certo agora e que vamos ficar bem.

Faço um novo esforço e me afasto alguns centímetros. Abro os olhos e espero a dama mordaz fazer o mesmo, enquanto acaricio seu rosto com a ponta dos dedos.

E quando ela abre os olhos, e desperta do efêmero e especial momento que compartilhamos a um minuto, eu vejo aquela doçura se esvair dos seus olhos pouco a pouco e dar lugar a algo sombrio. A Maria que eu vislumbrei antes desaparece como se nunca tivesse estado lá.

Antes que ela se esquive de mim, tenho a decência de afastar as mãos do seu rosto por conta própria. Dou um passo para trás. Na sequência, Maria dá outro.

Um silêncio pesado, desconfortável se instala. Até que sua voz preenche o ar de novo:

— Você não pode brigar comigo pela manhã como brigou e querer fazer as pazes antes do meio-dia como se nada tivesse acontecido.

Não quero parecer insensível ou apressado, mas preciso de alguma esperança:

— Quando então?

Maria me encara de um modo desanimado.

— Acho que nunca.

O quê?!

— Você está sendo fatalista — acuso.

— Não, só realista — ela rebate com uma calma que me deixa agoniado. Preferia mil vezes que estivesse soltando fogo pelas ventas. — Se essa confusão serviu para alguma coisa foi para mostrar que nós dois não damos certo juntos. Foi melhor ter descoberto agora, não acha? Do que mais tarde? Quando estivéssemos mais... envolvidos?

Franzo o cenho, duvidando profundamente dessa linha absurda de raciocínio e odiando o rumo que a conversa está tomando.

— O que eu acho é que você está enganada. Terrivelmente.

— Estou?

A maneira desarmada como Maria me olha agora me trazem uma certeza avassaladora. Ela está mesmo falando sério. Não tem volta. E isso me desconcerta, fazendo um lampejo de raiva e um novo desespero me remoerem por dentro.

— Eu tentei fazer isso dar certo, Howard. E acredito que você também tentou de verdade. Ainda assim, na metade do tempo nós continuamos brigando feito cão e gato, nos desentendendo por qualquer mal entendido, tirando conclusões precipitadas e nos magoando pelo caminho. Admita, juntos nós somos um caos.

Expiro com força, tentando não transparecer o quanto fico irritado por ela analisar as coisas por esse ângulo, mas aposto que falho miseravelmente.

— Eu prefiro me apegar a outra metade do tempo — disparo. — Aquela feliz, divertida, que foi extremamente prazerosa, a que valeu a pena!

Então me dou conta de uma coisa e fico mais perturbado ainda...

— Por q-que eu estou falando no passado?

— Talvez porque no fundo você concorde comigo — Maria sugere, a voz estranhamente cansada, beirando à resignação. — Que acabou.

Balanço a cabeça, negando.

— Não...

Resoluta de um jeito irritante, Maria continua argumentando:

— Que é melhor acabar, parar por aqui antes que mais estragos sejam feitos, que...

— Não! — repito mais alto.

Apesar disso, ela não me ouve. Escolhe não ouvir.

— Certas coisas não são para dar certo. Talvez nós, Howard e Maria, sejamos uma delas.

— Não, não... Eu não acredito nisso. — Balanço a cabeça de novo, enquanto recuo alguns passos na esperança de me fazer mais claro se me distanciar um pouco dela. Aponto-lhe um dedo em riste. — E você só fala assim porque está com raiva, talvez queira se vingar, inconscientemente, é claro... O que é compreensível, mas...

— Não se trata de vingança, Howard. Eu não quero te fazer sofrer.

— Então o que...

— Você partiu o meu coração, idiota! E eu não quero mais sofrer! É disso que se trata! — ela explode, calando qualquer coisa que eu pretendia dizer.

Fico completamente mudo, em choque e imóvel. Novamente, me sinto muito mal por Maria se sentir assim, por eu ser o causador dessa dor.

Para piorar, ela resolve colocar o dedo na ferida e acrescenta num tom ainda inflamado:

— Desculpe se eu não consigo relevar o que você fez, a maneira torpe como me humilhou, como estragou algo especial. Lamento se eu não consigo esquecer as coisas horríveis que ouvi de você, se elas me machucaram e ainda vão me machucar por um bom tempo! Desculpe, mas dessa vez... não dá.

Nunca me senti tão derrotado. Demoro a conseguir organizar os pensamentos e aplacar o turbilhão conflituoso dentro de mim. Estou com raiva de mim mesmo por ter sido tão burro e feito o raio de sol sofrer. Ao mesmo tempo, estou com raiva dela por não ser capaz de me perdoar.

Apesar disso, minha voz soa calma, talvez até um pouco fria demais, quando volto a falar:

— Então essa conversa foi inútil? E está terminada? Assim como nós? Howard e Maria, como você disse?

Ela ergue o queixo numa postura defensiva.

— Sim. Para tudo.

Coloco as mãos nos bolsos e assinto com um meneio de cabeça.

— Está bem. Como queira. Eu não vou mais incomodá-la com esse ou qualquer outro assunto. Tem razão, é melhor pararmos por aqui.

Lutando para acreditar nas minhas próprias palavras, desvio o olhar para um ponto qualquer do chão. Seria sufocante olhar para Maria agora.

Porém, como tenho meu orgulho, agarro-me a ele como um arma de defesa e caminho até a mesa, enquanto torno a falar do jeito mais natural que consigo:

— Quer saber? Eu estou me sentindo até mais leve.

Sento-me na cadeira atrás do móvel e ajeito uma pilha de papéis. Adio, o máximo que posso, o momento de voltar a olhar para a dama mordaz. Mas o momento chega e algo encolhe no meu peito ao fazê-lo. Ela parece furiosa e, sob a superfície, desolada.

No entanto, uma parte egoísta de mim se ressente dela. Quero que ela vá embora, que me deixe sozinho com esse incômodo e doloroso sentimento de derrota e impotência. Eu errei, mas foi ela que colocou o ponto final, não foi? Pois então, que assim seja.

— Pode fechar a porta ao sair, Carbonell? — digo, sem me importar que tenha soado frio ou provocador.

Claramente, é exatamente assim que Maria assimila as palavras, uma vez que assume uma postura mais ereta e fecha o semblante numa expressão de desprezo.

— Posso batê-la com bastante força ao sair, senhor.

Ela me dá as costas e deixa o escritório pisando firme.

— Ah, eu não duvido que poderia...

O estrondo violento me faz encolher os ombros e fechar os olhos por um instante. Os tímpanos zunindo.

— Que poderia destruir cada dobradiça da porta com essa delicadeza toda.

Abro os olhos e me vejo completamente sozinho. Algo se encolhe ainda mais dentro de mim. Maldição... Acho que é esse músculo estúpido no peito. Dói.

Furioso com toda essa situação e principalmente com o desfecho desastroso, amasso alguns papéis de uma pilha sem dar a mínima se são documentos ou anotações importantes.

Amasso com bastante força e depois atiro o primeiro deles no lixo embaixo da mesa. Antes de fazer o mesmo com a segunda bolinha de papel, algo atrai meu olhar para o interior do pequeno cesto.

Parece um envelope. Ou o que sobrou de um porque foi rasgado em pedaços.

Estreito o olhar e reconheço a caligrafia numa parte dele. Pior, reconheço o nome escrito com a letra de Maria.

“William Mitchell. “

Demoro alguns segundos para encontrar a possível explicação. E como só tem uma forma de comprová-la, pego o cesto e espalho o conteúdo dele sobre a mesa. Reúno os pedaços do envelope de maneira afoita, ciente de que a carta dentro dele deve ter sido rasgada junto e está no meio desses pedaços. Logo, comprovo a teoria.

É a carta. Aquela que eu li apenas o começo e Maria afirmou ter enviado pelo serviço de correio antes de vir trabalhar hoje.

Ela mentiu. É claro. Era sobre isso que mentia quando eu exigi que me deixasse ler o conteúdo completo. Por algum motivo, provavelmente ressentida com a minha desconfiança, ela preferiu que eu acreditasse que a maldita carta já estava bem longe do meu alcance.

No entanto, ela estava com Maria o tempo todo. Ela não chegou a enviar. Acho que faria isso mais tarde ou amanhã, porém acabou desistindo e a rasgando. Por que, eu não sei. Só posso imaginar que Maria tomou a decisão um pouco antes de eu vir atrás dela, enquanto começava a arrumar o escritório. De certo, ia esvaziar o cesto depois. Saiu tão desnorteada agora, que não lembrou do que deixou para trás.

A carta está bem aqui. Aos pedaços, porém sem dúvida legível. Bem ao alcance dos meus dedos, dos meus olhos, disponível para ser lida sem chance de má interpretação.

Talvez não seja ético ler. Maria, claramente, não queria que eu lesse. Queria ser nobre o bastante para resistir. Não sou nobre.

Além disso, ela me dispensou, colocou um ponto final em tudo. Eu não lhe devo qualquer satisfação agora. Devo?

Decido não pensar demais nesse ponto e me apego ao fato de que é o meu lixo e que achado não é roubado. Apenas ajo movido pela necessidade de saciar a curiosidade urgente.

Tenho certeza que não é uma carta de amor ao ex-noivo, disso eu já estou mais do que convencido. Ainda assim, a carta deve tratar de algum tema sensível, um assunto muito particular, que Maria não queria que eu soubesse.

E aqui estou eu, prestes a descobrir toda a verdade por detrás dessas linhas.

De maneira apressada, separo os pedaços do envelope dos pedaços da carta. Junto os últimos como um quebra-cabeça, satisfeito por não possuir muitas peças. Logo, tudo se encaixa perfeitamente.

E então, eu respiro fundo e simplesmente leio em pensamento.

“ William

Aposto como você não esperava ter notícias minhas assim, mas há duas coisas que eu preciso lhe dizer diretamente.

Primeiro, meu irmão já conversou com você sobre o nosso casamento?

Está tudo resolvido quanto a isso? Espero imensamente que sim.

Em segundo lugar, quero que você saiba que eu não te desejo nenhum mal pelo o que fez comigo. Ao contrário, eu te desejo boa sorte na sua vida.

Sei que eu devo soar hipócrita e talvez irônica falando desse jeito, mas asseguro que não é o caso. Eu apenas percebi que superei o que tivemos e que não estou mais com raiva por você ter me traído.

Você nunca me pediu perdão, mas saiba que eu te perdoo mesmo assim. Porque não há mais espaço para mágoa no meu coração agora.

Além do mais, eu e você... Vamos admitir, não era para ser, não daria certo. Você nunca quis se casar comigo, nunca me amou. E eu, agora percebo também, que nunca te amei de verdade.

O que senti foi um encantamento infantil e raso, um tipo de paixonite ilusória, algo que já passou. Eu amava a ideia do romantismo, a ideia de me casar e ser feliz para sempre. Você era apenas o meio para isso se realizar, mas eu estava totalmente enganada, não poderia ser assim.

O que irei confidenciar agora não é com a intenção de provocá-lo. Espero apenas abrir seus olhos para o que a vida pode te proporcionar se você parar de ser tão burro e inconsequente.

Eu conheci alguém. Um homem muito especial que me faz sentir a mulher mais especial do mundo. Então eu percebi que isso sim é amor.

Eu o amo.

Como nunca poderia te amar, mesmo se tivéssemos casado lá atrás.

Você nunca me faria feliz, William, porque é apenas Howard quem me completa de verdade.

E eu também não te faria feliz, convenhamos. No máximo, você ficaria distraído comigo, preso num contentamento superficial por um tempo.

A mulher que pode te fazer feliz de verdade ainda está por aí, em algum lugar do seu futuro. E eu espero, muito, que você a encontre um dia e seja capaz de mudar como homem para merecê-la. E que a respeite acima de tudo e a faça se sentir tão especial como eu me sinto hoje.

Siga o seu caminho, William, e procure sua felicidade.

Eu estou trilhando o meu e já encontrei a minha.

Cordialmente,

Maria.”

Sinto meu corpo se mover para trás até encontrar o encosto da cadeira de couro. Sinto isso como se eu estivesse fora dele, transportado para algum tipo de universo paralelo, assistindo o movimento do meu corpo como um expectador à distância.

E sinto outras coisas também. Coisas conflituosas e intensas que me anestesiam de alguma maneira e me deixam completamente sem reação.

Culpa, com certeza. Uma tonelada dela. Agora eu entendo a dimensão do quanto parti o coração de Maria e me sinto o homem mais odioso do mundo por ter sido tão injusto com ela.

Raiva. Outra tonelada também. Raiva de mim, acima de tudo. Afinal, como eu pude ser tão burro? Tão leviano? Como eu peguei uma carta incompleta e transformei num problema gigantesco que nos engoliu sem dó ou piedade?

Revelação. Ah, sim, cada circuito nervoso do meu cérebro está vibrando com ondas de revelação trazidas pela carta lida na íntegra. Finalmente fica claro o que Maria pretendia ao escrevê-la e como virou a página do passado com William de um jeito superior e digno.

Paixão. Sim, vejo-me ainda mais apaixonado pela mulher fabulosa que escreveu essas linhas.

Tristeza. Porque eu sei que a perdi e sou o único responsável.

No meio de tudo isso, um sentimento surpreendente que só posso classificar como felicidade genuína. É o que sinto ao pensar nas três palavras que Maria usou na carta.

“Eu o amo.”

Ela... me ama.

Maria Carbonell não está apenas apaixonada por mim, não apenas gosta de mim, não só me deseja ou tem estima por mim, ela me ama. Isso é outro patamar de envolvimento, não?

E ainda há outra coisa que sinto por causa da carta. Reflexão. Uma profunda reflexão ao lembrar de outra frase que Maria escreveu no meio dela.

“Então eu percebi que isso sim é amor.”

Essa frase me traz de volta ao meu corpo. Ela me faz olhar para algo além dos pedaços de papel diante dos meus olhos. Ela me faz enxergar algo essencial dentro de mim. Algo que me assustou essa manhã, quando eu acordei ao lado do raio do sol no seu quarto no Griffith e imaginei... Não, desejei, com todas as minhas forças, acordar com ela todos os dias da minha vida e não entendi por quê. Algo que já estava aqui há algum tempo e eu não percebi o que era antes.

Ah, mas agora eu percebo. Está tudo mais claro do que água e todas as peças se encaixam no quebra-cabeças final.

Engulo em seco. O coração estúpido mais acelerado do que nunca.

— Eu também te amo...