Gênese: A Saga da Rosa - Temporada I
31 O Unicórnio Alado
“E o que não posso e não quero exprimir fica sendo o mais secreto dos meus segredos.”
— Clarice Lispector
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SCORPIUS
Quase cinco meses se passaram desde o incidente na Casa de Veraneio Heaven.
Fosse por ainda estar se recuperando do susto, ou por ainda remoer silenciosamente o que havia descoberto, o fato era que Rose não havia voltado a nos chamar para regressarmos à mansão.
Estava ficando preocupado. Ela já não se abria tão frequentemente quanto antes, quase sempre ficando desligada do que acontecia ao redor, perdida em seu próprio mundo reflexivo.
Queria muito poder ajudá-la, mas não fazia ideia por onde começar.
E não queria pressionar Rose – ela já tinha coisas demais na cabeça.
No entanto, logo após as férias de Páscoa, algo finalmente conseguiu tirar minha amiga de seu casulo isolado.
Estávamos no pátio, tentando reorganizar os pergaminhos que usaríamos nas nossas próximas aulas de Poções, que recomeçariam na semana seguinte.
Foi quando Alvo se aproximou, ofegante, sacudindo a manchete de um jornal na minha frente.
— leiam isso – arquejou – a matéria de rodapé…
Rose franziu o cenho, inclinando-se para ler a passagem que Alvo havia indicado. Imitei-a, começando a analisar o texto, cuja matéria era encabeçada pela imagem da mãe de Rose.
RUMORES SOBRE REUNIÕES DE BRUXOS DAS TREVAS PREOCUPAM O MINISTÉRIO DA MAGIA
Há algumas semanas, ergueram-se boatos sobre aparições de ex-Comensais da Morte – inocentados nos últimos onze anos em julgamentos oficiais — ao longo de todo o condado de East Sussex. Surgiram relatos – atualmente duvidosos – de testemunhas bruxas e trouxas, que afirmam ter visto eventos estranhos acontecendo no interior dos bosques fechados do interior da Inglaterra.
A vice-ministra e Chefe do Departamento de Cooperação Internacional em Magia, Hermione Weasley, falou sobre esta pauta para nossa equipe de redação.
“Estamos averiguando a veracidade de todos os relatos apresentados ao Ministério”, afirmou, em comitiva feita pelos redatores. “por hora, confirmamos que os rumores surgiram de áreas isoladas. Contudo, não há nenhuma evidencia de que estejam realmente ocorrendo reuniões mal-intencionadas de bruxos que tiveram qualquer convivência com Lord Voldemort.”
O Ministro da Magia, Kingsley Shackebolt, ainda não pronunciou-se sobre o caso.
— Por Darel Williams – suspirou Rose, passando o dedo no nome do repórter, no rodapé da página – se passou por ele, é por que é verdade.
— Reunião de Comensais? — disse, rindo de incredulidade – é impossível. Os aurores se certificaram de botar todos eles em Azkaban!
— Não necessariamente, não é? Vários foram inocentados – Alvo disse, sem graça – incluindo… seus pais…
Não era algo do qual eu gostava de me lembrar. O passado de papai como Comensal da Morte era tratada como uma mancha incômoda e pútrida na história de nossa família. Ninguém ousava tocar no assunto.
— Eu sei – disse, fechando a cara – mas mamãe deixou essa vida para trás, e faz de tudo para que meu pai também esqueça. Não há a menor possibilidade deles sequer saberem desses boatos.
Rose cobriu o rosto com as mãos, soltando outro suspiro exasperado.
— Mais essa agora… — guinchou, desolada.
Vinquei a testa, revirando o olhar.
— Ah… dane-se – desci do banco, puxando Rose e Alvo para fora dele.
— Scorpius! O que tá fazendo?
— Salvando suas vidas – ri – vamos… nós três precisamos de uma folga. Andem logo!
Alvo deu uma risada confusa, enquanto Rose, ainda atordoada, deixava-se ser arrastada por mim pátio afora.
Alvo mal ficava de joelhos para atirar as pedras. Acomodado nas raízes de uma árvore, atirava alguns pedregulhos, que quicavam no lago, causando uma longa sequência de marolas na superfície da água.
— Essa é sua definição de diversão, Scorpius?
— Ah, dá um tempo, Rosie – sorri, animado – ele deve estar chegando a qualquer momento.
Havia me adiantado naquela manhã, indo conversar com o professor Hagrid, na intenção de preparar uma surpresa para aqueles dois.
— Para de segredo – ralhou Rose – o que é, Scorpius?
Por fim, vi a silhueta gigantesca de Hagrid se aproximar, trazendo, em suas mãos, uma corrente semierguida.
— Bom dia, meninos! — cumprimentou-nos, sorridente – adivinham só o que eu trouxe para vocês...
Havia apenas pedido que Hagrid nos trouxesse algo que surpreendesse Rose. Então, estava igualmente curioso para descobrir o que havia do outro lado da corrente.
— O que é isso, Hagrid? — indagou Alvo, interessado.
Ele apenas riu, avançando alguns passos e puxando a corrente atrás de si.
— Venha, garota… venha conhecer os meninos!
Quando a criatura surgiu detrás das árvores do bosque, senti meu queixo despencar em direção ao pescoço.
— Ai… meu… Deus.
Atrás de mim, ouvi Rose resfolegar, colocando a mão sobre a boca, sem conseguir acreditar no que estava vendo.
Era um unicórnio alado.
— Não acredito! — algaraviou, dando um saltinho de animação.
Achando graça, dei uma risadinha, vendo-a se aproximar, eufórica, da belíssima égua branca,
O animal não aprecia menos maravilhado com a presença de Rose, não demorando-se em aninhar a cabeça entre seus braços, resfolegando docilmente nos braços dela.
— Sua mãe me disse que você é fascinada por cavalos – Hagrid comentou.
— Sim… — Rose estava praticamente emocionada, os olhos brilhando de empolgação, afagando gentilmente a pelagem sedosa da unicórnio fêmea – você é tão linda! — soltou um risinho maravilhado – qual o nome dela?
— Pois bem… — vi o professor coçar a nuca – ela acabou de chegar no haras da escola… então ainda não tem um nome definido – abriu um largo sorriso – pensei que vocês pudessem me ajudar… a escolher.
Vi Rose nos encarar, mordendo o lábio.
— Eu… nem faço ideia do que sugerir, professor – ergui as mãos, lançando um olhar significativo para Alvo.
— Ah… — ele finalmente entendeu minha expressão – é… nem eu.
Rose ficou nos encarando de um jeito engraçado, como se estivesse indecisa entre rir e tacar sua mochila na cara do primeiro azarado que ainda estivesse sentado nas raízes da árvore.
— Bem… acho que vou ter que escolher, então…- satisfeito, a vi deitar a cabeça no focinho da égua – que tal… Rubi? — a vi fitar Hagrid, eufórica – era o nome de uma das potrancas que viviam na fazenda do meu bisavô. Foi nela que mamãe aprendeu a cavalgar…
Eu ficava encantado com aquilo. Rose não falava muito sobre o passado de sua família, e era sempre interessante saber mais sobre a vida anterior dos seus pais.
— Excelente, Rosie! — divertido, assisti Hagrid lhe bagunçar os cabelos – o que achou, garota?
Rubi, agora recém-nomeada, relinchou em concordância, movimentando as belas asas plumadas no ar.
— Boa menina – arrulhou Rose, ainda afagando o pescoço luzidio do animal.
Também chegamos perto de Rubi, tocando a pelagem macia de seu dorso.
— Ei, professor – falei – você viu aquela matéria do Profeta Diário hoje de manhã?
Percebi, preocupado, a expressão do professor Hagrid se vincar de tensão.
— Vi sim, Scorpius… vi sim – balançou a cabeça – Eu não esperava que Williams concordasse em redigir aquilo… as pessoas não precisam ficar incomodadas com simples rumores. Nossas vidas já tem estado bem agitadas desde aquele infeliz acidente com… o Dino.
Ele se interrompeu, parecendo sufocar com um nó na garganta.
— Ah, Hagrid.. -lamentou-se Alvo – não quisemos lembrar…
— Tudo bem – ele pigarreou, com a voz embargada – é que eu praticamente… vi seus pais crescerem. Thomas podia não ser meu aluno mais achegado… mas era um bom rapaz. Um garoto realmente muito bom.
— Yoko também continua muito triste – contou Rose, abraçando o pescoço de Rubi – eu queria tanto… saber o que aconteceu com ele…
Interrompendo nossos pensamentos martirizados, Rubi começou a patear nervosamente o chão, afastando-se de Rose.
— Ei! — Rose pareceu perplexa – o que houve, menina?
Rubi continuava relinchando, balançando a cabeça de um lado para o outro. Resfolegando alto, como se não conseguisse respirar, a égua baixou a cabeça, recuando vários passos.
— O que está acontecendo com ela? — Alvo estava chocado.
Confuso, vi as mãos de Rose baixarem levemente. Sua expressão desnorteada estava lívida de espanto e terror.
— Rubi!
Tão rápido quando havia se descontrolado, o unicórnio atendeu prontamente o chamado de Rose, ficando completamente imóvel.
— O que… foi isso?
Intrigado, Hagrid achegou-se cautelosamente, colocando a enorme mão sobre o queixo da égua, apalpando seu flanco.
— O que…
Fui até onde eles estavam, estranhando a reação anormalmente séria do professor. Rose estava igualmente estarrecida, contraindo as mãos em punho sobre o peito, demonstrando uma assustadora vontade de chorar.
Horrorizado, percebi duas pequenas manchas em carne viva na pele do pescoço de Rub.
Aquilo trouxe a tona uma terrível memória.
— Suas mãos, Rose!
Fui até ela, segurando-lhe as mãos trêmulas.
— Como havia suspeitado, suas palmas estavam ardentes como uma chama.
— Não, não… de novo não… — soluçou – eu sinto muito, Rubi!
— O que … — Hagrid estava absolutamente incrédulo – Rosie…?
— É uma longa história – puxei Rose para perto de mim, afastando a garota desolada do unicórnio ferido – tudo bem, Rosie?
— Estou bem – disse, embora tremesse – foi um… acidente… achei que isso tinha parado…
Eu também não entendia.
Perder o controle sobre um tipo específico de magia era uma característica de crianças bruxas, que não sabiam controlar seus poderes. E Rose com certeza tinha um domínio excepcional e consciente de sua magia.
Então, por que aqueles incidentes com magia de fogo inda estavam acontecendo?
Por alguma razão, estava começando a ligar aquilo às crises de instabilidade emocional de minha amiga.
Era impossível não ver um padrão.
Sempre durante momentos críticos.
— Fique calma… — afaguei suas costas.
Rose choramingou, enfiando a cabeça em meu peito, apertando-me num abraço.
Pego de surpresa, só pude acariciar seus cabelos, enquanto Hagrid tentava tirar Rubi de seu transe equino perturbado. Alvo no fitou, sem compreender nada.
— Desculpa – fungou, erguendo a cabeça, enquanto secava algumas lágrimas que teimavam em cair.
— Não precisa se desculpar – estava me doendo ver Rose naquela situação, tão vulnerável e desolada – foi um acidente… não foi culpa sua.
— Eu não quero machucar ninguém – abraçou o próprio corpo, se afastando de mim.
Parecendo sem graça, Hagrid tratou de novamente segurar a corrente que prendia Rubi, nos encarando com nítida preocupação.
— Melhor… levarem Rose para a ala hospitalar. Madame Pomfrey irá ajudá-la – sussurrou – cuidarei da Rubi por hora.
Antes de se afastar com o unicórnio alado, ele afagou o ombro de Rose.
— Hagrid… eu…
— Está tudo bem, Rosie… — seu sorriso parecia oscilar mais do que uma onda no mar – não fique se sentindo culpada. Rubi ainda gosta de você.
Como que para confirmar o que Hagrid dissera, Rubi focinhou o braço de Rose, que soltou uma risadinha chorosa, acarinhando mais uma vez a cabeça da égua.
Tentando ao máximo tirar Rose de seu torpor aflito, eu e Alvo nos apressamos, acompanhando-a colina acima, de volta aos terrenos do castelo.
Madame Pomfrey não aparentava nenhuma tranquilidade, ao nos receber do lado de fora da enfermaria.
— Ela está realmente muito abalada – comentou, torcendo as mãos uma na outra – paranoica… até me arrisco a dizer. O que aconteceu?
Balancei a cabeça em negativa. Mesmo que soubesse, não contaria nada sobre o que devia estar se passando dentro da mente de Rose.
— Não sabemos, Madame Pomfrey – lamentou-se Alvo.
A idosa curandeira suspirou.
— Dei uma Poção do Sono para ela. Acho melhor que a Srta. Weasley repouse aqui na enfermaria esta noite. Ela ficará bem… foi só uma crise nervosa.
Assentimos, aliviados.
Dando uma última olhada para trás, acompanhei Alvo para fora do corredor da enfermaria, em direção ao Salão Comunal da Sonserina.
— Ela vai mesmo ficar bem… não vai? — Alvo me perguntou, inseguro.
— Claro que vai – respondi de imediato, mais para me convencer do que qualquer outra coisa – você conhece a Rosie… ela é durona. Vai sair dessa.
Eu era tão ingênuo… tão… esperançoso. Assim como uma doença temporária, achava que o que Rose estava passando era algo passageiro. Que, muito em breve, teríamos a garota mais alegre e inteligente de Hogwarts de volta em nossas vidas, do jeito que sempre havia sido.
Mas isso nunca aconteceu.
A partir daquele dia, Rose Weasley nunca mais seria a mesa.
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